Açúcar?
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Notas iniciais
Natal. Melhor época do ano. Enfeites por todos os lados, pessoas sorrindo, o frio convidativo, neve silenciosa e amor no ar. Além de toda a beleza que a comemoração trazia, com ela vinha os milagres. As pessoas esperavam que suas vidas mudassem, porque a data também trazia isso: esperança. A esperança de quando o novo ano começasse, tudo seria melhor e diferente. Kurt era um desses.
Depois de passar por um tempo muito difícil com o termino com Blaine, o castanho precisou se erguer. Mesmo com toda a dor, o Hummel não era mais um adolescente, pelo contrário, ele era um homem crescido e sabia exatamente o que queria. Ele não queria estar naquela posição tão vulnerável. Ele queria Blaine, mas negaria até o último suspiro. Suas paredes protetoras haviam voltado a crescer com toda a força.
Não tão diferente de Kurt, porém pior, Blaine via sua vida sendo destruída com o passar dos dias. A única coisa que ele fazia agora era trabalhar. Ficava o dia inteiro sozinho em um escritório em frente ao computador. Não fazia uma refeição ou conversava com o filho havia muito tempo. Provavelmente nem reconhecia mais a voz do garoto. Aquele emprego era seu sonho, ele ganhava montanhas de dinheiro, mas trocaria sem pensar duas vezes parar reviver a imagem que havia no porta-retrato em sua mesa. August, Ian, Kurt e ele na Universal. Saudades.
Mas agora, o que restava ao atual e ao antigo morador da oitava rua, era um milagre de Natal. Eles só esperavam que seus pedidos fossem concedidos logo.
[...]
Para não ter um momento tão deprimente com August, Kurt convidou Finn, Rachel, Carole e as crianças para passarem o feriado com o castanho. Ele e August haviam decorado a casa de cima a baixo, de dentro a fora, a frente e atrás. O Natal era o feriado que August mais gostava, pois pessoas que ele nem se lembrava que existiam, mandavam presentes.
Todos estavam na sala reunidos e conversando animadamente. August, Barbra, Rachel e Carole estavam no meio do chão da sala brincando com algum jogo que havia nos embrulhos. Finn estava no sofá segurando o pequeno Burt, de um mês, no colo.
Kurt agora voltava da cozinha com uma bandeja de biscoitos de chocolate. Ele se jogou ao lado de Finn e ofereceu um biscoito ao irmão. Quando Kurt estava para morder seu biscoito, a campainha tocou. Apesar de achar estranho, pensou que poderia ser algum vizinho vindo desejar feliz Natal ou algo assim. Mas ele se lembrou de que havia convidado alguns de seus vizinhos por medo da família estar ocupada e não comparecer.
– Eu atendo. – Kurt deixou uma bandeja de biscoitos em cima da mesa de centro. O homem atravessou o corredor, se ajeitou em frente ao espelho e abriu a porta da entrada. Diretamente não viu ninguém, mas quando olhou para baixo, viu Ian.
O homem ficou encarando a criança debaixo de vários casacos e uma touca. Por não entender o que estava acontecendo, o castanho ficou imóvel por alguns instantes, enquanto tinha a boca aberta e piscava diversas vezes em choque. Quando o Hummel conseguiu desviar o olhar, seguiu a sombra a alguns metros atrás de Ian. Era Blaine. Assim como o filho, o moreno estava lá, no meio de uma fraca chuva de neve, o encarando de volta.
A sensação para Kurt era como se a Terra tivesse parado de girar, ou, porque as coisas estavam certas agora; com Blaine ali, o movimento da Terra voltou a fazer sentido para o Hummel. Todos os músculos do corpo do castanho ficaram rígidos. Kurt nem ao menos conseguia mexer os olhos, todo seu foco era nos olhos de Blaine. A mão do castanho apertava com toda força a maçaneta. Sua mente viajava em mil ideias sobre aquilo ser real, e se aquilo realmente fosse, inúmeros por quês transitavam entre eles. “Por que ele está aqui?”, “Por que está ali parado?”, “Por que só Ian estava na frente da sua porta?”, “Por que eles ainda não haviam corrido pros braços do outro?”
Kurt queria correr e abraçar Blaine. Dizer a ele, que o amava e que nunca parou. O Hummel gostaria muito de poder dizer para Blaine que tudo estava bem, mas ele não poderia. Porque não estava nada bem. Blaine brincou com os sentimentos de Kurt. Ele cometeu o erro que Kurt alertou sobre, diversas vezes.
Mesmo Kurt sofrendo por longas semanas, ainda amava Blaine e tinha uma pequena ponta de esperança que as coisas dessem certo agora que o moreno estava ali; mas ele não confiava mais em Blaine. Toda confiança se foi no momento em que ele soube por uma empresa de mudança que seu relacionamento havia acabado. Blaine havia o enganado. Fugido. E por mais que o amor em seu coração fosse imensurável, ele não daria o braço a torcer. Ele poderia viver até o último dia de sua vida com esse amor incontrolável e desesperador, mas não havia nada que o faria mudar de ideia para voltar com Blaine.
– Oi, Kurt. Feliz Natal! – O menino abriu um sorriso para o ex-vizinho. Com a voz do garoto ecoando em sua mente e se tornando mais alta, Kurt se obrigou a olhar para ele. O Hummel sentiu seus lábios e olhos secos devido a grande exposição ao tempo gelado.
