Kaleidoscope
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Parte I - Cores Frias

PARTE I — CORES FRIAS

Quando Lucca era criança, ela odiava qualquer coisa que envolviam as artes — exceto talvez por tudo que gostava: música, dança, desenhos animados. O que ela odiava mesmo eram quadros, pincéis, tintas, lápis de cor e qualquer outra coisa que lembrasse à pintura. Todo esse ódio não era sem razão: Matteo Zabini, seu irmão mais velho, passava horas e horas focado demais na própria arte para que pudesse prestar atenção ao que sua irmã fazia.

Matteo tinha 18 anos na época e Lucca tinha 10 — aquela fase em que uma criança começa a realmente observar a realidade ao seu redor. Por pintar desde a infância, Matteo levava a arte muito a sério e não podia deixar de lado um pedaço tão importante de quem era, mas, com o tempo, acabou deixando sua caçula de lado.

Quando percebeu a gravidade da situação, Matteo sentiu o peso de seus atos. Afinal, que tipo de criança não gostava de pincéis, tintas e lápis de cor? Lucca havia se tornado essa criança, depois de todos os anos que passou desenhando coisas em todas as superfícies possíveis, recortando páginas de várias e várias revistas e inventando seu próprio conceito de arte. Lucca estava magoada.

Matteo, então, decidiu que o melhor a se fazer era reintroduzi-la ao fabuloso mundo das artes. Por meses seguidos, levou a irmã a todos os museus do Grupo Tate, o Victoria e Albert Museum, Madame Tussauds e todas as exposições de arte moderna que conseguiu encontrar. Não foram raras as vezes em que a levou para comprarem tintas, telas, pincéis, suportes e cavaletes.

Em um desses passeios, os irmãos Zabini estavam em uma feira artística, daquelas que você encontra todo o tipo de coisa: desde pessoas vendendo materiais até artistas independentes demonstrando o próprio trabalho. Matteo estava distraído com um kit de tintas qualquer e entrou em desespero quando, ao abaixar os olhos para mostrar as cores para a irmã, não viu Lucca em lugar nenhum. Olhou para todos os lados, empurrou algumas pessoas que entravam em seu caminho, gritou desesperado pela caçula, mas não obteve resposta alguma.

Quando estava a um passo de ligar para os pais — ou para a polícia, ainda não tinha certeza — viu o emaranhado de cabelos cacheados parado perto de um homem no topo de uma escada. De onde estava, ele colava pedaços coloridos de um papel que nenhum dos Zabini reconheciam na enorme tela contendo o desenho de dois cavalos; os animais estavam juntos, envolvidos em folhas e flores. O trabalho era delicado, cuidadoso e minucioso, muito bonito, e Lucca estava boquiaberta. O homem tinha cabelos meio lisos, abaixo das orelhas, e tinha uma bandeira cubana presa em um mastro e apoiada ao lado do cavalete. Não devia ter mais de 20 e poucos anos.

Respirando fundo em alívio, Matteo se aproximou de onde Lucca estava. Depois que ela empurrou os cachos para trás a fim de enxergar melhor, o mais velho percebeu que os olhos dela brilhavam em admiração e expectativa. A cabeça dela estava curvada para o lado e os dedos se mexiam nervosos quando, do topo de uma escada, o artista percebeu que estava sendo observado pelos irmãos.

Com cuidado, ele desceu os degraus e deixou que o pincel e os pedaços de papel descansassem na pequena mesa de madeira que havia montado ao chegar à feira, localizada dentro de uma estrutura parecida um uma estação de trem: era grande, espaçosa e tinha um mezanino na parte de cima, onde era possível observar todo o espaço. As janelas de vidro eram coloridas e mantinham o local iluminado pelo sol. O homem sorria e, quando o fazia, era possível notar algumas rugas no canto dos olhos, marcas de expressão que ele carregava com carinho graças a todos os sorrisos que já havia oferecido até aquele ponto em sua vida. Ele se aproximou de Lucca e Matteo, apertando a mão do garoto ao cumprimentá-lo.

— Hola, cariños— ele disse em um espanhol arrastado — Como posso ajudá-los nessa bela tarde?

— A gente tá só olhando — Matteo informou, puxando a irmã para perto de si — Não queremos atrapalhar, mas ela ficou curiosa.

— Imagine, fiquem à vontade — respondeu o artista — Sou Rafael Fuentes.

— Eu me chamo Lucca — disse a criança, apontando para o irmão depois — Esse é meu irmão, Matteo. Ele não faz igual você. Ele usa tinta.

Ficou claro que Lucca era uma criança falante, sem muito medo de dizer o que pensava (assim como quase todas as crianças que um dia cruzaram o caminho de qualquer pessoa). Rafael ficou intrigado, percebendo o interesse da menina.

— Sabe que eu uso tinta às vezes? — ele disse — Mas eu gosto de ter bastante opção quando estou criando.

— Por que?

— Porque eu me sinto melhor se eu usar vários tipos de materiais diferentes.

— Por que?

Matteo pensou em interromper, mas reconsiderou. Lucca era uma criança extremamente curiosa e levou tempo para que ela voltasse a se interessar por arte. Então, ele ficou em silêncio, se divertindo com a quantidade de perguntas que a irmã fazia.

— Porque qualquer coisa pode ser um pedaço da sua arte se você quiser — Rafael informou, abaixando-se à altura de Lucca.

— Eu quero! — ela respondeu, parecendo empolgada, segurando a mão do irmão e apontando para o quadro — Matteo, eu posso fazer também?

— Não dá pra mexer no que ele tá fazendo, Lucca — ele respondeu, continuando assim que a decepção tornou-se parte das feições da menina — Mas a gente pode comprar essas coisas e fazer em casa, o que acha?

— Por favor — interrompeu Rafael, chamando-os para perto da tela — Pode deixá-la tentar, não tem problema nenhum.

Lucca não se conteve. Foi o mais rápido possível até a mesa em que Fuentes separava os materiais, explicando para ela como usar o pincel certo para aquela técnica, como usar o palito de madeira para raspar o papel, como puxar um pedaço do papel sem que fique muito grande. Matteo tirou algumas fotos para mostrar aos pais mais tarde, acreditando que ficariam satisfeitos em ver que Lucca estava se divertindo.

Quando Rafael se aproximou do quadro após subir alguns degraus da escada móvel, Lucca pediu que o irmão a segurasse nos ombros para que alcançasse o local em que aplicariam as folhas coloridas. Com a ajuda de Fuentes, Lucca coloriu os olhos nas cabeças dos cavalos, algumas folhas e flores. No fim, ele deixou que ela desenhasse as letras “LAZ” ao lado das iniciais dele no canto inferior do quadro. Lucca Antonella Zabini se sentia, oficialmente, uma artista. Igualzinha ao Matteo, ela pensava.

Antes de irem embora, Matteo aproveitou para pegar algumas informações a respeito do material, já que Lucca havia gostado tanto. Os homens chegaram a trocar contato, e Lucca se despediu quando Matteo lhe pediu para agradecer, achando graça quando a menina misturou o italiano com a língua matéria de Rafael.

— Grazie, señor Fuentes — ela arriscou, acenando com a mão livre enquanto a outra segurava a mão do irmão.

— Adiós, señorita— ele acenou de volta, achando graça da menina, mas Lucca já não prestava atenção em mais nada quando viu a luz do pôr do Sol entrar pelas janelas e bater na tela que havia acabo de colar alguns papéis coloridos. Quando a luz foi refletida, uma imensidão de cores que ela nunca havia visto antes se formou diante de seus olhos, iluminando grande parte da área em que estavam.

Outra vez, Lucca estava boquiaberta. A combinação de cores era inacreditável e ela se viu obcecada por aquilo por mais tempo do que poderia contar. Depois de chegar em casa, correu para a casa dos vizinhos e passou a tarde toda contando para seu melhor amigo sobre a experiência que havia acabado de presenciar — é claro que da melhor forma que uma criança poderia explicar a imensidão de sensações que testou naquele dia.

Scorpius Malfoy estava treinando piano quando a amiga entrou correndo pela sala. Achou que ela fosse ficar irritada já que a música é absolutamente uma arte, mas a menina nem pareceu se incomodar. Ela carregava em suas mãos algumas folhas coloridas meio transparentes e uma tela pequena vazia, além de uma sacola com pincéis e palitos de madeira.

