A Última Chance - J e of
16 Capítulo 16 - Planos dando errado
Notas iniciais
POV Julie
Há pouco tínhamos saído da casa daquela senhora. Estávamos procurando um outro lugar. Daniel estava comigo desta vez. Ele disse que não vai cometer o mesmo erro outra vez e me deixar ir sem fazer nada. Queria acompanhar cada passo meu. Ele me disse que não conseguia mais ficar longe de mim. Eu até prefiro. Acho que não agüentaria mais sozinha. De tanto me dar lição de moral, ele vai acabar me convencendo de voltar. Infelizmente, vou lhe decepcionar. Não quero voltar pra casa tão cedo.
Estávamos caminhamos. Estava cansada. A mala estava muito pesada e se eu não parasse um pouco, cairia dura no chão. Parei coloquei a mala no chão, respirei fundo, apoiei minhas mãos nos joelhos buscando por ar. Daniel pareceu notar meu estado e se prontificou.
- Quer que eu leve sua mala pra você?
- Se não for incomodo para você, tudo bem.
- Não é incomodo nenhum. Você parece mesmo cansada.
- Um pouco. Está muito pesada essa mala.
Daniel pegou a mala. – Não ta nada. Você está muito fraca. Ou cansada demais pra isso.
- Só você mesmo pra achar essa mala leve.
- Mas está leve sim. Posso carregar com o dedo. – ele tentou carregar com o dedo, mas o repreendi.
- Pára com a gracinha. Tem coisa de quebrar ai nessa mala. Se cair no chão, eu te mato de novo. – acabei rindo com isso.
- Ok. Não faço mais.
Continuamos a caminhada. Até eu me deparar com um pequeno hotel. Era quase uma pensão. Não era exatamente aquela hospedaria de luxo com mil estrelas. Mas servia para mim e para o meu irmão. Era por pouco tempo mesmo e logo procuraríamos outro lugar para ficar. Conferir quanto eu tinha de dinheiro. Eu ainda tinha muito dinheiro, o suficiente pra viver bem por mais dois ou três meses. Fiquei pensando que eu teria que começar a trabalhar o mais rápido possível ou iríamos passar por dificuldades, mais cedo ou mais tarde.
Decidida a ficar por ali mesmo, agarrei e puxei para trás a manga do terno do Daniel, o obrigando a parar. Ele se virou e arqueou uma sobrancelha em sinal de incompreensão.
- Que foi? – ele perguntou.
- Acho que podemos ficar por aqui mesmo. – eu disse apontando com o polegar para aquela hospedaria ridícula.
- Mas, aqui Julie? – Pedrinho estranhou. – Eu bem te conheço. Você não é do tipo que curte ficar em hotéis como esse. E eu também não.
- Eu sei, Pedrinho. Mas, nesse momento, qualquer lugar serve. Não será por muito tempo. Vai ter que ser um lugar mais barato. Se gastarmos todo o dinheiro antes da hora, não vai sobrar nada. Tem que ser aqui.
- Ah, não! Você viu que lugar nojento.
Nisso eu tinha que concordar com ele. A higiene daquele lugar não era a das melhores. A estrutura do arranha-céu parecia antiga. A tinta da parede descascava.
- Fazer o quê? É esse ou nenhum. Vamos? – olhei pra o Pedrinho e ele assentiu.
Olhei para o Daniel e ele fazia uma cara estranha.
- O que aconteceu? – pergunto.
- Nada. – ele dá uma risada e abaixa a cabeça ainda rindo. Levanta o olhar para mim de novo. – O que eu não faço por você, hein?
Eu ri. – É porque você me ama. Né?
- Lógico. – ele sorriu torto e deu uma piscadinha safada. E eu amo isso.
Ri mais um pouco e fomos à direção aquele “hotel”. Passamos pela porta e pedi ao Pedrinho que se sentasse no sofá que ali havia. Fui até a recepção onde havia uma moça que falava ao telefone.
- Moça, eu queria... – fui interrompida por uma mão em sinal de ‘Pare’ num pedido silencioso para que eu esperasse.