– Oi, meu querido. – Kurt desceu ao nível do menino e lhe ofereceu um forte abraço, mas dessa vez não ousou olhar para o pai da criança. – O que faz aqui? – Perguntou Kurt, mais querendo saber o que Blaine estava fazendo aqui do que o próprio menino.
– Eu voltei! Conseguimos recuperar a casa de outro comprador no último minuto. Não é demais?! – Kurt congelou novamente, enquanto o menino apertava os braços com carinho envolta de seu pescoço. Dessa vez, Kurt olhou para Blaine. O moreno estava imóvel e com as mãos nos bolsos. Agora Kurt notara um carro enorme e preto, com um gigantesco contêiner branco preso atrás. – Eu trouxe presentes. Olha. – O menino tirou do chão uma enorme caixa verde com um laço vermelho. – Eu também tenho o de Gus. Ele está aqui, não está? – Kurt não encarava o menino, mas ele já sabia onde estava a atenção do Hummel. – Kurt? – Kurt o encarou. – É melhor eu entrar. Ele quer falar com você. A sós...
– Eu não-
– Ele pode ficar ali por, literalmente, horas. Você sabe disso. – O menino olhou para o pai rapidamente, que pela primeira vez, tirou os olhos apertados de Kurt e olhou para o filho. – É melhor vocês conversarem agora. Rápido e de uma vez. Como um curativo...
Kurt encarou o moreno por mais algum tempo. Blaine estava parecendo um robô. Olhos apertados, uma enorme carranca, lábios contraídos e corpo imóvel. Estava quase impotente. Só agora, Kurt havia pensado em um detalhe.
– E-ele te contou sobre... – Kurt moveu seus olhos para Blaine e logo voltou para encarar o menino.
– Ninguém chora daquela maneira atoa. Nenhum advogado faz o que ele fez em seu antigo trabalho. Nenhum homem em sã consciência daria todo o seu dinheiro só para recuperar essa casa. – O menino deus ombros e olhou para os olhos perplexos de Kurt. – Não demorou muito para eu juntar as peças e entender tudo. Seria mais estranho se não tivesse sonhado com isso por várias vezes. Eu amo você. E ter você como um segundo pai, só significaria que as coisas realmente podem melhorar. Seria um milagre de Natal. Só basta você atravessar seu jardim e descobrir o que há para ser feito.
O menino deu um novo abraço em Kurt e entrou na casa segurando as duas caixas reluzentes. Ao fundo, Kurt escutou o grande grito de August. O castanho ficou de pé e continuou encarando Blaine. O moreno não tirava os olhos dele por nenhum segundo. Ali, Kurt se fazia e refazia as mesmas perguntas várias vezes: Ele deveria atravessar? Blaine havia o traído. Por que não fechar a porta e deixa-lo congelando na calçada? Blaine uma vez o amara. Por que ele havia voltado? Blaine aparentemente havia desistido de tudo só para estar ao lado de Kurt. Por que só agora? Blaine ainda o amava. Por que Kurt se importava? Porque ele também o amava.
Kurt entrou em casa, calçou galochas, enrolou um cachecol e vestiu um grande casaco azul. O castanho fechou a porta da entrada, apertou o casaco contra o corpo e se obrigou a andar até Blaine. Enquanto andava, o Hummel tentava achar alguma coisa para falar de primeiro momento, mas só quando ele parou de frente para Blaine, viu sua boca se abrindo e as palavras saindo sem consentimento algum.
– O que faz aqui e o que quer comigo? – Kurt foi seco, direto e duro. Não poderia ceder. Não importa o que Blaine falasse, ele não iria voltar com o Anderson. O frio era congelante e a neve só piorava a situação.
– Recuperar minha casa e outras coisas. – Blaine nem ao menos tremia de frio. Era sério e também direto. Ele queria o namorado de volta. Isso era óbvio naquele momento, mas ele estava indo direto ao ponto. – A casa já foi um passo conquistado, agora tenho coisas mais importantes para encarar.
– Diferente da casa, nem com todo o dinheiro do mundo você será capaz de recuperar as outras coisas. – Kurt cruzou os braços e cerrou os olhos para Blaine. Ele estava com muito frio. Desejava que ele pudesse resolver as coisas com Blaine em um lugar fechado.
– Eu não preciso comprar nada aqui. Eu sei onde me encaixo e o que me pertence. – Kurt cerrou mais os olhos. – Se eu não tivesse uma chance, não estaria aqui. – Apesar das palavras, Blaine não soava grosseiro. Mais uma vez ele estava agindo com um eterno apaixonado e isso irritava Kurt, que não aguentou por mais tempo a serenidade do Anderson e explodiu.
– Qual é o seu problema?! – Provavelmente toda a vizinhança havia soltado seus garfos da ceia e corrido para a janela. – Quem você pensa que é para fazer o que fez e voltar agindo como se nada tivesse acontecido? Você se acha bom demais e que ninguém pode resistir aos seus encantos.