— O que você tá fazendo aqui? — ele perguntou — Você disse que ia sair com seu irmão.

— Eu já voltei, né? Dãã! — implicou ela — Eu tenho que te mostrar uma coisa! Toca aí o seu piano que eu vou fazer um desenho.

— Tá bom — deu de ombros.

Pelas próximas horas, ela, deitada no chão perto do piano, se dedicou a desenhar algo que conhecia muito bem: seu irmão. A diferença de idade entre Lucca e Matteo impediu que eles brigassem com muita frequência, exceto nos últimos meses, já que o mais velho estava muito focado em seu trabalho e em conseguir uma vaga em uma boa universidade de artes. Faltava pouco para os resultados das provas e testes que fez, mas ele sabia que provavelmente iria para outro país (mesmo que Lucca não soubesse disso ainda).

Quando o desenho ficou pronto, Lucca começou a colar o papel transparente-colorido, sob o olhar curioso de Scorpius — que já havia deixado o piano de lado há muito tempo. Enquanto trabalhava, Lucca começou a explicar para o amigo sobre a técnica, os materiais e, especialmente, as cores. No meio da explicação ela parou e encarou Scorpius por um bom tempo antes de dizer:

— Você é azul, sabia?

Scorpius achou que ele estava sujo, mas depois de encarar seu reflexo no espelho mais próximo que encontrou, viu que não era nada disso. Pensou que Lucca estivesse apenas brincando com sua cara, mas quando olhou para ela outra vez, ela estava séria, concentrada novamente no que fazia. Se o objetivo dela tivesse sido brincar com a cara dele, ela com toda certeza estaria caindo na gargalhada mas, na verdade, foi como se nada tivesse acontecido. Scorpius não entendeu coisa nenhuma, mas até que a colagem de Lucca estava ficando bonita.

Com o passar das semanas, ela começou a observar a forma com que as cores se organizavam em todas as situações de sua vida, acreditando do fundo de seu coração que as matrizes de tonalidade eram a resposta para toda e qualquer coisa que imaginasse. Por dois anos, Matteo optou por um curso preparatório em Londres, no Instituto de Artes da cidade, mas depois de um tempo já não era mais suficiente.

Lucca tinha 12 anos quando sua obsessão por cores começou a aumentar. Foi por isso que antes de se mudar para a França, Matteo lhe presenteou com um caleidoscópio, um instrumento óptico repleto de pedaços de vidro na ponta, que permitiriam que Lucca observasse com mais atenção a policromia refletida pela luz.

Lucca passou o dia chorando quando Matteo foi embora, mas ele lhe prometeu que voltaria em todos os fins de semana e feriados e passaria o maior tempo possível com ela. Ela prometeu que nunca iria parar de criar, não importa o que acontecesse.

Por alguns dias, a garota se recusou a mexer com qualquer coisa minimamente artística de tão irritada que estava, mas quando Matteo ligou para seus pais por chamada de vídeo e perguntou dela, ela foi tomada por um sentimento de culpa e tinha a mais absoluta certeza de que levaria uma bronca do irmão. Dito e feito: Matteo não se reteve em repreender Lucca e explicar para ela a importância de manter suas promessas.

Conforme os anos se passavam, Matteo visitava a casa dos pais todos os fins de semana que conseguia e, quando simplesmente não dava, Lucca pegava o próximo trem para Paris, empenhada em contar para o irmão a respeito de todas as coisas que havia feito, falado, comido ou qualquer outra coisa que ocorrera em sua semana. Na maioria das vezes, costumavam ser notícias não-tão-importantes, mas aquele fim de semana de dezembro teve uma carga de relevância muito maior do que todos os outros, e Lucca não poderia estar mais nervosa.

Era o último ano de Matteo na faculdade e ele passava 24 horas, 7 dias por semana, concentrado em seu projeto que apresentaria na conclusão de seu curso de pintura, mas naquela quase-madrugada de sexta-feira havia aberto uma exceção para buscar a irmã na estação de trem. Lucca chegou na estação com seus cabelos extremamente cacheados soltos ao redor do seu rosto, com uma mala pequena de rodinhas e o suéter violeta que havia ganhado de Scorpius há um tempo. Ela cumprimentou o irmão com um abraço apertado e assim seguiram para o apartamento dele em um bairro mais ou menos seguro na belíssima Paris.

No sábado de manhã, como sempre, Matteo havia comprado café da manhã e fez questão de acordar a irmã às 7 da manhã aos gritos e batidas de panelas. Lucca levantou resmungando, com os cabelos emaranhados e os olhos inchados, ainda que estivesse feliz de estar ali.

— Você veio aqui pra me dar atenção, não pra dormir — ele dizia todas as vezes.

Sentada à mesa de madeira, Lucca apenas escutava todas as novidades e reclamações de Matteo sobre o curso, o clima, as ruas, os professores e absolutamente qualquer coisa minimamente francesa que pudesse reclamar — exceto pelo jornal Le Monde. Diferente de todos os outros dias, Lucca estava extremamente quieta e Matteo não deixou de cutucá-la para entender o que estava acontecendo.

— Por quanto tempo mais você acha que vai conseguir fingir que não tem nada pra contar? — perguntou ele, empurrando um pote com doces para que ela alcançasse.

— Eu esperava que o fim de semana inteiro servisse — respondeu ela, com a boca suja de açúcar — Mas até que foi um recorde. 6 horas seguidas. Da última vez foram 8 horas, não foi? Sabe que a mamãe me disse que-

— Lucca — chamou ele — Desembucha.

Lucca respirava fundo, pesado. Havia pensado muito sobre o assunto durante meses e, depois do que aconteceu na semana anterior àquela viagem, construiu um discurso estruturado em sua cabeça durante todo o trajeto para que pudesse contar para o irmão sua descoberta mais recente — ou talvez nem tão recente assim. Quando percebeu que não tinha mais volta, achou melhor contar logo tudo de uma vez.

Para ela, tudo havia começado quando ela tinha 14 anos e estava completamente obcecada pela Halsey, dizendo para qualquer um que estranhasse que a razão era que a cantora entendia muito bem o conceito de cores depois de lançar a música Colors — uma mentira tão deslavada que nem ela mesma acreditava.

Quando ela tinha 15 anos, todas as suas amigas — e Scorpius — já tinham beijado alguém, menos ela. Então, em uma festa de aniversário qualquer, ela finalmente deu alguma mínima moral para Julius Watkins, que vinha pegando no seu pé há vários meses chamando-a para sair, e beijou ele atrás de uma pilastra no canto do salão. O problema havia sido que ela não gostou nenhum pouco, mas sua mãe lhe disse que o primeiro beijo costumava ser meio esquisito mesmo e ela deveria tentar de novo outro dia se quisesse.

E ela tentou. Com Julius Watkins ainda aos 15 mais umas duas ou três vezes. Com Henry Thomas mais vezes do que poderia contar e ela gostava bastante dele, mas o lance não durou muito tempo. O mesmo aconteceu com William Riley, logo depois de completar 16 anos.

Há alguns meses, ela e Taylor White chegaram a transar algumas vezes — e sim, ela havia gostado bastante, mas acabaram terminando por concordarem que eram muito jovens, muito livres e não estavam apaixonados. Não mesmo.

Até que, quase aos 17 anos de idade, na semana passada, Jessica Tyler a beijou atrás de uma prateleira da livraria do velho espanhol Santiago Díaz, onde Lucca trabalhava com Scorpius. De todos os beijos que havia dado e recebido em sua vida, aquele foi o melhor (pelo menos até o momento).

Depois de terminar de falar, teve a sensação de que havia soltado tudo em um fôlego só. Aceitou o café que Matteo estendeu para ela, bebendo e tentando acalmar a respiração sob o olhar curioso do irmão.

— Não vai dizer nada? — perguntou ela, recebendo uma risada fraca de Matteo em resposta.

— Você pode ter errado o começo, sabe? — ele implicou, recebendo um olhar confuso em troca — Você acha que seu incômodo sem explicação com aquela vizinha que morava na casa da frente quando você tinha uns 12 anos era realmente sem explicação?

Surpresa, Lucca pareceu finalmente se lembrar de Catalina Moore e de como os olhos castanhos dela eram irritantemente bonitos.

— Então você já sabia?

— Eu suspeitava — corrigiu Matteo, achando graça da confusão da irmã.

