90 Dias

10 Capítulo 10 - Tori e Angie


Tori

You love, love, love

When you know I can't love

You love, love, love

When you know I can't love you...

— Love Love Love, Of Monsters And Men

Minha vida era uma bagunça. Eu estava conversando com Cassie quando ouvi aquela voz rouca e grave:

— Bom dia, classe.

A gravata dele estava jogada em volta do pescoço, como se ele não tivesse tido tempo de arrumá-la, e os cabelos pretos estavam bagunçados. A única coisa que se passou em minha cabeça durante a aula toda foi: Puta que pariu, como ele estava lindo.

— Srta. Brooks, o trabalho de vocês. Corrigi ontem à noite. — ele olhou para mim pela primeira vez, como se quisesse jogar na minha cara que não corrigira no sábado. — Ficou muito bom.

Angie sorriu e abanou o papel para mim, mostrando o nosso A.

A!

— MINHA IRMÃ TIROU UM A?! — até Jem saiu de sua depressão crônica/birra para ler o trabalho enquanto resmungava que alguma coisa estava errada.

— CHUPA, JAMES!

— Srta. Lightbody — Gabriel me censurou, mas possuía um leve sorriso entretido nos lábios.

* * *

Quando a aula terminou, fiquei enrolando para guardar minhas coisas. Finalmente, todos os alunos tinham saído da sala. Sentei-me na mesa de Gabriel.

— Oi — falei, sem saber direito como me portar.

Ele analisou minha falta de modos por um minuto e sorriu.

— O que quer de mim, srta. Lightbody?

— O que acontece agora? — perguntei, direta.

— Você vai para a aula de Matemática e eu continuo dando aulas sobre algum livro que os alunos fingem que leram quando na verdade apenas pegaram um resumo na internet. Acredite, sou um professor. Sei a diferença.

Encarei-o.

— Sabe o que quero dizer.

Ele suspirou.

— Não deveríamos ter feito aquilo.

Sorri e beijei-o levemente, me afastando depois de poucos segundos.

— Diga de novo.

Ele murmurou alguma coisa e me beijou. Um beijo de verdade dessa vez, que poderia ter se estendido para sempre. Até que bateram na porta e eu pulei para fora da mesa rapidamente.

— Resumindo, a parte do trabalho onde você compara Sherlock Holmes a Dupin é muito interessante — Gabriel esforçava-se para não começar a rir enquanto falava.

Nicholas Youth abriu a porta logo depois.

— Ah... Eu volto depois — e fechou.

Eu e Gabriel nos fitamos por um minuto.

— Merda — a consciência pareceu atingi-lo de repente e ele abriu a porta para mim.

— Está me enxotando? — ergui uma sobrancelha.

— Victoria. Eu preciso desse emprego, está bem?

Encarei-o.

— Você não pode me beijar e depois falar isso.

— Você provocou, sabe disso. —

Se fosse fazer ceninha depois, que tivesse a decência de me afastar. Não pode me beijar quando quiser e depois me mandar embora.

Ele suspirou, passando a mão direita pelos cabelos desalinhados.

— Está bem. Não precisa se preocupar com isso. Não vou mais beijar você — e então bateu a porta na minha cara.

— Idiota! — gritei, dando um tapa na porta. Sem resposta. — Vá se foder — resmunguei e saí andando.

Acabei trombando com alguém. Um par de olhos azuis compreensivos me fitou.

— Precisa conversar? — perguntou Angie.

E então fiquei imaginando se aquela californiana novata não era, na verdade, muito mais observadora do que deixava transparecer.

Angie

We climbed up to the top in worn out shoes,

But she ran down, she ran down.

She ran down to the house.

— Lakehouse, Of Monsters And Men

— Sabe, e então meu pai... — comecei a dizer, mas minha voz falhou.

Jem Lightbody estava caminhando até Tori e eu, com os olhos escuros cravados em mim. Ele não falava comigo há duas semanas. Mal olhava para mim há duas semanas.

— Tori — fitei-a por um momento.

— Sim?... Ah! — um surto de entendimento transpareceu em seus olhos. Ela pegou seus livros e saiu andando rapidamente. — Hummm... Ciao!

Jem sentou-se ao meu lado, e ficamos ali por alguns momentos. Por fim, ele se virou para mim e disse:

— Eu planejei dizer todas essas coisas horríveis a você, mas na verdade só quero dizer que sinto a sua falta.

— Eu também — mordi o lábio, com medo de onde aquilo ia chegar.

— Eu realmente preciso de uma amiga agora, Angie.

Amiga. Certo. Assenti.

— Eu adoraria ser sua amiga.

Ele sorriu.

— Ótimo! Vejo você na aula, parceira.

Eu sentia o começo de mais um longo dia se aproximando.

* * *

Meu pai revirava os jornais com uma mão e mexia em seu notebook com a outra. Vez ou outra soltava um longo suspiro.

— Tudo bem? — perguntei, franzindo o cenho.

— Claro. Claro.

— Você não parece bem.

Ele suspirou novamente.

— É difícil ser jornalista nessa cidade, parece que nada acontece!

— Você pode divulgar nossa venda de biscoitos no sábado.

Meu pai ergueu uma sobrancelha.

— Angie, eu vou precisar de algo um pouco mais forte para ser minha grande estreia do que formandos tentando juntar dinheiro para a formatura.

Eu sabia que ele estava certo.

— Vou manter os olhos abertos.

— Obrigado, querida.

— Mas... Sabe... Se você conseguia reportagens melhores na Califórnia...

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Noventa dias, Angie.

Suspirei.

— Noventa dias.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.