Intense
Intense
Capítulo 128 min de leitura

1 - the girl of my dreams

Rose sempre foi uma pessoa intensa — ou, ao menos, gostava de acreditar nisso. Se irritava e entristecia com fervor mas, principalmente, amava com intensidade. Rose era apaixonada por amar e nunca teve problemas em entregar seu coração ou mergulhar de cabeça em tudo, vivendo cada dia com o máximo de paixão que conseguia acumular. Talvez por isso não gostasse de namoros fixos: Rose acreditava que o amor era muito além do romântico. Não gostava de listar as coisas que amava por ordem de importância por não saber identificar o que amava mais, mas costumava passar horas pensando sobre tudo aquilo que fazia seu coração palpitar.

Quando pequena, Rose amava escrever em seu diário sobre as flores que plantava com a mãe no jardim e sobre seus dias na escola. Aprendeu com seu tio Charles o quanto era gostoso dançar enlouquecidamente pela casa enquanto cantava suas músicas preferidas a plenos pulmões, costume que permaneceu durante toda sua vida. Graças a ele, também, percebeu que era apaixonada por animais, especialmente por ursos; Rose achou que iria morrer quando seus pais lhe disseram que não podia ter um de estimação.

Seu maior sonho era ajudar a salvar as espécies em extinção ao redor do mundo e, por conseguinte, adorava aprender novos idiomas — em especial o francês, que treinava com seus primos Delacour-Weasley quando eles visitavam os Estados Unidos durante as férias. Rose sempre gostou de ter uma família grande e amava mais ainda que eles estavam espalhados por diversos países, lhe dando a chance de aprender coisas novas de vez em quando.

Tio Bill morava na França com a esposa, tia Fleur, e dois de seus filhos: Dominique e Louis; as histórias de Domi sobre Paris fizeram com que Rose se apaixonasse pela França muito antes de imaginar que um dia pudesse ir até lá. Victoire, sua prima mais velha, morava em Londres com o noivo, Teddy Lupin. Sua tia Ginny também morava na Terra da Rainha com seus três filhos e o marido, tio Harry. Tio Percy havia se mudado há muito tempo para Chicago, nos Estados Unidos, mas Rose nunca foi muito próxima de Molly II e Lucy, filhas dele.

Outros dois de seus tios também moravam em Nova Iorque com suas famílias, então Rose passava todo o seu tempo com Roxanne e Alina, suas primas. Roxanne dedicava cada segundo do seu dia ao ballet, sua grande paixão desde muito nova; Alina era excepcional em matérias de ciências exatas assim como seus irmãos mais velhos, os gêmeos Arthur e Adam, que estudavam economia na Universidade de Nova Iorque. Rose tinha certeza que os dois herdariam a loja de brinquedos que o pai deles, seu tio Fred, havia fundado em parceria com tio George. Infelizmente, as três estudavam em escolas diferentes, mas aproveitavam as férias escolares sem se desgrudarem por um minuto sequer.

A melhor parte das férias, porém, eram os dias na casa de campo de seus avós Weasley, onde quase toda a família se reunia — assim como na ceia de Natal. As festas de Ano Novo costumavam acontecer na Pensilvânia, onde seus avós Granger moravam. Suas datas comemorativas preferidas eram seu aniversário, o Natal e o Ano Novo, sem a menor dúvida.

Ainda assim, nada disso se comparava ao quanto Rose adorava sua própria casa: ela sabia muito bem da sorte que tinha por isso.

Ronald Weasley, seu pai, era muito engraçado. Era um homem bem fechado e tinha grandes dificuldades de expressar seus sentimentos, mas amava muito os filhos e a esposa. O sargento da octogésima quinta delegacia da cidade de Nova Iorque, no Brooklyn, era um ruivo gigante que sempre carregava livros escolhidos a dedo para a primogênita, emprestando-os da biblioteca próxima à estação de metrô ou comprando-os na livraria a caminho de casa. Rose amava seu pai, mas não estava cega para um defeito ou dois; de vez em quando, percebia que o maior problema com ele era sua crença na simplicidade de todas as coisas: o mundo era preto no branco. Não havia espaço para pequenas discussões cinzentas e, portanto, sua palavra era lei.

