A Águia e o Falcão
17 Uma bênção - Parte I
Notas iniciais
Passou-se dois meses desde a luta cruel contra os Jamanianos. Dois meses em que Wyvia se sentiu a mulher mais feliz do mundo, morando alí com duas pessoas que a amavam e finalmente sem ter medo algum da morte ou do perigo. Alí estava protegida e amada, de maneira incondicional.
Aquele tempo morando lá, dormia todas as noites na cama de Mihawk, sendo abraçada durante a noite, após fazer amor por horas seguidas, bem devagar e com paciência. Em cada uma das vezes, sempre chegava a parecer que era a primeira, mesmo que se amassem em posições diferentes, de formas diferentes... e até em lugares diferentes. Nas manhãs seguintes do amor, ouviam Perona reclamar, falando do barulho que eles fizeram e que ela não precisava ouvir aquilo... e como sempre Mihawk retrucava que se ela estivesse incomodada, que fosse embora. Wyvia somente ria e pedia desculpas a Perona, mas sabia que a mulher não falava sério... sempre reclamava, mas era de seu feitio fazer aquilo. Gostava de ver o casal junto e feliz.
Em uma manhã, Wyvia estava com Perona no banheiro enquanto que Mihawk preparava o almoço. No banheiro, Wyvia segurava a toalha sobre o corpo, olhando para o espelho e admirando seu sorriso tão diferente e novo. Até sua pele parecia diferente, mais radiante. Havia algo diferente, e até mesmo a garota fantasma havia notado... e era por aquele motivo que Wyvia chamou a mulher.
— Você está mesmo diferente –comentou Perona, também olhando para o espelho, mas para o reflexo da loira. Ela flutuou para trás de Wyvia e a contornou com os braços, colocando as mãos sobre os seios da moça. — Seus peitos estão maiores.
— Ai! Isso dói! –reclamou Wyvia sentindo a dor nos seios, mesmo que Perona não estivesse apertando. — Estão doendo bastante tem algum tempo.
Perona se afastou e refletiu um pouco. Já sabia o que estava acontecendo, e era meio óbvio. Ela sorriu, do seu jeito feminino e extravagante de ser. Flutuou por cima de Wyvia até ficar de cabeça para baixo, ainda olhando para o reflexo dela.
— Minha linda, você e o Mihawk fazem tanto que eu não me admiro nadinha com isso –disse ela dando uma risadinha curta no final.
O rosto de Wyvia queimou e ela saiu do banheiro, indo trocar de roupa. Há algumas semanas Mihawk viajou para uma ilha vizinha apenas para comprar roupas novas para sua amada, pois vê-la usando as roupas extravagantes e coloridas de Perona era muito estranho, mesmo que ele tentasse ignorar as vezes. Comprara de tudo para a moça, desde vestidos até saias, calças e camisas bonitas e totalmente diferentes do que Perona usava. Realmente aquelas novas roupas caíram muito bem na loira.
— Não sei o que quer dizer, Perona –disse Wyvia dando uma de desentendida, mas no fundo sabia que havia algo diferente e novo. Talvez fosse melhor não pensar naquilo... ou não.
A mulher veio flutuando do banheiro e ficou diante de Wyvia. Fantasmas cinzentos surgiram e zanzaram diante da loira, passando levemente roçando na pele dela e causando calafrios.
— Os fantasmas concordam comigo que teremos um novo morador em Kuraigana em breve –disse Perona rindo da forma tão delicada que revelou aquela notícia. Os fantasmas sumiram logo após.
Corada, Wyvia começou a se trocar. Era claro que sabia daquilo... não havia outra explicação. Aquilo não era algo ruim... ou era? Sem se incomodar, se vestiu diante de Perona. Pelo que viu no espelho do quarto, seus seios realmente estavam maiores e com algumas pequenas veias esverdeadas saltadas próximas aos mamilos. Além disso, já tinha tempo que não mais sangrava, como era de costume. Sem querer Wyvia sorriu e apoiou a mão diante do ventre, que mal tinha volume.
