9º Desafio Sherlolly
1 Wanted
Notas iniciais
–Molly
Eu olhava para o homem à minha frente, que eu conhecia tão bem e agora quase não conseguia reconhecê-lo. Meus olhos estavam desfocados.
– Desculpe, você pode repetir, por favor? — Disse isso com dificuldade e escuto minha voz sair arranhada e longe, como se estivesse fora do meu corpo. Vejo o Dr. Alonzo tirar os óculos e apoiar as mãos na mesa do pequeno consultório, há tristeza em seus olhos. Nós nos conhecemos desde que eu comecei a trabalhar aqui, no St. Barts.
– Molly, seus exames detectaram LLA. Leucemia Linfóide Aguda.
Lá estão de novo as três palavrinhas com som assustador. As vinte e uma letras que me deixaram em choque e fazem meu estômago virar um só nó.
– A febre, fraqueza e as dores que você vem sentindo, junto com os sangramentos intermitentes já tinham levantado a desconfiança, mas eu torci para que estivesse errado. Não estava. Molly, nós precisamos começar o tratamento imediatamente. As chances são boas agora.
Eu só ouvi "tratamento" e "chances". O que parecia um dia normal, uma consulta rotineira para resultados de exames, terminava comigo lutando contra a morte.
– Quanto?
Alonzo pareceu não me entender, pela confusão em seus olhos. Eu tentava me manter firme e meu corpo parecia rígido, mas começava a sentir os pedacinhos se quebrando em meu interior.
– Quanto tenho de chances, é isso que quero saber.
– Molly... Ainda é cedo, precisamos de novos exames e dar início ao tratamento para saber...
Com esforço, eu reviro os olhos.
– Eu sei que existe uma estimativa. Por favor, eu também sou médica. Não me trate como se eu fosse uma ignorante no assunto.
– 50%. É o que temos de previsão antes de exames mais complexos e saber como você irá reagir ao tratamento.
Assinto automaticamente, mas por dentro quero negar. Negar tudo. Quero perguntar por que a vida está sendo injusta comigo, mas sei que ele não me dará a resposta. Eu me levanto, preciso sair daqui, dessa sala claustrofóbica.
– Molly, aceite meu conselho e vá para casa. Descanse. Volte amanhã que nós faremos os novos exames e conversaremos sobre o início do seu tratamento.
Novamente eu concordo. Saio do hospital e chego em casa sem saber exatamente como. Só quando fecho a porta e encaro meu apartamento é que deixo que as lágrimas escorram. Estou sozinha. E estou morrendo.
–-- --- ---
Dias depois inicio o meu tratamento. Alonzo acha que talvez só a quimioterapia baste, que as chances de que eu precise de um transplante são pequenas. Não sei mais o que pensar.
Continuo trabalhando, mesmo após o início do tratamento. Minhas sessões por enquanto são a cada quinze dias e dois após a aplicação é quando me sinto pior. Quase não aguento meu corpo, por vezes tenho crises de vômito e aparecem feridas em minha boca. Meus cabelos ainda não começaram a cair. Ainda.
Tomei a segunda dose de quimioterapia há cinco dias. Fiquei dois dias sem condições de vir trabalhar e hoje estava de volta. Ainda me sentia péssima e sei que minha aparência deveria condizer com isso, mas não podia ficar em casa curtindo a doença. Eu enlouqueceria.
Estou efetuando algumas análises em minha bancada quando vejo Sherlock entrar. Sherlock. Que ainda faz meu coração disparar, mesmo com tudo que eu tenho com o que me preocupar agora.
Fazia tempo que eu não o via. Acho que a última vez fora entre as duas sessões de quimioterapia e eu ainda estava apresentável. Pelo modo que ele me olha quando me cumprimenta, ele vê que não estou bem. Talvez até deduza exatamente o que eu tenho. Por alguns segundos vejo preocupação passar por seus olhos.
Ver Sherlock me deixa ainda mais triste. Se antes era impossível termos um relacionamento, que dirá agora que estou em uma semi vida vomitante. Balanço a cabeça, quero afastar as lágrimas que ameaçam se formar em meus olhos. Eu ainda o amo. Até ele foi tirado de mim. Percebo tarde demais que fazer esse movimento foi um erro. Uma tontura toma conta de mim, passo a mão pelo meu nariz e ela sai vermelha de sangue. Minhas pernas falham. E eu caio.