No entanto, sua mãe conseguia ver o cinza. Hermione Granger-Weasley era uma promotora de estado muito influente na cidade e costumava pegar casos em Manhattan, mesmo que precisasse da balsa para se locomover do trabalho até sua casa. A nascida Granger sempre foi justa e cuidava dos filhos com todo o seu amor. Quando Rose era criança, Hermione costumava dizer que ela e Hugo eram os grandes amores da vida dela.

— Mas como pode ter mais de um amor, mãe? — perguntou Rose em uma das ocasiões.

Hermione sorriu antes de respondê-la, acariciando os cabelos ruivos de sua filha enquanto observava seu caçula brincando no chão da sala.

— Eu amo você e seu irmão, sei disso — explicou — Assim como amo muito o seu pai. Também amo seu tio Harry, mesmo de longe.

— Porque ele é seu melhor amigo — constatou Rose, observando a mãe concordar — Mas você pode amar ele e o papai?

— É um amor diferente, querida. Tia Ginny também é minha melhor amiga e eu a amo do mesmo jeito que você ama o Hugo.

— Como sua irmã?

— Isso. Com seu tio Harry acontece a mesma coisa.

— Mas não são muitas pessoas pra amar de uma vez só?

— O amor não exclui, Rose — disse ela — E não existe só um tipo de amor. O seu coração escolhe quem e como ama.

— Como assim?

— Vai entender quando estiver crescida — respondeu, dando de ombros.

A menina assentiu, concordando com a mãe, mas não havia entendido muita coisa. Resolveu não se preocupar com aquilo no momento, já que parecia muito mais divertido brincar com seu irmão no tapete do que quebrar a cabeça com coisas que não faziam o menor sentido. Ela gostava de ser uma irmã mais velha — ou melhor, amava.

Hugo era seu preferido naquela casa, mas Rose jamais diria aquilo em voz alta. Ela era quase três anos mais velha do que ele, então era engraçado mandar Hugo fazer tudo o que ela queria conforme cresciam, sob o pretexto de que ele precisava “respeitar os mais velhos”. Os dois discutiam bastante, mas acabaram superando as picuinhas em favor de um de seus maiores interesses em comum: a fofoca.

Rose amava morar em um apartamento pois se juntava ao irmão na janela de seu quarto para escutarem as brigas dos vizinhos. Por estudarem na mesma escola, os irmãos Granger-Weasley conheciam as mesmas pessoas (pelo menos o suficiente para compartilharem as coisas mais interessantes). Além disso, Rose havia prometido a si mesma que jamais viraria as costas para seu caçula, por mais que ele a irritasse algumas vezes — coisa de irmã mais velha, ela pensava.

A ruiva absolutamente amava o inverno. Nova Iorque, sua cidade natal, ficava muito mais aconchegante do que realmente era com a ajuda da neve fofa e branca que cobria cada centímetro do lugar. Apesar de morar em Brooklyn Heights, o salário de sua mãe permitia que estudasse em uma escola preparatória na ilha de Manhattan, que ficava ainda mais bonita com as decorações de Natal.

Rose adorava estudar. Procrastinava bastante e, muitas vezes, era dominada pela preguiça, mas sempre gostou de quase todos os conteúdos. Amava ir para escola, principalmente a partir do seu ensino médio. Tinha quatorze anos quando conheceu o grande amor de sua vida, Alice Longbottom (ou assim ela pensava). Desde a primeira vez que conversaram, ambas perceberam que seriam melhores amigas — e que seria para sempre. O aniversário de Alice entrou para a lista de Rose de melhores datas comemorativas.

Quando aconteceu, Rose estava há algum tempo em uma das mesas mais afastadas da biblioteca do colégio, dedicada a completar pelo menos dois dos exercícios insuportáveis de química. Foi, então, distraída ao notar que uma garota se aproximou dali, assustando-se ao notar a presença da ruiva. Rose levantou os olhos de suas anotações apenas por curiosidade, mas não esperava ver a menina chorando. Já havia visto aquela colega antes pois estudavam história na mesma turma, mas nunca chegaram a conversar. Tudo o que Rose sabia sobre ela era que seus cabelos eram castanhos, seus olhos eram verdes e seu nome era Alice “alguma coisa”.

