7 de Dezembro

1 Capítulo Único - Relembrar.


Notas iniciais
Não esqueçam de deixar o Review de vocês, mais uma vez repito, espero que gostem e boa leitura! ;)

Segunda feira, 7 de Dezembro de 2015.

Tinha quase 17, mas possuía uma cabeça muito formada, sobre todas as coisas. Enzo nunca fora o tipo de garoto que permitia ser levado pela conversa de outros. Nunca foi “Maria-Vai-Com-As-Outras”.

Deitado na cama, ele segurava as lagrimas que queriam libertar-se a todo custo de seus olhos, sentindo um nó apertar-se cada vez mais dentro de sua garganta. O garoto não conseguia acreditar que o seu ‘conto de fadas’ terminava ali. Queria ele poder sair correndo daquela cama em direção ao aeroporto e destruir o avião antes mesmo de Fernando entrar nele. Queria ao menos fazer as malas e embarcar no voo junto ao parceiro, porém, a única coisa que ele poderia fazer naquela tarde de segunda, era lamentar e torcer para que um dia, tudo ficasse bem novamente.

Quarta Feira, 10 de Julho de 2013

O calor era inigualável naquela tarde alaranjada. O sol refletia no canto da Iris dos garotos, enquanto corriam em volta da piscina brincando de pega-pega feito duas crianças. Eram altos, magros com pés enormes e cabelos negros. Pularam então juntos na agua morna e límpida. Só restavam os dois no local, devido a metade dos primos de Fernando terem ido cochilar e a outra metade, ter ido comer. Aproveitaram então a privacidade que tinham naquele momento, para curtir a sós. A família de ambos já sabiam que os garotos eram um casal, mas mesmo assim eles preferiam não se beijar em público. Achavam falta de respeito (Mesmo para um casal hétero).

Enzo, abraçou o namorado dentro da água enquanto travava suas pernas na cintura do mesmo. Passou então seus braços em volta do pescoço de Fernando e o beijou com um leve sorriso formando-se em seus lábios. Seus olhos azuis encontravam-se com os castanhos do parceiro, a cada vez que encerravam os beijos.

O sol já escondia-se quando decidiram secarem-se e sentar na grama, para observar a cena. O por do sol naquela fazenda, era quase tão lindo como o nascer.

- Sabe, acho que nunca iremos nos separar – A voz grossa de Enzo ecoou em volta dos dois.

- Espero que não – Sorriu Fernando, exibindo os dentes brancos e perfeitamente enfileirados; — Espero poder me casar com você e ter filhos. Vários pirralhos correndo em volta de nós dizendo que amam seus dois pais.

- Podem te chamar de mamãe, é só fazemos alguma magia pra afinarmos a sua voz, te colocar uma peruca e fazer uma maquiagem de mulher clássica dos anos 80. – Brincou.

- Posso maquear sua cara com uma porrada, o que acha? – O garoto bufou e riu.

- Acho melhor você me encher de beijos, é mais saudável para nós dois. – O mesmo sorriu de canto.

- Essas estão sendo as minhas melhores férias – Disse Fernando, deitando o namorado, subindo em cima do mesmo e o beijando.

Segunda Feira, 7 de Dezembro de 2015.

Enzo sorriu ao olhar para a foto pendurada em sua parede; Era uma foto dele de “cavalinho” nas costas de Fernando, tirada pelo primo, durante uma passeada na cidade, naquelas férias. Era tão bom relembrar os momentos que tiveram juntos... Era como poder voltar no tempo e era isso que ele precisava para se sentir melhor neste dia. Levantou-se da cama e começou a caminhar pelo quarto. Foi até a janela, onde pode ver a mãe abrindo o portão. Não demorou muito para que a mesma subisse e batesse na porta do quarto.

- Cheguei meu amor! O ônibus por incrível que pareça estava vazio e meu computador hoje no escritório quase quebrou e... – Mônica adentrou ao cômodo e logo percebeu que havia algo errado com o filho. Sentou-se elegantemente na cama e perguntou – O que houve?

- Nada não mãe, relaxa. – Disse o garoto abrindo um sorriso falso.

- Não me faça te esgoelar até você me contar – Disse a mulher, esticando as mãos para o pescoço de Enzo, sorrindo – Vai me conta, você sabe que não há segredos entre nós. – E não havia mesmo.

Terça Feira, 17 de Abril de 2012.

Estavam todos na mesa da sala de jantar, comendo. O “prato do dia” como costumavam chamar suas refeições noturnas, era arroz, feijão e uma deliciosa carne de panela com batatas. Fernando fora convidado por Enzo, para juntar-se a família na hora do jantar.

