Açúcar?
17 17
Notas iniciais
Como dizem, a vida é única e só temos uma oportunidade; uma chance. Que nós possamos fazer todas as nossas vontades, alcançar nossos objetivos e ter sucesso em tudo o que fizermos. Seria melhor que em nosso último dia, não tenhamos algo para qual nos arrependermos por não ter feito.
Medo. Medo é algo que todos nós, de alguma maneira, temos. Quando crianças, medo do escuro ou de algum monstro que possa viver em baixo de nossas camas. Quando adolescentes, medo de falhar ou de algum mal julgamento. Quando adultos, medo de que não seja tão tarde ou que algo tenha valido a pena. Quando velhos, medo de que não tenhamos feito o suficiente, porque quando esse dia chegar, talvez não teremos mais um motivo de estar aqui.
Quando Kurt descobriu a doença de sua mãe, foi algo que o fez temer. Talvez naquela época, ele compreendia sobre os medos ou simplesmente era diferente o bastante para não temer o escuro. Kurt sabia o que a doença causava e o que aconteceria com sua mãe. O medo de Kurt era perde-la, pois ele sabia que nunca mais sua vida seria a mesma. Elizabeth não o veria crescer; não o veria andar de bicicleta pela primeira vez; não o consolaria com a primeira vez em que ele tivesse seu coração partido; não estaria ao lado dele quando ele declarasse seu amor a seu marido ou quando seu primeiro filho nascesse. Elizabeth, não poderia ter feito tudo, ela ainda tinha motivos para estar ali. Kurt não entendia porque ela tinha que ir.
Atualmente, o Hummel já havia crescido, chorado por amor, declarado seu amor e tido seu primeiro filho. Por quais motivos, a única pessoa que lhe havia sobrado deveria ficar aqui? Ela já não havia cumprido sua “missão”? Não. A vida de Kurt não poderia se resumir só naquilo para não ter quem ele amava para testemunhar. Quem havia lhe sobrado não poderia simplesmente ir, porque Kurt havia tido sucesso. Aquilo não poderia ser uma culpa que ele teria que carregar.
No final, a vida é como uma estrada. Algumas são longas, outras nem tanto. Alguns de nós podem até tropeçar, mas isso não significa que precisamos ficar lá. Os que recebem um caminho longo, mas não chegam até o final, é porque tiveram muita pressa e não repararam em algum buraco a sua frente. Os que recebem o caminho curto, são os mais especiais, são os sábios, que apreciam a vida, são aqueles que conseguem remover as pedras do caminho com mais facilidade, passar mais confiantes pelas tempestades, saltar os buracos, encontram as pessoas certas, no tempo certo e sabem aproveitar isso. Eles vivem intensamente a cada passo. Os que recebem o mais longo, são aqueles que aprendem a serem sábios, têm tempo para colher as coisas boas, tropeçar algumas vezes nas pedras, ter seu caminho cruzado com o de outro alguém e ensinar aqueles que começam uma nova caminhada. Esses, eles vivem e transcendem.
Não podemos ter medo de chegar ao fim do caminho, só não podemos correr para ele, pois lá, quando você encontrar a luz, ela não fará sentido, porque tudo o que ela iluminou, não valeu de nada. O medo de ver alguém que se ama chegar ao fim do caminho é normal, mas é a vida está te dando um novo rumo, uma nova saída, um novo caminho, cabe a nós, decidir explora-lo como nos foi ensinado e valorizar isso, ou tropeçar em um buraco.
[...]
– Pai, tio Inn está no telefone. – Anunciou August. Eram onze horas da noite.
Kurt, com as sobrancelhas franzidas, foi até o menino e pegou o telefone de suas mãos. Ele por um momento pensou que algo estivesse errado com Barbra e o irmão estivesse precisando de ajuda.
– Finn? Sou eu. – Respondeu Kurt no telefone.
– Oi, Kiddo. – Finn estava o chamando de “Kiddo”, Kurt já sabia que não era coisa boa e a julgar pela voz de Finn, realmente não era. – E-eu estou ligando para te avisar que... Rach, e-eu não consigo. – Disse ele conversando com Rachel, que provavelmente estaria ao seu lado.
– Avisar o que Finn? – Kurt se sentou no braço do sofá, enquanto tinha o olhar atento de August sobre ele.
– É o papai...