— Então por que não disse nada? — questionou ela, exasperada, mas recebeu um olhar de reprovação do irmão.

— Você sabe que eu não posso decidir as coisas por você e muito menos sair dizendo por aí quem você é só porque eu te achava esquisita — ele disse — Lucca, eu sou seu irmão. Eu sempre vou te achar esquisita, ô, maluca das cores.

— Cala a boca, Matteo — mandou ela, franzindo o nariz ao dar risada e empurrar o braço do irmão.

— Mamãe e papai já sabem? — questionou ele depois de um tempo, recebendo uma resposta negativa da irmã — E o Scorpius?

Lucca passou as mãos no rosto, parecendo envergonhada, mas ainda estava rindo quando respondeu.

— O Scorpius viu a Jess me beijando, cara.

Matteo achou muita graça da situação toda, mas percebeu que Lucca tinha certo receio de contar aos pais sobre a própria bissexualidade. Foi então que ele se ofereceu para estar presente, já que iria para casa no próximo fim de semana.

— Mas eu não vou contar nada por você — ele avisou — Eu vou apenas… Bom, estar lá.

— Parece ótimo pra mim.

E o combinado estava firmado.

Aquele foi um dos melhores fins de semana de Lucca, pois agora se sentia muito mais confortável do que já se sentia perto do irmão. Ela sempre fora uma pessoa muito emotiva e por isso desatou a chorar quando Matteo comprou uma bandeira do orgulho bissexual para ela e um broche para ele. Ele usou aquele broche durante o fim de semana inteiro, e também no fim de semana seguinte depois de um longo e esclarecedor jantar em família. Lucca percebeu que ele passou a usar aquele broche o tempo todo, em qualquer lugar que fosse.

Era sexta-feira à noite, véspera de Natal, quando Matteo chegou em Londres; havia saído mais cedo de Paris para que pudesse estar com Lucca quando ela contasse aos pais sobre sua bissexualidade. A reação de Blaise e Elizabeth Zabini não poderia ter sido melhor. Talvez eles também soubessem, pois não pareceram muito surpresos.

Primeiro, ficaram em silêncio. Depois, Blaise se levantou e tirou quatro garrafas de cerveja da geladeira. Sem nenhuma expressão clara em seu rosto, abriu as garrafas e entregou uma para cada um de seus filhos, uma para a esposa e sentou-se outra vez ao abrir a sua, provocando um leve tilintar do vidro quando brindou com a filha.

— Sempre pensei que teria que afugentar vários garotos cheios de dedos da porta da minha casa — disse ele — Acho que agora preciso afugentar garotas também.

— Espera — pediu Lucca, parecendo preocupada quando trocou olhares com o irmão sentado ao seu lado — O senhor não tá bravo? Não precisa pensar um pouco? Fazer umas perguntas, não sei?

— Enquanto você estiver feliz, baixinha — ele disse -, eu também estou.

Lucca deu risada, bebendo um gole da cerveja — algo que jamais imaginou que estaria fazendo com seus pais. Depois disso, Elizabeth, que ainda estava em silêncio, suspirou quando passou as mãos pelos cabelos pretos.

— Pra ser bem honesta — ela disse, segurando a mão da filha por cima da mesa, parecendo aflita antes de continuar -, eu estou muito aliviada que você finalmente nos contou. Não queria ter que te perguntar.

Então, Elizabeth levantou-se do lugar e correu para a janela da cozinha para chamar pelos Malfoy, ficando aliviada por ver que Draco estava de frente para a janela da própria cozinha. Os três moradores da casa ao lado, então, foram até eles, esperando para saber qualquer que fosse a novidade que os Zabini tinham para contar.

Lucca viu Scorpius entrar pela porta da frente primeiro, andando até a cozinha para vê-la. Ao notar o sorriso desenhado no rosto da amiga, sabia muito bem o que havia acontecido — além do mais, Lucca tinha dito que contaria aos pais quando Matteo estivesse em casa para o Natal.

— Que bom que você contou pra todo mundo — disse ele, deixando o corpo cair na cadeira — Eu não acho que ia conseguir guardar segredo por mais nem um minuto. Oi, Matteo, oi, tio Blaise — cumprimentou ele, voltando-se para Lucca outra vez — Mas então, como foi?

— Meu pai me deu uma cerveja, minha mãe já sabia — respondeu Lucca, apontando para a garrafa em sua mão — Ah, e dona Elizabeth prometeu que iria bordar uma bandeira do orgulho bissexual pra eu levar pra faculdade.

— Mas quais são as cores mesmo? — perguntou a matriarca Zabini, inocentemente, causando risadas em todos os presentes — Eu sou uma mãe moderna, mas são muitas bandeiras!

Dali em diante, as coisas foram muito bem, obrigada. Pelo restante do semestre, Lucca e Matteo dedicaram todos os fins de semana que passavam em Londres a visitarem instituições de artes nos arredores da cidade. Universidade da Cidade de Londres, Universidade das Artes de Londres, Oxford Royal Academy e a Universidade de Cambridge são alguns dos exemplos. Juntos, saíam com o carro de Blaise e dirigiam horas até o próximo alvo, cheios de panfletos espalhados pelo carro. Matteo até sugeriu que Lucca tentasse estudar na França já que ele poderia ajudá-la facilmente, mas a caçula queria muito continuar em Londres — ou pelo menos por perto.

O problema era que, por mais que pesquisasse, só havia um lugar para o qual ela queria ir: o Instituto de Artes Gerais de Londres, local para o qual ela e Scorpius já haviam enviado suas inscrições. As outras faculdades funcionavam mais como um plano B.

Quando recebeu a carta do Instituto, estava deitada em sua cama olhando para o teto. Era uma quinta-feira e, depois do longo dia que havia enfrentado na escola e no trabalho, achou importante ter os sagrados 5 minutos de descanso antes de estudar para os últimos testes que faria para que pudesse — finalmente — se formar no ensino médio.

— Sabe, eu adoro trabalhar na livraria do Sr. Diaz — ela disse — Mas se eu tiver que encontrar mais uma revista pornográfica pros garotos do primeiro ano, eu juro-

— Ah, nem me fale — Scorpius respondeu, deitado no puff ao lado da janela do quarto de Lucca — Eu não aguento nem mais um dia até a formatura.

Scorpius e Lucca eram melhores amigos desde muito pequenos. Estudavam juntos, trabalhavam juntos, passavam todo o tempo juntos. Como eram vizinhos, era impossível não se esbarrarem o tempo todo. Cansado, Scorpius deixava a cabeça esbarrar no chão, quase dormindo ali mesmo, sendo interrompido pelo chamado de Blaise Zabini.

— Crianças, desçam aqui, por favor — ele dizia — E venham rápido.

Quando eles desceram, estavam quase se arrastando pelas escadas. Scorpius nem ficou surpreso em ver seus pai ali, sentados nos sofás da sala em volta da mesa de centro.

Blaise, ao lado de Draco, sorria, ambos com uma garrafa de cerveja em mãos. Elizabeth e Astoria conversavam uma com a outra, descontraídas, planejando a vida dos filhos sem nem se preocupar com qualquer outra coisa. Em cima da mesa de centro, Scorpius e Lucca puderam ver dois envelopes pardos, grandes e grossos, um em cima do outro. Apostaram corrida da beira das escadas até a mesa, como as crianças de 10 anos que um dia foram.

Quando Lucca tropeçou antes de chegar à mesa, acabou dando oportunidade para que Scorpius alcançasse os envelopes enquanto ria da amiga estatelada no chão.

— Não é engraçado, sabia? — ela reclamou, massageando o joelho — Vai ficar roxo.

— Você já tá cheia de roxos, Lucca, um a mais ou a menos não vai fazer diferença.

O loiro sentou-se em frente à ela, entregando o envelope que dizia “Lucca Antonella Zabini” em letras garrafais. Ao contarem até três, abriram o envelope ao mesmo tempo.

Dentro dele, puderam ver vários documentos, mas o que chamou atenção foi a carta que aparecia primeiro: “O Instituto de Artes Gerais de Londres tem o prazer de convidá-lo a ingressar em nossa instituição no início do próximo semestre letivo”.

— Caralho — disse Scorpius ao se levantar, oferecendo ajuda à amiga e sem se importar com o olhar reprovador de sua mãe quando disse um palavrão — A gente passou.