–-- --- ---
– Sherlock
Entrei no laboratório e Molly estava ali. Eu a cumprimento e então meus olhos caem de fato sobre ela. O que aconteceu? Quanto tempo eu não a vejo? É então que eu penso... Estive tão ocupado nos últimos tempos que já faz dias que não converso com ela. Preocupação corre por mim. Ela parece tão triste... Eu a analiso e meu coração dispara. Há marcas de agulhas em seus braços, sua coloração está diferente, seus olhos estão fundos, os lábios partidos... Molly está doente. Gravemente doente.
Não tenho tempo de dizer nada antes de ver o sangue, aquele líquido espesso de uma cor tão viva, escorrendo dela e não consigo segurá-la antes que ela caia. Corro até lá, mas não sei o que fazer. Por alguns segundos me esqueço de quem sou, de como devo me portar e grito por ajuda. Alguns médicos ou enfermeiros, eu não sei definir, entram no laboratório.
– Oh meu Deus, é Molly! — Uma mulher loira a minha esquerda exclama. Alguém me afasta e começam um procedimento de emergência. Uma maca é trazida e Molly é colocada sobre ela. Estou confuso. Olho para Molly sendo levada, ainda mais pálida que antes, seus braços flácidos pendurados para fora da maca. Alguém arrume os braços dela, por favor. Estou paralisado.
Como se ouvisse meus pensamentos, a mesma mulher loira a arruma. Quando a vejo se afastando junto a maca de Molly, corro atrás dela, puxando-a grosseiramente pelo braço.
– O que está acontecendo?
Os olhos dela voltam-se para mim com raiva, mas ao ver meu desespero eles suavizam-se.
– Você não sabe? — Vejo pena neles agora. Sacudo a cabeça. Não, eu não sei, por favor me diga!– Molly está em tratamento contra uma leucemia agressiva. — Paro de andar, deixando que as informações se assentem em meu cérebro. Tenho consciência, mais do que vejo, a mulher se afastando com a maca. Molly está doente. Ela está morrendo.
You know I'd fall apart without you
I don't know how you do what you do
'cause everything that don't make sense about me
Makes sense when I'm with you
Estou na sala de espera. Ninguém me dá notícias de Molly e estou a ponto de matar alguém — se tivesse forças para isso. Estou sozinho, não sei quem posso chamar. Não quero John, não quero Mary, não quero Mycroft. Eu quero Molly.
Como idiota que sou só percebo isso agora, na iminência de perdê-la. Sentado nessa desconfortável cadeira, vendo pessoas andando para lá e para cá, alguns chorando, outros sorrindo aliviados, penso em como sairei daqui. Chorando ou sorrindo?
Lembro-me de tantas vezes que ela sorriu para mim. E das tantas vezes em que fui grosseiro. Os dias em que passei em sua casa, quando me neguei a conversar nas 'n' tentativas que ela fez. Tudo era uma forma de me afastar dela. Sabia o que ela poderia fazer comigo. Com meu coração. Quando voltei da morte quase cedi, mas recuei ao vê-la noiva. Molly vivia em meu palácio mental, e muitas vezes eu ia até ele só para encontrá-la.
Onde eu estava que não fiquei ao seu lado quando ela teve a notícia da doença? Onde eu estava que não segurei sua mão nas sessões de quimioterapia? O que ela teve que enfrentar sozinha?
Ao tentar fugir do sofrimento, ele me agarrou ainda mais ferozmente. Jogou na minha cara como sou pequeno, em uma clara demonstração da sua grandeza, e agora rasga minha alma em pedaços. A distância física não impediu os sentimentos de seguirem seu rumo. Precisei ser derrubado, afogado em dor para perceber uma lição tão simples.
Meus olhos ardem e os esfrego. As pessoas olham para mim e uma rápida olhada para baixo me indica o porquê. Minha camisa branca está manchada com o sangue de Molly, já seco. Passo um dedo por elas. Estou tão perdido.
