A Última Carta de Lola
1 A Última Carta de Lola
Notas iniciais
Castelo de Fotherinhay, 20 de junho do ano da graça de 1565.
À minha querida amiga Mary Stuart, Rainha da Escócia.
Sinto dizer-lhe que falhei em cumprir o seu plano. Fui vista com a arma em mãos e não tive tempo de liquidar sua rival. Elizabeth ficou abalada, assim como todos na Corte. Creio que talvez eu tivesse uma chance de salvação, pois a rainha e eu estávamos desenvolvendo um laço de amizade, o que com certeza é estranho para nós. Criei afeição, nem sei como, com alguém que aprisionou minha família. Mas, com toda a razão, Elizabeth não devia demonstrar fraqueza, encobrindo minha afronta, e além do mais, cometi um crime punível com a morte. Como consequência de meu procedimento para com a rainha, atualmente encontro-me na prisão, em uma torre na ala norte do castelo, aguardando o dia de minha execução.
Quero que saiba que não me arrependo do que tentei fazer, e, sim, do que não pude concluir. Eu escolhi a minha rainha. No entanto, fracassei mais uma vez com você, Mary, e tenho a convicção de que minha morte nada é comparada à repercussão da tentativa de assassinato e das intrigas que, infelizmente, serão formuladas a seu respeito. Preocupo-me enormemente com o que lhe sucederá, e espero que nenhum de meus temores se concretizem.
Escrevo para afugentar os pensamentos sombrios que têm me atormentado nesses dias, os quais sei que você teria paciência em ouvir, e delicadeza em confortar-me a alma, com sábias e suaves palavras.
Com a proximidade da morte, sinto no peito um constante sentimento de inquietação, como se meu coração quisesse rasgar-se ao meio, para, de algum modo, tentar livrar-me das dores que me dilaceram. Penso em John, em meus pais e irmãos, em Stephan, o homem que me mostrou o amor de uma forma toda especial, e por quem nutrirei sentimentos até a minha partida ao túmulo. Penso em Greer, em Kenna, em Aylee, em você, Mary. Sinto falta dos dias na França, quando éramos cinco escocesas jovens e inocentes a descobrir os segredos da vida. Até a antipatia de Catherine por mim tornou-se objeto de lembrança. Por incrível que pareça, penso também em Elizabeth. Viver na Corte Inglesa mostrou-me uma face diferente da rainha. Ela confidenciou-me várias angústias, amores e incertezas. Derramou-se em lágrimas ao falar da mãe, Ana Bolena, que via todas as noites, em sonhos, a suplicar misericórdia antes de ser decapitada. Outra coisa que muito me sensibilizou foi (e, por Deus, Mary, jamais deixe que isso venha à tona) um aborto que a rainha sofreu a poucos meses. Meu coração enrola-se num amargo nó, sempre que lembro do sorriso com que Elizabeth deu-me a notícia de sua gravidez, do fruto de seu amor com Robert Dudley, e, semanas depois, presenciei seus olhos inchados e vermelhos a contemplar o sangue que saía-lhe do corpo.
Não sei o que virá após minha morte, mas, seja o que for, reflita sobre Elizabeth. É uma rainha poderosa e perigosa, disso não há o que negar, mas, acima de tudo, é uma mulher, com suas fraquezas, forças e sonhos. Uma mulher como você, minha cara amiga, que busca sobreviver a homens maus e ao mundo frio em que habitamos, e do qual, em breve, não serei mais que uma lembrança.
