A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel
11 O Ouro do Poente e o Vinho da Memória
Notas iniciais
As planícies de Rohan não conheciam a delicadeza de Ithilien. Ali, o vento não sussurrava entre folhas de prata; ele uivava, cortante e incessante, varrendo o mar de grama alta que se estendia até onde a vista alcançava. Era uma terra de cavalos, de madeira rústica e de céus imensos, onde o sol batia sem piedade e a chuva vinha em tempestades horizontais.
Dois anos haviam se passado desde que Himmel deixara o palácio de cristal.
Ele estava sentado na varanda de sua mansão fortificada, localizada nas fronteiras orientais, uma propriedade vasta dada como dote pelo Lorde de Rohan. O sol estava se pondo, transformando as estepes em um oceano de fogo líquido, mas os olhos de Himmel não estavam na beleza da terra que agora possuía.
Seus olhos estavam fixos no leste. Nas montanhas distantes, cujos picos denteados mal podiam ser vistos através da névoa púrpura do crepúsculo. Lá, atrás daquelas muralhas de pedra, ficava Ithilien. Ficava ela.
Sobre a mesa de carvalho maciço, repousava uma garrafa de cristal fino, um objeto que parecia deslocado naquele ambiente de pedra e pele de urso. O vinho dentro dela brilhava com uma luz própria, pálida e dourada. Era Dorwinion, a safra mais rara das adegas de Legolas.
Todos os meses, na lua nova, um mensageiro élfico cruzava a fronteira. Ele não dizia nada. Apenas entregava uma caixa de madeira de mallorn contendo três garrafas daquele vinho e um saco de veludo pesado com moedas de ouro cunhadas com a efígie da Árvore Branca.
Era o "agradecimento" real. O pagamento pelos serviços prestados. Ou, como Himmel preferia pensar, o aluguel de sua alma e a pensão alimentícia de um exílio forçado.
Himmel encheu a taça. Suas mãos, agora um pouco mais grossas pelo trabalho na terra e pelo manejo de cavalos, ainda tremiam levemente quando ele sentia aquele aroma. Ele levou o vinho aos lábios e bebeu. O sabor explodiu em sua língua — notas de flores noturnas, mel silvestre e algo etéreo que lembrava a pele dela. Era um veneno delicioso. Cada gole o transportava de volta para aquela noite de tempestade, para o toque de Frieren, para a promessa quebrada de amor eterno.
Ele estava se embriagando com fantasias quando a porta da varanda se abriu. O rangido das dobradiças de ferro foi pesado, real, humano.
— As meninas já dormiram — disse uma voz suave, mas firme. — A pequena Elanor teve febre de novo, mas o cataplasma de salgueiro ajudou.
Himmel não se virou imediatamente. Ele engoliu o vinho, sentindo-o descer quente e culpado pela garganta.
— Obrigado, Eowyn — respondeu ele, a voz rouca. — Você é uma mãe excelente. Melhor do que eu mereço.
Eowyn entrou no campo de visão dele. Ela caminhava com a dificuldade graciosa de quem carrega uma vida avançada no ventre. Estava grávida de oito meses do terceiro filho. As duas primeiras, gêmeas de cabelos cor de linho e olhos curiosos, já corriam pela casa, a prova viva de que a Bênção de Yavanna fluía forte no sangue de Himmel.
Ela parou ao lado dele, apoiando a mão nas costas da cadeira. O vento agitou seus cabelos dourados, que brilhavam mesmo na penumbra. Eowyn era linda. Tinha a beleza do sol do meio-dia, da terra fértil, do pão quente saindo do forno. Era uma beleza sólida, confiável, quente.
Himmel olhou para ela e sentiu uma pontada aguda no peito. Ele a admirava. Respeitava sua força, sua inteligência, a maneira como ela administrava as terras e os servos com uma justiça inabalável. Mas quando ele olhava para ela, não sentia o mundo parar. Não sentia o ar faltar. Ele sentia apenas... conforto. E uma culpa avassaladora.