Levanto-me e caminho sem rumo por algum tempo. Vejo a indicação de uma capela. Eu não sou religioso, nem sequer acredito em algo sobrenatural ou que seja além da ciência, mas sou levado até ela. Entro com hesitação e me aproximo do pequeno altar. Quando vejo, caio de joelhos. Uma combinação de sentimentos sai do meu corpo em forma de lágrimas. Escondo meu rosto em minhas mãos. Estou desesperado. Eu quero voltar no tempo.
Quero voltar para o dia em que conheci Molly. Para o primeiro sorriso que ela me deu. Para todas as vezes em que ela me ajudou e eu mal agradeci.
Sei que nunca pedi nada. Na verdade nem fé eu tenho. Talvez eu seja pecador demais e esteja trazendo impurezas para o altar. Não devia estar aqui, mas não tenho a quem recorrer. Eu nem sequer sei com quem estou falando... Mas eu preciso de ajuda. Mereço todas as coisas ruins que acontecerem para mim, mas Molly não merece. Eu já matei, já usei drogas, já enganei muitas pessoas. Mas ela não. Ela é boa...
Não tenho esse direito, mas por favor... Por favor, salve-a. Mesmo que eu não tenha a chance de ficar com ela... Leve-me em seu lugar. Qualquer coisa... Qualquer coisa."
Não consigo mais pensar. Enxugo algumas lágrimas e tento me recompor. Levanto-me com dificuldades e murmuro um "obrigado" antes de me retirar. Quando chego de volta à sala de espera, não demora para que um médico venha até a mim. Meu estômago embrulha e ao mesmo tempo em que quero fugir, quero ficar.
– Ela vai ter que ficar alguns dias aqui. Vai precisar de doses extras de medicação e talvez tenha fortes reações, precisando ficar em observação, mas você pode vê-la agora.
Respiro fundo enquanto concordo. Acompanho o médico até o quarto e percebo que não sei o que dizer a ela. Não sei nem como minha aparência está. Ela perceberá que eu estive chorando? Não sei por que ainda me preocupo com isso. Parte de mim quer que ela veja quão mal estou com tudo que está acontecendo, e a outra parte quer esconder para que ela não sofra ainda mais.
Basta eu entrar no quarto para que eu descubra qual parte vai ganhar. É só eu olhar para ela, que faz um esforço para sorrir para mim, e eu desmorono a máscara que tentei vestir.
Me aproximo de sua cama e vejo algumas lágrimas se formando em seus olhos. Os meus também começam a arder. Eu queria animá-la e não deixá-la triste. Percebo que até nisso eu consigo falhar miseravelmente.
Procuro sua mão e ela me olha com surpresa por um segundo. Então encara o teto e respira fundo, tentando não deixa as lágrimas caírem. Faço carinhos circulares em sua mão e ela aperta meus dedos.
Tenho tantas coisas para dizer, mas as palavras fogem de mim. Ficamos assim, em silêncio, por um longo período. Não nos olhamos, talvez por medo.
– Posso ficar com você? — Surpreendo a mim mesmo ao ver minha voz sair. Tremida, é verdade.
Ela vira os olhos para mim e uma lágrima persistente escorre quando ela balança a cabeça dizendo que sim. Sinto meus olhos inundarem também, levanto-me da cadeira onde estou sentado e me encolho na cama ao seu lado. Sinto as lágrimas quentes em meu rosto. Já não sei quem precisa mais de consolo.
– Eu não vou mais te deixar sozinha.
Sinto ela soluçar em meus braços.
– Mas eu vou...
– Não, você não vai. Você nunca me abandona, Molly. E eu te proíbo de fazer isso agora.
Ela sorri em meio as lágrimas. Nosso pequeno momento é quebrado quando o médico entra no quarto e eu levo uma singela bronca por estar deitado na cama com ela. Talvez tenha sido meus olhos vermelhos pelo choro, ou as marcas das lágrimas que escorreram, ou ainda minha expressão assassina, mas quando olhei para ele a voz suavizou.
Desci devagar da cama, sem dizer nada, e aguardei que ele a examinasse. Descobri que ele se chamava Alonzo e parecia já conhecer Molly há muito tempo. Confesso que fiquei um pouco enciumado.
– Senhor...
– Holmes.
– Senhor Holmes, você ficará como acompanhante da Molly?
– Sim. — Digo sem pestanejar. Eu ficarei quantos dias forem necessários.
