7 de fevereiro
3 Aquele que me salvou
E lá estava eu mais uma vez praguejando sobre como era a minha “magnífica” vida. No momento havia acabado de sair da faculdade onde ingressei à pouco tempo no curso de direito, obviamente escolhido pelos meus pais, essa era uma das poucas coisas das quais eles se interessavam sobre minha vida, por exemplo nem se deram ao trabalho de ligar para dar os parabéns ao seu único filho pelos dezoito anos completos, estavam muito mais preocupados com seu fechamento milionário de contrato na Itália. Não que isso fosse uma novidade de todo modo, se eles não tiveram o mínimo de receio em largar uma criança com inúmeras empregadas e babás sem se importar com seu psicológico em ser abandonado e ignorado pelos pais por toda sua vida, porque se importariam agora que essa criança cresceu não é mesmo. Eu não sou mais aquele garoto que ficava sentado sobre a fonte com a estátua de Ganimedes a jorrar água de seu aquário esperando inutilmente que seus pais voltassem a tempo de sua festa de aniversário.
Eles jamais vieram.
Nesse exato momento não tenho vontade de chamar meu motorista que está com o carro a minha espera e voltar para aquela enorme e vazia casa que chamo de lar e em um ato “rebelde” decido pegar um trem e desviar minha rota para qualquer lugar que me deixe longe o bastante daquele lugar. Queria "sair dos trilhos".
Caminho despreocupadamente até a estação essa será a primeira vez que ando de trem já que nunca fui permitido de ir a lugares de um nível “abaixo” do meu como dizem meus pais.
Quando chego no meu destino observo todas aquelas pessoas todas tão diferentes cada qual com sua própria história, gosto de observá-las é um hobbie que adquiri, tentar adivinhar sua vida, onde trabalham e etc apenas pelas suas vestimentas e manias. Nesse vai e vem de pessoas avistou um jovem em especial, com cabelos cacheados em tons de um dourado tão vivo e misteriosos olhos azuis cristalinos como nunca vi em ninguém, pela sua expressão percebo que está mal humorado, talvez um dia ruim no trabalho, ele inconscientemente bate um dos pés repetidamente no chão em uma clara demonstração de impaciência, arrisco dizer que ele não gosta de esperar. Rio ao imaginar como ele reagiria se por um acaso o trem atrasasse, como que percebendo ser motivo de riso ele vira o rosto em minha direção e seus olhos vão de encontro aos meus, me sinto inquieto pelos breves segundos que se passaram com aquele olhar, os segundos mais longos da minha vida, ele rapidamente desviou o olhar para outro ponto normalmente, duvido que tenha me enxergado no meio de tanta gente. Mas por alguma razão queria que ele permanecesse me encarando por mais tempo.
Uma movimentação atípica rouba minha atenção e o que vejo faz meu sangue gelar. Um trem notoriamente desgovernado vem em nossa direção atropelando quem estiver em seu caminho, rapidamente meu instinto de sobrevivência me faz correr junto àquela multidão, porém paro no instante em que o jovem de olhos cristalinos entra em meu campo de visão. Ele continua parado apenas observando em estado letárgico de olhos arregalados o trem que se aproxima, não sei como mas me mexo com mais rapidez do que fui capaz de alcançar em toda a minha vida, eu não poderia simplesmente conceber a hipótese de o ver ser atingido pelo trem, tanto que meu corpo se moveu sem meu comando e quando percebo já estou ao lado do estranho, mal consigo formar uma frase e apenas tenho tempo de empurrá-lo para que o trem não o alcance e grito apenas uma palavra, viva. E depois de ver seu olhar assustado ao cair no chão a salvo uma dor lancinante toma todos os meus sentidos e eu grito.
◈
Seu grito quebra o silêncio da noite e seus olhos assustados observam o ambiente ao seu redor, seu quarto, tudo não passou de um sonho ou melhor dizendo, um pesadelo. Milo pôde ouvir sua respiração irregular no silêncio e sentir as gotas do suor frio escorrerem por sua testa e pescoço. Tentando acalmar-se se levanta indo até a janela a abrindo, o vento frio da noite toca seu corpo molhado pelo suor lhe trazendo uma sensação ruim com um calafrio. Observando a rua calma sob o brilho prateado da lua cheia ele relembra o sonho, fora real demais, com detalhes demais. Diferente de todos os outros que tivera esse o fez estar verdadeiramente no papel do rapaz ao ponto de não lembra-se de si mesmo, sabia se tratar do mesmo garoto dos sonhos anteriores, exceto pelo fato dele ser um jovem agora.