— Me desculpe, eu só estava… — começou ela, tentando se explicar. Porém, o soluço contido a interrompeu. Alice virou-se para ir embora, mas Rose a chamou antes disso.

— Você pode sentar, se quiser — disse, apontando para a cadeira à sua frente — Ninguém vem aqui. Bom, só eu.

Alice ponderou por alguns instantes, olhando ao redor antes de se sentar. Quando o fez, secou as próprias lágrimas e ficou um tempo observando as estantes que as cercavam, evitando o olhar da garota do outro lado da mesa. Rose estava intrigada. Não queria que Alice pensasse que era apenas curiosidade; era, em partes, mas também estava preocupada. Ainda a encarava quando decidiu se apresentar, estendendo a mão por cima dos livros:

— Sou Rose Weasley.

— Alice — ela respondeu — Longbottom. Alice Longbottom.

— Estudamos história juntas. Professor Binns.

— Eu sei — concordou Alice — Você me passou cola sobre a Guerra da Secessão uma vez.

— Bem lembrado — disse Rose, sorrindo.

Mesmo assim, Alice ainda estava desconfortável, segurando os próprios braços e tentando evitar os olhos da colega. Rose pretendia continuar com as conversas amenas, mas ainda estava curiosa. Pensou que talvez pudesse ajudá-la, então não se conteve ao perguntar de uma vez só se estava tudo bem, se havia algo que pudesse fazer ou alguém que pudesse chamar. Não pensou que Alice fosse responder sem que precisasse insistir, mas foi surpreendida quando a morena despejou seus problemas como se os guardasse há muito tempo.

— Eu tenho um namorado, mas acho que gosto de outra pessoa.

E, então, os livros de Rose estavam todos fechados.

Alice lhe contou que estava namorando Spencer Martins, um garoto de outro colégio que era seu vizinho, então o conhecia desde a infância. Alice era novata na Escola Preparatória Turtle Bay e, quando chegou, foi apresentada a Oliver Thomas, o jogador de basquete que fazia seu coração bater mais forte. Ao que parecia, ele também gostava dela. Alice pensava que jamais trairia Spencer, mas tinha medo de que o fato de gostar tanto de Oliver já fosse um sinal vermelho para o que quer que estivesse fazendo. Não podia contar para Spencer pois poderia magoá-lo; não podia contar para Oliver pois poderia estar errada, e não podia contar para Marissa Hastings, sua prima e amiga mais chegada, pois ela com certeza contaria para Spencer por também ser amiga dele.

A Longbottom era engraçada e ria e chorava das próprias histórias, divertindo-se com a companhia e aliviada com a possibilidade de conversar sobre o que a afligia. Antes de responder, Rose suspirou, calculando suas palavras.

— Bom — disse ela, com cuidado — Talvez Spencer saia magoado, mas você está bem chateada também. Não acha melhor ficar um tempo sozinha para pensar sobre isso?

— Eu venho pensando sozinha há semanas — exasperou Alice, gesticulando — É a primeira vez que falo sobre isso com alguém.

— Não foi o que quis dizer — explicou Rose, ignorando o salto de seu coração ao escutar sobre a confiança que a garota havia depositado nela — Quero dizer que pode ser bom passar um tempo sem compromisso com Spencer ou Oliver. Sabe, solteira. É justo com eles e com você mesma.

Alice não respondeu, mas balançou a cabeça em concordância — até chegou a seguir o conselho algum tempo depois. Não falaram mais sobre o assunto naquele dia; ao invés disso, as duas preferiram se conhecer melhor e abordar qualquer outra temática que surgisse em suas mentes. Tentaram estudar por alguns minutos naquele mesmo dia, mas era impossível, pois logo comentavam sobre algum professor, algum colega de turma ou sobre as próprias famílias.

Pelo próximo período, teriam duas aulas seguidas de História Americana, então Rose fez questão de sentar-se logo atrás da nova amiga. Durante as aulas inteiras, fizeram mais piadas do que conseguiam acompanhar. Rose mal se lembrava de algum momento em sua vida que tivesse sentido sua barriga doer daquele jeito por conta das falhas tentativas de segurar suas gargalhadas.

Finalmente, o sinal que declarava o fim do dia letivo soou pelos corredores. Alice mencionou que sua comida preferida era qualquer uma feita com batatas; destarte, Rose tratou de convidá-la para jantar em sua casa naquele dia: seu pai faria purê de batatas, com direito a torta de batatas doces para a sobremesa.