– Desculpe a pergunta, mas... Vocês tem algum grau de parentesco? Anotarei na sua ficha.
– Eu sou o que você precisar que eu seja. — Digo emburrado e ele só me encara surpreso.
– Você pode me acompanhar, por favor?
Olho para Molly antes de sair do quarto e ela parece cansada e com medo. Talvez ela saiba o que o médico vai me dizer e provavelmente está com medo que e a deixe depois disso.
Aguardo que o médico diga o que precisa com impaciência. Quero voltar para o quarto, quero recuperar todo o tempo que perdi por não estar com Molly.
– Sr. Holmes, você tem plena consciência da gravidade da doença de Molly?
Balanço a cabeça afirmando, pelo menos eu acho que tenho.
– Ela tem boas chances de cura, nós descobrimos a tempo de iniciar o tratamento e obter eficácia. Essa reação que ela teve não é o esperado, mas pode vir a ocorrer. Nós iremos aumentar a dose dos medicamentos, pois ela não devia ter novos sangramentos.
Ouço a tudo em silêncio. Quero o máximo de informações que puder obter.
– Molly tem sido forte e tem lutado contra tudo isso sozinha. A quimioterapia traz efeitos que podem ser devastadores. Ela terá crises de vômito, haverá dias que não conseguirá ao menos se levantar e talvez seus cabelos caiam. Principalmente para as mulheres, isso pode ser pior que todo o resto. Eu acredito na ciência, Sr. Holmes, mas tenho provas de que a felicidade pode ajudar a curar muitas doenças, assim como a tristeza pode afundar ainda mais. Não a decepcione. Ela já está tendo muito com o que lidar. Se não puder ser forte para estar com ela nos piores momentos, saia de sua vida agora enquanto ela ainda está bem.
Respiro fundo para não espancá-lo, mas sei que ele tem razão. Molly só precisa de mim se eu puder fazer algo por ela. Se eu puder retribuir o que ela fez por mim em todos esses anos. Mas não estou agindo por gratidão. Eu preciso ficar com ela, por mim mesmo.
– Eu vou ficar. Vou ajudá-la.
– Fico feliz em ouvir isso, Molly precisa de alguém ao seu lado.
Ele estende a mão para mim e eu a aperto. Entro de volta ao quarto em seguida. Molly me espera ansiosa.
– Não se preocupe, ele tentou, mas não conseguiu me convencer a ir embora.
Ela sorri pra mim e me aproximo novamente de sua cama.
– Como você está? — Finalmente consigo perguntar.
– Bem.
– De verdade... — Ergo um sobrancelha e ela torce os lábios.
– Com dores... E me sentindo fraca... — Ela faz uma pausa. — Sherlock, você tem certeza do que está fazendo? Não é uma obrigação sua ficar comigo.
Deito-me ao seu lado novamente, contrariando as indicações do médico.
– Molly... Eu já perdi tempo demais. Percebi isso quando vi você desfalecer na minha frente e descobri o que estava acontecendo. Não estive com você, Molly, nos seus piores momentos. Você sempre esteve lá por mim.
– Sherlock... Eu não preciso e nem quero você por conta de algum tipo de agradecimento, é bom deixar isso bem claro.
Olho para ela e seguro seu rosto. Os olhos dela ainda estão brilhantes por ter chorado. Me pergunto como a evitei por tanto tempo.
– Não estou aqui para dizer obrigado por nada. O que eu percebi é que enquanto você sempre estava lá, ao meu alcance, eu sempre me afastava. E só quando você estava no chão, com seu sangue manchando minha camisa, é que pude perceber que por mais longe que eu fosse, você sempre estava comigo, dentro de mim. E, na minha inocência, achei que você estaria ali, sempre me esperando, até ver que poderia te perder da pior forma possível. Não quero perder você. Não me peça para ir embora.
– Não vou pedir. — Ela leva uma mão até meu rosto e deixa que fique ali. — Mas você sabe que ainda pode me perder de qualquer jeito... Estou condenada.
– Não fale isso, por favor. Você não está. — Eu enxugo algumas lágrimas que caem dos olhos dela. — Nós passaremos por isso, juntos.
