7 de fevereiro
1 Estranho da praça
Notas iniciais
Boa leitura ^^
Senti-me pequeno diante daquele olhar, era tão intenso que me deixava ansioso.
Acordar, fazer a higiene, vestir-me, trabalhar, voltar para casa, dormir.
Repetir tudo novamente.
É assim que se resume meus dias, sempre a mesma coisa nada de novo acontece. Estou tão atolado na rotina que mal percebo os dias passando e quando me dou conta a semana já tem terminado, mas isso não é um problema, pois até mesmo meus dias de folga são rotineiros.
Não consigo mais sair para as festas que tanto gostava, dos passeios com amigos, tudo o que para mim antes me divertia hoje me parece sem sentido. Eu trabalho no automático e não saio mais de casa, perdi todos os meus amigos ou talvez eu que não os perceba.
Não vivo, apenas existo.
Minha existência se tornou algo tão trivial que não me importo mais se estiver vivo ou morto. Ah! Isso me faz lembrar que quase alcanço tal façanha no passado.
Olho para a data no meu celular, 7 de fevereiro, o dia do meu aniversário de quase morte. Hoje faz exatos cinco anos desde que sofri um acidente, algo que mudou a minha vida.
Eu estava saindo do trabalho um pouco mais tarde devido alguns imprevistos e corri para estação, pois iria perder o trem. Lembro de ter tido um dia infernal de azar com pilhas de trabalho atrasado, eu estava irritado e mal percebi como tudo aconteceu apenas sei que de uma hora para outra todos que estavam na estação começaram a correr e gritar desesperados e sem entender o porquê de tamanha agitação não percebi que um trem desgovernado e fora dos trilhos vinha em minha direção. Não pude reagir e acreditei que iria morrer ali mesmo, mas por alguma razão ilógica eu consegui escapar, lembro-me de ser empurrado, mas aquilo foi apenas uma sensação pois não vi ninguém próximo a mim quando caí no chão, salvo, e logo após apaguei acordando apenas no hospital.
Foi ai que recebi a notícia de que um trem havia se descontrolado e matado dezenas de pessoas na estação eu tive sorte de sair com vida, fora um milagre como acreditou minha mãe.
Por mais que estivesse a salvo, eu me senti vazio como se algo dentro de mim fosse roubado e deixado um buraco oco para trás, talvez a nova vida que ganhei seja apenas um rascunho da que foi levada pelo trem. Por algum motivo desde o dia do acidente não sou a mesma pessoa, ignoro a tudo e a todos sem ter real interesse pelo mundo e sinto como se o mais importante que vivia aqui não mais existia. Uma angústia sobre-humana se abateu sobre mim que até hoje não consigo entender o porquê.
No meio das minhas divagações decido visitar o local do acidente. Não vou lá desde o fatídico dia a cinco anos, soube que o choque foi tão grande que a estação foi transformada em uma praça memorial as vítimas que perderam suas vidas de modo tão brutal. Ao chegar na antiga estação percebo que realmente nada ali lembra sua antiga aparência, tudo fora reformado e tudo agora não passa de uma praça com direito a grama bem cuidada e bancos de cor branca para descansar, claro exceto pelas inúmeras fotos, flores e mais objetos pessoais distribuídos pelo chão onde várias lápides com os nomes das vítimas estão gravados, e eu poderia ser uma delas. A imagem daquilo me trás um mal estar enorme, é como olhar para um cemitério bem cuidado. De quem foi a ideia idiota de montar um cemitério disfarçado de praça?
Ao olhar mais a direita onde a “praça” termina posso ver o túnel por onde o trem passou. De acordo com as notícias o trem desgovernado ainda conseguiu chegar até o túnel antes de parar por completo — arrastando várias pessoas consigo — impedido pelas paredes do mesmo onde ficou preso de tal forma que não foi possível retirá-lo de dentro e o local foi isolado com risco de desmoronamento. Sinto um aperto no peito ao olhar para aquele túnel tão intenso que preciso me sentar. Ando desorientado até o banco mais próximo e me sento sem prestar atenção em nada, aperto minha mão sobre o peito me sentindo sufocar e ofego sem motivo aparente, fecho os olhos e respiro fundo antes de abri-los e dar de cara com um olhar tão profundamente azul quanto o mar em seus dias calmos.