Como Rose morava depois da balsa, perguntou se Alice gostaria de dormir em sua casa; assim que chegaram na residência dos Weasley, Hermione comentou que conhecia Neville Longbottom, pai de Alice, pois estudaram juntos durante a faculdade, e tinha certeza que não teria problema nenhum se a garota ficasse ali naquela noite. Rose e Alice passaram horas conversando, assistindo televisão e compartilhando fofocas com Hugo; a convidada não teve problemas em se enturmar com os pais da amiga, que adoraram ouvir suas histórias e as gargalhadas que ela dividia com Rose.

Depois daquela noite, era impossível vê-las separadas. Quando Rose não estava em casa, era porque estava no lar dos Longbottom e vice-versa. Alice chamava Rose para todas as reuniões de sua família e todos os Weasley sabiam que a primogênita de Ron apareceria nos aniversários e eventos familiares com sua amiga colada em seu braço.

Alice teve alguns namorados, e todos eles passavam primeiro pela aprovação de Rose. A ruiva, por sua vez, não entendia quando algum de seus casos reclamavam do tempo que ela passava com a Longbottom e, por isso, acabava se afastando deles antes mesmo de começarem qualquer coisa mais séria do que alguns beijos nas escadas ou na quadra da escola. Rose e Alice se amavam e ponto final. Não existia uma sem a outra, e todos que conheciam qualquer uma das duas estava ciente daquilo; não estavam dispostas a deixar que qualquer coisa ameaçasse o que tinham.

Os quatro anos do ensino médio de Rose foram ótimos graças a Alice. Ambas tinham seus problemas — inúmeros — como qualquer garota daquela idade, mas estavam juntas apesar de qualquer coisa. Nunca chegaram a brigar com seriedade; discutiam o tempo inteiro, mas nunca realmente brigaram. Se chegaram a passar mais de um dia sem conversar, não se lembravam. Seguiram assim até os dezessete; estavam quase formadas, apenas esperando notícias das universidades para as quais haviam enviado suas inscrições.

Rose esperava ser aceita no programa de medicina veterinária da Universidade Cornell, enquanto Alice aguardava a resposta da escola de cinema e televisão da Universidade da Califórnia, Los Angeles. Estavam cientes da distância e tentavam a todo custo aproveitar o tempo que ainda lhes restava antes que quatro mil quilômetros ficassem entre elas. Por conseguinte, a frequência dos dias que passavam uma na casa da outra aumentou — coisa que parecia impossível.

Rose dormia na casa de Alice o tempo todo e, em uma dessas ocasiões, aconteceu algo que a ruiva não imaginava. Era sexta-feira e Rose havia passado horas ensaiando seu discurso de oradora da turma com Alice, escondendo da amiga as linhas que dedicou a ela; seria uma ótima surpresa, já que a Weasley mencionou diversos professores e colegas de classe também. A cerimônia de formatura seria no dia seguinte, pela manhã, então foram para a cama logo cedo, mas demoraram mais do que o previsto para dormir.

Era de costume que dormissem abraçadas na cama espaçosa de Alice, conversando por horas até que caíssem no sono. Alguma coisa estava diferente naquela noite; os dedos gélidos de Alice tocavam a barriga de Rose por baixo do pijama, mas o estranho foi a sensação engraçada que a ruiva sentiu por toda a sua espinha; um arrepio atravessou sua coluna assim que a mão da Longbottom subiu mais alguns centímetros.

Rose tentou não se mover e fez um esforço enorme para continuar falando sobre o que tinha acontecido entre Alina, sua prima, e Thomas Clark, da banda do colégio, mas acabou se perdendo no meio da história. O suspiro que deixou escapar não foi nada discreto, e ela torceu para que Alice encarasse aquilo como um encorajamento. Por sorte, ela o fez, e aproximou-se ainda mais de Rose, tocando a curva de seu pescoço com os lábios. Aquele toque foi o necessário para que a Weasley se virasse, encarando Alice nos olhos.

— As coisas não vão mudar, vão? — perguntou Rose, quase em um sussurro. Sabia que não magoaria Alice e teve certeza disso ao vê-la sorrir.

