O cheiro pútrido de carne humana pairava pelo ar. A serpente branca, de olhos vítreos, admirava sua dona mutilando outro homem, separando cada membro do corpo saudável dele. As escamas platinadas arranhavam o chão sórdido a medida que se movia para aparar a outra perna lançada ao céu.
Sua dona era uma predadora, algo muito visível. A serpente não deixava as fissuras escuras deslocarem para outro ponto, senão ao qual direcionava para a sua companheira.
Assobiou e escutou a mulher vociferar pragas ao outro, que, indefeso, encolhia o corpo. Um corte fundo aqui, e outro leve ali, e uma pausa, tempo suficiente para fazer o corpo tenso relaxar, e, então, como numa dança animada, a mulher repetia aquela tortura.
— Acabei — soltou ela, calma, ensanguentada, impura.
A serpente nada disse, apenas debruçou-se sobre o corpo mole, ainda vivo. Comeu a cabeça do homem, que gemeu de dor ao sentir sua pele ser lentamente rasgada, separada, retalhada.
— Boa garota — murmurou sorrindo, lambendo os lábios tingidos de líquidos rubros. A mulher encarou a serpente, a qual assobiou ruidosa. — Não faça isso, você sabe que ele precisava morrer e você se alimentar. Não venha brigar comigo.
— Você necessita comer também — afirmou, finalmente, a serpente de escamas naturalmente feitas de platina. — Não sou tão importante, posso morrer e renascer, você é mortal.
— Se você tem fé na ressurreição, como aquele que voltou após o terceiro dia, sou imortal.
— Sabes que não é assim que funciona o mundo dos espíritos — sibilou o animal já alterado. Viu, pela segunda vez em toda a sua vida, aqueles olhos melancólicos ganharem um brilho ao serem expostos ao perigo. Abaixou-se, tragando o ar gélido e pútrido, então, por fim, falou — Você me enoja, serpente, comeu do próprio fruto que ofereceu à Eva. És traidora de ti mesma.
— Não me ofenda, serpente — alfinetou puxando seu leque plúmeo, andou até o reptilianos oito vezes o seu tamanho. Se ela tinha um metro e meio, a serpente tinha doze em altura. Passou as unhas metálicas sobre as escamas de platina, acariciando lentamente. —, sabe que te amo.
— Seu amor é mais falso que os deuses daqueles pagãos.
— Você apenas não o compreende, ele é perfeito, platônico.
— Não me importo. Coma algo — rosnou voltando a ferir o chão pétreo com suas lâminas corporais, apartando-se da pecadora.
— Você se preocupa demais comigo.
— Você é insignificante. Minha vida é valiosa, a sua, não — findou mergulhando dentro d'água gélida.
— Se eu fosse insignificante, você não dependeria de mim para viver — zombou pegando sua coroa prateada. O sorriso cínico fortalecia seus status de perversa.
Já dava para se imaginar aquilo advindo de um monstro tão perigoso quanto as outras bestas. Era um ofídio esperando o momento certo para dar o seu bote, para morder a jugular dos seus adversários e os matar envenenados ou asfixiados, de forma lenta, mas brutal. Sentia a saliva escorrer apenas ao imaginar a carne fresca deles em sua boca, os gritos de agonia ecoando pelo seu quarto, o líquido ferroso saciando sua sede por morte, caos, destruição.
Pisou os saltos metálicos sobre o último degrau vendo seu exército cumprimentar sua pessoa. Sorriu passando as mãos sobre os pescoços de cada mulher treinada, deixando suas unhas metálicas arranharem as peles perfeitas delas.
Se sentou em seu trono negro. Ao seu lado, duas mulheres a esperavam, sentadas. Três trindades presentes, um caso devasto de ataque a capital.
— O que iremos fazer com esses homens? — iniciou a jovem de cabelos negros, cujo animal espiritual era um aracnídeo. Deus não podia ser mais justo ao dá-la um ser tão cruel. As patas gigantes eram afiadas, cortantes, conseguiam acabar com pessoas em um único golpe. A Viúva-Negra não era tão grande, tendo cerca de dois metros, porém o cristal vermelho, pulsante, fazia todo aquele ser se tornar o mais perigoso. — Eles estão tomando mais espaço.