— Dia difícil? — O estranho pergunta e eu continuo mudo. O rapaz não aparenta ter mais que dezoito anos, com um olhar azul e madeixas avermelhadas mais parece um anjo sentado ali na minha frente do que um ser humano. E o mais intrigante é que poderia jurar que ele não estava ali a segundos atrás. Devo ter feito uma cara de assustado, pois ele soltou uma leve risada como se achasse tudo aquilo divertido e eu forcei-me a me recompor.
— Qual é a graça? — Resolvi indagar para interrompê-lo.
— Não é nada, só… Que você parecia ter visto um fantasma! — Ele sorri novamente e eu tenho certeza que estou emburrado, segundos depois me junto a ele em risos.
— Você me assustou, eu não o vi chegar. — Digo entre risos, estava tão leve.
— Eu estou aqui o tempo todo. — O modo como falou acompanhado do seu tom natural me intrigou.
— Então este é o seu ponto? Devo estar incomodando. — Não sei por qual motivo disse aquilo, mas vi sua expressão mudar brevemente antes de sorrir novamente.
— Claro que não, não se preocupe. Faz tempo que não possuo companhia. — Sorrio involuntariamente. Aliás, estou sorrindo mais agora do que nos cinco anos que se passaram.
— Veio visitar algum parente? — Me refiro às vítimas do incidente e o vejo olhar os túmulos/ memoriais dispostos pela praça.
— Pode se dizer que sim. — Responde vagamente ainda com o olhar longe.
— E você? Possui alguém aqui? — Aquela pergunta mexeu com algo dentro de mim, estava pronto para negar quando aqueles olhos tão intensos me roubaram a voz e a capacidade de respirar por alguns segundos. Ele me encarava atentamente e só consegui responde-lo após a muito custo desviar o olhar.
— Na verdade eu estava aqui no dia do acidente… Quase fui uma das vítimas, eu só… queria… — Não consegui terminar a frase, não sabia o motivo para ter ido até aquele lugar.
— Entendo. — Foi tudo o que ele disse antes de olhar para trás onde o sol se punha lentamente tingindo seu rosto com tons alaranjados, fiquei hipnotizado com aquela cena de tal modo que mal percebi que ele tinha dito algo e agora me encarava intensamente. Senti-me pequeno diante daquele olhar, era tão intenso que me deixava ansioso. Pisquei várias vezes não o encarando nos olhos.
— O que disse? — Perguntei e o vi apoiar seu rosto em sua mão sobre o encosto do banco como quem admira uma bela paisagem, um mínimo sorriso no canto dos lábios demonstrava que ele estava se divertindo com meu estado aéreo.
— Disse que já deve estar na sua hora de ir. O sol já esta se pondo, estou certo? — Ele soprou suavemente e suas palavras ecoaram na minha mente como um mantra e debilmente percebi que realmente precisava ir para casa.
— Sim. Realmente preciso ir, minha casa é um pouco longe. — Digo devagar e como quem acaba de acordar de um sonho levanto pronto para sair. Mas antes me viro para ele que continua na mesma posição agora me observando de baixo.
— Foi um prazer conhecê-lo, tivemos uma conversa tão agradável. Poderíamos nos encontrar novamente? — Pergunto ansioso por algum motivo.
— Estarei aqui na mesma hora, se assim desejar. — Aceno positivamente e me despeço.
— Então até amanhã.
— Até. — Me afasto ainda meio torpe e quando estou em uma distância considerável decido me virar e não o encontro mais, vejo apenas o banco vazio debaixo de uma árvore perto do túnel isolado. O sol completamente escondido deixa a noite pairar sobre aquele pedaço da praça que pouco a pouco se torna oculto, e apenas naquele momento lembro-me de não ter perguntado seu nome.
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