Eu me aproximo quando ela assente e deixo um leve beijo em seus lábios. Então ela me puxa e me abraça com força.
– Eu estou com medo. — Ela diz baixinho em meu ouvido.
– Eu também.
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Durmo em um sofá ao lado de sua cama após ir rapidamente para Baker Street trocar de roupa e pegar algumas para trazer comigo, e pela manhã Molly acorda com uma das crises de vômito que se tornarão frequentes durante o tratamento. Ela quer que eu saia do quarto, mas eu fico. Prometi que estaria com ela em qualquer circunstância e cumprirei. Junto com uma enfermeira, eu tento deixá-la confortável. Ela fica fraca após devolver toda a pouca comida que tinha ingerido e um novo soro é colocado em seu braço. Ela está ainda mais pálida do que antes.
Molly fica um pouco em pânico com as ânsias intermináveis e eu escuto com atenção todas as instruções da enfermeira de como agir quando isso acontece. Após a crise, ela não consegue se alimentar por conta das inúmeras feridas em sua boca. Contrariando os médicos, eu contrabandeio sorvete e iogurtes de chocolate para dentro do hospital e ela me agradece durante todo o dia, enquanto comemos assistindo TV como se estivéssemos em casa.
Nós ficamos por cinco dias no hospital. Nesse meio tempo John e Mary foram até lá nos visitar. John tentou perguntar o que eu fazia ali, mas Mary foi mais rápida em suas deduções e não deixou que ele terminasse a pergunta. Mycroft me mandou apenas uma mensagem, contendo: "Você tem certeza?", a qual eu respondi: "Sim." e ele não entrou mais em contato.
Ignorei todas as ligações de Lestrade ou de números desconhecidos. Os crimes podiam esperar, eu tinha um novo arqui-inimigo agora e estava lutando contra ele.
Quando saímos do hospital fui com Molly para seu apartamento, onde eu ficaria instalado até que ela se curasse. Ela estava melhor, já era menos óbvio deduzir que ela estava doente apenas olhando-a. Após tomar um banho, ela sentou-se no sofá e esperou que eu fizesse o mesmo. Cheguei até a sala e ela estava passando por alguns canais, decidindo parar em algum filme qualquer. Sentei ao seu lado, um tanto sem jeito, não sabia exatamente como agir. Ela se virou para mim e sorriu, e eu amava aquele sorriso. Sem dizer nada eu me aproximei dela até que nossos lábios se tocassem, ela entreabriu-os e pude sentir sua língua na minha. Os braços dela me enlaçaram pelo pescoço e eu a puxei para mim. Nosso primeiro beijo de verdade.
Eu a amava.
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No dia seguinte nós fomos até o parque. Molly estava especialmente bem e sentia falta do sol, o pouco sol que Londres podia oferecer. Ela deitou em meu colo e nós ficamos assim, comendo frutas, conversando e trocando alguns beijos. Eu a tinha convencido a não voltar ao trabalho por enquanto. Não queria perder um só segundo com ela.
Nós voltamos para a casa caminhando vagarosamente. Molly se cansava com facilidade agora. Faltando pouco para chegarmos, percebi que ela estava bem ofegante. Peguei-a no colo e a carreguei, mesmo com ela me xingando. Após alguns segundos tentando me bater, ela relaxou e aproveitou o passeio em meus braços, sempre sorrindo.
Já no início da noite, eu estava preparando um chá quando ela se aproximou de mim na cozinha e abraçou-me pelas costas. Acariciei suas mãos e virei-me para ela, que se inclinou para me beijar. O beijo era urgente e profundo, diferente dos que tínhamos trocado até então.
Quando ela se afasta seus olhos brilham pra mim. Não sei como agir. Confesso que estou sendo cuidadoso além do que normalmente seria. Não queria forçar uma situação com tantos problemas que ela já tinha na cabeça. Mas então ela coloca uma mão por baixo de minha camisa, que já estava por fora de minha calça, e passeia os dedos por minha barriga. Eu a desejo tanto.
– Faça amor comigo, Sherlock. Eu não sei até quando estarei bem... Por favor... – Ela diz as palavras, baixinho, aproximando-se de mim. Eu nunca conseguiria resistir, mesmo que quisesse. E eu não quero.