Lucca foi a primeira a gritar. Ela segurava o envelope e pulava pela casa, abraçada à Scorpius, fazendo seus pais rirem com a alegria dos filhos. Lucca queria que Matteo estivesse ali, mas se contentou em passar a notícia por chamada de vídeo.

Aquele dia foi totalmente violeta: encantado, mágico, dava para sentir as novas energias emanando no ar em volta de Lucca. Todas as coisas relacionadas ao Instituto, pelo menos no início da nova vida universitária de Lucca e Scorpius, eram organizadas em nuances de cores frias, desde o dia em descobriram que haviam sido aceitos.

O dia da formatura acabou chegando mais rápido do que imaginavam; a ansiedade em começar a vida universitária fez com que tudo passasse voando, em um piscar de olhos. Lucca se olhou no espelho antes de sair do quarto, já com sua beca por cima do vestido azul escuro que usava. Seu cabelo estava solto, exibindo todos os seus cachos, e estava enfeitado apenas com o cordão que ela tirou do capelo mais cedo; ela se recusou a amassar seu cabelo cheio de cachos muito bem definidos dentro daquela coisa. Se distraiu da própria imagem quando Scorpius a chamou pela janela do quarto dele, apressando-a para irem logo.

A cerimônia estava na metade e os jardins do colégio estavam cheios com os formandos e suas famílias. Quando Scorpius foi chamado para pegar o diploma, Lucca fez questão de se levantar, gritar e bater palmas, assim como seus pais e os pais de Scorpius. Em sua vez, quase chorou ao ouvir os gritos de seus pais, seu irmão e dos Malfoy também. Ela estava tão feliz que mal podia descrever o que sentia.

Quando a cerimônia terminou, Lucca e Scorpius foram de braços dados até o local em suas famílias os esperavam, prontos para lhe abraçarem com força.

— Parabéns, maluca das cores! — disse Matteo ao abraçar a irmã — Eu tirei umas mil e quatrocentas fotos de você lá em cima.

— Estamos tão orgulhosos de vocês — exclamou Astoria — Parabéns, crianças!

— Vocês estavam lindos lá em cima, com toda a certeza — disse Elizabeth — Scorpius, querido, acredito que tenha alguma música pra tocar mais tarde?

— Tenho uma coisa ou outra rabiscada em algum lugar, tia Lizzie — respondeu ele, levando uma cotovelada de Lucca.

— Para de se fazer — ela disse — Você ficou o mês inteiro me alugando pra escutar umas três músicas novas.

— Com certeza vai se dar bem no Instituto, garoto — disse Blaise, abraçando Scorpius com carinho.

— E você, Lucca? — perguntou Draco — Alguma colagem pronta? Sabe que não vou pegar leve com você no instituto.

Lucca sorriu quando ouviu o que Draco lhe disse. Há anos, o Malfoy dava aula de artes plásticas no Instituto de Artes Gerais de Londres e fazia uma ótima propaganda do lugar. Sem sombra de dúvidas, ele amava o que fazia.

— Ora, por favor, tio Draco — respondeu ela, empinando o nariz e fazendo com que todos rissem quando ela citou algo que o próprio Draco Malfoy costumava dizer — “Não se pode cobrar ou apressar um artista. A arte vem do sentimento.”

Depois disso, foram ao restaurante preferido de Scorpius e Lucca: o Queen Victoria’s Diner. Entre hambúrgueres, batatas fritas, milk-shakes e refrigerantes, Lucca voltou a pensar em suas cores, achando importante que conseguisse identificar a cor daquele dia. Nunca esteve tão azul: confiante e segura do novo caminho que seguiria. Também nunca se viu em tons tão verdes quanto aqueles: ela se sentia confortável e tranquila em sua própria juventude. Mas, acima de tudo, sabia que tudo era violeta; ela quase podia sentir em seus dedos a energia, a magia, o encantamento que saia de dentro do seu peito ao pensar no mundo novo que poderia construir.

— Como se sente, Lucca? — perguntou Matteo, depois de horas e horas rindo ao lado de sua família. Lucca sorriu, pois sabia muito bem o que o irmão queria dizer.

— Não consigo me decidir entre violeta, azul e verde — respondeu ela, enumerando as cores com os dedos — São cores frias, mas acho que são muito apropriadas, se quer saber.

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VIOLETA — energia

O primeiro semestre letivo de Lucca Zabini no Instituto de Artes Gerais de Londres havia sido inteiro em diferentes tons de cores frias. Especialmente o último dia da semana de avaliações.

Lucca não estava com medo do primeiro dia na faculdade. Quando ela e Scorpius foram conhecer o apartamento em que iriam ficar, ela sentiu toda a magia de — finalmente — estar em uma universidade.

A cidade universitária era linda, cheia de gente de todos os tamanhos, etnias e, o que Lucca mais gostava: cores. Sempre que olhava para alguém, conseguia identificar a cor que melhor descreveria aquela pessoa.

A garota do apartamento em frente ao seu era verde. Era parecia muito tranquila, tal qual a cor que Lucca associava a ela.

O homem que os atendeu na recepção era, com toda a certeza, azul. Ele passava muita certeza e segurança no que dizia, apesar de parecer um pouco triste, talvez.

Lucca e Scorpius voltavam ao próprio apartamento quando Zabini observou o outro lado da rua, depois da praça entre o prédio em que moravam e uma outra moradia estudantil. Não conseguiu olhar por muito tempo, mas viu vermelho.

Andando pela calçada estava a garota mais bonita que Lucca já havia visto em toda a sua vida, passando pelas pessoas do outro lado da avenida, sumindo depois da esquina. Lucca ficou um bom tempo encarando o lugar, até mesmo depois que a-garota-vermelho saiu dali.

Da bolsa de pano que carregava atravessada no corpo, tirou um caleidoscópio antigo, prateado, que havia ganhado de Matteo há muitos anos atrás, e apontou-o para o lugar onde a-garota-vermelho tinha desaparecido. Alheia ao que acontecia ao seu redor, Lucca olhou pela ponta e sorriu quando a luz refletida no objeto confirmou sua hipótese: o centro do local, exatamente onde a garota antes estava, era colorido em vermelho.

— Lucca? — chamou Scorpius, quando percebeu que a amiga havia ficado para trás — Ei, Terra chamando Lucca!

— O que é, Malfoy? — disse ela, ainda sem desviar o olhar.

— Você tá testando as cores das pessoas de novo né?

— Não.

— Você está sim.

— Fica quieto.

— Você sabe que isso é maluquice, né? — implicou Scorpius.

— Cala a boca — ela ordenou, guardando o caleidoscópio de volta na bolsa e empurrando Scorpius pelo braço, para que subisse as escadas — Vai logo, temos um apartamento pra terminar de decorar.

E assim fizeram. Ao longo do semestre, se dedicaram a deixarem o apartamento o mais parecido possível com os dois. A sala, o espaço comum, tinha apenas uma parede branca, onde poderiam escrever recados, letras de músicas — no caso de Scorpius — ou desenhos, pinturas e colagens — no caso de Lucca.

O quarto de Scorpius era inteiro dedicado à música. Havia um suporte para que seu violão e sua guitarra ficassem pendurados perto da cama. Milhares de cd’s e discos estavam organizados em diversas estantes, por época e artista. A escrivaninha preta tinha livros e mais livros sobre a ciência e a matemática da música, além de dois porta-retratos brancos: um tinha uma foto de Scorpius com os pais em sua formatura, e em outro, uma fotografia estampava ele e Lucca sorrindo, cobertos de tinta, em um aniversário dela.

O quarto da Zabini havia sido projetado para mudar o máximo de vezes que conseguisse, pintado inteiro em paredes brancas, assim como os móveis que preenchiam o espaço. Exceto por isso, uma única parede, a da cabeceira da cama, era pintada com as cores do arco-íris, combinando com as almofadas espalhadas no chão ao lado do puff branco. A primeira coisa que fez ali foi uma colagem de fotos, cheia de lembranças de cada um de seus dias mais coloridos.

A única coisa que havia deixado Lucca triste era a distância entre seu prédio e o de Scorpius, já que estavam acostumados a ficarem grudados quase 24 horas, 7 dias por semana. Por estudar música, o Malfoy ficava em um prédio à vários e vários metros de distância do prédio de artes plásticas, onde Lucca passava a maior parte do tempo. Graças a isso, decidiram se encontrar no meio do caminho.

