A platéia aguardava o início do espetáculo com um certo anseio. Pelo menos era o Collett pensava. Do outro lado das cortinas, vestida em seu colant negro repartido em várias partes. Era engraçado, nunca se acostumaria com a vida de espetáculos.
Era sempre a mesma sensação.
Borboletas dentro de seu estômago. Ou poderia ser melhor, libélulas dançando aquela dança da cópula. As pontas de seus dedos frios, emanando o gelo que a adrenalina fazia percorrer seu corpo. A garganta seca, engolindo pesado aquela massa de fleuma que ficava preso atrás da úvula.
A Diretora de Arte passou em seu lado, colocando a mão em seu ombro. O cheiro de seu hálito pútrido, fazia a sensação somente piorar.
— Você está pronta Collett? Cinco minutos para começarmos. — perguntou a Diretora para a menina.
— Sim... sim Diretora. — Collett sempre evitava olhar diretamente para a mulher. Ela podia jurar que via vermes retorcendo no orifício ocular, que um dia já habitou um olho. E vê-los transitarem pela pele repuxada e entrarem pelas narinas largas.
— Ótimo. Você sabe muito bem que seu pai não tolera erros, não é mesmo?
— S-sim, sim Diretora. — Collett olhou para cima e notou que a mulher hoje vestia um cachecol feito de corda velha, assim como os fios que eram amarrados em seus pulsos. Em um movimento brusco, ouviu o barulho de suas articulações estalando como um boneco velho, enquanto sua mandíbula abria, regurgitando uma massa acinzentada de vermes. — E-eu vou dar o melhor de mim. — Tentou afastar a imagem da cabeça pensando na coreografia que teria que fazer.
Seus pés descalços, sentiam a aspereza do assoalho de madeira velho. Os dedos calejados e deformados de bailarina esticavam e contraem, conforme entoava o ritmo da música em um assovio baixo. Em sua mente, dançava para um público negro, coberto pela cegueira de palco. Os holofotes queimando a retina de seu terceiro olho, silhuetas imóveis em um ambiente onde ela era a preciosidade, um ambiente onde ela era a atração.
Tocou na faca amarrada num pequeno coldre em sua cinta. A faca que na peça teatral usaria para "matar" o sua doppelganger. O contra-regra passou por trás de Collett, assinalando com os três dedos que restavam em sua mão carcomida, que faltavam apenas três minutos para começar o espetáculo, antes de sair dali arrastados pelas cordas velhas que amarravam seus membros.
Todos alí eram como bonecos, manipulados por alguma pessoa, como marionetes de carne e osso. Menos ela. Menos a protagonista dos sonhos. A menina loira dos olhos azuis.
A filha do Diretor.
Conseguia ouvir o zumbido da platéia, como moscas a voar num chiqueiro. Aguardando impacientes pelo início do espetáculo, ouvia o barulho do gorgolejar de gases escapando pelas extremidades. O barulho líquido da locomoção dos vermes pela carne decomposta. O pânico transformava as pessoas, modificava-as, metamorfoseava-as em idéias presas no fundo de seu subconsciente.
O contra-regra, desceu de uma plataforma entre as cortinas. Olhou para a menina com seus olhos esbranquiçados, e pegando uma tesoura, cortou o terceiro dedo de sua mão, já que o rigor mortis não o deixava contraí-lo mais. "Falta dois minutos". gesticulava o homem. Já que não possuía mais mandíbula, apenas um buraco onde a Língua pendia como uma gravata arroxeada e inchada.
Lembrou-se da primeira vez que viu um animal morto.
Era pequena, deveria ter seus cinco ou seis anos de idade quando visitou a Ilha pela primeira vez, o pessoal da época chamava de Ilha Escuridown. Não que isso fizesse muito sentido, já que a ilha era realmente linda. Mas foi onde seu pai decidira fazer suas peças de teatro. Para um público específico. Magnatas do petróleo. Enquanto assistia as dançarinas treinando sua coreografia, encontrou um pássaro morto, preso entre a calha do palco de madeira, e o encanamento de escoagem de água. O animal estava seco, suas cavidades oculares agora repletas de pequenos vermes lembravam as pessoas que agora se arrastavam ao seu redor.
Essa imagem nunca saiu de sua mente.
O cheiro de podridão vindo do corpo inchado do animal, igual ao que exalava da platéia. Lembrou-se do gosto da bile subindo a sua garganta, do vômito ácido que corría seu esôfago. E sentiu a mesma sensação, acompanhada de um calafrio que lhe percorria toda a coluna.
O Contra-regra agora se arrastava freneticamente por trás do palco, indo de um lado para o outro escondido pelas longas e pesadas cortinas negras, Seus olhos esbugalhados pareciam querer saltar do crânio pesado, pendendo para a frente como as vértebras de um Nosferatu cansado. A língua dançava, de um lado para o outros como um pêndulo a um buraco decrépito.
Um minuto apenas. Acenava com o único dedo podre restante em sua mão, o outro dedo, pendia solto após ter quebrado e quase decepado-o em sua base.
Collett fechou os olhos, descrevendo a coreografia em sua mente, era sempre assim, se sentia como um objeto, uma criaturinha a ser verificada, apreciada pelos olhares voyeurs que a assistiram sua movimentação, seu caminhar, sua respiração.
Estava pronta para ser o foco da atenção novamente.