– O que tem o papai, Finn? – Kurt começou sentir um tremor nas pernas e uma dor um pouco mais acima do meio das sobrancelhas. August começou a ficar preocupado e franziu os lábios e sobrancelhas.
– Kurt, papai está no hospital em estado muito grave. – Kurt colocou a mão direita sobre a boca. – O câncer do papai voltou a atacar e-e os médicos estão dizendo que talvez ele n-não... E-ele não consiga sobreviver. – Finn não aguentou e começou a chorar no outro lado da linha.
Kurt deixou o aparelho encontrar o chão, enquanto se desmanchou até cair sentado no chão, segurando os joelhos e chorando.
August ficou sem entender e correu para o aparelho.
– Alô? Tio Finn? – Perguntou o menino, mas ninguém respondia, ele só ouvia o choro de alguém ser abafado. – Tio Finn?! – O menino aumentou o tom de voz.
– Gus, sou eu, tia Rachel. – Disse a morena com a voz estranha. Seu pai e tio estavam chorando e sua tia estava com a voz estranha e não estava cuidando disso. Algo não estava bem para August.
– O-o que está acontecendo? É com a Barbra? Com o meu tio? O-o que foi? – Perguntou o menino.
– Querido, preste atenção. Seu avô, está com um problema grave de saúde. Nós estamos no hospital aguardando por respostas. – A morena se via numa posição delicada para explicar aquilo ao sobrinho. – Talvez o vovô Burt não consiga passar por essa...
– Não... Tia, diz que é mentira. – August começou a chorar. – Ele não pode. E-ele não- — August começou a liberar soluços abafados, que vinham do fundo de seu peito, passavam por toda sua garganta e clamavam por ajuda, quando liberados pela boa. – N-nós vamos para Nova Iorque. – Disse o menino um tempo depois. – Mande uma mensagem no telefone do papai com o endereço do hospital.
– August, seu pai não está em condições de dirigir. – Pediu Rachel.
– Mas eu quero o vovô, eu quero ficar com ele. E-eu- — August mordia os lábios para tentar conter o choro. – Blaine pode nos levar até Nova Iorque. E-eu vou pedir para ele, e-ele vai entender e fazer isso por nós.
– August-
– Tia Rachel, por favor. Eu estou te implorando. Por favor. – O menino continuava a chorar. A morena sabia que não poderia fazer aquilo com o menino, perder um dos pais já é triste, perder o avô seria demais. Ela não gostaria de ser o empecilho para August e Kurt se despedirem do avô e pai. – Eu prometo que não vai ser o papai quem vai dirigir.
– Tudo bem. Vou mandar uma mensagem para o celular do Kurt assim que desligar esse telefonema. – Respondeu ela. – Agora, vá falar com Blaine e tome conta do seu pai. Ele precisa de você.
– Tudo bem. Até daqui a algumas horas, tia. – O menino desligou o telefone e correu para abraçar o pai. Kurt colocou seus dois braços em volta do menino e o apertou forte, desejando que eles nunca mais se separassem. Primeiro Elizabeth, depois Sebastian, com Burt nessa situação, Kurt não queria perder August de vista. – E-eu preciso ir falar com Blaine. – Kurt não o soltou. – Pai, e-eu preciso falar com o Blaine, nós precisamos ir para Nova Iorque. – Kurt não queria perder o contato, o cheiro, a voz, os olhos de August. Kurt estava transtornado. – Papai, pelo o amor de Deus, se acalma. E-eu não vou sumir, eu prometo. – Kurt não parecia estar escutando. – Papai, por favor.
August conseguiu se libertar dos braços do pai, que começou a se encolheu e tampou os ouvidos. Kurt estava tendo um ataque. Aquilo era o resultado da perda de Sebastian. Quando foi sua mãe, Kurt ficou parado e chorando por horas; quando foi Sebastian, Kurt teve uma crise e começou a gritar e chorar, August não queria descobrir qual seria o próximo nível do ataque de pânico do seu pai.
O menino aproveitou a oportunidade e saiu correndo pela porta. August atravessou os dois jardins e começou a tocar rapidamente a campainha da casa de Blaine. O menino tocou repetidas vezes e sem parar, até que Ian abriu a porta, um pouco sonolento.