— Eu acho que não.

Foi apenas naquele instante que Rose percebeu que ansiava por aquilo há muito tempo.

O pouquíssimo espaço entre as duas tornou-se inexistente quando Rose permitiu que Alice finalmente a beijasse. O beijo de Alice tinha o sabor mentolado da pasta de dente. Era delicado, já que estavam apenas explorando algo que nunca experimentaram antes. As mãos de Alice passeavam pelo corpo da ruiva quando elas se moveram sobre o colchão e Rose se apoiou por cima da amiga. No mesmo instante, sorriu; pensar em Alice como amiga ficou engraçado de repente.

Não era como se nunca tivesse pensado naquilo antes. Rose sabia que tinha algo diferente na forma como ela via algumas das outras garotas da escola, mas não era algo exclusivo. Percebeu, surpresa, que seu corpo esquentava com o toque de Alice da mesma forma que havia acontecido quando transou com Parker Brennan algumas semanas antes.

Ao mesmo tempo que aquilo tudo era novo, também era extremamente familiar. Rose conhecia o toque, o corpo e o cheiro de Alice depois dos anos de amizade. Levaram tempo para chegar até ali e não tinham pressa nenhuma; não precisavam se preocupar com nada além daquele momento. Não precisavam se preocupar com suas famílias, amigos, faculdade ou qualquer outra coisa fora daquele quarto. Eram apenas Rose, Alice e o momento mais íntimo que já haviam compartilhado até então.

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Era madrugada quando Rose entrou em casa pela janela de seu quarto depois de subir as escadas de incêndio. Seus sentidos estavam entorpecidos e estava levemente bêbada, mas consciente o suficiente para não acordar seus pais. Pegou uma muda de roupas e caminhou em silêncio até o banheiro, onde se trancou para que pudesse lavar o rosto. Feito isso, encarou o próprio reflexo por alguns instantes. Gostava do que via.

Havia acabado de chegar da última festa que aproveitaria com seus amigos do colégio. Rose estava formada e, finalmente, livre do ensino médio. Foi aceita pela Universidade Cornell e começaria seus estudos no início do próximo semestre letivo, em setembro, o que a deixava contente — mesmo que significasse ficar longe de Alice.

— Alice — sussurrou ela, tocando os próprios lábios ao sorrir.

Durante as últimas duas semanas, havia beijado Alice mais vezes do que conseguia contar. A melhor parte era que continuavam tão amigas quanto antes e não se sentiam presas como temiam que pudesse acontecer. Com Alice, Rose se sentia completa.

Com pressa, vestiu os pijamas e atirou a roupa de volta para o próprio quarto, fechando a porta antes de andar na ponta dos pés até o quarto do irmão caçula. Notou as luzes pela fresta no chão e agradeceu por ele estar acordado. Então, entrou e deitou-se ao seu lado, achando graça da concentração dele no videogame instalado ali.

— Vai querer ouvir o que aconteceu? — perguntou ela, sabendo que Hugo não negaria nem por um segundo.

— Quem brigou? — perguntou ele, colocando o jogo em pausa ao virar-se para a irmã — Jade e Liam terminaram de novo?

— Sim — confirmou ela, preparando-se para contar a maior das notícias — Os dois brigaram na sala de estar do Patrick quando ele, totalmente bêbado, gritou da cozinha que a Jade estava uma gata e ela deu risada. Liam reclamou e Jade defendeu o Patrick e falou que não tinha nada demais, então eles começaram a discutir. Até o Parker, o irmão do Patrick, que eu fiquei mês passado, lembra? Ele se meteu também. Mas eu não culpo o Patrick. Jade estava mesmo muito bonita hoje e ouvi alguns boatos de que ela é bissexual. A propósito, eu te disse que também gosto de meninas?

Rose liberou a informação da forma mais natural possível, tentando decifrar a reação do irmão. Mais rápido do que Rose poderia imaginar, ele respondeu de uma forma que ela realmente não esperava, mas que fazia todo o sentido.

— E daí, Rose? — disse ele, gesticulando em sua direção — Eu quero ouvir o resto da história! O que o Parker fez?

Era por isso que Hugo era seu preferido e teria seu coração para sempre.