– Nunca disse ou pensei nisso. Meu problema é essa discussão agora, pois quero saber se ainda tenho um namorado. – Blaine tomou um tempo para Kurt processar a frase. – Eu sei o que aconteceu e não teve um dia que não me arrependi-
– Pode parar logo aí. – Kurt apontou um dedo no rosto de Blaine. Seu corpo era todo concentrado em fúria, então ele nem se tocou sobre o vento frio. – Eu não quero ouvir esse tipo de coisa. Você não faz ideia de quantos clichês eu já li e assisti que têm essa frase. – Kurt respirou fundo e passou as mãos nos cabelos. – Ainda tem um namorado? Você realmente acha que ainda somos um casal?! – Kurt encarou o céu para não surtar de ódio. – O que você tem na cabeça?! Quantas e quantas vezes eu disse que tinha medo que isso acontecesse? Não foi uma coisa mal pensada. Você é um advogado, você sabe melhor do que ninguém o que suas ações podem causar. Arrependimento não é uma coisa que pode existir no seu dicionário.
– Mas existe. – Blaine aumentou o tom. – Existe porque assim como você, eu sou ser humano e falho. Não é um diploma que me impede de cometer erros. – Kurt se calou. Blaine estava certo, mas ele não assumiria. – Você parou para pensar que eu também esteja tão devastado quanto você? Mas para seu governo, eu estou bem pior. – Kurt iria protestar. – Porque conviver com a culpa de ver algo que eu lutei tanto, virar nada é o pior sentimento que alguém pode ter.
– Agora está mais do que provado que você não tem muitos sentimentos. Porque eu sei quantas noites eu passei em claro querendo trocar de lugar com você caso estivesse doente. Só eu sei quantas vezes eu vi o Sol nascer através de olhos marejados. Só eu sei quantas vezes quis arrancar esse coração com minhas próprias unhas. Só eu sei quantas vezes eu- — A voz de Kurt estava falhando. Ele não iria chorar na frente de Blaine. Ele não o daria esse prazer. – Você só pensa em você...
– Eu não estou pensando só em mim. Já admiti minha culpa, mas parece que para isso, você se torna surdo. Falar o quão difíceis esses meses foram, só faz o sentimento de culpa aumentar. Eu não estou feliz em saber que você passou por essas coisas. – Kurt encarou os olhos sinceros de Blaine. O moreno respirou fundo e limpou os pensamentos. – Não vou discutir sobre quem sentiu a pior dor e essas coisas. Porque enquanto eu estiver aqui e você aí, a minha vai estar ficando pior a cada instante. – Pela primeira vez Blaine se movera e apontava para o próprio coração. – Eu estraguei o que tínhamos, trouxe à tona o seu pior pesadelo, fiz a maior burrada da minha vida e agora que estou tentando mudar a situação e você nã-
– Eu não quero que você mude nada! Você já fez demais para quem disse que um dia me amava. – Blaine mordeu os lábios com força. Por que Kurt tinha que ser tão cabeça dura? – Eu devo crescer e aprender a esquecer ou viver com isso. Mas sei que o que tivemos um dia não irá voltar. – Kurt começou a dar as costas, mas Blaine segurou seu braço.
– Seu orgulho pode ser maior que seu amor, mas você sabe que não existirá outro que sente o que esse coração conhece. – Blaine foi até o castanho e colocou a palma da mão de Kurt no seu peito. O coração do moreno batia tão forte, que era possível ver a camisa se mexer. Kurt puxou sua mão bruscamente. – Você pode conhecer caras do mundo inteiro e nada do que eles disserem vai ter tanto significado do que eu digo. Nem você vai significar para eles, o que significa para mim. Você pode me virar as costas agora, mas você sabe que isso ainda não acabou. Nós não acabados. Porque a nossa história jamais será esquecida. Seja ela por nós dois, por aquelas duas crianças ou pelas paredes daquelas casas. Anos se passarão, a velhice chegará e até o último momento esses corações vão bater como um só. – Os olhos castanhos de Blaine encaravam os azuis de Kurt com tanta convicção, que assustava.
Kurt odiava isso. Odiava a verdade. Não importava quanto ele negasse. Ninguém seria tão bom quanto Blaine. Ninguém o amaria como Blaine. Sua história com qualquer outra pessoa não seria tão especial quanto a que teve com Blaine. Ninguém jamais o faria sentir como Blaine um dia fez. Como Blaine faz. Porque não seria Blaine.
As lágrimas se tornam mais pesadas nos olhos de Kurt. Ele tinha que acabar com isso de uma vez. Ele não poderia ficar dando mais atenção a Blaine
– Me solta! Tira a mão de mim! – Kurt gritava e escondia seu rosto, enquanto uma lágrima escapava. Por mais quanto tempo ele choraria pelo moreno? Blaine o soltou. – Então me diz do que adianta decorar todo esse clichê de filme romântico? Isso não é a droga de um livro do Nicholas Sparks, Blaine. Nós somos duas pessoas reais, lindando com problemas reais! – Kurt fez uma longa pausa, Blaine o encarava com tristeza, mas ainda uma pedra. – Você sabia dos meus problemas em me abrir para outras pessoas e você fez isso? Sumiu daqui sem ao menos se explicar? Como é que eu devo me sentir, Blaine? – O castanho passou as mãos pelos cabelos e girou em seu eixo, dando risada. Ele parou de frente para Blaine com as mãos na cintura. O frio queimava suas bochechas. – Eu confiei em você. Desde o momento em que você confessou sentir algo por mim, minha vida virou de cabeça para baixo, porque eu achava que estava traindo Sebastian, mas depois eu me livrei desse pensamento, porque você fez o meu sentimento por Sebastian mudar. Então, você aparece, muda tudo e depois some? Era essa sua intenção? Me dar minha primeira decepção amorosa? – Blaine agora olhava para seus pés. Eles não estavam mais se atacando, era mais o lado defensivo falando. Como se os corações estivessem tentando se ajeitarem, mas se dependesse da mente de Kurt, isso não iria acontecer.