O pátio e os jardins do Instituto eram um espaço em comum para todos os estudantes. Entre várias barracas de comida, quiosques e carrinhos, os alunos se espalhavam no chão e nas mesas de madeira. O grupo de dança estava sempre perto do grupo de cinema, que dava sempre um jeito de se juntar com a turma de design — super amigos dos estudantes de moda — e de artes plásticas. O pessoal de arquitetura ficava um pouco mais isolado, mas vez ou outra se misturavam com os alunos de escrita criativa.

Naquele dia, um dos grupos do prédio de dança havia feito uma apresentação rápida no jardim. De onde estava, sentada na mesa de madeira ao lado de Scorpius, Lucca sentiu algo aquecer dentro do peito quando viu a garota-vermelho dançando ali. Não teve coragem de se aproximar já que a bailarina havia ido embora tão rápido quanto chegou, mas estava hipnotizada.

— Escrevi uma música nova — Scorpius disse, tirando-a de seus devaneios — Quer ouvir?

— Só se não for um lixo — implicou ela, rindo da careta que Scorpius fez antes de pegar o violão.

Depois de afinar as cordas, o loiro arriscou alguns acordes antes de começar de fato. A música era lenta, bastante triste. Conforme Scorpius tocava e cantava, Lucca tinha certeza de que sentia muito azul ao ouvir o som melancólico do violão. Quando Scorpius terminou de cantar, contou para a amiga que chamava aquela música de “I wanna be yours”.

— Honestamente? — Lucca começou — É uma música bem azul. Eu nunca ouvi nada tão meloso em toda a minha vida. Sério. A última vez que você escreveu uma coisa assim foi…

— Não — ele interrompeu, guardando o violão com uma rapidez nunca antes vista.

— Ai meu Deus!

— Lucca, fica quieta.

— Você tá apaixonado! — constatou ela, pulando em volta do amigo que tentava se afastar dali com pressa.

Scorpius havia conhecido uma garota. Uma garota do prédio de dança. O nome dela era Rose Weasley, uma ruiva de pele pálida e lábios vermelhos, e ela era extremamente talentosa. Seus círculos de amizade costumavam chamá-la de GR, mas ela gostava quando Scorpius e Lucca a chamavam de “Ross”. Lucca jurava que a cor perfeita para aquela Weasley era laranja, mas não tinha nada a ver com os cabelos dela.

— Então por quê? — perguntou Rose quando Lucca contou a ela sobre as cores. Scorpius revirava os olhos, sem desperdiçar a oportunidade de cutucar a amiga.

— Não dá moral pra essa maluquice dela, Ross — pediu Scorpius, jogando os cabelos para trás — Daqui a pouco ela aponta o caleidoscópio dela pra você e diz que “está testando a sua cor”.

— Eu acho que você seja laranja, Ross— ela disse, dando ênfase no nome da mulher -, porque você exala alegria. E calor. E pra sua informação, Scorpius, minhas cores são muito mais legais que seu sofrimento constante nas suas músicas.

Rose soltou uma gargalhada ao ver a discussão aumentar conforme Scorpius ficava mais irritado com a implicância de Lucca — e vice-versa. Aqueles dois eram conectados de alguma forma e era uma amizade linda de ver.

Aqueles primeiros meses do semestre foram bem roxos, violetas. Conforme os dias se passavam, Lucca percebeu muito bem a transformação pela qual havia passado. Se sentia um pouco mais madura do que antes, exceto por continuar desastrada demais.

Ela acreditava que parte desse amadurecimento se devia ao relacionamento de quase-um-mês que teve com Marina Tiersen, uma outra estudante do Instituto que havia conhecido em uma aula de história da arte. Marina era extremamente inteligente, muito bonita também. Ah, e o sexo. Lucca teve sua primeira noite de sexo com uma mulher depois que conheceu Marina e ela passou um bom tempo pensando nisso. Adorava a forma com que seu corpo respondia à cada toque dela.

Marina exalava certa arrogância às vezes e, talvez, esse tenha sido o problema. Ela fazia questão de tentar mostrar o quanto era melhor do que Lucca, tentando intimidá-la com seu trabalho. Quase como se Tiersen se sentisse ameaçada por Lucca. Algumas vezes, Marina tentou afastá-la de Scorpius e aquela havia sido a gota d’água. Não é justo que tenha que se afastar de seus amigos para agradar outra pessoa.

O relacionamento foi, então, roxo: cheio de mistério, erotismo e beleza. Ela adorava o conhecimento artístico que Marina mostrava, mas a crueldade e a arrogância acabaram destruindo o que tinham antes que pudessem realmente construir qualquer outra coisa juntas.

Já era dezembro quando começaram e terminaram o pseudo-relacionamento. Não chegou a identificar muitas cores além do roxo durante aquele curto período, mas Lucca se sentia renovada. Além do mais, não tirava a garota-vermelho de sua cabeça.

Não ficou tão triste quanto pensava que estaria com o fim do quase-namoro, mas acreditava profundamente que a troca de energias havia transformado quem elas eram antes de se conhecerem.

Ah, energia. O primor do violeta.

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AZUL — iluminação

Lucca não dormia direito há dias. Suas provas finais se aproximavam e ela não tinha ideia de que projeto entregar para a aula disciplinas de ateliê, uma das matérias que Draco Malfoy lecionava no Instituto — e nada de ver a garota-vermelho outra vez.

Estava de madrugada quando Lucca sentiu vontade de ligar para o irmão. Matteo já havia terminado a faculdade no semestre anterior e voltou a morar em Londres logo depois da formatura dela. Não morava mais na casa dos pais; alugou um loft no centro da cidade, que pagava com o ótimo salário de restaurador que recebia. Ele conseguiu um emprego incrível no museu de arte moderna do grupo Tate e mandava fotos o tempo todo por mensagens.

— Oi, Matteo — ela disse quando ele atendeu — Desculpe pelo horário.

— Não tem problema, Luquita— tranquilizou ele, bocejando de sono.

Apesar do horário, Matteo não estava preocupado. Desde pequena, Lucca sempre gostou muito das madrugadas. Reservava as noites para conversar, desenhar, construir alguma coisa. Foram muitas noites em claro escutando a barulheira sem fim da garota no quarto ao lado, e ele não era inocente de pensar que seria muito diferente quando ela saísse de casa.

— Meus testes estão começando — contou ela — e estou indo bem na maioria deles.

— E qual deles te preocupa?

— O teste de pintura, de disciplinas em ateliê — explicou Lucca — Sabe? A matéria do tio Draco.

— E qual é o problema exatamente?

— O meu problema é que eu não sei o que fazer. Fiz ótimas colagens pra aula de visual e fui bem nos testes de história da arte, mas não consigo pensar em algo bom o suficiente pra essa matéria.

— Você pensou nas cores, Lucca?

Lucca suspirou antes de responder. Pensar em cores era tudo o que fazia.

— É claro que pensei, né — respondeu ela — O tempo todo. Mas não vem nada. Até o Scorpius já escreveu ótimas músicas pros testes dele. E a Rose, a namorada dele, montou uma coreografia inteira. E eu não consegui pensar em nada.

— Namorada?— questionou o homem — Tia Astoria vai adorar saber disso.

Lucca bateu com a mão na testa quando viu a burrada que tinha cometido. Scorpius ficaria furioso se soubesse que todos descobriram aquilo antes que ele mesmo pudesse contar, então Lucca tratou de pedir ao irmão que não comentasse nada com ninguém. Como em todas as vezes que Lucca se desesperava por coisas não-tão-preocupantes, Matteo Zabini caiu na risada.

— Mas então, me conta mais sobre o instituto — ele pediu — Que cores você viu?

Antes de responder, Lucca colocou o celular no viva-voz e pegou o caleidoscópio de cima da escrivaninha em seu quarto. Com o objeto apontado para o céu, mudando-o de direção algumas vezes, começou a contar para o irmão sobre todos os seus dias, com mais detalhes a respeito de histórias que ele já sabia.

— A cor que eu mais reparei foi violeta — disse Lucca — Especialmente depois que eu e Marina terminamos.

— Marina, aquela namorada que você não quis apresentar pra mim— acusou ele.

— É que não era exatamente uma namorada — justificou-se Lucca — E também, eu não quero apresentar ninguém que eu não tenha certeza do que sinto, sabe? Lembra como foi quando levei Jessica Tyler em casa no dia dos namorados. Terminamos dois dias depois.