Os fatos lembrados lhe acertaram como um punhal ao reviver o dia em que tudo em sua vida mudou, aquele acidente terrível em outros olhos, de outra perspectiva. E essa sensação era aterrorizante. Ele se viu ali como um estranho, se viu salvando a si mesmo e a maior revelação ou pior constatação foi que agora finalmente descobrira como se salvou, entretanto se isso fosse realmente verdade então ele… Não, não poderia ser… Aquilo era uma mera ilusão do seu cérebro lhe pregando peça devido aos acontecimentos recentes que se misturaram no sonho. Sim, isso mesmo, era isso, só podia ser, tinha que ser, do contrário… Camus estaria… morto. Morto para salvar um estranho. Para salvar ele.
Havia conversado com Camus ainda no mesmo dia como sempre fizera repetidas vezes, ele não poderia estar… Mas, se era apenas um sonho por que não conseguia ignorá-lo completamente?
Não! Ele não poderia acreditar nisso, precisava conferir imediatamente ou poderia enlouquecer completamente. Precisava falar com Camus, e com esse pensamento vestiu-se às pressas e de qualquer jeito jogou um casaco por cima da roupa saindo correndo logo em seguida. Na ânsia de encontrá-lo só percebeu que não sabia como, apenas após sair de seu apartamento e encontrar-se no meio da rua sozinho e desesperado. Decidiu então inutilmente ir até o memorial, sabia que Camus não poderia estar ali naquela hora, mas foi simplesmente inevitável seguir esse caminho, mesmo morando longe seguiu a pé cada segundo registrado com uma batida desenfreada de seu coração.
Longos minutos se passaram, talvez uma hora, ele não saberia dizer tamanho era seu torpor. Um trovão anunciou a chegada da chuva e quando Milo estava a poucos metros do memorial ela finalmente caiu, molhando todo o seu corpo, lavando todo o seu suor. Quando chegou no banco em que sempre sentava no fim da tarde com Camus já batia os dentes de frio, ainda virou o rosto buscando a imagem iluminada daquele que perturbava seus sonhos em vão. A chuva cada vez mais forte dificultava sua visão e mais a frente Milo vislumbrou o túnel, o mesmo túnel que o trem colidiu, o mesmo túnel do seu sonho. Com passos lentos, Milo aproximou-se do túnel destruído em alguns pontos, parou na entrada que estava isolada e pensou novamente na loucura que estava prestes a fazer, respirou fundo e entrou.
A escuridão predomina no local, apenas poucos feixes de luz da lua entrava pelos buracos feitos no teto contribuindo para uma aura mortiça, aquele lugar abandonado por cinco anos ainda guardava a sensação gélida da morte das dezenas de pessoas que foram arrastadas pelo trem. Milo esfregou os braços na vã tentativa de se aquecer, a cada passo que dava mais se aproximava do trem que logo a frente permanecia soterrado boa parte pelos escombros, caminhou por entre os trilhos enferrujados pelo tempo lentamente com cuidado para não cair nos pedaços de partes destroçadas, sua mente rapidamente repassou os sonhos que teve com o jovem garoto abandonado pelos pais. Aniversários perdidos, eventos da escola sem alguém para parabenizá-lo. Noites frias e solitárias onde o pequeno olhava para as estrelas perdido em pensamentos. O viu crescer e se tornar um jovem frio, desprovido de emoções, fechado em seu próprio mundo solitário, tão diferente do Camus curioso e sorridente que conheceu na praça. No momento em que chegou na parte frontal do trem até onde os escombros lhe permitiam pode observar em todo seu terror a lataria amassada em diversas partes, o trem destroçado tinha sua frente praticamente enterrada na parede do túnel, apesar dos corpos terem sido removidos as manchas de sangue escurecidas ainda permaneciam ali, pintando um quadro macabro ao qual o artista era a própria morte.
Então quando Milo encarou uma mancha de sangue em especial uma vertigem tomou conta de seu corpo e ele vomitou ali mesmo, desesperado, as gotas da chuva que pingavam do seu cabelo se misturavam com as lágrimas que caíram abundantes em seu rosto quando uma enxurrada de imagens rodaram em sua mente, as lembranças de Camus no dia do acidente e mais seu corpo sendo arrastado até o túnel, ele fora uma das vítimas que se prenderam na lataria do trem ficando desfigurado ao ponto de quase ficar irreconhecível pelos seus pais. Olhando para frente em pura agonia Milo vislumbrou um brilho prateado preso entre os trilhos logo abaixo do trem onde a mancha de sangue permanecia, o sangue de Camus tinha certeza disso. Trêmulo Milo com algum esforço conseguiu desprender dali um pequeno pingente preso em uma fina corrente, ali estava gravado o signo de aquário representado por Ganimedes, o signo de Camus e o ser mitológico que ele tanto gostava.