— Você está bebendo aquilo de novo — observou Eowyn. Não era uma pergunta. Seus olhos cinzentos pousaram na garrafa élfica com uma mistura de resignação e tristeza contida.
— Ajuda a dormir — mentiu Himmel, girando a taça.
— Não, não ajuda — rebateu ela, puxando uma cadeira e sentando-se com um suspiro pesado, acomodando o ventre. — Faz você ficar acordado. Faz você olhar para as montanhas como se esperasse que elas criassem pernas e viessem até aqui.
Himmel baixou a taça. O silêncio entre eles foi preenchido apenas pelo uivo do vento nas planícies. Eles viviam assim há dois anos: numa parceria eficiente, educada, funcional, mas assombrada por um espectro que vivia a léguas de distância.
— Desculpe — murmurou ele, genuinamente envergonhado. — Eu não queria desrespeitar você.
Eowyn riu, um som curto e sem alegria. Ela estendeu a mão e tocou o braço dele. A pele dela era quente, áspera pelo sol, viva.
— Himmel, olhe para mim.
Ele obedeceu, virando-se para encarar a esposa. Viu o cansaço nos olhos dela, mas também uma sabedoria pragmática que muitas vezes o surpreendia.
— Você acha que eu não sabia? — perguntou ela, suavemente. — Quando meu pai me disse que o "Parteiro Real" dos Elfos precisava de uma esposa nobre, eu sabia que era política. Ninguém sai de Ithilien, carregado de ouro e honrarias, a menos que esteja sendo pago para ficar longe ou para esconder algo.
Himmel desviou o olhar, incapaz de sustentar a honestidade brutal dela.
— Eu nunca menti para você sobre isso ser um arranjo — defendeu-se ele, fraco.
— Não, você nunca mentiu com palavras — concordou Eowyn. — Mas há mentiras no silêncio, meu marido. Você é um bom homem. Você cuida das terras, protege nossa casa, brinca com nossas filhas como se elas fossem o tesouro mais precioso do mundo. Mas você não está aqui. Não inteiramente.
Ela se inclinou para frente, segurando o rosto dele, forçando-o a olhar para ela novamente.
— Metade de você vive naquela varanda, olhando para o leste. Metade de você vive esperando o mensageiro da lua nova. E eu... eu tenho que me contentar com o que sobra. Com o homem que vai para a minha cama cumprir um dever, que me toca com carinho, mas nunca com fome.
As palavras dela eram facas, e Himmel sabia que merecia cada corte.
— Eowyn, eu... — ele tentou falar, mas a voz falhou. O que ele poderia dizer? Que sentia muito? Que tentava esquecer?
— Ela é linda, não é? — perguntou Eowyn, a voz embargada, mas sem raiva. — A Rainha Élfica. Falam dela nas canções. Dizem que sua pele é feita de luz estelar e que seus olhos viram o nascimento do mundo.
— Ela é fria — disse Himmel, fechando os olhos, tentando evocar a imagem de Frieren para compará-la com a mulher quente à sua frente. — Ela é distante. Ela é... complicada.
— Mas você a ama — concluiu Eowyn. Foi uma afirmação simples, devastadora.
Himmel abriu a boca para negar, para proteger a dignidade de seu casamento, mas a exaustão de dois anos de fingimento pesou sobre ele. Ele soltou o ar, os ombros caindo.
— Eu sou um tolo, Eowyn. Sim. Uma parte de mim, uma parte estúpida e quebrada, a ama. Ou ama a ideia dela.
Eowyn assentiu, soltando o rosto dele e recostando-se na cadeira. Ela olhou para o horizonte escuro, acariciando o ventre distraidamente.
— Eu entendo — disse ela, e a grandeza de seu espírito fez Himmel sentir-se minúsculo. — Casamentos na Terra Média são feitos de alianças, de terras, de sangue. O amor é um luxo que poucos podem pagar. Nós temos uma parceria, Himmel. Temos filhas. Temos um legado.
