Amores em Alhambra - HIATUS
Amores em Alhambra - HIATUS
Capítulo 18 min de leitura

1º fase - Prólogo.

Prólogo.

Following Tzipporah

“A palavra é prata, o silêncio é ouro.” – Provérbio Árabe.

“Oriundos do norte da África, de uma região chamada Magreb, grupos árabes e berberes, unidos pela fé islâmica, chegaram a Península Ibérica e dominaram grande parte do território sob o comando do grande general Tariq. Eles construíram seu legado através dos costumes, tradições e das majestosas construções, porém os reinos cristãos foram reconquistando aos poucos suas antigas localidades e tornando-se novamente poderosos na região, mas um reino conseguiu manter-se no sul da Espanha e seu nome era Granada”.

Um jovem para seu cavalo ao ficar de frente ao grande e escuro Portão da Justiça, que o impedia de entrar definitivamente no suntuoso palácio de Alhambra. Ele carregava um estandarte branco e vermelho com o escudo de um leão dourado, aquilo denunciava suas origens. Castela, o reino cristão mais importante da Península Ibérica.

— En nombre de Su Majestad, el rey Enrique de Castilla y León, pido una audiencia con su amo.

Ao pronunciar tais palavras, um dos militares que guardava os portões do palácio e que deveria conhecer a língua castelhana, pediu que um dos companheiros de vigília verificasse se o Sultão poderia atender ao viajante de terras longínquas. Minutos mais tarde o mesmo homem retornava para autorizar a entrada do castelhano.

Dois soldados, um à esquerda e outro à direita, guiavam o estrangeiro de trajes um tanto quanto estranhos aos presentes nobres do palácio que o viam atravessar os corredores. Ele estava composto por uma calça negra e justa, além de um gibão vermelho de veludo com mangas bufantes e uma capa escura de seda que cobria-lhe por detrás. Era a última moda no Reino de Castela, no entanto entre os moradores do Alhambra aquelas vestes pareciam desconfortáveis.

O jovem passou perto de uma sala onde haviam três pessoas ajoelhadas em seus tapetes orando fervorosamente, ele fez um sinal da cruz discretamente perante a cena. Para o castelhano, os mouros eram tão infiéis quanto os judeus e pagãos, todavia trazer seus pensamentos à tona era o mesmo que pedir para ter a cabeça fora do pescoço ou algo pior. Ele também prestou atenção que as mulheres velavam o rosto com tecidos ou adentravam imediatamente em algum rincão quando ele passava, parecia que não podiam ser vistas.

Tudo passara a ser bastante curioso para o rapaz, que não pôde deixar de apreciar a beleza divina daquele palácio. As paredes do andar de baixo eram construídas em forma de arco, para um acesso mais fácil ao jardim, que por sinal parecia um verdadeiro paraíso de cores. Havia os regos de mármore, cujas límpidas águas passeavam de canto a canto, dando uma impressão de haver um riacho dentro do palácio.

Finalmente ele chegou à sala do trono, também conhecida como sala dos embaixadores, onde o sultão se reunia com os nobres mais importantes de todo o Reino de Granada. Naquele ambiente tudo parece ficar mais belo e mágico, a mistura do ouro – incluindo o trono que mais parecia um sofá – com os tecidos verdes das cortinas, as macias almofadas coloridas arrumadas no chão, além do cheiro de incenso de mirra exalando no ar. As paredes eram decoradas com estilizados motivos de folhagens, inscrições em árabe, e arabescos nas paredes azulejadas. Sedas, cores, brocados e muitos carpetes luxuosos, um verdadeiro charme da grande riqueza do Sultão. Com certeza não haveria outra sala do trono tão bonita e opulente quanto a do Palácio de Alhambra.

Sentado no trono lá estava um perigoso inimigo do Reino de Castela, o Sultão Mohammed Nasrid, o homem que criou um confronto com seu meio irmão Yusuf, para assumir o poder de Granada. Hoje o príncipe Yusuf encontrava-se exilado, vivia em uma fortaleza pequena e distante, recebendo poucas visitas e uma pensão miserável de Mohammed. Yusuf só foi poupado, pois a mãe deste implorou por misericórdia muitas vezes antes de morrer, além de diversas famílias influentes terem pedido misericórdia. E isso fora há mais de quinze anos, mas serviu para solidificar Mohammed como um soberano temido e respeitado simultaneamente.