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— Você já disse alguma coisa para seus pais? — perguntou Alice, no aeroporto, enquanto as duas conversavam por chamada de vídeo.

Rose, dentro de seu dormitório da faculdade, negou.

Alice havia contado para a mãe sobre suas suspeitas assim que percebeu seu interesse por garotas. Foi apenas depois de beijar Rose que percebeu que, definitivamente, gostava apenas de garotas, então juntou toda a sua coragem para explicar ao pai que era lésbica. Neville ficou dias sem conversar com a filha, mas logo percebeu o quanto seu comportamento era inoportuno; sua filha logo se mudaria para o outro lado do país, então não queria se despedir em maus termos.

Porém, Rose ainda não havia dito uma palavra sequer aos pais. O primeiro a saber foi Hugo, como ela planejava desde o início. Contou para Roxanne e Alina por mensagens logo em seguida e ambas se mostraram felizes pela prima. Também contou no grupo de mensagens que tinha com Dominique, Albus e James, além de Roxy e Allie; todos declararam seu apoio e fizeram algumas piadas, apesar de se mostrarem preocupados com a reação de Ronald e Hermione.

Não podia mentir: Rose também estava preocupada e, por isso, adiou aquilo o máximo que conseguiu. Pediu conselhos a Dominique, que havia contato aos pais que era lésbica há alguns meses; tio Bill e tia Fleur não tiveram problema algum e até afirmaram que já sabiam há muito tempo. Victoire ficou um pouco nervosa, sem saber como reagir, mas também tratou com normalidade, enquanto Louis vivia apresentando amigas para a irmã.

Albus contou que seu pai chorou quando soube que seu segundo filho era gay, não por se incomodar com a sexualidade dele, mas sim por perceber que o garoto tinha medo de ser tratado diferente dentro de casa. James fez uma piada, dizendo que a tia Ginny já sabia sobre Albus Severus desde que engravidou.

Ouvir as histórias de seus primos lhe conferiu um pouco mais de coragem; afinal, seu pai havia crescido junto de seus tios, certo? Haviam sido criados no mesmo ambiente, não é? Pretendia contar para eles assim que reunisse coragem o suficiente, o que só aconteceu quando se mudou para o campus da faculdade no último dia de agosto.

Havia se despedido de Alice na festa surpresa que os Weasley e os Longbottom fizeram para as duas no dia anterior; apesar de todas as lágrimas, a festa foi divertida. Se despedir de Alice doía bastante, mas Rose acreditava que nada entre elas mudaria.

Ronald e Hermione estavam buscando outras caixas no carro e Hugo estava deitado na cama do dormitório de Rose, prestando atenção apenas às mensagens que trocava com sua namorada misteriosa — fato que irritava a mais velha profundamente.

— Vou dizer hoje, antes deles irem embora — disse Rose, dando de ombros — Acho que é melhor. Hugo vai estar por perto, não é, garoto?

Quando ela atirou um travesseiro nele, o caçula resmungou um xingamento e acenou para Alice quando percebeu que a câmera do celular da irmã estava apontada para ele. A morena apenas deu risada, acenando de volta antes de encarar Rose outra vez.

— Espero que tenha mais sorte — disse ela, revirando os olhos — Preciso ir, estão chamando meu voo.

— Boa viagem — desejou Rose — Me liga assim que pisar no LAX.

— Prometo. Amo você, ruiva.

— Amo você, Lice.

— Tchau, Licete! — despediu-se Hugo com o apelido que havia inventado, aparecendo atrás da irmã antes que a chamada fosse terminada.

No instante seguinte, Rose viu os pais entrarem no dormitório outra vez e suspirou ao notar que ambos a olhavam com os olhos lacrimejando. Aquela seria uma longa despedida. Por sorte, a fome de Hugo deu as caras no momento certo e ele insistiu em ser levado ao Burger King mais próximo. Rose concordou; não faria mal algum mergulhar algumas batatas em um enorme milk-shake napolitano. No meio da refeição, Rose encontrou em algum lugar dentro de seu coração a coragem para dizer o que precisava.

— Vocês sabem como o tio Charles sempre pergunta sobre “meus namorados”? — perguntou, fazendo as aspas no ar antes de continuar pausadamente — Então… Acho que seria justo que ele perguntasse também sobre… Bom, namoradas.