Aquilo já estava me irritando. Aquela moça era muito repugnante por estar conversando à toa em horário de trabalho. Olhei pra trás e Daniel notou o que havia acontecido e silabou algo como para me pedir calma. Pedrinho estava com a cabeça baixa e mexia algo no celular. Voltei meu olhar pra frente e fiquei encarando aquela atendente nojenta a minha frente.
Ela tinha um tipinho de piriguete. Vestia roupas extremamente curtas e com cores fortes e gritantes. O decote era ridículo, já que seus seios pareciam querer saltar da blusinha que ele trajava. Para piorar, ela enrolava com o dedo o fio do telefone e mascava um chiclete com a boca aberta. Esse último era totalmente nojento. Aquilo tudo era irritante demais. Ou seja, ela era uma verdadeira ‘puta’.
Quanto mais tempo eu passava com o Daniel mais eu ficava parecida com ele. Qualquer pessoa que via, eu de cara não gostava. Talvez, eu e ele devêssemos fazer um tipo de terapia para aprender a conviver melhor com as pessoas e não julgá-las logo de cara sem antes conhecê-las.
Continuei apoiada no balcão, olhando alguns papeis que tinha em cima dele. A recepcionista se virou para mim depois de colocar o fone do telefone na base. Finalmente.
- Em que posso ajudá-la?
- Quero um quarto. Para duas pessoas, por favor.
A moça ficou me olhando e arqueou uma sobrancelha. Eu queria saber o que ela estava pensando.
- Você poderia esperar um minutinho?
- Claro. – dei um sorriso antipático. Felizmente a sonsa não percebeu.
Vi ela se levantar do seu lugar e sair. Virei pra trás de novo e apoiei os cotovelos no balcão. Fiquei olhando Daniel.
- O que aconteceu? – Dani perguntou.
- Sei lá. – respondi sussurrando.
Olhei pra onde a recepcionista tinha indo e percebi que ela conversava com alguém. Deve ser o seu chefe. Eu iria esperar por mais uns minutos. E essa espera já estava me cansando. Já tinha decido ir embora dali e procurar outro hotel, de preferência um melhor. Mas, vi a recepcionista voltar junto com o seu chefe.
- Poderia me passar sua identidade?
Lhe entreguei. – Você tem 17 anos. – ela pausou. – Como eu temia. – ela cochichou para seu chefe, que estava bem ao seu lado.
-Você é menor de idade. Não pode se hospedar sem autorização de um responsável. – o homem de meia-idade disse.
- Quê? Ah, fala serio. Um ano a mais, um ano a menos... Qual é a diferença? Além disso, eu tenho dinheiro para pagar. Eu e meu irmão vamos ficar por pouco tempo.
- Não me interressa. Não posso hospedar menores de idade.
- Por que não? Ta com medinho de ser preso ou o quê? Caramba. É só um quarto de hotel... – continuei insultado aquele senhor até todo o meu dicionário de insultos e xingamentos chegar ao fim.
- Garotinha. Não quero ser ofendido no meu próprio estabelecimento.
- Ah. Ficou ofendido? Coitadinho! – eu disse com escárnio. – Sinto muito senhor. Não nasci para te agradar.
- Se continuar com esse escândalo e não sair imediatamente daqui, eu vou ser obrigado a chamar a policia para a senhorita. O Juizado de Menores não será o pior lugar para onde você vai.
Me acalmei, mas por dentro gelei. Se chamasse a policia iriam descobrir que eu e meu irmão tínhamos uma vaga garantida no orfanato. Iríamos direto para lá. Depois da última palavra dita pelo dono do hotel, Daniel chegou do meu lado e sussurrou no meu ouvido.
- Não fala mais nada. É melhor irmos embora. Você já arranjou confusão demais. – ele disse e assenti.
- Certo. – disse para aquele senil. – Eu vou embora. – tirei com estupidez minha identidade da mão daquela biscate. – E eu não volto mais nessa espelunca. – dei as costas, peguei minha mala, Pedrinho também pegou a dele e saímos, ainda acompanhados do Daniel.