Sua aparência não era monstruosa como os padres castelhanos difundiam tantas vezes, Mohammed possuía um físico saudável e bem apessoado, parecia estar na casa dos trinta, os espessos cabelos eram castanhos escuros assim como a barba. Tinha um semblante calmo, pele clara e olhos esverdeados, talvez tivesse ancestrais de outras localidades. Isso não era incomum nas terras de Granada, uma sociedade heterogênea, onde muitos cristãos, judeus e muçulmanos acabavam se misturando e gerando descendência, sem contar com os convertidos e as pessoas de outros reinos no norte da África e Oriente que chegavam ao reino.

O castelhano aproximou-se do trono, curvou-se perante o sultão e se ergueu, não fitando o soberano.

— Sultão dos Sultões, eu agradeço imensamente por permitir minha entrada.

O mensageiro esperou que o guarda traduzisse suas palavras para o sultão, todavia o próprio respondeu-lhe.

— Salaam Aleikum. — Disse o sultão Mohammed levantando do trono e descendo os dois pequenos degraus até o castelhano, tocando-lhe nos dois ombros. — Seja bem vindo ao Alhambra. Já pedi aos meus escravos que cuidassem de seu cavalo. Uma viagem de Castela até o sul deve ser tão cansativa, imagino. Agora diga seu nome e o que veio fazer em meus domínios.

— Senhor... — Articulou surpreso. — Ahn...

— Eu conheço seu idioma, não se preocupe! Pode falar à vontade. Alá deu boca aos homens para isso. — O homem riu, voltando ao trono. — Minha mãe, a falecida sultana Maryam, que Alá a tenha, já foi uma cristã de seu reino antes de aceitar a palavra do Profeta, porém ensinou-me o castelhano, achou que um dia seria importante para eu me comunicar com vocês e vejam! Ela estava certa. Devo pedir perdão por não estar tão bem apresentado, mas recebi a noticia de um visitante distante logo agora. Estava em reunião com meu fuqahi, contudo não se preocupe, eu queria mesmo dispensá-lo e você foi a melhor desculpa. Então, shukran.

O sultão usava uma longa túnica vermelha com estampas douradas, deveria ser de veludo, além de carregar no pescoço e nos dedos joias e colares do mais puro ouro, que pareciam brilhar.

— Sou Santiago Montenegro de Tordesilhas, meu senhor, um dos mensageiros da corte do Reino de Castela. — E ajoelhou-se, retirando do bolso do gibão um papel enrolado com uma fita vermelha. — Estou em missão de entregar ao sultão de Granada este recado do rei Enrique de Castela e Leão.

Mohammed novamente levantou e apanhou o recado da mão daquele criado e o abriu sem tantas delongas. Santiago ficou cabisbaixo, encarando os desenhos do carpete, tão belo e macio. Com certeza seria a última vez que o veria, pois após ler o recado o sultão provavelmente ficaria furioso.

— Isso é mesmo sério, homem? — O monarca gargalhou. Santiago não entendeu absolutamente nada daquela reação. — Eu devo agora retirar mais dinheiro de minhas arcas e pagar uma parte para Castela, a fim de que o meu reino possa continuar aqui? Isso não é algo muito justo, concorda comigo? Pagamos anualmente nossos tributos e existem acordos para que o preço não ultrapasse o estipulado.

— Apenas trouxe o recado de meu rei, senhor. — Santiago ficou trêmulo da cabeça aos pés, temendo que sua cabeça fosse arrancada do pescoço a qualquer momento.

— Eu sei e agora mesmo retornará para Castela com o meu recado, jovem mensageiro: Não tirarei um centavo dos meus cofres para sustentar a corte de um rei imberbe! E se quiserem selar algum tipo de acordo que venham e resolveremos isso como pessoas sérias.

O rosto do sultão contorceu-se em um semblante frio, o sentimento era transmitido em seu olhar e estava claro que o homem não brincava com suas palavras. Santiago curvou-se pela última vez e saiu do palácio. Nunca mais retornou. Os nobres castelhanos pediam que os tributos de Granada para permanecer em Castela fossem aumentados, e isto para o monarca mouro era um absurdo. E algumas semanas depois o sultão Mohammed descobriu que sua cidade de Zahara fora tomada por soldados cristãos e agora tinha sido anexada ao Reino de Castela.

Para o Reino de Castela era 15 de fevereiro de 1394. Para o Reino de Granada era o décimo terceiro dia do quarto mês Raby Al-Thaany do ano de 796. Um dia que Mohammed Nasrid nunca esqueceria, pois afinal ele era soberano do último reino islâmico da Península Ibérica, o único território que sobrevivera até o momento das retaliações cristãs. Mohammed honraria Granada e seu titulo de Sultão da maneira que ele acreditava ser a mais digna: com ferro e sangue.

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