'Cause I wrap you up
Wanna kiss your lips
I wanna make you feel wanted
And I wanna call you mine
Pego-a no colo novamente e a beijo com paixão. Caminho até o quarto, colocando-a delicadamente sobre a cama.
– Eu não vou quebrar, Sherlock.
Eu sorrio diante do comentário dela. Sim, eu tinha esse medo, mesmo sabendo que não aconteceria.
Ela me puxa e nós nos beijamos, sinto quando ela começa a abrir os botões de minha camisa. Paro o que estou fazendo e deixo que ela termine. Suas mãos deslizam por toda a parte superior do meu corpo e minha pele se arrepia. Quero que ela seja minha.
Retiro devagar as peças de suas roupas, quero guardar para sempre o momento em minha memória. Peça a peça eu a acho ainda mais linda. Admiro seu corpo quando tenho sucesso em minha tarefa de deixá-la nua. Encontro seus olhos e tudo que vejo é amor.
Vejo-a se levantar e terminar de me despir, beijando-me com um calor maior que antes.
– Eu preciso de você. – Ela me diz com aqueles olhos suplicantes. A seguro e delicadamente nós nos unimos. Nosso ritmo é lento e apaixonado, eu poderia ficar assim para sempre.
Mais tarde, estamos deitados e olhando um para o outro, enrolados apenas em um lençol. Ela corre um dedo por meu rosto.
– Eu não quero deixar você...
Droga, vejo as lágrimas aparecerem novo e sou obrigado a abraçá-la junto a mim.
– Então não me deixe, Molly. Eu não viveria sem você, não mais.
Sinto a dor rasgar meu corpo de ponta a ponta. Não quero vê-la assim, triste. Não quero ficar triste.
– Eu amo você, Sherlock...
– Eu também te amo, Molly...
You're more than everything I need
You're all I ever wanted
–-- --- ---
Nós vivemos meses em nosso universo particular, visitamos o hospital várias vezes. Foram várias crises de vômitos, várias noites em que não dormi só para ficar olhando para ela. Para garantir, de alguma forma, que ela não me deixaria enquanto eu não estivesse olhando. Ela ria todas as vezes em que eu segurava seu cabelo quando ela colocava para fora tudo que tinha comido e dizia: Ao menos eu ainda tenho cabelos. Participamos de um grupo de apoio à jovens com leucemia, Molly se emocionava com todas as histórias. E eu também.
A carreguei muitas vezes no colo. Contrabandeei muito sorvete. Fizemos amor muitas vezes nos dias em que ela estava bem.
Olho para a pequena lápide aos meus pés. Uma vida levada por uma doença tão implacável e tão cruel. Penso o que teria sido de nós se ela não tivesse existido. Tudo teria sido tão mais fácil. Mas será que teria sido? A doença nos empurrou para os braços um do outro. Talvez se não tivesse acontecido tudo isso, eu nunca teria cedido. Se não fosse aquele dia em que Molly caiu na minha frente, eu não estaria aqui hoje vendo-a depositar um pequeno ramalhete de flores sobre a lápide. Ela vira-se para mim e segura minha mão. O amor que vejo em seus olhos nunca se ausentou. A lápide é de Sarah, uma das garotas que Molly fez amizade no grupo de apoio. Ela faleceu há um ano e nós sempre trazemos flores. Amarelas. Como ela dizia gostar.
Molly completou dois anos sem sinal de uma volta da doença. Nós contamos dia após dia. Aprendemos a viver um dia de cada vez depois que saímos da escuridão. Fazemos tudo que temos vontade e observamos todos os sinais.
Ainda vejo a morte como minha arqui-inimiga. Ela me olha, com um sorriso irônico em sua face, lembrando-me que deixou Molly viver, dando-me uma chance, mas que ainda pode tomá-la de mim a qualquer momento em que eu vacilar. Mas eu não vacilo.
Contei a Molly sobre a capela depois que ela foi considerada curada, e ela voltou comigo até lá. Nós agradecemos.
– Vamos? – Ela me pergunta, seus cabelos voando com o vento.
Passo a mão por seus ombros. Nunca canso de tocá-la. De senti-la viva junto a mim.
– Vamos.
Eu a amo. Para sempre. Até quando o sempre durar.
Wanna hold you hand forever
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