— É, parece que você o encontrou. — A voz calma o assusta e com olhos arregalados Milo se vira encarando o dono da voz.
— V-você… — Gaguejando não consegue terminar a frase tamanha era sua angústia. Camus estava ali na sua frente com um semblante preocupado. Balançando a cabeça em uma afirmação inevitável respondeu a sua pergunta não dita, palavras não foram necessárias nesse momento.
— Eu não… Posso… Acreditar. — As lágrimas eram abundantes no rosto de Milo que ajoelhado chorava segurando o pingente enquanto Camus o observava em pé.
— Se eu tivesse me mexido… Se eu não… Se eu... — As palavras saíam acompanhadas de soluços e o rosto lavado por lágrimas. — Você não deveria ter me salvado… A culpa é minha! Droga! — Esmurrando o chão Milo despejava toda a sua frustração por ter sido o causador da morte da pessoa que amou, ele não poderia se perdoar por isso. Viu Camus se abaixar ficando no seu nível e por um momento pensou que o mesmo o tocaria quando ele estendeu sua mão até seu rosto, mas logo depois a abaixou resignado.
— Não chore, a culpa não é sua. Eu precisei morrer para descobrir o que realmente é estar vivo. — Camus disse com um sorriso tranquilo nos lábios e Milo pode apenas fitá-lo com os olhos marejados.
— Você me mostrou com suas histórias coisas que jamais vivi e te agradeço por me fazer compreender a felicidade.
— Eu não fiz nada… Espere! Porquê está falando em tom de despedida? — O desespero foi evidente em sua voz e Camus nada mais fez do que manter o sorriso tranquilo.
— Eu precisava me libertar e você fez isso por mim. — Apontou para o objeto em suas mãos.
— Quero que fique com isso, uma das poucas coisas que realmente foi minha, é sua. — O céu começava a clarear evidenciando que o sol já despontava trazendo o dia, a chuva não mais caia e a luz no fim do túnel projetava levemente uma aura etérea sobre Camus.
— Por favor Camus, não vá!
— Isso infelizmente está além do meu querer. Mas só te peço que viva.
— Não… Por favor Camus, não!
A imagem do loiro foi lentamente tremulando agora evidenciando se tratar de uma existência não física para desespero de Milo, dando mais um de seus sorrisos calorosos ele proferiu suas últimas palavras em despedida.
— Adeus, e obrigado.
— Camus… ! — O grito reverberou no túnel vazio como um lamento agoniado. Milo que continha o braço erguido em uma vã tentativa de alcançar quem já não mais estava ali, permaneceu com o olhar vidrado encarando o nada. Chorava em silêncio pois sua voz não mais saia e a tristeza se apoderava de seu coração.
— Eu te amo… — Sussurrou olhando para o pingente em suas mãos deixou mais algumas lágrimas caírem e logo depois as secou. Ainda atordoado caminhou para fora do túnel avistando o banco onde Camus costumava esperá-lo, aproximou-se com uma sensação de perda olhou o mesmo com atenção, logo atrás do mesmo notou uma lápide meio escondida, curioso deu a volta no banco. A lápide estava coberta por algumas folhas e sujeira como se estivesse abandonada a muito tempo, Milo se aproximou lendo o nome gravado ali.
“Camus Lefèvre”.
— Então aqui está o seu memorial. Não me admira a aparência abandonada, já que seus pais não te deram a devida atenção quando vivo que dirá depois de morto. — Falar aquela palavra lhe trazia um gosto amargo na boca.
— Estarei aqui novamente como sempre desde que nos conhecemos. — Falou tocando a lápide, apertou o pingente em sua mão e afastou-se dando um último olhar para o banco vazio em sua mente riscando o contorno do corpo de Camus ali sentado observando o horizonte como fizera na primeira vez que o conheceu.
— Até logo... — Repetiu as mesmas palavras e relembrando a sua despedida no túnel novamente sussurrou o “eu te amo” antes de virar as costas.
Uma brisa leve balançou seus cabelos e ele pensou ter ouvido um sussurro no vento que lhe pareceu um “eu também”.
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