– Eu sinto muito! – Blaine gritou alto. Para Kurt, aquilo já havia feito algo, mas ainda não era suficientemente aceitável. – Eu sinto de todo o resto do meu coração. Eu nunca quis te fazer sofrer. Eu te amei e te amo. Te fazer sofrer é coisa dos meus piores pesadelos, que agora se tornaram realidade. Eles se tornaram uma coisa diária na minha vida. Não posso fugir deles, porque acordar não resolve mais. Eles estão aqui. A todo momento. Incansavelmente. Há algo bem no fundo me dizendo o quão terrível eu fui para você. O quão desprezível e miserável eu sou. – A voz de Blaine havia abaixo alguns tons e só Kurt poderia escutar. Ele estava cansado demais. Era melhor jogar a toalha de uma vez.
– Oh, por favor. Você já não fez seu discurso? O que mais você quer de mim? – As palavras sentimentais e bonitas de Blaine não o afetariam agora. Não podiam.
Blaine abriu a boca várias vezes, mas ele não conseguia dizer nada enquanto recebia aquele olhar de ódio do Hummel. Eles se encaravam por alguns instantes. Blaine com a respiração ofegante. Kurt agora não escondia mais as lágrimas. Era até melhor que Blaine visse. O Hummel já havia contado como havia se sentido, mas Blaine ver o que ele foi capaz de fazer era ainda pior. Poderia doer em Kurt, mas para seu próprio bem, ele pisaria no coração do moreno.
– Por favor, eu sinto muito... – Disse ele. A voz de Blaine era fraca e embargada. Os olhos brilhavam com as lágrimas.
Blaine não iria brigar mais. Não havia porquê ele ficar brigando com alguém que amava e queria de volta. Ele não estava voltando agora como se nada tivesse acontecido. Ele tinha consciência de sua culpa e brigar com Kurt não melhoraria ou mudaria as coisas. Era claro que Kurt ainda o amava, mas não moveria um dedo para ter o moreno de volta.
Kurt soltou um grito alto; algo entre um grito de dor e riso. Ele olhou para o alto, com as mãos na testa. Ele não estava acreditando o quão sínico Blaine poderia ser. O Hummel insistia para si mesmo que aquilo não era sinceridade.
– Você já disse essa baboseira e olha. – Ele apontou para si mesmo. – Eu continuo com um ódio de você. Sou capaz de dar um soco que você vai sentir toda vez que sorrir. – Blaine voltou a abaixar a cabeça. – Não adianta chorar, não adiantar se desculpar, não adianta dizer que me ama, porque eu não vou acreditar. Você fez a pior coisa que podia ter feito comigo. E pior, fez consciente disso.
Kurt começou a fazer seu caminho de volta para casa novamente. Ele queria encerrar aquilo. Ele não queria ver Blaine chorando e se contorcendo toda vez que ele citava o que o moreno havia feito. Poderia ser maldade, mas ele preferia fazer aquilo e sair, do que presenciar. Ele tinha que sumir da frente de Blaine. Porque se ele ficasse ali por mais alguns minutos, ele faria uma coisa na qual se odiaria para sempre.
– Sabe o que é pior? Não é ver você assim ou sentir essa bola de ar enorme no meu peito, é saber que eu realmente tentei. – Kurt parou, mas continuou de costas. O vento frio maltratava sua pele de porcelana. – Eu tentei de todas as maneiras conquistar você para mim, mas você tinha tanto medo de se machucar, que em nenhum momento pensou como eu ficaria. – Kurt o encarou como se ele tivesse o xingado. Ele havia perdido a sanidade? – Passar a minha vida inteira tendo que superar o Sebastian porque você não consegue esquecer dele, quando para mim, uma palavra sua já é o suficiente para me fazer amar você com todo o meu coração, com toda a sinceridade. – Blaine ficou sem ar por um momento. – Sabe como é nadar contra a correnteza, mas não desistir porque sabe que tem uma coisa na praia que fará a dor nos seus músculos sessarem? Eu sei. – Kurt franziu a testa.
O castanho encarou os dois lados da rua e voltou a se aproximar de Blaine. A rua estava praticamente vazia e apenas algumas lâmpadas natalinas e as casas faziam luminosidade. A chuva de neve estava ficando mais forte e a casa atrás de Kurt estava silenciosa. Por algum motivo ele se perguntava se alguém estava observando aquela cena.
– Isso não tira o fato que eu já estava com você. Você já estava na praia, curado, mas resolveu que dar sinal para um helicóptero seria melhor. – Blaine ainda encarava o chão. O que havia mudado de uma hora para outra? Quase agora o moreno estava cheio de razão, mas agora era como se alguém tivesse tocado em sua ferida: Sebastian. Pensamentos sobre o ex-marido de Kurt vieram à tona.
– Você está me odiando nesse momento e isso que eu vou dizer agora só vai te irritar mais, mas, se lembra de quando eu lhe disse que estar com você é estar em casa? Você sente a mesma coisa comigo... – Kurt apertou os olhos. Da onde estava vindo tudo isso? Blaine não era assim. Onde ele queria chegar? – Só existiram duas pessoas que te fizeram seguro apenas com um abraço, duas pessoas que só de olhar para você sabiam o que passava em sua mente, mas hoje, eu sou a terceira pessoa que consegue te compreender de tal maneira. Eu te trago paz, você sabe que comigo, você pode confiar o maior dos seus segredos e eu me sinto da mesma forma em relação com você.