O silêncio que tomou a mesa era quase palpável. Rose buscava conforto em suas batatas fritas, as conversas ao redor de onde estava e em Hugo que, apesar de parecer alheio ao que acontecia, prestava atenção em cada mínimo movimento dos pais. Esperava que seus pais dissessem algo o mais rápido possível e, para seu alívio, sua mãe foi a primeira.

— Eu sei — disse ela, em meio a um sorriso, explicando a situação ao notar a confusão no rosto da filha — Mães sabem. Sei quando está mentindo, quando está feliz ou triste. E sei quando está apaixonada.

— Você provavelmente soube antes de mim, não é? — perguntou Rose, suspirando em alívio.

— Provavelmente.

Seu pai ainda estava em silêncio, imóvel, sentado ao lado de sua mãe que estava logo à sua frente. Ele respirava fundo, piscando algumas vezes; Rose quase deu risada ao notar que era quase possível ver as engrenagens se movendo dentro da cabeça de Ronald Weasley.

— Hugo não parece surpreso — constatou, finalmente, apontando para o caçula.

— É porque eu já sabia.

— Contou para ele primeiro, Rose? — perguntou Ron, parecendo magoado.

— É porque eu não julgo — disse Hugo antes mesmo que a irmã pudesse pensar em responder, divertindo-se com a situação. A maturidade de seu irmão, aos quinze anos de idade, a surpreendia algumas vezes.

— Eu não julgo!

— Você está julgando agora, pai — acusou ele.

Rose já imaginava que talvez não fosse fácil para seu pai. Não o via como uma pessoa preconceituosa mas, afinal, nunca havia realmente pensado sobre o assunto ou observado a conduta de seu pai em situações similares. Nem ao menos se lembrava de ouvir comentário algum sobre pessoas LGBTQIA+; Ronald não mudou seu comportamento com nenhum de seus sobrinhos que já haviam contato para a família sobre qualquer que fosse sua sexualidade.

Por baixo da mesa, Hugo a cutucou para chamar sua atenção e, quando conseguiu, sorriu. Rose, então, soube que precisava apenas de paciência; ela teve tempo para pensar, mas o pai não pôde desfrutar do mesmo luxo.

— Eu ainda sou a mesma, pai — disse ela, surpreendendo-se ao ouvir a resposta do pai.

— Mas é claro que é — disse Ronald, voltando a se alimentar do hambúrguer em sua bandeja — Eu só preciso me acostumar, Rosie.

— Ainda estou convidada para os feriados?

Seu pai a encarou, estupefato, como se não entendesse a pergunta. Rose devia ter imaginado: sentia-se segura em sua casa desde criança e não imaginava que algo pudesse mudar isso sob qualquer circunstância. Finalmente, Ronald a respondeu:

— Com certeza. Alguém precisa elogiar o molho da sua mãe no dia de Ação de Graças.

Entre gargalhadas, Rose sentiu um peso liberar seus ombros ao se lembrar: amava sua família e eles a amavam também.

Mal podia esperar para contar para Alice.

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— E então meu pai disse que só precisava se acostumar — disse Rose, enquanto Alice a escutava do outro lado da tela do notebook — Acho que vai ficar tudo bem.

— Provavelmente — respondeu a Longbottom, dando de ombros — Seu pai é apaixonado demais por você para demorar mais do que dois ou três dias.

Já estabelecida em seu dormitório, Rose concordou com a amiga que havia ligado alguns minutos antes, logo depois de deixar o aeroporto de Los Angeles para trás. Rose esperou que a amiga se acomodasse do outro lado do país, rindo do quanto a futura atriz era desastrada e deixava caixas e malas caírem o tempo todo. Assim que Longbottom entrou no quarto, porém, deixou o próprio corpo cair em uma das camas, fazendo caretas para a ruiva.

— Eu estou quebrada.

— Cinco horas de voo fazem isso com você — brincou Rose — Já sabe quem será sua colega de quarto? Conheci a minha hoje, mas ela saiu. Amélia Montenegro.

— Uma Claire “não sei o que” — respondeu Alice, apoiando o celular em uma escrivaninha para arrumar seus pertences — Tudo bem, vamos falar sério agora.