– Gus? O que está fazendo aqui? Esqueceu o Bob aqui? – Perguntou o menino. Quando o castanho tinha um pesadelo, dormia com um dinossauro de pelúcia. – August, você estava chorando? – Ian colocou a mão no ombro do vizinho, para analisar o caminho das lágrimas do menino.
– Cadê o seu pai? Blaine! Blaine! – Chamou o menino, um pouco alto. Blaine apareceu no topo da escada, fechando seu roupão azul marinho.
– August? O que está fazendo? Está tarde, eu estava prestes a-
– Blaine, me ajuda. – O menino correu até o vizinho e o segurou pelo roupão. – M-meu avô está no hospital em estado grave. – Blaine arqueou as sobrancelhas e se abaixou ao nível do menino. – Papai está tendo uma crise de pânico e eu só tenho você. Por favor, me ajuda. – O menino continuava chorando. Blaine nunca tinha visto um August tão vulnerável e assustado.
– É c-claro, querido. O que eu posso fazer por você? – Perguntou ele, analisando o rosto do menino. Ian veio por trás de August e passou seu braço esquerdo nas costas do menino, o abraçando.
– Me leve para Nova Iorque. E-eu prometo que meu tio te paga a gasolina, pedágio, q-qualquer coisa, mas por favor, nos leva para Nova Iorque. E-eu quero meu avô, e-ele precisa saber que eu amo ele.
Blaine passou os braços por volta do menino e o abraçou fortemente.
– Filho, pegue minha mochila de acampar, coloca algumas roupas minhas e suas, não sabemos quanto tempo vamos ficar lá. – Pediu Blaine. O garoto concordou e começou a subir as escadas, por uma fração de segundos, olhou para trás e viu o amigo totalmente quebrado.
[...]
Enquanto Ian ia arrumando as coisas, Blaine e August foram até a casa dos Hummel, para que eles pudessem ir arrumando as coisas de Kurt e ver como estava a situação do mesmo.
Quando entraram, foram direto para sala, o lugar de onde vinham os gritos do castanho. Kurt estava com um porta retrato em mãos e prestes a joga-lo no chão. Era um porta-retrato de Kurt, August, Sebastian e Burt.
– Pai, não. – Chamou August. Kurt ignorou e jogou mesmo assim.
O Hummel começou a jogar todas as coisas da mesa de centro no chão, ele pegou as almofadas e começou a atacar por todo o lugar.
– Kurt, se acalma. – Pedia Blaine, mas sem sucesso. August foi tentar conter o pai.
– Papai, para. – Pediu o menino tentando segurar Kurt, mas o castanho estava cego e surdo. Ele não parava de jogar e quebrar as coisas. Blaine correu para fechar a porta da entrada e evitar barulho para os vizinhos. Quando voltou, viu Kurt arremessando coisas em direção ao filho. – Pai, não faz isso. – O menino pedia enquanto se protegia dos objetos com uma almofada. Kurt pegou um vaso que ficava em cima do rack e levantou os braços. – Pai, por favor, para.
Blaine correu até Kurt e segurou seus braços, antes que ele atacasse no menino. Blaine tentou descer os braços de Kurt, mas o Hummel tinha uma força desconhecida até então pelo moreno. Blaine usou toda sua força, até que desceu os braços do castanho e o envolveu em um abraço. O Anderson aproveitou que estava abraçando Kurt por trás, tentou dizer palavras de conforto para ele.
– Kurt, por favor, se acalma. – Kurt não respondia, só se debatia enquanto era envolvido no abraço. – Kurt, sou eu, Blaine, por favor, vai ficar tudo bem. – Blaine sussurrava enquanto tentava conter a força o homem. – Vai ficar tudo bem, eu estou aqui com você. – Kurt voltava a chorar e a gritar, mas dessa vez, um grito de alguém que tinha uma dor terrível no peito. – Eu não vou sair de perto de você, eu prometo. Eu estou aqui e não vou sair. – Kurt forçava ao máximo para poder se livrar, mas chegou um certo ponto em que sua crise cessou e ele perdeu todas as suas forças, deixando o vaso cair e se entregar aos braços de Blaine. – Se acalme, querido. Por favor, vai ficar tudo bem. Eu estou aqui agora, vai passar. – Blaine começou a chorar junto com o castanho, quando Kurt virou sua cabeça e colou sua testa com a têmpora de Blaine, se acalmando a voz do moreno. Ele se sentia péssimo ao ver Kurt assim.