— Dez semanas –disse Perona flutuando até cair na cama de Mihawk, onde ficou deitada olhando para Wyvia. — A barriga vai demorar um pouco a crescer ainda... Mihawk vai notar em algum momento, até porque é ele quem pega nos seus peitos a noite.
— Acha que ele ficará feliz se souber? –perguntou Wyvia, um pouco nervosa com a situação. Não demoraria até que Mihawk notasse as diferenças que os hormônios fizeram nela.
Perona concordou com um gesto de cabeça. Passara tempo demais com o falcão para saber o quanto ele era maduro e responsável. Ele amava aquela moça e sabia das responsabilidades que teria... era óbvio. Mihawk não era um moleque como muitos que havia pelo mundo. Moravam em Kuraigana sem ter que dar satisfações a ninguém. Como um Shichibukai, ele tinha toda a liberdade dos mares para ser um pirata sem preocupações... não tinha motivos para abandonar Wyvia ou fugir. Ter um filho seria uma novidade, com toda a certeza... mas o olhos de falcão que todos conheciam era justo e responsável o suficiente para aceitar e até ficar feliz com aquilo. Pelo menos era nisso que Perona acreditava.
— Vai contar pra ele agora? –perguntou se levantando da cama e ajudando Wyvia a pentear os cabelos, que estavam até um pouco maiores, chegando a tocar um pouco abaixo do ombro.
A moça, que parecia até mais velha do que era e mais bonita, sorriu e fez que sim com a cabeça. Estava criando forças para contar a ele. Mesmo sem saber da reação dele, ela estava feliz, de qualquer forma. Sabia desde o início que havia algo diferente, mas não pensava que realmente aquilo fosse verdade, pelo menos até agora, até Perona confirmar.
E agora saber que havia dentro de si um filho de Mihawk era uma benção inexplicável. E agora sim Wyvia estava pronta.
***
Prometendo a si mesma contar para Mihawk a novidade após o jantar, Wyvia prolongou aquela refeição como nunca fez na vida. Em seu prato de comida havia de tudo, incluindo alimentos que não se combinavam. Misturou a salada com a sopa, comeu, saboreou e mesmo assim ainda não estava satisfeita. Pegou frutas e comeu juntamente com a sobremesa e ainda parecia ter um desejo incontrolável de comer doces, chocolates e até mesmo frango assado com molhos apimentados.
Diante dela, sentado na cabeceira da mesa como sempre, Mihawk observava a avidez com que sua amada comia. Seu olhar não era assustado, mas sim curioso. Bebericava o vinho dentro da taça enquanto assistia a fome descontrolada de Wyvia. O jornal diante de si já não era mais interessante, então o deixou de lado e até mesmo trocou olhares com Perona, que também olhava para Wyvia, porém com um olhar mais zombeteiro.
Afinal... ela sabia de algo que Mihawk não sabia. Ou talvez sim. Mihawk era astuto e inteligente. Tinha uma vasta experiência com a vida e já vira de tudo. Talvez tivesse notado ou até mesmo soubesse que aquilo aconteceria. Não era possível que um homem tão inteligente como ele não soubesse o que acontecesse devido ao ato sexual. Pelo olhar do falcão, ela pôde notar a tranquilidade e até mesmo a curiosidade que emanava dele.
Talvez ele saiba, talvez não... mas tenho certeza que ele ficará feliz, pensou a mulher, logo se retirando da mesa. Não queria interferir na intimidade dos dois novamente, especialmente agora que Wyvia já tinha limpado todos os pratos e agora tomava um longo gole de vinho. Parecia até nervosa, pela forma com que a mão tremia levemente.
—Er... então... eu acho que vou indo agora –ela disse meio sem jeito e flutuando até a saída da sala de jantar rapidamente. Não quis ouvir respostas.