— Acho que faz sentido. Vou usar sua estratégia.

— Pra quê, seu Zabini velho? — questionou Lucca, prestando mais atenção na conversa — Você tá namorando?

— Volta pras cores, Lucca.

— Eu só vou deixar passar porque preciso de ajuda, mas a gente volta nisso outro dia — determinou — Mas então, como eu ia dizendo, violeta. Tudo roxo, sabe? Acho que esse semestre eu passei por algum tipo de transformação, mesmo que eu não tenha entendido muito bem. Ganhei conhecimento, claro. E um pouco mais de sensibilidade com as coisas, eu acho. Como se eu tivesse evoluído. Em questão de energia, entende?

— Você tá falando de auras?

— Sim — confirmou — Nada fala melhor sobre alguém do que a aura da pessoa.

— Você é uma estudante de artes muito estereotípica— zombou ele — Por que não tenta ver que cores esse violeta pode formar? Ou as cores que o formaram?

— Isso não faz o mínimo sentido, Matteo.

— Ah, sim, até porque sair falando das cores das pessoas faz todo o sentido mesmo.

Lucca bufou, mas não estava irritada de verdade com o irmão. Estava irritada com sua falta de inspiração. Por mais alguns minutos, os dois continuaram conversando sobre o Instituto, o novo emprego de Matteo, os pais deles. Lucca até tentou voltar no assunto do suposto namoro do irmão, mas ele decidiu que estava na hora de desligar, deixando-a confusa com o que disse antes de se despedir.

— Fica tranquila, Lucca— ele disse — Quando menos esperar, vai ver a luz entrando.

Lucca não entendeu nada, mas aquela frase se tornou mais um motivo pelo qual perdeu o sono durante mais alguns dias. Rose e Scorpius também chegaram a perceber o quanto ela estava cansada.

Com o tempo, Rose e Lucca ficaram bem amigas também, tanto que Lucca havia feito um móbile de sapatilhas minúsculas para Rose no aniversário dela. Algumas vezes, as duas se juntavam só para implicar com Scorpius, que se descabelava de irritação com a implicância delas.

Rose também passou a fazer parte dos intervalos em que Scorpius e Lucca se encontravam no pátio do instituto, perto do quiosque de café. Era horário de intervalo e Zabini esperava por Scorpius e Rose quando decidiu comprar qualquer coisa com cafeína para tomar, já que não dormia direito há dias.

Lucca estava na fila do café, cheia de livros em seus braços e a bolsa de pano a tiracolo estava entupida de materiais de pintura. Com certa dificuldade, ela tentava encontrar algumas libras e moedas nos bolsos quando chegou sua vez de fazer seu pedido.

— Oi, você pode me dar um expresso gelado, por favor? — ela disse — De preferência em um balde.

Quando encontrou seu dinheiro, cometeu a proeza de derrubar as moedas no chão. Ao tentar pegá-las, bateu a cabeça no balcão do quiosque e deixou seus livros caírem, espalhando algumas folhas de anotações pelo local.

— Mas que cacete — exclamou ela, suspirando em cansaço. Quando se deu conta, Rose, que havia chegado antes de Scorpius, estava abaixada também e ajudava Lucca a recolher suas moedas.

— Eu já sabia que você era desastrada — ela disse — Mas, caralho, hein, Lucca Zabini.

As duas deram risada da situação, e Rose ajudou Lucca a carregar os livros até a mesa de madeira depois que Zabini pegou seu enorme copo de café. Lucca desabou no banco, aproveitando cada gota de sua bebida amarga quando reparou na cena que haviam protagonizado.

— Quer saber uma coisa legal? — ela questionou Rose, recebendo um aceno positivo em resposta — A gente acabou de sair de um episódio de Gilmore Girls.

— Exceto que você meteu a cabeça no balcão — caçoou Rose, desviando dos guardanapos que Lucca havia jogado nela.

Enquanto conversavam, observaram Scorpius chegar com o violão nas costas e uma bolsa de couro preta pendurada nos ombros. Como um bom músico, ele exalava a pose de bad boy que Lucca tanto conhecia: o cabelo estava bagunçado, os óculos escuros redondos estavam um pouco caídos e a jaqueta jeans estava pendurada na bolsa de couro cheia de bótons de diversas bandas. O único problema era que toda aquela pose sumia quando Rose sorria para ele.

— Então — ele disse depois de cumprimentar Rose com um beijo rápido e sentar-se ao lado dela — Estou com fome.

— Quando não está, Scorpius? — implicou Lucca

— Quando estou comendo, intrometida.

Rose tirou algumas frutas da bolsa para que pudesse comer mas, quando ofereceu as Scorpius, ele recusou e foi comprar um hambúrguer qualquer para que ele e Lucca pudessem almoçar. Lucca suspirava entre as mordidas e mastigadas. Ela começava a desenhar alguma coisa num bloco de rascunho e rabiscava por cima logo depois, insatisfeita com o que via.

Depois de três folhas arrancadas, Scorpius resolveu intervir na situação. Às vezes era irritante ouvir Lucca reclamando, mas era péssimo ver a amiga daquele jeito.

— Escuta, dá pra você parar de ficar gastando papel? — pediu ele, puxando o bloco para suas mãos e olhando os desenhos da amiga — Isso aqui tá ótimo. É pra aula de quem?

— Do seu pai — respondeu Lucca, quase grunhindo suas palavras — São rascunhos. Quero montar uma escultura, mas não sei o que fazer.

— Tentou deitar de ponta cabeça? — questionou Scorpius, listando todas as estratégias que tinham para encontrar inspiração — Correr de madrugada? Você escreveu alguma ideia na nossa parede? Jogou café no papel?

— Vocês têm umas formas esquisitas de encontrar inspiração — disse Rose.

— Tentei tudo e não certo — exclamou Lucca — O que você faz, Ross?

— Normalmente eu tento expressar na dança o que eu sinto. Ou uso os sons da natureza — respondeu, gesticulando para o lugar ao seu redor -, e tento encontrar formas de conectar os passos com os sons. Mas às vezes ajuda quando o Scorpius toca alguma música também.

— É verdade — concordou Scorpius — E ver os ensaios dela ajuda bastante também pra organizar a melodia.

— Vocês se encaixam tanto que irrita — reclamou Lucca, ainda que os achasse perfeitos um para o outro — Que merda.

— Por que você não tenta o caleidoscópio? — sugeriu Scorpius — Normalmente funciona pra você.

Lucca não respondeu, mas ficou contente com a sugestão. Guardou suas coisas depois de comer e alcançou o caleidoscópio do fundo da bolsa, apontando-o para várias direções, quando se lembrou de seus compromissos do dia com uma notificação no celular.

— Ai, mas que inferno — exclamou ela, guardando o caleidoscópio na bolsa e segurando o celular por cima dos livros que carregava nos braços — Eu tô muito atrasada. Tchau, vejo vocês em casa.

Ela estava correndo pelo campus pela milésima vez naquele semestre. Lucca estava sempre atrasada, por mais que tentasse organizar seus horários. O prédio para o qual corria era do lado oposto do local em que estava.

Há algo que todos precisam saber sobre a vida universitária: o estudante precisa entregar horas complementares. Lucca havia se inscrito em uma aula magna do curso de cinema para conseguir míseras duas horas. Escolheu o primeiro tema em que viu escrito “cores”, mas revirou os olhos quando percebeu, já em frente à sala, que a palestra era sobre psicologia das cores.

Por mais que gostasse de cores e de desvendar como ela se sentia com base na régua cromática, Lucca não tinha muita paciência para entender a ciência por trás disso. Entrou na sala em silêncio, já que a palestrante já explicava a introdução ao assunto. Sentou-se no fundo da sala e se dedicou a ouvir o que Hannah Longbottom explicava em cima do pequeno palco da sala de aula.

— A teoria das cores envolve física, fisiologia e psicologia — começou ela — Enquanto artistas, é importante que vocês entendam a importância e influência da policromia na comunicação visual. Primeiro, precisamos entender como as cores são vistas. Isaac Newton foi capaz de observar, a partir da análise de um prisma, que um único feixe de luz pode ser dividido em sete espectros de cores diferentes: as sete cores do arco-íris.