Kurt queria mandar Blaine calar a boca. Ele não deveria estar falando aquelas coisas. Ele deveria ter aceitado que Kurt não vai ficar com ele e ir embora. Mas o Anderson continuava agindo de forma estranha.
– E daí? Você não valoriza o que tem de qualquer maneira. – Disse Kurt com as bochechas molhadas e cintilantes. Blaine riu com o nariz.
– Já disse que estamos em uma harmonia. Sei que quando me viu, sentiu o mundo voltar ao normal, como ele deve ser, porque foi assim que eu me senti. – Blaine encarou Kurt. O castanho ainda não compreendia isso e Blaine já sabia. Como? – Não senti as cores voltarem ou coisas assim. Senti as coisas fazendo sentido. Não estavam mais em câmera lenta. Tudo estava no seu verdadeiro eixo. A neve caia por uma razão, o vente batia no meu rosto por um motivo, eu ainda amo você porque não importa o quão louco isso é, ninguém vai conseguir explicar. A biologia não poderia provar o que sinto, a química é evidente e a física não acha a solução do meu amor.
Kurt não conseguia mais mexer um músculo. Ele estava preso no chão. Algo em Blaine o prendia ali e ele sabia o que era. O efeito que as palavras de Blaine causavam nele. Kurt queria poder correr agora, mas não importaria, porque ele não faria. Ele não conseguiria. Não viveria mais sem Blaine. Kurt precisava fazer algo rápido.
– Eu não me importo. – Kurt disse com os dentes cerrados. Ele se contorcia no lugar. Ele queria se livrar de Blaine. Não importaria quais seriam os próximos argumentos, ele não queria responde-los. Ele não queria mais brigar.
– Então é isso? Tudo acaba assim? – Blaine limpou os lábios. Kurt ficava cada vez menor e indefeso e Blaine só crescia. – Tudo bem, mas antes eu preciso falar algo. – Blaine olhou no fundo dos olhos de Kurt. – Mesmo eu procurando até do outro lado do mundo, ninguém, ninguém vai me fazer sentir como você. Não importa se olhos são iguais, o cheiro é o mesmo ou até o beijo é parecido, ninguém nunca vai significar tanto para mim quando você, Kurt. Me negue e rejeite o quanto quiser. Eu jamais irei desistir de uma coisa que jamais sairá de mim.
– Isso não é problema meu. – Kurt mordia os lábios com tanta força que era perigoso eles começarem a sangrarem. As mãos apertavam o casaco com tanta força que os dedos começavam a ficar duros. Era como um bombardeio. – Vai embora. – Kurt não encarava Blaine, apenas o chão. Blaine estava incrédulo com a relutância de Kurt.
– Eu vou, mas preciso concluir minha fala. – Blaine se aproximou de Kurt, o forçando a encara-lo. – Se lembra quando fui visitar meu irmão em Los Angeles? – Kurt o encarou. – Se lembra da visão que tive quando cheguei aqui? Na viagem eu havia recebido uma proposta de emprego para ser advogado de um moleque em Nova Iorque. No momento que eu vi Barry, e-eu enlouqueci e aceitei o maldito o emprego. – Kurt franziu a testa. – Então toda a verdade veio à tona, mas era tarde demais, eu já era um dos advogados de Samuel Norma.
– E-eu não-
– É claro que não sabia. – Kurt sentiu uma pontada de culpa e sabia que haveria mais vindo. – Por meses eu fiquei aqui, cuidando dos processos e casos a distância. Tudo isso para não adiantar seu sofrimento. Tudo para não te fazer esperar pelo o dia que eu sairia pela aquela porta. Então, um dia a coisa ficou pior em Nova Iorque e eu precisei me mudar para lá. Você pode se perguntar por que eu não te contei e eu explico porquê: eu não iria te dizer que estava indo para Nova Iorque trabalhar, porque você iria querer me acompanhar. – Kurt sabia que era verdade. – Não queria te fazer pensar na ideia de se mudar comigo e obrigar viver ao lado do seu sonho, se você ainda tem medo de conquista-lo. Não iria fazer você pensar em morar na cidade onde você teve momentos muito ruins há um ano atrás. Ser responsável por tal confusão em sua mente era demais, mas a dor que eu causei foi pior. Não calculei direto quando pensei que a dor de ficar alguns meses longe de mim seria mais fácil do que reviver momentos e decepções em uma cidade como Nova Iorque. Eu pretendia voltar em alguns meses, mas ver você daquela forma, a saudade que eu tinha de você e a infelicidade de ficar trabalhando para aquele pirralho que só estava piorando minha situação e aumentando minha estadia em Nova Iorque, era pressão demais. – Blaine respirou fundo. – Eu desisti do emprego, Kurt e acabei perdendo o direito de ser advogado. O sonho da minha vida se foi. Eu nunca mais poderei ser advogado. – Kurt deixou seu espanto escapar por sua boca. Blaine limpou uma lágrima. – Eu saí de lá com Ian, voltei para cá e gastei até minha última moeda para comprar essa casa de volta.
– Mas isso não tira o fato de que você deveria ter me contado. Você me conhece, Blaine! – O moreno respirou fundo. – E porque você não chegou a me perguntar sobre Barry antes de assinar o maldito contrato?
