A luz do teu olhar

Prólogo - Nuances da Melodia


Ainda me lembro da primeira vez em que escutei aquela melodia. Devia ter uns 13 ou 14 anos, sei lá. Nunca fui muito bom com datas, de toda forma. Mas eu era bom com lembranças. De um jeito que às vezes não gostaria de ser.

A música penetrou em mim. Senti me envolver por completo, como se vibrasse dentro do meu corpo. Como se de repente eu fosse o piano e a composição tocada reverberasse em mim. Reverberasse de mim.

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Nunca fui um adepto de música clássica ou de qualquer coisa clássica. Mas soube apreciar de imediato aquela melodia que me arrebatou por inteiro.

Foi assim da primeira vez, quando eu era mais novo.

Naquela época, não era capaz de compreender as nuances da melodia. Não conseguia sentir a tristeza que era transmitida através de cada nota. Não sabia o que era aquele sentimento que me assomava o peito de maneira tão devastadora, fechando minha garganta e trazendo lágrimas aos olhos.

Queimava por dentro como fogo corroendo as entranhas, fazendo-me sentir tão pequeno como se apenas naquele momento o mundo fizesse sentido. E fez. Pelo tempo que durou a canção cujo compositor nunca fui capaz de encontrar.

Pois àquela altura, quando alcancei a sala de música do meu colégio, não vi ninguém.

Mas agora, diante de uma sala de música completamente diferente, em um lugar onde nunca imaginei estar até que a vida arrancasse de mim o que me era mais precioso, senti-me impactado diante daquela música novamente.

Era capaz de enxergar nela cores, a vida de uma maneira completamente diferente, como se meus olhos fossem descamados.

Meu coração aqueceu-se, enquanto tocava a porta, sentindo que minha vida mudaria completamente quando a abrisse. Quando meus olhos me revelassem quem era o compositor de tamanha beleza. Pois eu tinha certeza: essa pessoa era a mesma que havia me arrebatado naquele dia.

Naquele dia em que, mesmo sendo um moleque, eu havia me apaixonado pela primeira vez. Por uma canção, pelo compositor fantasma que nunca conheci e por todo o mistério acerca desta pessoa que me envolvia.

Novamente, as sensações me envolviam como se mesclassem em meu interior tudo aquilo de novo. Como se uma janela para o passado de abrisse e eu fosse um telespectador do meu próprio eu mais jovem buscando pela fonte daquela melodia mágica que tomava conta de mim. Senti as mãos suarem, as pontas dos dedos frias enquanto tocava a madeira. Meu coração martelava dentro do peito como se fosse escapar pela garganta. Tudo isso por uma música. Não. Pelo compositor fantasma.

Criei coragem para finalmente conhecer a pessoa que tanto admirava e abri a porta.

Sem saber o que dizer quando aquela imagem se formou diante de mim.