O cheiro de chá preto, açúcar e canela foram os primeiros que Parvati reconheceu ao inspirar fundo perto do caldeirão de Amortentia que o Professor Slughorn levara para a aula de Poções. Ela quase sentia o gosto amargo do chá se misturando ao doce da canela em sua boca e, só depois de essa sensação se suavizar, foi que a menina reconheceu outros cheiros: maquiagem nova e incenso.

Lavender, ao seu lado, soltou uma risadinha e começou a murmurar o que sentia: o cheiro de batom, rosas e cheiro de seus antigos bichinhos de pelúcia. Elas riram e ficaram discutindo a poção do amor por dias, até mesmo com Romilda, que dificilmente falava com elas.

Algumas semanas depois, Parvati sentiu o coração acelerar durante um final de tarde.

Com os livros de História da Magia abertos sobre a mesa, sentada ao lado de Lavender uma do lado da outra enquanto tentavam entender qual a razão da briga entre Merlin e Morgana, Patil sentiu o cheiro do chá preto e passou a língua pelos lábios, sentindo os grânulos de açúcar e canela, o gosto doce se espalhando pela sua boca. As costumeiras xícaras de chá que elas dividiam toda vez que sentavam para estudar estavam perdidas no meio dos livros e o prato de biscoitos, já comido pela metade. Quando ergueu o rosto, a amiga tinha um biscoito preso entre os dentes, enquanto ela fazia uma nota em seu pergaminho, e os lábios sujos de açúcar a canela.

“Oh,” Parvati murmurou, sentindo o coração apressar o ritmo dos batimentos a medida que a realização tomava conta dela.

“O que foi?” perguntou Lavender, as palavras sendo obstruídas pelo biscoito, antes de ela tirá-lo da boca e tomar um longo gole de chá.

“Nada.” A garota sacudiu a cabeça e batucou as unhas pintadas de cor-de-rosa sobre o livro. “Sabe quantos metros de pergaminho precisamos fazer?”

Naquela noite, Parvati ficou acordada por horas, lembrando-se de como o chá e os biscoitos de açúcar e canela sempre fizeram parte das horas sentadas ao lado da amiga. Eles estavam lá no primeiro ano, quando ela sentia falta de Padma e Lavender lhe trouxe os biscoitos para animá-la. Também estavam lá no segundo ano, depois que Hermione Granger foi encontrada petrificada e Brown ficou com medo de que a colega de quarto não sobrevivesse. E no terceiro, depois das aulas de Divinação, quando elas começaram a ler as folhas de chá uma da outra. No quarto, elas entregaram pacotinhos de biscoitos para as meninas de Beauxbatons e no quinto, elas faziam um lanche rápido sempre antes de irem para as aulas da AD.

Chá preto, açúcar e canela eram Lavender Brown. E, depois de dois ou três dias repetindo isso em sua cabeça, Parvati decidiu que preferia falar para a amiga.

Ou talvez fosse melhor não falar nada?

Uma semana depois, Lavender começou a sair com Ron Weasley e tudo o que Parvati queria fazer era enfiar a cabeça no travesseiro e gritar até perder as forças. Ela não fez isso, é claro, porque a amiga queria lhe contar sobre o namorado e Patil, como uma boa amiga, ouviu e sorriu e soltou risadinhas enquanto trançava os cabelos da outra.

(No fundo, ela só queria se juntar à Hermione Granger e ficar de mal-humorada em algum canto do castelo)

Mas Brown estava sorridente e feliz. Parvati, particularmente, não via nada de interessante em Ron (mas, se fosse parar para pensar, nunca vira nada de interessante em outros rapazes também, até mesmo em Harry Potter, com quem fora no Baile de Inverno), mas a amiga parecia gostar dos minutos perdidos em beijos e apelidos e abraços. Ela sabia que, pelo menos, ainda tinha o privilégio de encontrar Lavender no final do dia, no dormitório, enquanto a outra bruxa lhe contava sobre Weasley e as aventuras do dia.

“O que houve?” pergunto Padma, nas férias de Natal, quando a encontrou chorando no quarto da casa de seus pais. Mas a corvinal não esperou resposta (ela sabia que não haveria uma) e simplesmente se sentou ao seu lado, abraçou-a e cantou uma das canções hindus que a mãe delas cantava quando as gêmeas eram pequenas.

Padma sabia, é claro. Elas sempre sabiam de tudo que acontecia com a outra. Talvez fosse alguma magia que nascia com irmãos gêmeos.

Poucas semanas após a volta às aulas, Romilda Vane deu uma poção do amor enganada para Ron Weasley e o estrago disso resultou na separação dele e de Lavender. Parvati sabia que não deveria ficar aliviada, mas ela queria falar que era melhor assim, afinal, estava óbvio que o ruivo não estava mais tão interessado na amiga e, bom, todos sempre souberam que ele só tinha olhos para Hermione Granger.

No entanto, Lavender estava sofrendo e Patil não podia simplesmente jogar tudo aquilo em cima dela. Então ela fez chá e arranjou biscoitos e trançou os cabelos da amiga enquanto ela soluçava em cima da comida, xingando o garoto até conseguir rir dos insultos ridículos que soltava. Elas acabaram jogadas na cama, rindo a cada “cara de trasgo” ou “cria de hinkypunk” que soltavam.

Parvati sabia que não devia se sentir aliviada, mas a sensação de dormir com os dedos da amiga em seus cabelos foi melhor do que a mais potente poção calmante.

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