Blaine e Kurt respiravam pesadamente e tinham as testas coladas enquanto choravam. Os dois deslizaram até encontrar o chão. Blaine abraçou o vizinho mais perto, enquanto passava a mão sobre os cabelos e pele de castanho e dizia palavras de conforto, com o intuito de acama-lo ainda mais.
O advogado deu um sinal com olhar, para que August fosse para o andar de cima e arrumasse as coisas para a viagem. O menino se levantou do chão e foi correndo para o quarto do pai.
[...]
Blaine dirigia tranquilamente por todo o caminho, as vezes ele dava uma olhava pelo retrovisor a situação de Kurt. O castanho estava devastado. Ele não falava nada, parecia estar fraco e cansado, mordia os lábios, fungava silenciosamente e tinha os olhos cheios de lágrimas não derramadas, enquanto observava uma foto que parecia ser de seu pai em seu celular.
Kurt o amava demais e detestaria chegar tarde demais para dizer aquilo para o pai.
O moreno respirou fundo e voltou para a estrada. Ele gostava muito de Kurt, vê-lo daquele jeito, acabava com ele. Ele amava do sorriso de Kurt, os olhos brilhantes que ele tinha e se Burt fosse embora, dificilmente ele veria o rapaz assim.
Ian, que estava ao lado pai, ficava encarando a paisagem que passava pela janela. A mente do menino não parava de pensar como ele se sentiria se algo acontecesse com Blaine ou sua avó Pam, ele não tinha muito contato com seus avôs, então não teria como saber exatamente o que August passava, mas era quase a mesma coisa.
O que o menino sabia, era que a dor da perda era muito grande, mas perder uma pessoa, que nesse caso nunca mais voltaria, era terrível. Sem o pai dele, ele não teria mais ninguém. Havia Scott, mas ele parecia mais um tio distante do que um pai, Cooper era mais próximo do menino que ele. Scott nem ao menos tinha vindo-o visitar ou quis saber como estavam as coisas na Flórida.
O Anderson mais novo olhou para trás, August também olhava pela janela, só que o menino chorava silenciosamente. Assim que sentiu alguém olhando para ele, August virou direto para o amigo. August estava parecendo um menininho de três anos, quando rala o joelho. Ian olhou para Kurt e depois para o menino, dando a entender que o menino precisava abraçar seu pai.
August encarou o pai. Os dois estavam tristes, mas se o seu avô morresse, ele teria o pai para acolhe-lo e ajuda-lo com a dor, mas quem faria o mesmo por Kurt? Seu pai precisava dele, um precisava do outro nesse momento.
– Pai... – Chamou August bem baixinho. Depois alguns segundos, Kurt começou a se mexer e lentamente levantou os olhos para o filho. August viu os olhos molhados de Kurt e sentiu péssimo. – Eu te amo, e-está bem?
Kurt não aguentou e finalmente chorou novamente. O menor dos castanhos, foi para mais perto do pai e o abraçou. O mais velho soluçava em cima da cabeça do filho de uma forma desconfortável, mas não mais que a sensação em seu peito. O menino segurou fortemente a cintura do pai, o trazendo mais para perto e tentando espremer toda aquela dor dele.
Depois de incontáveis minutos e lágrimas, inclusive dos dois nos bancos da frente, Kurt começou a se endireitar no banco e pegou as mãos do filho.
– Eu sinto muito. – Kurt segurou mais um fluxo de lágrimas depois de sua declaração. – E-eu não me sinto tão fraco, impotente e incompetente desde que seu pai se fora. – August abaixou a cabeça por alguns segundos e voltou o olhar até o pai. – Eu tive uma nova crise quando vi que meu pai está fugindo de nós e eu não queria te machucar naquela hora. Você sabe nisso, certo? E-eu nunca machucaria você. – August concordou. – Eu só queria poder fazer alguma coisa por ele, mas eu não sei se chegarei a tempo...
Kurt não precisou dizer mais nada, August já estava deitando a cabeça de seu pai em seu colo e fazendo carinho em seus cabelos.
[...]
Os três chegaram ao hospital e estavam no elevador, indo para o andar que Rachel havia posto na mensagem. August estava com os braços envoltos a cintura do pai. Blaine, sem pensar muito, pegou a mão esquerda de Kurt e a entrelaçou com a sua, com a mão livre, segurou a de Ian.