Sentiu a mente se afastar, como se pudesse desassociar sua personalidade, pegar aquele menina medrosa e afastar ela, prendendo em uma jaula lá no fundo de seu consciente, amarrando suas mãos e pernas em grandes correntes negras e a jogar em um grande alçapão em direção às profundezas de seu subconsciente.
O público por um momento permaneceu silencioso, exceto pelo barulho dos vermes e das moscas, e de breves estouros gaseificados. As luzes diminuíram de intensidade e uma música clássica tocada por trombones antigos e violinos desafinados começou a ressoar pelo palco. As cortinas subiam devagar, e Collett já podia ver a luz do holofote se focar no meio do palco, onde sua doppelganger estava amarrada no meio palco.
Em um salto, acompanhado de um estrondo vindo dos trombones e do ribombar do percussionista. A menina abria as pernas num Grand Jete, suas pernas pareciam não obedecer a gravidade, ficando retas e carregando ela de um lado para o outro do palco, tamanha leveza de seus movimentos. Colett encostou os pés desnudos no assoalho de madeira, sentindo o ranger e quebrar com o impacto, sentiu as farpas entrando em sua carne, queimando.
Levantou a cabeça olhando em direção a platéia, ofuscada pela luz forte dos holofotes, apenas eram silhuetas negras estáticas em um mar de mal-cheiro e chorume. Acompanhou a orquestra, a cada oitava, acompanhava com um saut de Chat, a cada pausa, um croisé deviant que arrancava suspiros da platéia.
Dançou, a respiração pesada fazia seu peito levantar e descer numa cadência rítmica conforme a orquestra. Seus pés descreviam desenhos e marcavam o solo com o sangue que escorria de suas feridas, as farpas queimavam em sua sola e entre as articulações dos dedos, como se estivesse envolta em brasa.
A cada ribombar dos tambores, as luzes piscavam, as sombras dançavam junto a Menina. Imitando seus movimentos em suas anatomias disformes. A orquestra tocava seu Opus. Ela era a musa de todo o espetáculo. Ofuscando os dançarinos, como figurantes, apagados com o brilho da estrela. A filha do Diretor. Tentavam acompanhar seus movimentos, mas as amarras em seus corpos rigidos, mal acompanhavam a desenvoltura de Collett. Sendo assim, apenas fantoches presos por cordas limitados pela falta de coordenação do Diretor. Ou pela simulação dela.
Collett olhou para a Mulher amarrada no meio do palco, e aproximou-se devagar, a orquestra diminuia o ritmo, para um pianíssimo. Deixando somente os graves dos Violoncelos, e dos tambores ecoando pelo palco. Seus pés estavam quase anestesiados, como se tivesse pisando em algodões. O chão do palco, brilhava num rubro escuro. O rosto pálido da menina refletia em um branco doentio, junto ao suor que escorria em sua pele.
— Então, eis que nos encontramos novamente, seu demônio! — disse Collett com ódio. As palavras saiam com dificuldade entre os dentes serrados. Seus olhos azuis cerúleos fitavam o rosto da mulher amordaçada a sua frente, cujo semblante era de pânico absoluto. — Você roubou tudo e todos de mim! Eu te odeio! — Collett caiu de joelho no palco, lágrimas de tristeza e loucura rolavam pelo rosto, manchando a maquiagem negra.
A mulher em sua frente tremeu, tentando falar alguma coisa, mas a mordaça apenas fez-a soltar grunhidos ininteligíveis. Quase como um porco antes do abate. Em seu olhar, poderia-se ver o pânico estampado quase como um alerta. Mexeu as mãos, e o corpo chacoalhando de um lado ao outro. Se retorcendo igual a um verme. Quando mais força aplicava, mais apertado ficavam os nós.
— Você fica aí, querendo o meu mundo, retirando as cores de minha vida, desejando tudo que eu tenho. Agora está na hora de minha vingança. — Collett tira a faca velha, suja de sangue de outras peças teatrais, e aponta para a mulher a sua frente. Que se retorce freneticamente ao ver a faca nas mãos da menina. Seu grito abafado pela mordaça era simplesmente um gemido misturado ao som dos violoncelos.
A mulher fecha os olhos ao sentir o calor em sua barriga, queimando o corpo. Derretendo suas entranhas. Seus olhos viram por trás das pálpebras trêmulas. Collett por sua vez, gira a faca em sua barriga, puxando-a para baixo, liberando as entranhas num salto. Eviscerada, a doppelganger abaixa a cabeça, desfalecida com a dor e a perda de sangue. A menina a sua frente enrola o intestino delgado ao redor de seu pescoço. Como um colar havaiano. Um colar da Ilha da Escuridown.
Estava dançando consigo mesma e agora a platéia esbaforida, batia palmas, desmontando em seus corpos rotos. Explodindo em bolhas de gás pútrido e dissolvendo em necrochorume. Collett caminhou até a frente do palco e reverenciou a platéia morta. Agradecendo com beijos e colocou a faca em sua boca, com dois puxões, decepou a carne de suas bochechas em um sorriso permanente.
Sua overture estava terminada. Ela podia ver o navio se aproximando no horizonte. Trazendo novas pessoas para assistir sua peça teatral. Ela iria brilhar para sempre ali naquela ilha.
E sorrindo, virou-se de costas enquanto as cortinas caem para se preparar para recepcionar os novos visitantes. E assim testemunharem sua Magnum Opus, pelos próximos trinta e um dias que estariam por vir.