— Você roubou alguma coisa minha, não foi? — Rose supôs, sabendo que o urso de pelúcia que não encontrava em lugar algum só podia estar em posse da amiga.

Alice confirmou suas suspeitas, mas manteve-se séria. A ruiva pensou que poderia ser algo preocupante, então endireitou-se na cama e deixou o celular de lado. Sua atenção era inteiramente direcionada à imagem embaçada de Alice Longbottom na tela de seu computador.

— Abre um documento e compartilha comigo — pediu, continuando quando Rose se prontificou a digitar — Digita aí: “resoluções para os próximos X anos”.

— X? — questionou Rose, digitando assim mesmo.

— Sim, não sei quantos serão. Primeiro, eu vou estar loira.

— Tudo bem. E eu vou tatuar uma fênix nas costas.

— Eu te proíbo, Rose Weasley!

— Eu tava brincando — afirmou — Mas eu totalmente vou fazer a ursa majoris no braço.

— Sério? Uma constelação?

— Vai ser discreta, eu prometo!

— Deus te ajude.

Pela próxima hora, as duas dedicaram-se à sua lista de resoluções. Rose esperava estar formada em seu curso de medicina veterinária, finalizar sua residência cuidando de ursos e, talvez, comprar um carro. Alice disse que gostaria de ver a própria foto na Times Square quando visitasse Nova Iorque e considerou permanecer em Los Angeles mesmo depois da formatura — ainda que não tivesse passado por um dia de aula sequer até o momento.

— Me parece uma boa lista — comentou Alice — Complete com “estaremos em relacionamentos sérios”. Ou encontramos outras pessoas, ou casamos de vez uma com a outra.

— Eu não namoro, Alice — disse Rose — Você sabe disso, tô muito ocupada. Mas pode ficar a vontade!

— Tanto faz. Olha, preciso desligar, minha colega chegou.

— Conversamos depois, então — prometeu Rose, despedindo-se — Até amanhã, Lice.

— Até, Ruiva.

Rose suspirou ao desligar a chamada, fechando a aba do aplicativo e encarando a tela com a lista que haviam escrito há pouco. Divertiu-se lendo as resoluções e imaginando cada uma delas; talvez, em cinco ou dez anos, já tivessem preenchido todos os campos. Ao ler o último, porém, teve a impressão de que ainda faltava algo, mesmo que a lista tivesse mais itens do que seria possível realizar nessa encarnação. A foto de Alice apareceu no topo da tela, indicando que ela também lia o documento compartilhado.

Ao diminuir a janela do navegador, ficou um tempo olhando a imagem em seu plano de fundo. A montagem era feita com várias fotos suas com seus pais, Hugo, seus avós, seus amigos da escola, algumas com Roxy e Alina e capturas de tela de chamadas de vídeo com os primos espalhados pelo globo. Espalhados na tela, alguns desenhos de ursos e da Torre Eiffel decoravam a grade. A maioria das fotografias, porém, era com Alice. As lembranças a faziam gargalhar — e quase chorar.

Abriu outra vez a janela com o documento aberto. Um pino cor de rosa no fim da página indicava que Alice digitava alguma coisa; a ruiva não conseguiu esconder o sorriso ao ler a frase no item recém acrescentado à lista. Ao lado de um quadrado vazio, Alice havia escrito que as duas ainda estariam juntas na Times Square durante a virada da década, dali a dez anos. Rose esperava por essa data há mais tempo do que conseguia se lembrar, e adorava que Alice a conhecia tão bem.

Confiante, Rose escreveu mais dois itens logo em seguida, sabendo que a amiga ainda lia o arquivo. O primeiro afirmava que a Weasley, eventualmente, estaria morando em Paris. Instantes depois de registrar o próximo, uma notificação de mensagem de texto pipocou na tela de seu celular.

lice: meu coração vai ser seu pra sempre também

Lendo aquela mensagem, Rose se deparou com uma sensação estranha tomando conta de seu peito: não conseguia se imaginar sentindo por nenhuma outra pessoa aquilo que sentia por Alice, tanto que chegou a questionar se realmente gostava tanto assim de meninos. Muito mais do que isso, Rose sabia que não iria se apaixonar de verdade enquanto seu coração estivesse tão reservado à sua melhor amiga; tinha a mais absoluta certeza daquilo.

Até que o conheceu.

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