Quando as portas se abriram, eles deram de cara com um corredor branco e silencioso. Eles começaram a caminhar assim que Kurt deu o primeiro passo. O Hummel parecia tenso.
Quanto mais se aproximavam, mais era possível escutar o som da televisão. Até que aos poucos eles foram vendo a recepção ao lado esquerdo, logo um sofá branco apareceu, um vaso de planta. Eles pararam na curva da sala, onde Kurt pode olhar para todos, a procura de sua família.
Tirando a cabeça das mãos, Finn levantou sua cabeça e encontrou o olhar do irmão. Finn começou a se levantar e ir até Kurt. Até certo ponto, o grandão andou, depois ele começou a correr entre as poltronas até o irmão. Quando chegou perto, Finn segurou Kurt com toda sua força, chorando junto com o irmão.
Enquanto os dois ficaram abraçados no corredor, Blaine guiou as crianças até Rachel e Carole. August foi se sentar no colo da avó, para ser confortado e Blaine se sentou ao lado de Rachel, com Ian ao seu lado.
– Olá, Rachel. – Disse o moreno para ela.
– Oi, Blaine. – Disse ela formando um sorriso fraco. – Obrigado por traze-los até aqui. – Disse ela.
– Sem problemas. Eu não poderia negar o pedido de August e nem deixar Kurt naquela situação. – Rachel sabia muito bem do que ele estava falando. Depois de um tempo, Blaine voltou a falar com ela. – Como está Burt?
– Desde a hora em que eu liguei até agora, o quadro dele continua se avançando e piorando. Burt estava com câncer e escondeu esse tempo todo de nós, inclusive Carole. Ela acha que ele veio para cá porque aqui tem um melhor tratamento para o caso dele. Achávamos que ele estava visitando a cidade ou trabalhando quando saia em algumas tardes. – Blaine deixava seus olhos se arregalarem mais a cada confissão. – Sem contar, que nesses últimos tempos, ele queria ter certeza de que todos nós estávamos felizes; ajudava Finn e eu com brigas e ligava sempre para Kurt, para ter certeza que tudo estava bem, mas nunca aparentava dor, tontura, nada. – Blaine concordou, indicando que havia entendido.
– Ele está dormindo? Acho que Kurt se sentiria um pouco melhor se conversasse com ele... – O moreno voltou a olhar para os irmãos, que estavam nas mesmas posições.
– Sim. Ele começou a se sentir mal ontem e acabou desmaiando, nós o trouxemos para cá, desde então não acordou, mas ainda está... – Rachel não concluiu a frase. Blaine voltou a concordar.
– Venha meninos, vamos achar a lanchonete. – Disse Blaine se levantando. Ian levantou com o pai, mas August nem se moveu. – Vem, Gus, nós já voltaremos. Saímos tarde de casa e vocês ficarem até agora sem comer, não é bom. – O moreno ofereceu a mão, e só depois que avó sussurrou algo no ouvido dele, ele aceitou e saiu com Blaine.
Rachel e Carole ficaram observando a facilidade e carinho que Blaine tinha com August.
[...]
– Com licença, são vocês que estão acompanhados com senhor Burt Hummel? – Perguntou uma enfermeira com um vestido branco e uma prancheta.
– Sim, somos nós. Onde está meu pai? Ele está bem? Posso vê-lo? – Kurt havia se levantado, Finn estava ao seu lado.
– Na verdade, o senhor Hummel deseja ver todos, mas no momento ele deseja ver Rachel Berry e Barbra Berry-Hudson. – Informou ela.
Todos ficaram um pouco chocados com aquilo, inclusive Rachel. Quando Kurt havia chego no hospital, eram nove horas da manhã e agora já eram dez da noite. Por sorte, Rachel havia pedido que a babá trouxesse a menina há algumas horas atrás, pois ela não estava se sentido muito bem em casa.
Rachel, não muito certa se deveria estar fazendo aquilo, se levantou da poltrona com a filha no colo e acompanhou a mulher até sala.
Todos tiveram que esperar por volta de vinte minutos, até que a morena saiu da sala chorando e se sentou onde estava. Ela ficou em silencio e não quis falar com ninguém, incluindo Finn.