– Você sempre disse que tem medo de se machucar, mas parou para pensar que na época eu tive medo de cair em um amor unilateral e ficar aqui, sendo seu vizinho e vendo alguém ocupando o lugar que eu sempre quis ter? Isso não é uma desculpa, mas já se imaginou no meu lugar? Já se imaginou tendo que me ver todos os dias com Scott, mas tendo um amor descontrolado no peito? Eu tive medo, Kurt! Eu tive medo de presenciar essas coisas. – Blaine respirou fundo, controlando as lágrimas. Ele finalmente admitira seu medo. – Tive medo que se eu não saísse naquele instante daqui; eu nunca mais seria capaz de sair. Mesmo sabendo que a dor todos os dias seria intensa. – Kurt engoliu em seco. – Você teve dúvidas, mesmo sabendo que Sebastian não voltaria. O que faz de mim tão burro por achar que Barry era Sebastian?
Kurt ficou em silencio. Blaine estava certo. O Hummel queria fazer alguma coisa, mas estava confuso demais. Ele ainda odiava o fato de Blaine ter escondido a verdade, mas compreendia porquê o moreno não contara. Se ele soubesse que o Anderson tivesse chances de se mudar de estado, jamais teria aceitado o pedido de namoro. Blaine o amava demais e tentou de todas as formas conquista-lo. Além disso, Kurt se imaginou vendo Blaine com Scott. Ele não queria. Ele não poderia. Não deixaria.
O castanho olhou para Blaine por um instante e o viu limpando as lágrimas para o chão. Ele precisava fazer alguma coisa. Blaine havia quebrado seu coração, mas quantas vezes Blaine não teve o seu coração quebrado? O moreno praticamente só tinha o irmão como família, havia perdido o ex-marido, teve o filho o odiando, tentou superar Sebastian de todas as formas, teve por um momento, a ilusão de perder o amor de sua vida; aguentou a pressão da mentira por meses, precisou deixar o castanho aqui para não fazer com que ele sofresse ainda mais, perdeu o emprego por Kurt e estava aqui, tendo o coração mais uma vez quebrado, tentando recuperar a única coisa que lhe resta. O moreno estava tendo o pior Natal de sua vida.
Uma perguntava lateja na cabeça de Kurt. Era como se um grande martelo batesse no cérebro do castanho e um eco estrondoso se espalhasse.
– P-por que me ama tanto? O-o que eu tenho de tão especial? – Blaine tirou os olhos das mãos e o encarou como se aquela pergunta o colocasse entre a vida e a morte.
– Porque quando olho para você, tenho a visão clara de como será o meu futuro. Com você, eu encontrei a felicidade que jamais tive. Por inúmeras vezes foi só você sorrir para mim, para que todo aquele passado obscuro valesse a pena. Se eu passei por coisas difíceis na vida, foi porque o destino sabia que mais adiante eu teria um futuro maravilhoso. Perdi diversas coisas nessa vida, mas todas elas são recompensadas quando estou com você. – Blaine encarou Kurt, que logo desviou o olhar. – Sei que está querendo se livrar de mim, mas toda vez que termino uma sentença, é como se uma nova parte do seu coração fosse colada.
– Não é isso que eu quero saber. – Diz Kurt com os dentes cerrados. Como Blaine o conhecia tão bem?
– E você? Por que ainda me ama? – Blaine limpou as lágrimas. Ele colocou as mãos no bolso para tentar se acalmar. Ele iria entrar logo em casa. Aquilo não daria em nada. Milagres de Natal não existiam. Não para uma pessoa como ele.
A pergunta se desfez lentamente na cabeça de Kurt. Por que ele ainda amava Blaine? Por que depois de todo o episódio que os dois passaram ele ainda tinha sentimentos fortes pelo moreno? Por qual motivo Blaine era tão arrebatador e o fazia sentir único no mundo? O Hummel ficou analisando a rua, sem encarar Blaine ou a um ponto específico. Ele analisou toda a situação e relação, chegando a uma conclusão.
O moreno revirou o bolso e tirou as chaves da casa. Blaine deu as costas e deixou Kurt sozinho no caminho entre o gramado. Quando o castanho se deu conta que estava sozinho, procurou Blaine e correu até o Anderson, segurando-o pelo braço.