Finalmente sozinhos, Mihawk colocou mais vinho em sua taça e levou a garrafa até Wyvia. Notou que ela parecia meio sem graça. Ele sabia que tinha algo diferente nela... não sabia o que era ainda. Há algumas semanas notou que a moça parecia mais esfomeada, mais nervosa, mais impaciente e um pouco emotiva demais. Talvez a estivesse conhecendo melhor? Ele achava que não, devia ser... outra coisa.
Chegando perto dela, colocou mais vinho dentro de sua taça, e então estendeu a mão para ela. Com um sorriso cansado e até meio duvidoso, Wyvia então segurou a mão dele e foi puxada com leveza para se levantar. Ela carregou a taça de vinho em uma mão, e ambos foram para uma varanda que havia logo após a sala de jantar. A varanda tinha a vista para toda a ilha, que não era a vista mais bonita ou mais agradável, mas ainda era uma boa vista. A lua era cheia, revelando seu brilho e iluminando levemente as silhuetas. Mihawk se encostou sobre o parapeito de pedra da varanda e tomou o vinho que tinha na taça. Diante de si, a moça também bebeu, desta vez mais tranquila.
— Você está diferente –comentou o falcão, o tom de voz sério, porém sem nenhum tom agressivo. Parecia realmente apenas ter uma conversa tranquila com ela.
Wyvia perdeu o interesse no vinho. Seu coração parecia acelerado demais, batia com muita força. Após aquele tempo morando com Mihawk, dormindo ao lado dele e sendo amada, ela percebeu que não deveria temer, que não deveria ter o mínimo de insegurança. Olhando nos olhos dourados dele, apenas confirmou aquilo. Mihawk era um homem de verdade, era sério e responsável... não era alguém que deveria ficar chateado ou com raiva de alguma notícia... até porque aquilo era uma bênção.
Pensando naquilo, diferentemente das semanas anteriores, Wyvia percebeu o quanto aquilo a deixava feliz. Já teve desconfianças de uma possível gravidez, mas não estava acreditando na possibilidade. Parecia surreal demais, impossível... mas era real, e agora ela sabia disso. Ela abriu um sorriso sincero, fechando os olhos apoiando a mão na barriga de uma forma impessoal, que a princípio Mihawk não pareceu notar. Ele continuava olhando pra ela, curioso com aquele sorriso tão magnífico que ela esbanjava.
— Tem algo te incomodando? –ele perguntou, sorrateiro.
Uma lágrima de felicidade escapuliu dos olhos dourados de Wyvia, brilhando sobre a luz do luar. Nesse momento, Mihawk não mais entendia o que se passava com ela. Chorava e sorria ao mesmo tempo, mas ele realmente não compreendia o que aquilo queria dizer. Estendeu a mão para ela, esperando para recebe-la em um abraço consolador. A moça apenas segurou sua mão e abriu os olhos, olhando pra ele sorrindo.
— Mihawk... nós vamos ter um bebê –disse, as bochechas ardendo em chamas naquele momento.
Ao ouvir aquilo, Mihawk demorou alguns segundos para processar a frase. Seus olhos dourados se arregalaram tanto que começaram a arder, e mesmo ardendo, mal teve reflexos para piscar os olhos, causando uma leve lacrimação. Seu rosto estava tão vermelho que parecia arder, o suor escapulia pelas costeletas e pela testa. Primeiro, o choque invadiu sua mente, retirando dele qualquer outro pensamento. Um bebê? Alguma vez o falcão já se imaginou como um pai? Nunca... e a partir daí chegou para ele a fase do sentimento. Embora nunca tivesse pensado em ter um filho, nesses longos minutos em silêncio ele conseguiu refletir sobre como se sentia em relação a aquilo.