— Não se importe com isso, querida — retrucou a moça de cabelos azulados, bebericando outro copo de rum. — Matei uma centena ao lado da Kuarup — comentou acariciando o Sapo-Flecha-de-Veneno, o mesmo expelia um líquido azulado venenoso pelo corpo. Tinha, no máximo, um metro ou um metro e meio, mas não deixava de ser um dos mais venenosos.
— Não julgue um livro pela capa, Sapo — afirmo a Primeira Trindade. Atrás do trono, a serpente branca surgia assustando todos os outros seres com sua presença. — Eles podem ser espertos quando querem algo. Devemos parar eles de todas as formas possíveis.
— Ela é louca! — coachou o sapo, na linguagem dos anfíbios, à dona.
— Está propondo um suicídio em massa? — chiou a aranha à Terceira Trindade, na língua dos aracnídeos, pisando, com força, os pés de latão contra o chão cristalino.
— Vocês se esqueceram de quem manda aqui? — vociferou erguendo o corpo, vendo sua cobra cerrar todas as saídas com sua calda platinada, impedido os outros de saírem dali. — Preciso lembrar como funciona? Eu dou uma ordem e vocês obedecem — afirmou segurando as garotas pelo pescoço, prensando-as contra o chão, escutando os animais rosnarem atrás dela.
— Mas, senhora… — tentou a menina de cabelos negros, porém, esta, foi agraciada com um forte murro no rosto. A aranha correu para perto, buscando salvar sua dona, mas foi degolada. A espada real continuava branca, límpida, pura; O chão tomava uma tonalidade diferente, negra, sórdida, impura. O líquido rubro do aracnídeo ia inundando o local. — Você decapitou ela? — gritou arfante, sentia o coração vacilar com aquela visão.
— Insolente — resmungou puxando-a pelos cabelos, arrastando o rosto dela pelos restos da besta, humilhando-a.
— Não se intrometa — coachou o sapo à dona, que se preparava para falar algo. O líquido venenoso, o qual não afetava a Segunda Trindade, os rodeavam como uma forma de proteção.
A cobra sibilou próximo as duas entidades, apreciando a visão de pavor delas. Abriu a boca mostrando os dentes afiados, um veneno alcalino escorria por suas presas. Seus olhos vítreos pareciam hipnotizados por aquela cena.
— Me larga — gritou a jovem de cabelos negros. — Por favor, eu já aprendi que não devo contestar, jamais.
As lágrimas negras manchavam o rosto lindamente pardo dela. Aquilo não abalava a Primeira Trindade, não seria primeira pessoa a morrer em suas mãos. Puxou a espada cortando, levemente, a bochecha da menina e lambendo o sangue fresco. Então, rapidamente, cravou a lâmina no braço da mesma. O grito de dor ecoou por todo salão.
— Sofra calada — rosnou pegando o braço decepado e comendo a carne, sentido um arrepio percorrer pelo seu corpo enquanto degustava.
Viu a garota agarrar o toco que havia sobrado, incrédula. Os olhos se abaixaram em forma de submissão, desistência. Mas a mulher não parou seus atos, sua Terceira Trindade precisava ser mais do que perfeita. Separou o segundo braço do corpo, devorando-o prazerosamente. Depois, ela desconectou as duas pernas do corpo, jogando estas partes para a serpente, que comia ao lado dos companheiros assustados.
— Oh, que lindo. Nenhum soluço — afirmou largando a espada real no chão. Levantou o rosto da menina vendo suas lágrimas escorrerem, lambeu cada uma e beijou os lábios tingidos de vermelho sangue. — Boa garota — sussurrou ao ouvido desta, por fim, mordeu sua jugular e arrancou um pedaço do pescoço junto. Viu a mesma arregalar os olhos e, após uns segundos, morrer.
A mulher de cabelos brancos se levantou e viu a coloração avermelhada da Viúva-Negra esvair, morrer, apagar.
— Alguém mais? — zombou encarando a Segunda Trindade com um sorriso inocente.