- Temos que conversar, todos nós. – Disse Mônica, surpreendendo aos dois garotos.

- Queremos que vocês dois sejam sinceros. Saberemos se estiverem mentindo, não adianta tentar. Certo? – Completou Mauro, pai de Enzo.

Ambos os adolescentes balançaram a cabeça concordando. Estavam um pouco receosos por não saber do que se tratava o tal assunto. A mulher deu continuidade.

- Dona Vera, a vizinha, me contou que viu hoje pela janela dela, vocês dois aos beijos. Podem me explicar isso? – Seu tom de voz era calmo, assim como sua face. O pai intimidava um pouco mais.

Enzo engoliu seco e sentiu a perna bambear, mesmo estando sentado. Estava a ponto de explodir de vergonha e medo. Fernando balançava os pés freneticamente embaixo da mesa, o que mostrava claramente o seu nervosismo perante a situação.

- Não vou mentir – Enzo tomou coragem e pôs se a falar – Eu e Fernando... bem... nós... meio que amamos um ao outro e não é só um amor de amigo.- Soltou tudo de uma vez, gaguejando.

- Vocês então, são namorados? – Perguntou o pai, ainda sério. O filho apenas balançou a cabeça novamente, em afirmação.

- Porque não contaram isso antes? – Mônica ajeitou-se a postura na cabeça e passou um fio de cabelo para trás da orelha.

- Por medo. Ah, sei lá, vai que vocês me expulsam de casa e...

- Pare de falar besteira, Enzo! –Exclamou a mãe. – Te expulsar de casa ou não te aceitar por você gostar de alguém do mesmo sexo? Isso é desumano! Eu te expulsaria se você fosse um ladrão, um golpista ou não fosse um bom cidadão. Filho, eu e seu pai nunca te julgaríamos pela sua sexualidade.

- Só quero que você seja feliz, Enzo, independente de quem for que vai te fazer feliz. – Mauro então se permitiu sorrir – Cuide bem do meu filho, Fernandinho.

- Pode deixar senhor e senhora. – O mesmo respondeu tímido.

Como se combinado, todos então levantaram da mesa e se abraçaram. O amor era o fundamental.

Segunda Feira, 7 de Dezembro de 2015.

- Ah filho... – Mônica se entristeceu após o garoto explicar o motivo de sua chateação. – Fernandinho é uma ótima pessoa, eu o adoro... mas se ele se foi, você deve guardar suas memórias em seu coração e prosseguir.

- Eu sei mãe... vou ficar bem, prometo. Obrigado por ser tão incrível – Ele a abraçou e ela retribuiu – Eu te amo.

- Eu te amo – A mulher sorriu e afagou os cabelos do filho. Após o abraço, lhe deu um beijo na testa. – Vou tirar essa roupa do serviço e descer para aprontar o jantar. Se precisar de algo, me chame.

- Certo – O menino piscou para a mesma.

Olhou para o relógio e pode concluir que aquela hora, o garoto já havia partido, e deveria estar a centenas de quilômetros de distancia.

Era quase natal e natal também trazia a tona lembranças de Fernando, assim como o vento trás o cheiro de folhas secas no outono. Uma nostalgia envolveu o garoto por completo, que fechou os olhos e permitiu-se lembrar.

Sexta Feira, 19 de Dezembro de 2014.

- Isso é hora de chegar? – Fernando disse logo que abriu a porta.

- Você não especificou uma hora para eu chegar, apenas pediu que eu viesse dormir aqui na sua casa. Cá estou, além do que nove horas da noite não é tão tarde assim, então sem drama – Respondeu Enzo, dando de costas ao namorado enquanto limpava os sapatos no tapete próximo a porta.

- Certo, você venceu – E deu um selinho no parceiro.

- Ei, ta louco? – Riu – Já pensou se seus pais vissem isso?

- Eles não vão ver pelo simples fato de que não estão em casa – O garoto abriu os braços e fez uma dancinha ridícula. – Dizem eles que vão assistir a um filme, mas sabe, acho que na verdade vão para um motel.

- Tá ai mais uma desculpa para darmos a nossos filhos quando formos sair – Enzo brincou.

- Vem cá, deixa sua mochila aqui no quarto – Fernando ignorou o comentário anterior e seguiu adiante no corredor de paredes bege, em direção a seu quarto, enquanto o outro o seguia. Abriu a porta e deixou com que o visitante entrasse primeiro.