Wyvia era tudo o que Mihawk mais precisava na vida. Ela era sua amante, sua companheira. Dividia sonhos com ele, metas... nunca chegaram a conversar sobre aquilo, e na verdade o falcão nunca pensou em conversar, mas vendo-a sorrir daquela forma, derramando lágrimas e transbordando de alegria ele compreendeu o que aquilo significava. Teria um filho com a mulher que amava, e mesmo que não soubesse como ser um pai, como criar uma criança ou como lidar com aquilo, que ainda era um choque, o falcão já sabia que aquela notícia era mais do que boa. O choque inicial que sentiu deu lugar a um novo sentimento de alegria.
Ainda em lágrimas, Wyvia se aproximou e apertou mais a mão de Mihawk, enroscando seus dedos nos dele.
— Eu quero ser uma boa mãe –disse ela derramando mais lágrimas. Tinha medo do próprio fracasso, mas tinha fé no sucesso dele. — Eu não sei se está feliz com isso... mas eu estou... esse foi o melhor presente que eu poderia ganhar... um filho seu!
E os braços fortes do falcão envolveram sua amada em um abraço forte e cheio de significados. Ambos encaravam uma notícia chocante... mas que agora era uma notícia maravilhosa e feliz. O falcão tinha ainda certa insegurança por viver em uma ilha muito perigosa... mas era um Shichibukai e o melhor espadachim do mundo... nada poderia acontecer de ruim ao seu filho e sua amada. A única coisa que o deixava preocupado agora era o medo que Wyvia compartilhara agora... ela tinha medo de não ser uma boa mãe.
— É claro que estou feliz –disse Mihawk, seriamente. Seu tom de voz voltou, sua expressão também... mas não deixava de ser aconchegante e feliz, especialmente após o pequeno sorriso que ele evidenciou sobre a bochecha de Wyvia. — Você será uma boa mãe, eu tenho certeza absoluta disso.
E o choro de Wyvia se tornou mais forte, passando a soluçar. Enterrou o rosto na camisa branca dele, ouvindo a respiração tranquila dele e desejando ter aquela tranquilidade e fé que ele tinha. Mihawk sabia que seria um bom pai... e ela queria acreditar que seria uma boa mãe também.
— Eu já sei que amo tanto nosso bebê... –ela disse, chorando descontroladamente.
— E isso já é suficiente para provar o quanto você será uma mãe maravilhosa –disse o falcão beijando a face dela. — Pode confiar em mim.
Levou algum tempo para que Wyvia se tranquilizasse. Levou tempo para que acreditasse que seria uma boa mãe... mas não foi um tempo tão grande, e ela nunca ficou infeliz com aquilo. A felicidade que sentia por carregar um bebê do homem que salvou sua vida, que devolveu sua liberdade e que a amava incondicionalmente era uma bênção, um tesouro! Nesse tempo, o falcão permaneceu ao seu lado, assistindo com alegria o progresso da gravidez. A cada semana a barriga crescia um pouco mais... e era algo lindo de se ver. Ambos se emocionavam a cada vez que o bebê chutava... já descobrindo o quanto amavam aquela criaturinha mesmo antes de nascer. Embora Mihawk fosse sempre sério e fechado... ele mesmo se emocionava por várias vezes. Seus sentimentos eram sempre bem guardados, mas não os escondia de Wyvia e nem de seu bebê.
Coisas aconteceram na ilha durante os meses de gestação. O que aconteceu, a visita que repentinamente chegou na ilha foi desagradável, porém foi boa para Mihawk quando percebeu a ajuda que poderia ter. Quando aquele rapaz chegou na ilha, Mihawk já sabia que de alguma forma poderia contar com ele... e certo dia, no auge da gravidez, ele resolveu sair da ilha.
Saiu da ilha, deixou Wyvia sobre os cuidados deles, o que não era totalmente ruim... mas ela já estava muito perto de acabar em trabalho de parto... mas saiu por um bom motivo. Levou algumas semanas... mas o falcão finalmente encontrou o que procurava e já estava pronto para voltar. Apenas torcia para que não chegasse tarde demais. Não queria perder o nascimento de seu filho.
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