A enfermeira voltou e chamou por August. O menino foi até a sala sozinho e ficou com o avô por mais meia hora. Kurt e Finn não estavam mais se aguentando. Eles precisavam ver o pai deles. Quando August saiu da sala correndo e chorando, Blaine teve que ir atrás dele, porque agora era a vez de Kurt e Finn.
Os dois seguiram a mulher e andaram até poucos metros para longe da sala de espera. A mulher abriu a porta e eles entram de mãos dadas. A primeira coisa que eles fizeram, foram encarar seu pai com alguns fios conectados ao seu corpo, que estava coberto por um lençol branco.
– Meus meninos. – Disso Burt e formou um sorriso no rosto. – Venham, se aproximem do pai de vocês. – Burt só conseguiu abrir um pouco os braços, devido suas condições.
Os dois se separaram e cada um foi para um lado do pai e choraram enquanto seguravam as mãos do homem. Burt precisou fechar os olhos e se manter forte, pois talvez não conseguiria dizer aquelas palavras novamente para seus filhos.
– Papai, eu te amo. E-eu fiquei com muito medo de não poder te dizer isso, mas eu te amo, papai. Eu te amo muito. Por favor, não vá. Não nos deixe aqui sozinhos. O senhor é tudo o que eu tenho. – Kurt olhava nos olhos do pai e tinha as mãos do homem perto de seu peito.
– Ei, não fale assim. Combinamos que só falaríamos disso quando Finn e Carole estivessem longe. – Burt piscou para Finn. – Eu também te amo, Kiddo. Eu amo os dois. Muito. – Ele mais uma vez encarava o mais alto.
– Pai, o senhor me deixou com tanto medo. E-eu estou com tanto medo de te perder. Por favor, papai. – Pedia Finn. O grandão chorava enquanto fazia o apelo para o pai. – Eu te conheço, o senhor é forte, vai passar por essa também. Não nos deixe sozinhos, precisamos de você.
– “Papai”. Não querendo me inflar, mas me sinto orgulhoso de poder ouvir isso de você, Finny. Isso significa que eu pelo menos significo algo para você. – Disse ele.
– Você significa muito para mim. Você é meu pai. Demorei para compreender isso, mas você é meu pai. – Finn apertava a mão de Burt. O velho a soltou e passou pelo rosto do filho.
Burt fez a mesma coisa com Kurt e deixou uma lágrima cair.
– Eu sinto muito, meninos. – Burt disse. – Sinto muito se talvez não tenha sido o pai ideal, se não tenha feito todas as suas vontades. Sinto muito por todas as vezes que não deixei vocês voltarem para casa tão tarde, sinto muito quando os deixei de castigo e tirei o vídeo game ou a máquina de costura. – Disse ele olhando e sorrindo para Kurt. – Sinto muito por não estar lá para tomar todos os slushies por vocês, por não tampar seus ouvidos quando foram ofendidos, por não segurar vocês quando foram empurrados contra os armários. – Burt estava chorando novamente. – Finn, me desculpe por não estar com você quando está em campo e lhe machucam, por não estar ao seu lado quando Barbra não se sente bem, por não te dar conselhos quando você e Rachel brigam. – Ele se virou para Kurt. – Eu sinto muito por não ter dado a minha vida em troca da de Sebastian, por ter sido um avô tão distante, por demorar muito parar perceber quem era meu filho e não saber o que se passava com você nos tempos de escola, sinto muito por não ter-te incentivado a continuar tentando as audições e te deixar se tornar independente tão cedo. Sinto muito por não ter sido o pai perfeito.
– Você já é o pai perfeito. – Disse Finn.
– Sim. Você nos deu o mais importante: amor. Nada se compara isso. Sebastian morrer ou Finn se machucar, são coisas que o senhor não pode evitar, não é algo que está ao seu alcance. – Finn concordava com cabeça. – Nosso sofrimento não é algo que pode ser transferido, pois temos que aprender com eles. – Burt encarou o filho por alguns segundos e depois olhou para Finn, que concordou.
– Que bom que pensa assim, pois irei lhes decepcionar pela última vez. – Disse Burt.
– C-como assim? – Questionou o moreno um pouco confuso.
– Meninos, em nossas vidas chega um momento no qual precisamos encerar a nossa viagem-
– Não. – Kurt começou a ficar tonto e sentir aquela mesma dor no meio da testa. Finn ainda parecia confuso.