Os olhos de Enzo brilharam. Na cama de solteiro do garoto, haviam dezenas de pétalas de rosa bem distribuídas. Haviam flores por todo o quarto e assim que virou-se para perguntar o que estava acontecendo, uma música começou a tocar. Logo foi surpreendido novamente quando o parceiro o envolveu sua cintura com os braços e o beijou.

- Eu quero que seja hoje, me sinto pronto. – Fernando disse com um sorriso tímido nos lábios.

- Q-quer... fazer amor comigo? — Enzo retribuiu o sorriso e sentiu-se corar, por ter gaguejado.

O garoto apenas assentiu com a cabeça e logo jogou o outro na cama. Naquela noite fria então, fizeram amor pela primeira vez, como dois amantes lendários, como leões famintos, como namorados que se amavam de verdade.

Segunda Feira, 7 de Dezembro de 2015.

Enzo se viu excitado ao lembrar dos momentos quentes ao lado do amante. Era incrível como Fernando era a única pessoa que lhe despertava a sede por sexo. Logo se tocou, na necessidade de aliviar-se, mas nunca sentiu-se tão incompleto.

Limpou-se e sentou em frente ao computador, mas não ligou. Abriu a gaveta da escrivaninha e pegou um chaveiro; Uma réplica de All Star, de tamanho que serviria em um pé de galinha anã. Pelo menos era assim que ele o definia.

Segunda Feira, 1 de março de 2010.

Desde a segunda série eram melhores amigos. Se conheceram na sala de aula, juntando-se para ilustrar e colorir um lugar que gostavam.

Aquela manhã fria, era o primeiro dia de aula e também o primeiro dia no Ginásio. A partir dali, uma nova fase da vida dos garotos começava. O que deixava ambos menos nervosos, era saber que caíram na mesma sala, ou seja, se houvesse alguma zoação, os dois suportariam juntos e defenderiam um ao outro.

Foi empolgante ter agora um professor para cada matéria, tão empolgante quanto o fato de agora poderem escrever de caneta as lições no caderno. Os dois sentiam-se adultos com isso. Talvez até fossem, pois tanto Fernando quanto Enzo, tinham uma cabeça muito amadurecida, mesmo com apenas 11 anos idade... Digo, nessa idade os garotos costumam ser bem babacas.

- Eu tenho um presente pra te dar – Disse Fernando durante o intervalo.

- Cadê? Eu quero! – Disse Enzo abrindo um sorriso de ponta a ponta em sua face. O garoto então lhe entregou um chaveiro. Era um All Star pequenino. – Uau! Eu gostei muito, obrigado! – Abraçou então o amigo.

- Olha dentro dele, tem uma mensagem pra você.

Enzo pegou um pequeno papel dentro do mesmo.

“Eu acho que eu gosto de vc... não entendo isso direito, mas acho que quero namorar com vc... é isso q as pessoas fazem quando não param de pensar na outra ne?”

Após ler, sentiu sua pele esquentar e avermelhar-se de vergonha.

- Certo, aceito namorar com você sim e tenho um presente pra você também.

- Tá, pode me dar! – Fernando se empolgou. Enzo então lhe deu um selinho rápido e saiu correndo, deixando o amigo feliz e surpreendido com tal atitude.

Segunda Feira, 7 de Dezembro de 2015.

- Como éramos bobos – Falou para si mesmo e depois riu sozinho. Girou a cadeira de escritório e parou os olhos em sua prateleira de livros. Lá estava a sua aliança brilhante, que tirara quando soube da ida de Fernando e sua família para a Itália. O fato é que o garoto não tinha culpa. O pai finalmente conseguira uma chance de se dar bem na vida e a apanhou, levando seu filho junto a ele. Mas mesmo assim, era muito difícil de aceitar.

Quinta Feira, 14 de Maio de 2015.

Os dois estavam deitados no sofá, cobertos por um cobertor felpudo de Fernando. Enzo estava encaixado nas pernas abertas do parceiro, pousando sua cabeça sobre o peito do mesmo, de frente para a televisão. Assistiam a um filme de terror, enquanto comiam algumas pipocas. O dia estava frio e nublado, o que era perfeito para a ocasião.

- Sabe o que eu acho? Que a vida as vezes se assemelha muito a um filme. – Fernando disse baixinho, no ouvido do namorado.

- Amor, os filmes muitas vezes são baseados na vida, então talvez seja isso – O outro respondeu irônico e riu logo após.

- Digo que, nosso relacionamento é tão bom, que me sinto num filme, sabe?

Enzo virou-se de frente para o parceiro.

- Verdade... as vezes é difícil de acreditar que tudo isso é real.

- Quer casar comigo?

- Como você é aleatório! – Exclamou Enzo, tentando esconder sua surpresa perante ao comentário.