– Eu te amo porque é assim que as coisas funcionam comigo. Eu preciso ter certeza de que alguém me ama e eu nunca tive dúvida sobre seus sentimentos sobre mim, é por essa sinceridade que meu coração bate diferente quando estamos juntos. Eu te amo porque não importa minha situação, você sempre estará lá por mim. Eu te amo porque você sofreu para me proteger e foi capaz de colocar tudo a perder por mim. Não desistiu de mim por um segundo sequer, inclusive agora. – Kurt se aproximava de Blaine cada vez mais. – Você me pergunta porque eu te amo. Não é obvio? Você me conhecer tão bem já não significa alguma coisa? Se não estamos destinados a ficar juntos, eu não sei o que é isso. – Kurt ficava em silencio por instantes, para que pudesse organizar seus pensamentos e dizer tudo o queria e sentia da maneira mais sincera. – Tive algumas decepções em minha vida, mas uma quantidade menor do que você, e mesmo com o coração rachado e remendado, você foi capaz de entrega-lo a mim sem ao menos questionar. Por que eu vou virar as costas para você, quando você quer, eu quero e ninguém vai conseguir te superar? – O moreno sorriu com aquilo. O primeiro depois de muito tempo. Kurt parou em frente a Blaine, muito perto. – Eu te amo porque você é lindo, corajoso, persistente, inteligente, carinhoso, sincero, generoso, bondoso, um romântico incorrigível. – Uma nova lágrima brotou nos olhos de Kurt. Deveria ser assim que o castanho se sentia quando o moreno se declarava para ele. E o Anderson poderia afirmar que era maravilhosa a sensação de ter alguém o amando dessa forma. – Olho para trás agora e não é a tristeza que me importa, são os momentos felizes, porque são eles que mantiveram esse sentimento que sinto por você aceso. Toda aquela dor não é importante agora, porque no final eu sei que estarei com você. Não irei mais lutar. Não quero saber o que aconteceu em Nova Iorque, só quero saber o que vai acontecer aqui, nessa rua, nessas casas. Cuidarei de você, protegerei você, amarei você e jamais soltarei. – Kurt segurou as duas mãos de Blaine. – A vida já foi cruel demais para eu ficar ajudando-a. Hoje talvez tenhamos tido nossos corações quebrados, mas juntos – Kurt colocou as duas mãos atrás do pescoço de Blaine. – Nosso amor se encarregará de colar cada pedacinho. Nem que seja com mel e açúcar.
Blaine viu aquilo como uma oportunidade para um beijo, então fez. O moreno segurou os dois lados do rosto de Kurt e beijou os lábios de Kurt da maneira intensa. Saudade não era a palavra exata que poderia se encaixar e sim, necessidade. Os lábios do castanho nos de Blaine eram tão necessários quanto a necessidade de um enfermo para um remédio. E de fato eles estavam doentes, mas de amor. A vinte minutos eles mal conseguiam ficar na presença do outro, agora estava nos braços um do outro. Kurt foi o primeiro a se soltar e colar a testa na de Blaine.
– Você não ideia das inúmeras vezes que me perguntei se me sentiria assim novamente. – Blaine passava suas bochechas nas bochechas de Kurt.
– Agora você não vai ter ideia de quantas vezes vai se sentir assim. – Disse o castanho antes de aproximar e capturar os lábios do moreno novamente.
Enquanto os dois homens se beijavam apaixonadamente debaixo da chuva de neve, duas cabeças espiavam pela janela da sala, escondidos no meio dos ramos da árvore de Natal.
– Quando isso aconteceu? – Questionava August. Ele até gostava do Blaine com seu pai, mas sentia nojo de vê-los se beijando.
– Há muito tempo. Até onde eu sei, eles começaram a namorar lá na Universal. – August ergueu as suas sobrancelhas. O Hummel se virou para os familiares.
– Vocês sabiam disso, não sabiam? – Os adultos fingiram que não ouviram, mesmo olhando diretamente para o menino. August rolou os olhos e voltou a olhar para o pai e o namorado na rua. Os dois começaram a descer a rua de mãos dadas. – Sabe o que eu estava pensando e agora faz sentido?
– O quê? – Ian foi se sentar no sofá e pegou uma caneca de chocolate quente que Carole trouxera da cozinha.
– Papai disse que trancamos a porta naquele dia da festa do pijama e o deixamos para o lado de fora, mas passamos boa parte da madrugada acordados e ele nem ao menos bateu na porta. – O menino pegou uma caneca para ele. – Acho que aconteceu alguma coisa na casa do seu pai, quando eles namoravam, porque não faz sentido ele aparecer com aquelas manchas roxas no pescoço-
Antes mesmo que o menino pudesse continuar, Finn havia cuspido o seu chocolate e Rachel se engasgado com o dela. Os dois tossiam em busca de ar. Os dois garotos olharam o liquido e depois um para o outro.
– O que você colocou aqui? – Perguntou Ian. Carole tinha um tom rosado nas bochechas, mesmo a casa estando suficientemente quente.
– Acho que foi açúcar demais...
[...]
Seis anos depois...
– Meninos, desçam! O café está pronto. – Kurt colocou a última caixa de cereal em cima da mesa.
Era o primeiro dia de aula do último ano de Ian e August no ensino médio. Os dois meninos haviam crescido tanto, que estavam mais altos do que Blaine.
Depois de seis anos, Kurt e Blaine finalmente haviam se casado e nunca mais se distanciaram. A família inteira se mudou para Nova Iorque, pois com ajuda de Blaine, Kurt finalmente teve coragem de encarar seu sonho. Hoje, o castanho estava participando de uma pequena peça da Broadway, mas já crescia no ramo. Blaine não havia recuperado sua licença para ser advogado, mas fazia vários testes para ser professor de música ou algo relacionado com piano e violão.
– Bom dia, querido. – Blaine entrou na cozinha e bicou Kurt nos lábios. O moreno se sentou na mesa e deixou o violão no colo.
– Sem violão na mesa. – Pediu Kurt sem olhar para o moreno.
– Vou te fazer uma serena. Deixa eu só pensar na mú-
Antes mesmo que o moreno pudesse dizer mais alguma coisa, August e Ian começaram a descer as escadas, com o Hummel nas costas do Anderson. August segurava as duas mochilas com uma das mãos e batia no final das costas do Anderson. Quando Ian parou na frente da mesa, todos ficaram em silencio.
– Bom dia, senhores. Como estão as coisas por essas bandas? Meu alazão e eu estamos aqui para ajuda-los com qualquer problema. – August forçava um sotaque irreconhecível do Texas. Blaine levantou uma sobrancelha.