Estávamos andando em silêncio. Daniel estava do meu lado. Pelo canto de olho, pude perceber que ele me fitava. Percebi também que ele preferiu não falar nada, por notar meu humor irritado. Mais à frente, encontrei uma espécie de galpão. Estupidez talvez, mas pensei seriamente em ficar por lá mesmo.
- Ficamos aqui. – apontei para o lugar.
- Aqui. Ah, não. Agora você está exagerando. – Pedrinho disse.
- É só por uma noite. Já está ficando tarde. Logo será noite. Nós damos um jeito. – eu disse e ele assentiu.
Pedi ajuda para o Daniel abrir a porta. Entramos. Era um supermercado abandonado. O mais incrível era que o galpão era mais limpo que o aquele hotel. Ajeitei as minhas coisas num canto e Pedrinho também.
- Espera aqui, Julie. Vou trazer umas coisas pra vocês e já volto. – ele sumiu.
- Onde será que ele foi? – Pedrinho perguntou.
- Não sei.
Minutos depois, ele voltou. Trazia consigo três colchonetes de academia.
- Onde você arranjou isso?
- Numa academia aqui perto.
- Você roubou colchonetes?
- Não. Peguei emprestado. Eu vou devolver. Eles nem vão sentir falta, são velhos.
Dei de ombros. Me lembrei de uma pizzaria que estava em frente daquele galpão. Pedi para o Pedrinho comprar uma para a gente. Ele foi, trouxe e comemos a pizza. Fomos dormir.
No outro dia, eu acordo e não encontro nem o Pedrinho e nem o Daniel. Resolvi olhar lá fora pra ver se eu os encontrava. Nada. Fiquei olhando o movimento e vi o Cabeça vindo na minha direção.
- Você não estava na casa daquela senhora?
- Não. Fui embora. Não ia ficar a vida toda lá. Né?
- Sei. Ta se escondendo aqui agora. – assenti. – Hum. E você quer comprar? – ele disse tirando uma mochila das costas. Eu sabia a que ele se referia.
- Quero. – não pensei duas vezes e aceitei.
Eu estava irritada e ansiosa. Precisava daquilo. Ele me entregou a droga e lhe paguei. Ele se foi. Entrei no galpão e comecei a consumi aquela droga sem parar e sem pensar nas consequências. Soltei uma lágrima. Eu estava acabando comigo, mas eu não tinha mais controle das minhas atitudes. Me deitei no colchonete e senti o sono me invadir. Dormi.
POV Daniel
Acordei pela manhã e percebi que Pedrinho estava acordado. Ele me pediu para acompanhá-lo numa padaria, porque ele estava com fome. Disse que ele podia ir sozinho, porque eu não queria deixar a Julie dormindo sozinha. Mas ele disse que não íamos demorar. Mesmo contrariado o acompanhei.
Fomos à padaria mais próxima e ele comeu seu café da manhã ali mesmo. Não sei quanto tempo ficamos ali. Voltamos para o galpão e encontro Julie ainda dormindo. Espera. Dormindo? Ela não parece estar dormindo. Cheguei mais perto dela e vi o que tinha perto dela. Era droga. Me agachei perto dela.
- Julie. Fala comigo. Não acredito que você usou essa porcaria de novo. – selei nossos lábios. Como se isso fosse adiantar... A sacudi esperando que ela acordasse e me respondesse. Virei para Pedrinho. – Liga para um socorro. Rápido. – ele assentiu.
Me arrependi de deixá-la sozinha. Eu sabia, ou melhor, eu sentia que ela não poderia ficar sozinha. Minutos depois, uma ambulância apareceu. Junto estava aquela mulher do orfanato. É Julie... Seu plano de fuga foi por água a baixo. Agora, não daria mais para escapar. Colocaram Julie na ambulância. Peguei as coisas dela e do Pedrinho e entramos eu e ele junto na ambulância.
Fale com o autor