Ela virou-se para ele, e seus olhos brilharam com uma intensidade feroz.
— Mas eu preciso que você seja racional. Preciso que você acorde desse sonho febril. Ela é uma elfa, Himmel. Ela vive há milênios e viverá por outros mil.
Eowyn apontou para as têmporas dele, onde os primeiros fios grisalhos começavam a aparecer, prematuros, fruto do estresse e da melancolia.
— Olhe para você. O tempo humano corre rápido. Você envelheceu desde que chegou aqui. Suas mãos têm calos. Sua pele tem marcas do sol. Daqui a vinte anos, você será um velho. E ela? Ela continuará exatamente igual. Imutável. Perfeita.
Himmel sentiu o golpe. Era a verdade que ele tentava ignorar com cada gole de vinho.
— Você é uma estação para ela, Himmel — continuou Eowyn, implacável, mas necessária. — Um verão breve e quente. Mas para mim... para suas filhas... você é o mundo inteiro. Você é a nossa vida. Nós envelheceremos juntos. Nós compartilharemos a dor dos ossos e a alegria dos netos. Ela nunca poderá lhe dar isso. Ela só pode lhe dar memória e vinho.
Himmel olhou para a garrafa de cristal. O líquido dourado parecia, de repente, menos mágico e mais estagnado. Eowyn estava certa. Ele estava se agarrando a uma miragem, enquanto a realidade — uma realidade quente, fértil e amorosa — estava sentada ao seu lado, carregando seu filho.
Ele nunca amaria Eowyn com a paixão desesperada e destrutiva que sentira por Frieren. Aquele tipo de fogo só queima uma vez e deixa apenas cinzas. Mas o que ele tinha com Eowyn... era madeira sólida. Era algo que podia construir uma casa, um lar, uma vida.
— Eu não vou abandoná-las — jurou Himmel, a voz firme pela primeira vez na noite. Ele pegou a mão de Eowyn e a beijou, sentindo a aliança de ouro roçar em seus lábios. — Eu sei qual é o meu lugar. Eu sei quem são meus filhos.
— Eu sei que não vai — disse Eowyn, apertando a mão dele. — Você é honrado demais para isso. Mas eu não quero apenas a sua honra, Himmel. Eu quero a sua presença. Eu quero que, quando nosso filho nascer, você olhe para ele e veja o futuro dele, e não o passado que você deixou em Ithilien.
Himmel levantou-se. Ele pegou a garrafa de vinho élfico. Por um momento, hesitou. O cheiro ainda era inebriante. Mas ele olhou para Eowyn, iluminada pela última luz do dia, cansada, grávida e incrivelmente digna.
Ele rolhou a garrafa com força.
— Guarde isso — disse ele, entregando a garrafa para ela, mas sem soltá-la imediatamente, como se passasse um fardo. — No fundo do armário. Para ocasiões especiais. Não para as terças-feiras solitárias.
Eowyn sorriu, e dessa vez o sorriso alcançou seus olhos. Ela pegou a garrafa.
— É um começo — disse ela.
Ela se levantou com dificuldade e Himmel correu para ampará-la, passando o braço pela cintura dela. O corpo dela era pesado, real. Ele sentiu o chute do bebê contra sua costela. Vida. Vida humana, rápida, urgente e bela.
— Vamos entrar — disse ele, guiando-a para longe do vento frio e da vista das montanhas. — Está esfriando.
Antes de fechar a porta da varanda, Himmel olhou uma última vez para o leste. As montanhas eram apenas sombras agora, dentes negros contra um céu estrelado.
— Boa noite, minha Rainha — sussurrou ele para o vento, uma despedida que ele sabia que teria que repetir mil vezes até que fosse verdade.
Então, ele fechou a porta, trancando o frio lá fora, e voltou-se para o calor da lareira, onde sua esposa e suas filhas o esperavam. Ele não estava apaixonado, talvez nunca estivesse. Mas naquela noite, nas planícies varridas pelo vento de Rohan, Himmel escolheu ser um homem, e não um fantasma.
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