Conforme ela falava, Lucca se sentia mais e mais entediada. Ouviu sem absorver muito sobre como as cores são intangíveis e partem da sensação produzida pelo sentido da visão, ouviu sobre Thomas Young, Hermann von Helmholtz, as cores primárias, secundárias e terciárias. Ela já sabia daquela parte há tantos anos que se distraiu com seu caleidoscópio, apontando-o discretamente para onde a professora estava, ao lado da apresentação de slides no centro da sala.

— Johann Goethe acreditava que as cores eram muito mais do que a metodologia e matemática da física, sendo também dependente da moral, filosofia e estética. Ele dedicou 40 anos de sua vida a compreender as cores. Goethe afirmou que a teoria de Newton estava errada por não considerar a fisiologia e a psicologia das cores e propôs uma nova observação sobre o prisma e as sete matrizes luminosas: o efeito do meio translúcido, o vidro, gera diferentes refrações de luz e os dois extremos do arco-íris passam a ter a mesma tonalidade. O enfraquecimento máximo da luz começa e termina em vermelho.

Quando a palestra terminou, Lucca apontou o caleidoscópio para as janelas. A sala era no primeiro andar, então era possível ver a entrada do prédio de música, que ficava atrás do prédio de cinema, onde ela estava agora.

Ela viu o azul ficar mais forte quando a luz entrou por uma fresta entre as cortinas, deixando quase todos os fragmentos de vidro do caleidoscópio em diferentes nuances de ciano. As luzes da sala se acenderam quando todos se levantaram para ir embora, e o canto externo do caleidoscópio ficou verde.

Lucca deixou um suspiro exasperado escapar de seus lábios. Mais cedo do que pensava, teve uma ideia. Guardou de volta o caleidoscópio na bolsa e saiu da sala o mais rápido possível, evitando prestar atenção em qualquer coisa que não fosse aquela ideia para que não perdesse sua linha de raciocínio.

Bem ali, ela entendeu o que Matteo quis dizer com “quando menos esperar, vai ver a luz entrando”. Talvez ele não tivesse a intenção de ser tão literal assim, mas a luz finalmente entrou. Meu Deus, ela pensou, isso não tinha como ser mais azul.

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VERDE — vigor

O teste havia sido marcado para o último dia de aula e, com ele, todo o nervosismo de Lucca estava acumulado. Ela tentava se acalmar prestando atenção à mais nova música de Scorpius, a qual ele chamava de “Valentine”.

— Gostei dessa. É verde, sabe? É meio calma, mas também passa tipo um vigor com essa batida. E juventude — disse ela quando Scorpius terminou — I wanna be yours, lonely heart e agora valentine. Mais uma música sobre a Rose, hein?

— Para de falar, daqui a pouco ela chega.

— Vocês estão bem sérios, né? — questionou Lucca — Vai chamar ela pra festa da sua mãe na semana que vem?

Scorpius suspirou. A festa do Spring Bank Holiday, o feriado em comemoração ao fim da primavera, era uma tradição de sua mãe. Sua casa ficava cheia de flores, comida, bebida e a parte complicada: a família. Lidar com os familiares costumava ser bem difícil para Scorpius, especialmente sabendo que seu avô era simplesmente o pior.

— Vou — contou ele, dando de ombros — Mas você tem que estar lá. Nem pense em dizer que vai fazer não sei o que com não sei quem.

— Eu não perco uma festa de primavera da sua mãe desde que nasci — ela respondeu, percebendo que Rose se aproximava de onde estavam — Claro que vou estar lá.

— Estar onde? — perguntou Rose, abraçando Scorpius por trás enquanto ele estava sentado na mesa de madeira.

Lucca se afastou de onde estava sentada para comprar um café. Estava sol, então ela havia deixado o macacão de brim bege com a parte de cima amarrada no quadril, exibindo a regata verde que usava. Já que seu próximo teste era de pintura, achou que seria melhor proteger suas roupas.

Quando voltou à mesa de madeira, percebeu que Scorpius e Rose sorriam enquanto conversavam. Deixou o copo de isopor de lado para organizar as latas de tinta que havia separado.

— Fico feliz que você vai também, Rose — disse Lucca — As festas da tia Astoria são ótimas.

— Só vai ser esquisito ver o professor Malfoy fora daqui — respondeu ela, parecendo apreensiva.

— Do que tá falando? — questionou Scorpius — Meu pai te adora.

— Mas mesmo assim, depois que ele começou a participar do projeto de ensino eu acho meio esquisito.

Rose falava sobre o projeto que estava desenvolvendo com algumas pessoas do Instituto. O projeto smART General, criado há mais de 10 anos pelo Instituto de Artes Gerais de Londres, pretendia levar diferentes modalidades artísticas à distritos escolares que não tinham essa disciplina como parte da grade de ensino; Draco Malfoy havia aceitado participar a convite de Rose, que estava à frente da comissão organizadora junto com alguns outros estudantes.

— Ele gosta muito do projeto também — contou Scorpius — Me chamou pra participar. Disse que vai falar com você também, Lucca.

— Você devia aceitar, sabe, Scar, o tio Draco ia adorar-

Lucca parou de falar de repente, levantando-se e xingando enquanto juntava as duas latas grandes de tinta e tentava pegá-las pelas alças, ao mesmo tempo em que jogava seus lápis espalhados pela mesa para dentro da bolsa junto com o bloco de desenho. Rose e Scorpius a encaravam, sem entender muito bem o que acontecia.

— Caralho, caralho, caralho! — era só o que ela dizia.

— O que foi, garota? — perguntou Scorpius, tirando o violão de dentro da capa.

— Eu tô muito, muito atrasada pro teste do seu pai — ela disse quando terminou de juntar as coisas, correndo e gritando a despedida logo depois — Último teste, me desejem sorte! Tchau!

E ela correu. Correu muito. O prédio era distante do pátio em que costumava ficar com os amigos, então ela se apressou o quanto pôde até a sala em que apresentaria seu projeto. Por sorte, já tinha montado a tela e o cavalete no dia anterior, mas havia esquecido as tintas em casa e por isso estava com elas só naquele momento.

Subiu as escadas com tanta pressa que nem reparou na quantidade de pessoas que quase derrubou. Seu cabelo estava solto ao redor de seu rosto, o que dificultou muito a visualização do caminho.

Seus pulmões queimavam quando ela sorriu em agradecimento ao ver a placa na porta da sala de Draco, no fim do corredor, que dizia “espaço de pintura”. Ela já estava perto mas, antes que pudesse parar, bateu de frente com alguém que havia entrado no seu caminho, fazendo as latas de tinta caírem em cima dela. A tinta azul permaneceu fechada, mas Lucca percebeu tarde demais que a lata de tinta vermelha estava pessimamente lacrada. Tudo o que viu depois disso foi vermelho, sentindo a tinta escorrer em seu cabelo, rosto e corpo.

— Sabe, eu achava que vermelho era a minha cor — disse a voz de uma mulher que Lucca não podia ver graças à quantidade de tinta em seus olhos — Mas ficou muito bem em você também.

Lucca achou que fosse um deboche, mas a garota segurou seus braços e a ajudou a se levantar. Depois disso, sentiu uma toalha ser colocada em suas mãos para que limpasse o rosto — ou pelo menos tentasse.

— Desculpe pelo esbarrão, estou atrasada pro meu teste. Não precisava da toalha — disse Lucca, ainda limpando o rosto — Fico te devendo essa.

— Não tem problema, eu tenho outras — explicou, mostrando a bolsa — Mas, só pra você saber, não fui eu quem esbarrou em você não, tá? Mas quem fez isso agora já tá bem longe daqui.

Lucca até tentou rir, mas ficou com medo de cuspir tinta ou algo do tipo. Quando terminou de limpar o rosto, mal pôde acreditar no que viu: parada em sua frente, sorrindo, estava a garota-vermelho. A mesma que viu no seu primeiro dia no apartamento estudantil estava ali na sua frente, usando um collant preto e uma saia de cetim vermelha, combinando com as sapatilhas de ponta. O cabelo estava solto, caindo por seus ombros.

— A julgar pelas tintas, você estuda artes, né? — perguntou ela — E pela correria, está atrasada. Se você cortar caminho pelo prédio de dança é mais rápido. Eu corto por aqui pra chegar lá.

Então ela estudava dança. Óbvio. Lucca já sabia disso. Ok.