– Eu quero dizer que minha viagem pela vida foi maravilhosa. Eu vi e conquistei coisas maravilhosas. Hoje posso olhar para trás e ver tudo o que eu cultivei. – Finn agora tinha entendido e já estava começando a chorar e tremer. – Tive dois amores, o primeiro me deu um lindo filho de sangue. O segundo, me deu outro filho de coração. Nessa caminhada, tive problemas, como minha doença, mas tive vitórias, vi meus filhos crescerem, virarem homens, se casarem, me darem três netos.
– Três? – Perguntou Kurt. Burt olhou para o outro homem.
– Parabéns, Finn. Você finalmente vai conseguir seu jogador. – Disse Burt sorrindo para ele. Kurt ficou surpreso e olhou para o irmão, também com um sorriso.
O moreno sentiu como se uma bola de sentimentos tivesse se chocado com o seu corpo. Pelo menos em toda aquela dor, havia uma pontinha de felicidade.
– Rachel...? – Perguntou o homem sem completar a frase.
– E quem mais, meu filho? – Brincou Burt. Finn sorriu. Ele seria pai novamente. – Enfim, minha vida não foi focada apenas em vocês, porque tive que deixar que vocês abrissem suas asas e voassem para longe do meu ninho. Posso dizer que terminarei minha viagem feliz, pois fui um homem feliz. Obrigado por serem os melhores filhos que um homem poderia ter. – Concluiu ele.
– Não, isso não está certo! O senhor precisa tentar, nós precisamos de você aqui. Sua hora, ou sei lá, não é agora. Você tem que ficar melhor, eu pago o que for. – Kurt puxou a mão do pai para mais perto do seu peito. Ele queria sentir aquela mão quente enquanto ainda podia.
– Oh meu filho, eu sinto. Eu não irei ficar melhor. Meu quadro só vinha piorando. – Disse ele como se não fosse nada.
– Não, não pode ser. Pai, não! – Finn abraçou o pai, que estava deitado na cama. Burt beijou a testa do filho. – Papai... – Burt sussurrou no ouvido de Finn, para que ele fosse chamar a mãe dele. Faltava Carole. Finn se levantou e meio receoso, soltou a mão do pai e saiu da sala.
Burt olhou para o outro filho e o viu no chão, abraçando os joelhos e chorando. O velho conseguiu ver que todos os ossos do corpo do filho tremiam.
– Filho, suba aqui na cama. Eu quero te dar mais um beijo. – Falou Burt oferecendo a mão para o homem.
– Último beijo? Não! Como você consegue agir como se nada estivesse acontecendo? Você está morrendo! E se despedindo! Você está morrendo e não está nem tentando ficar aqui por nós! Qual o seu problema? Você não está entendendo? Eu não posso perder você também. Você não pode me deixar sozinho. – Kurt segurou os ombros do pai e lhe encarou nos olhos, que também estavam derramando lágrimas. Não era isso o que Burt queria para o filho, como ele poderia ir em paz, sendo que estava deixando uma tremenda dor no peito do filho? – Você não pode me deixar sozinho. – Kurt gritava. Ele estava novamente entrando em pânico. O peito dele subia e descia freneticamente, sua respiração era pesada. – Eu preciso de você. – O homem não se aguentou e deixou seu corpo cair sobre o de seu pai, ficando com o rosto na curva do pescoço de Burt. – Não vá. Eu preciso de você aqui. – Os soluços de Kurt faziam com que seu corpo pulasse em cima do de Burt, de tão fortes.
Burt começou a mexer nos cabelos do filho pela a última vez, com um pouco de dificuldade na respiração, sentiu o perfume do filho mais uma vez e beijou a testa do menino mais uma vez, como havia feito com o Finn. Ele estava se despedindo.
– Eu te amo, meu menino. Eu sempre vou te amar. Sempre. – Kurt chorava cada vez mais. Aquelas palavras deveriam significar, mas não significar tanto. Porque elas significavam que eram as últimas.
Logo em seguida, Carole entrou na sala com Finn. Kurt saiu de cima de seu pai e correu para os braços de Finn.
Burt não precisou dizer nada para a esposa, ela simplesmente se aproximou dele e chorou. Ele não aguentou e começou a chorar mais uma vez. Burt sentia que perdia metade do coração se despindo dos filhos, da nora e dos netos, mas Carole era perder a outra metade inteira do coração.