Outra coisa que sufoca a minha alma é John. A todo o tempo penso em meu filho. Dói-me saber que a cada dia que passa, está mais próximo o momento de deixá-lo. Mas já elaborei um plano. Ele tornará à França, em segredo, em companhia de uma criada. Bendito seja Deus, que me proporcionou salvar a sua vida. Na minha cela existe uma janela, na qual debruço-me todas as noites, para ver a paisagem. É o único momento em que consigo rezar. Ver as muralhas do castelo, os campos, os montes e a lua ajuda-me a lembrar de quando era feliz, vivendo na propriedade de meus pais, e até mesmo na França, onde estávamos bem, mesmo com tantos problemas. E eu choro, muito, até sentir os olhos secos, e então rezo. Rezo ao Senhor, à Virgem, ao espírito dos que se foram, à Aylee, nossa pobre amiga, e até à lua tenho dirigido súplicas. Ela é, para mim, o olho de Deus a me fortalecer na escuridão em que me encontro. Peço a ela que se demore no céu, que não vá embora nunca, para que eu esteja com John, mesmo que confinada numa cela. Ver a lua cheia dava-me esperança nas orações, mas há dois dias ela entrou em sua fase escura. Agora, à noite, vejo apenas nuvens negras a deslizarem no céu, e é como se já Deus não voltasse seu olhar sobre mim. São dois dias em que não encontro forças para rezar.
Enquanto escrevo, sinto como se um grande peso fosse tirado de minhas costas. O simples pensamento de que um dia você lerá essas palavras enche-me de consolo, e, para mim, é como se você aqui estivesse, ao meu lado, ouvindo afetuosamente cada palavra, até que eu termine e você me aconselhe, me dê forças e um grande sorriso, como quem diz que tudo ficará bem.
Lembrando de nossa amizade, não posso deixar de falar-lhe sobre um assunto, um tanto doloroso, mas necessário: Francis. Eu sei que já conversamos, tantas vezes, sobre isso, mas o peso em minha consciência permanece, forte o suficiente para povoar-me a mente todos os dias. Mais uma vez, peço-lhe perdão pelo que fiz. Entreguei-me à carne fácil demais, traí minha rainha e amiga, e ainda tive um filho, que, creio, deveria ser seu. Sim, não sou merecedora de John. Ele é o fruto que deveria ter vindo de você, o verdadeiro amor de Francis, por quem ele daria a vida infinitas vezes. Nunca mais senti-me totalmente limpa, após esse pecado. Resta-me esperar que Deus tenha misericórdia de minha alma, e tire de mim este sentimento de culpa. O que me alenta é saber que tenho seu perdão e amizade. Espero ter me redimido de meus erros para com você, Mary, e nessa certeza enfrentarei a morte como algo que me dará paz e a certeza de um dever cumprido.
Enfim, é preciso que eu termine minha última carta. Ela será enviada até você, na Escócia, se tudo correr bem. Meu coração palpita depressa, pois acabei de ser informada, por um servo amigo, que amanhã serei executada. Ah, Mary! A proximidade da morte nos torna diferentes. Estou temerosa e agitada, mas ao mesmo tempo uma serenidade apossou-se de mim. Por vezes sorrio para mim mesma, feliz em minhas recordações, e em outras, ponho-me a chorar. Será que estou louca? Seria isso um efeito da solidão que me cerca, a mim, que estive sempre cercada de companhias? É como se forças boas e más combatessem em minha alma, e sinto que preciso recolher-me em oração. Ao menos tentar me concentrar, já que estou violentamente perturbada por diversas emoções. Minhas mãos, nesse instante tremem, e é um grande esforço continuar a boa caligrafia. Soube que Stephan está aqui, e espero que meu esposo nada faça que o prejudique. Apenas quero partir em paz. Se houver, de fato, um Céu após a morte, e se eu for digna de nele entrar, com toda a certeza verei Francis, seu bom marido, e falarei de você a ele. Vamos orar continuamente pelo seu bem e de nossos países. Você vencerá, minha rainha, será forte e liquidará todos os seus inimigos. Acredito nisso.
Receba meus sinceros arrependimentos por tudo o que lhe causei, pela falha em executar Elizabeth e pelo incidente com Francis. Acolha também meus afetuosos agradecimentos por tudo o que fez em meu favor. Eu me tornei alguém melhor com seu exemplo, Mary, e sou imensuravelmente agraciada por ter tido-lhe como amiga.
Conforte meus pais e irmãos, eu lhe peço. Reze por John, e também por minha alma, muito necessitada de misericórdia.
Com amor, de sua humilde serva e amiga que muito a estima,
Lola Fleming Narcisse.
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