— Eu… É… — Lucca tentou falar alguma coisa, mas estava tão hipnotizada com a mulher à sua frente que ficou até desnorteada. A pele dela era escura e suas roupas pareciam se encaixar perfeitamente em seu corpo. Em uma das mãos, ela segurava a lata de tinta azul, a que não havia virado contra Lucca.

— Toma aqui sua tinta — ela disse, estendendo a lata para frente — Boa sorte no seu teste.

— É… Obrigada, eu…

— Sou Roxanne — se apresentou — E você?

— Eu… É, eu sou — patética— Lucca. Sou Lucca.

Roxanne até diria mais alguma coisa, mas seu celular tocou e ela se virou para atender depois de pedir licença. Pediu desculpas à Lucca e disse que estava atrasada também, mas desejou boa sorte outra vez.

— Mas que droga, Fred, eu já vou — exclamou Roxanne no telefone. Aquelas foram as últimas palavras que Lucca ouviu antes que a garota-vermelho fosse embora.

Chacoalhou a cabeça e recolheu a lata de tinta vermelha que havia ficado no chão. Ficou irritada por ser vermelho, ela jurava que tinha pego a lata verde antes de sair de casa. Suja de tinta, seguiu até a sala de pintura e viu Draco Malfoy parado perto da tela que ela havia montado no dia anterior.

— Professor Draco, peço mil perdões pelo atraso — ela pediu, mantendo a formalidade exigida pelo ambiente — E por estar suja de tinta. Aconteceu um acidente no caminho.

— Isso eu notei, senhorita Zabini — repreendeu Draco, abaixando o tom de voz logo depois — Lucca, você precisa parar de se atrasar.

— Eu sei, tio Draco — ela se aproximou, deixando as latas de tinta em cima de uma mesa de mármore — Você por acaso sabe se tem outra lata de tinta aqui? Só tenho a azul e eu precisava de mais uma cor.

— Na prateleira de baixo — respondeu ele, sentando-se em uma banqueta ao apontar para o armário. Lucca foi até lá, pegou a lata de tinta e carregou até onde Draco estava, em frente à tela que havia preparado. O problema era que a tinta que estava ali também era vermelha.

Sobre um cavalete, a tela estava coberta por um tecido branco, parecido com um lençol. Lucca tirou o tecido dali e se divertiu com a expressão confusa de seu professor. A tela estava inteira coberta de preto.

— Pode pegar essa lata? — ela pediu, estendendo a lata azul para Draco — É interativa. Precisamos jogar a tinta primeiro, ao mesmo tempo, e depois posso explicar.

— Tudo bem — disse ele, dando de ombros quando se levantou e pegou a lata de tinta. O chão e a parede atrás do cavalete estavam cobertos em plástico, para que pudessem sujar o espaço à vontade. Lucca foi específica nos bilhetes que havia deixado espalhados ali pedindo que ninguém alterasse nada.

Juntos, os dois atiraram a tinta contra a tela pintada de preto. Depois disso, Lucca deixou a lata no chão e foi até a tela, cutucando os pedaços em que havia colado a fita adesiva porosa por baixo da tinta preta. Enquanto fazia isso, explicava o motivo.

— Pintei a tela de preto por cima da fita para que não fosse possível ver o desenho antes que ela fosse removida — começou ela, puxando as pontas da fita até que saíssem por inteiro — E, também, queria que a mistura acontecesse ao mesmo tempo, vindo de diferentes direções e com aplicações de força diferentes.

“A teoria das cores de von Goethe afirma que além das refrações da luz no ambiente, as cores também dependem da percepção de quem as vê. Eu tentei mostrar de que maneira os diferentes tipos de materiais podem formar uma nova textura, e como isso também influencia na percepção individual das cores.

Quando ela se afastou da tela depois de terminar de remover a fita, era possível ver o desenho da cabeça de um cavalo. Só ela sabia o trabalho que havia tido em cortar a fita em pedaços pequenos o suficiente para que pudesse fazer contornos. Passou semanas preparando essa tela.

Draco estava intrigado. Era, sem dúvidas, um desenho muito bonito, mas a técnica aplicada era mais fascinante ainda. Lucca estava séria, olhando para o quadro sem parar, como se analisasse a obra também pela primeira vez.

— O que diz sobre as cores, Lucca? — perguntou ele. Lucca ficou em silêncio por alguns segundos antes de decidir responder.

— Nuances de roxo. Os tons de roxo aqui — ela apontou para o canto superior esquerdo da tela — e aqui são responsáveis por ativar a percepção da energia. O violeta simboliza a magia e influencia as emoções humanas a partir da intuição. Quando passa para o azul, a cor é suavizada e começa a mostrar traços iluminados. Azul é estável e harmônico. Mas o vermelho…

— Não foi planejado — concluiu Draco, percebendo a hesitação da garota.

— Não exatamente — respondeu Lucca — Eu deveria ter trago a tinta verde, que formaria um tom forte de ciano quando misturado com o azul. O verde deveria representar o vigor, a tranquilidade, a calma. O vermelho gera contraste.

— E o que ele te mostra?

Lucca respirou fundo. Ela sabia que Draco já havia percebido que aquela parte estava mais parecida com um improviso, mas ninguém conhecia melhor as cores do que Lucca Zabini. As cores eram parte dela, então, ela aproveitou sua mais recente experiência com o vermelho para explicar o que sentiu quando viu aquela formação de cores.

— O vermelho é muitas coisas. Começa desafiando a estabilidade do azul, causando estranhamento em quem observa. O vermelho pode ser paixão, desejo e calor, mas também pode se apresentar como violência, raiva, perigo e ira. De certa forma, todas essas definições estiveram interligadas desde sempre. O vermelho é usado em filmes. As músicas agressivas te fazem pensar em vermelho e os livros usam do vermelho para representar o quanto o amor e o ódio podem ser semelhantes.

— E o cavalo? — questionou o professor, apontando para a cabeça do animal desenhada na tela.

— Ah, eu gosto de cavalos — respondeu ela, dando de ombros.

— Por que escolheu essa técnica?

— Porque mostra as possibilidades de manipulação da arte — Lucca informou, mantendo-se séria e mostrando certeza em sua postura — E eu não gosto de usar uma forma só.

Draco disfarçou um sorriso. Fez algumas anotações em sua prancheta que Lucca não conseguiu ver, mas esperava muito que fossem boas.

— Vou postar as notas no sistema esse fim de semana — informou Draco, abaixando a prancheta e encostando-se na mesa de mármore — Tem algo a acrescentar?

Ela ponderou por um tempo. Franziu a testa e pensou rápido sobre tudo o que havia visto no semestre antes de começar a falar.

— Tenho, sim — ela disse — O verde deveria ser transição entre as cores frias e quentes, por isso eu havia escolhido essa cor. Mas o vermelho se impõe, se mostrando sempre mais forte quando é aplicado contra contra outras cores; não pela tonalidade, mas pela clareza. Às vezes, é impossível saber que cor será adequada, mas o vermelho não se importa com essas distinções.

— Boas férias, senhorita Zabini — disse Draco, piscando um olho para Lucca — Te vejo de volta em casa na semana que vem.

Era bom falar sobre cores. Draco estava muito satisfeito com a resposta quando permitiu que Lucca saísse. Sentindo as mãos tremerem, ela agradeceu pelo tempo dele e saiu da sala, desesperada para tomar banho e se livrar de todo o vermelho preso em seu corpo.

Andando devagar de volta para casa, tirou o caleidoscópio da bolsa para observar o caminho. Estava contente em ver os desenhos formados em verde se mexerem conforme andava. Aqueles últimos dias foram decisivos para ela, afinal, o fim de semestre na faculdade costuma ser duro com os estudantes.

O verde era o que a mantinha com os pés no chão: calma, tranquila, cheia de vigor e juventude (tentando ao máximo não surtar com a quantidade de trabalhos e provas que teve que fazer). Assim como no arco-íris, o verde era uma cor de transição das cores frias para as quentes em sua vida — ela só não tinha notado isso ainda.

Já estava chegando em casa quando apontou o caleidoscópio para o céu uma última vez. Jurava que veria o verde de novo, mas ficou contente ao lembrar-se de Roxanne quando notou a cor que predominava o objeto.

Era forte, violenta, revoltante. Impossível de conter.

O desenho na ponta do caleidoscópio era incrivelmente bonito e, assim como Roxanne, era formado por diferentes tons do mais belo vermelho.

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