- Falo sério. Não importa se for amanhã ou daqui a quarenta anos. Mas quero ser seu marido. Quero poder todos os dias ver seu sorriso e sua cara inchada de tanto dormir aos finais de semana. Quero que saiamos pra trabalhar juntos e quero que quando voltarmos do serviço, façamos a janta unidos. Quero botar nossos filhos para dormir, enquanto você cobre um, eu cubro outro e vice versa... – Fernando mexeu no bolso e tirou umas moedas, uns papéis de bala amassados e duas alianças brilhantes. Estendeu a mão para o namorado. – Enzo Gabriel Noronha, aceita casar-se comigo, algum dia?

- Eu quero casar com você, quero ser acordado todos os dias e ver essa tua cara de bobo legre, com o sorriso mais lindo desse mundo. Quero que saiamos para trabalhar juntos, nem que for em um escritório chato. Quero poder preparar um jantar para nós, junto a você. Quero ser seu marido, oficialmente, nem que for daqui a 40 anos. Sim, Fernando Reis Ribeiro, eu aceito casar com você algum dia.

Colocaram então as alianças nos dedos e os sorrisos de felicidade nos rostos. E beijaram-se, completando a parte ausente do coração um do outro.

Segunda Feira, 7 de Dezembro de 2015.

Colocou novamente a aliança no dedo. Já estava escuro lá fora e as luzes alaranjadas dos postes iluminavam a rua com fervor. Ouviu sua mãe o chamando, anunciando que o jantar estava pronto. Resolveu descer, já que seu estomago roncava de fome. Desceu os degraus lentamente, passando a mão pelo corredor de madeira envernizado.

- Filho, desça essa escada de vez, assim você vai aborrecer nosso convidado – Exclamou o pai.

Enzo apressou-se a descer, curioso para saber quem jantaria com eles naquela noite. Na sua mente, passaram-se milhares de coisas. Seria Fernando? Uma esperança desenvolveu-se em sua mente, mas logo se desfez, ao ver que era a avó que estava sentada a mesa.

- Poxa querido, não me quer aqui? – Disse a senhora vendo o desapontamento do garoto.

- Não, não é isso não vó... eu só pensei que... bem, deixa pra lá – Respondeu, abrindo um sorriso forçado e beijando a testa da avó.

- Pensou que seria eu? – Uma voz grossa perguntou, vindo de trás. Logo, Enzo olhou pra trás. Não acreditou no que viu. Cogitou a idéia de estar sonhando ou até mesmo alucinando imagens. Mas felizmente, não era nenhuma das duas opções. Fernando estava ali, usava uma regata branca e uma bermuda azul. Estava lindo, como sempre. Ambos, na mesma hora se abraçaram, misturando os perfumes.

- O que você tá fazendo aqui? Você não deveria estar indo pra Itália? – Perguntou, com um sorriso alinhado e bobo em sua boca.

- Eu conversei com meus pais e... bem, eles entenderam. Disseram que dói me deixar aqui, mas não adianta que eu vá para lá e seja infeliz. Eles não querem isso de modo algum. Disseram para eu ficar aqui em São Paulo e visita-los durante as férias. Vou então morar com a minha tia, inclusive o seu pai vai me dar uma carona pra lá assim que terminarmos o jantar.

- Uou! Que ótima noticia! –Enzo o apertou mais e sussurrou em seu ouvido – Passei a tarde inteira pernsando em você, Fernando. Nunca mais saia de perto de mim. Quero que duremos muito.

- O que acha de... deste momento até a eternidade?

- Desse momento até a eternidade – Respondeu, lembrando instantaneamente do livro “A Culpa é Das Estrelas” de John Green.

- Só não me deem netos tão cedo, sou muito nova para ser avó – Disse Mônica entrando na sala com uma vasilha de arroz em suas mãos. Colocou-a sobre a mesa e abraçou os dois.

- Esses dois são ajuizados, só vão pensar em nos dar netinhos quando estiverem adultos e bem estabelecidos na vida, certo? – Intimidou Mauro, os abraçando também em seguida.

- Eu também amo esses meus dois netos, um de sangue e um de consideração. Abram um espaço ai que também quero abraçar – Todos acolheram a senhora no abraço coletivo.

Naquele momento então, pode se ver com clareza, que o amor, independente da forma, era a coisa mais bonita que se pode existir. E o amor de Fernando e Enzo, estava marcado a tempos por constelações, espalhadas por todo o imenso Universo que pairava sob suas cabeças.

Notas finais
Desculpem-se me houveram erros de ortografia ou pontuação. Enfim, obrigado por ter lido e até a próxima! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!