– August, saí de cima do seu irmão antes que eu te derrube desse “cavalo”. – O castanho puxou as mochilas da mão do menino e o violão de Blaine. – Quantas vezes vou precisar dizer que não quero essas coisas quando estivermos fazendo refeição? – O castanho colocou os pertences na sala e logo voltou para a cozinha.
– Papai, isso não faz parte do seu texto, não precisa ficar repetindo todos os dias... – Assim que August fechou a boca, recebeu um tapa na nuca de Kurt. Ian e Blaine seguravam a risada. – Aí, isso doeu!
– Ou você come ou a dor vai ser maior. – Kurt se sentou ao lado de Blaine e começou a se servir. – Animados para o último ano? – O castanho pegou algumas panquecas e derramou mel.
– Sim, principalmente por estar frio e podemos estar usando nossos suéteres novos. – Ian se referia ao suéter com um grande “I” que ele usava e outro igual que August usava, mas com um “A” na frente. – Quero deixar mais claro para os trouxas quem é que manda. – A palma da mão dos dois meninos se juntaram.
– Vocês me assustam. – Blaine tomou um gole de seu café. – Está amargo. Onde está o açúcar?
– Vocês não cansam de fazer isso? – Perguntou August enquanto observava o casal se beijar na sua frente. – Isso já deve ter perdido o romantismo de tanto que vocês usam.
– Você deveria pensar a mesma coisa sobre o seu “desliga você” com a Jessica Banks. – August quase empurrou Ian para fora da cadeira. O Anderson segurou a risada.
– Jessica Banks, hãn? – Perguntou Blaine, escondendo um sorriso atrás da xícara de café. Kurt tentou ao máximo segurar o riso, mas não funcionou.
– Nem ao menos pensem em começar. Porque Ian também está de conversinha com a Vanessa Smi- – August nem ao menos teve tempo de terminar a sentença, pois a mão de Ian já cobria sua boca.
– Deram para esconder da gente sobre suas namoradas? – Perguntou Kurt, comendo mais panquecas. Ian fingia que não estava reparando, mas fugia a todo momento dos olhos do pai. Olhos cerrados e desconfiados.
– Ela não é minha namorada. – Disseram os dois meninos em uníssimo. Provavelmente até o tom havia sido o mesmo.
– E Kurt e eu não somos casados... – Blaine tinha um olhar julgador em cima dos garotos.
– Se continuassem escondendo da gente o relacionamento, não duvido nada. – Disse August. Ian levantou uma sobrancelha para o pai e sorriu. Ser irmão de August era melhor coisa.
– Meu Deus, já fazem seis anos. – Disse Blaine, fazendo toda a mesa rir. – Gostamos de manter privacidade... – Continuou. August já ia levantando o dedo e por algum motivo, Kurt sabia que aquilo tinha a ver com a verdade sobre as antigas manchas roxas no seu pescoço.
– De qualquer forma... – Kurt tomou a palavra antes do menino. – Já decidiram para qual faculdade irão? – Kurt tocou no assunto mais tenso dos últimos meses. August e Ian se olharam e concordaram com a cabeça. Agora o clima estava tenso e pesado. A atenção dos dois homens eram nos jovens a sua frente.
– Ian e eu conversamos e decidimos que vamos para a NYU. – O Anderson concordou. Blaine e Kurt dividiam seus olhares entre os dois. – Podem nos chamar de crianças e tudo mais, mas não queremos ficar longe de casa. Não estamos preparados para ficar longe de vocês. – Ian concordava com tudo. August olhou para Ian, dando a deixa para ele falar.
– Então achamos melhor ficar pelo o estado mesmo, porque qualquer saudade, podemos voltar para casa em menos de uma hora. – Ian continuou. – Demoramos tempo demais para nos tornamos o que somos hoje e acho que não estamos prontos para deixar a casa de nosso pais ou cheios dessa energia e segurança que a presença de vocês nos passa. – Kurt tentava ao máximo não chorar ao ver seus meninos crescidos agindo daquela forma.
– Vamos embora, prometemos, mas não será tão cedo. – August segurou a mão de seu pai e de Ian, que segurou a mão de Blaine e o casal fechou o círculo. Todos se encaravam agora. – Amamos o que temos aqui e por enquanto, nossa pequena família é o único lugar que podemos nos refugiar e estar bem. – O Hummel olhou para todos. – Estar com vocês é estar em casa. Amamos vocês.
Kurt e Blaine se desmanchavam em lágrimas. Até August ameaçava a chorar. Por sorte a mesa era pequena, porque de um modo desajeitado, os quatro deram um abraço coletivo.
[...]
Pessoas vem e vão. A família que um dia foi da oitava rua agora se encontrava em um apartamento em Nova Iorque. O amor e carinho que eles sentiam entre si era maior do que qualquer exame biológico. A união que eles tinham era a mais bela de todas.
Kurt e August, assim como Blaine e Ian, jamais imaginariam que suas vidas mudariam tão drasticamente quando se mudaram para Flórida. Kurt, Blaine, August e Ian ficariam para sempre juntos. Ganhar pais, filhos, maridos é algo que não estava nos planos ou expectativas, mas a vida as vezes nos surpreende de uma forma que não poderemos compreender.
Da mesma forma que a vida nos surpreende, ela pode ser amarga, nos derrubar e laços desfazer, mas com um pouco de açúcar, tudo pode se resolver.
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