Em um soluço do homem, ele acabou ficando sem folego. Carole rapidamente saiu de cima do peito dele. Ela olhou nos olhos verdes de Burt. Os olhos que foram sua casa por tantos anos. Os olhos que cuidaram dela, que amaram ela. Os olhos que agora estavam perdendo a cor lentamente.
Carole fechou os olhos e encostou sua testa, junto a de Burt e segurou os dois lados do rosto do homem. Eles ficaram ali por alguns minutos, até que ela finalmente o beijou nos lábios pela última vez. Ela tranquilamente pegou uma poltrona que estava na sala, sentou-se e segurou a mão direita do homem, não querendo tirar os olhos dos dele.
– Finny, chame Blaine, por favor. – Pediu ele.
O jogador não entendia muito bem, mas mesmo assim fez a vontade se seu pai.
– Pai, o que está fazendo? – Perguntou Kurt, pegando a mão esquerda do pai.
– O que eu deveria ter feito há muito tempo. – Kurt franziu o cenho e esperou Blaine entrar na sala.
Quando o moreno entrou, junto a August e Ian, o homem sorriu para ele. August correu e ficou atrás do pai. Rachel, Finn e Barbra foram para o final da cama. Blaine ficou sozinho, encarando a todos, sem entender muito bem. Quando olhou para Burt, o homem estava lhe oferecendo a mão direita. Blaine lentamente caminhou e pegou.
– Olá, senhor. – Disse ele, para o pai de Kurt.
– Eu quero te pedir uma coisa. – A voz de Burt já não era mais a mesma, ela já estava baixa e rouca. Blaine concordou. – Cuide dele.
Lentamente o homem começou a juntar as mãos, que seguravam a de Blaine e Kurt, até os dois entrelaçarem os dedos. Eles se olharam. Blaine um pouco confuso e Kurt sem expressão alguma, pois sabia o que aquilo significava. O moreno foi até o outro lado da cama, com ajuda de Kurt e olhou para Burt, que sorriu para as mãos.
August foi para a frente de Kurt e Ian para frente de Blaine. Carole voltou a segurar a mão direita de Burt. Finn abraçou Rachel, que tinha Barbra no colo e a cabeça no ombro de Finn. Burt encarou toda sua família reunida. Ele se sentia feliz, ele teve tudo de melhor. Ele amou, ele foi amado.
Burt começou a tossir.
– Pai. – Kurt murmurou com uma voz manhosa, com medo do que estava prestes a acontecer.
– Kurtie, cante para mim. Por favor. Eu preciso disso só mais uma vez. – Disse Burt enquanto tinha os olhos fechados. Kurt se sentia inseguro. – Por favor, filho. – Pediu ele, um pouco frustrado.
Kurt
Yeah, I'll tell you something
I think you'll understand
When I say that something
I wanna hold your hand
I wanna hold your hand
I wanna hold your hand
Kurt cantava enquanto lágrimas rolavam pelo seu rosto. Era doloroso demais tudo aquilo.
Oh please, say to me
You'll let me be your man
And please, say to me
You'll let me hold your hand.
Now let me hold your hand,
I want to hold your hand.
And when I touch you I feel happy inside.
It's such a feeling that my love
I can't hide, I can't hide, I can't hide...
O castanho preciso dar uma pausa na música, pois um soluço acabou saindo de seu peito. Kurt queria poder cantar aquilo da melhor maneira, mas ele não conseguia. Todos na sala, até a pequena Barbra, estavam chorando.
– Eu te amo, pai. – Finn disse enquanto Kurt chorava.
– Eu te amo, Burt. – Disse Rachel.
– Eu te amo, meu amor. – Disse Carole, enquanto apertava a mão do marido.
– Eu te amo, vovô. – Por coincidência, Rachel sussurrou as palavras no ouvido da filha, e quando ela disse, August acabou dizendo junto.
Burt sorriu de olhos fechados.
– Eu amo vocês.
I wanna hold your hand,
I wanna hold your hand,
I wanna hold your hand,
I wanna hold your hand.
Kurt segurou a mão do pai com a mão livre e apertou os olhos, deixando aquela sensação de calor correr livremente seu corpo, como a lágrima que corria pela seu rosto.
– Eu te amo, papai. – Ele havia conseguido dizer antes do som da máquina avisar que Burt não estava mais entre eles.
Burt se fora.
Fale com o autor