7 Things
1 7 Things
Notas iniciais
Mais uma vez chegava a casa depois de um dia de aulas, um dia de aulas normal em que tinha sido desprezado e ignorado por aqueles olhos dourados… Eu já me tinha habituado à ideia de gostar de um rapaz há muito tempo, no entanto, com ele era um pouco diferente… Acho que podemos dizer que tínhamos uma relação amorosa. Namorávamos os dois há uns meses, mas era um relacionamento bem estranho… Como é que explico isto? Vocês sabem o que é quando namoram com uma pessoa, mas na frente de todo o mundo ela age como se não estivessem relacionados? Era mais ou menos essa situação.
Joguei minha mochila no chão e saltei para o sofá, encarando o teto. E aquela parede branca era a metáfora ideal para o que eu sentia no momento. Um enorme vazio… Enquanto eu me deitava frustrado, triste por não entender o que se passa, o meu suposto namorado estava no colégio. A ser popular, adorado por tudo e todos, com montes de garotas lhe beijando os pés e, como se não bastasse a humilhação que eu sentia, “namorando” com sua “namorada” de fachada…
— Idiota… — Disse num sussurro, insultando-o enquanto uma lágrima saía do meu olho.
Eu gostava muito dele. Acho que posso ousar dizer que o amava. O que eu mais queria era poder partilhar isso com o mundo… Sem medo algum. Mas infelizmente, ele ainda não estava pronto. Manter segredo não foi complicado nos primeiros meses, mas agora? Eu não consigo guardar isto para sempre… Eu posso até fingir que não me importo, mas não passa disso: fingir.
E no meio da minha melancolia, ouvi a porta de casa bater. Por instinto, levantei-me do sofá, ficando de pé frente a este. Gold tinha chegado a casa.
— Silver! Como foi seu dia? – O recém chegado perguntou com um sorriso.
— Se você estivesse comigo sabia, não é, Gold? – Indaguei com uma ironia agressiva.
— Isso de novo? — Gold suspirou, não sei se de cansaço se de impaciência — Eu já lhe disse que quando eu tiver coragem eu falo...
— Quando tiver coragem… Gold, nós estamos namorando há meses e você mantém uma "namorada" de fachada! Como quer que eu lide com isto? Você não vai mudar nada, pois não?! – Senti a raiva acumulada sair gradualmente, numa agressividade muito passiva, mas agressiva — Sinceramente, Gold... Eu te odeio!
Com este comentário, foi possível ver uma expressão de choque na expressão de Gold. Odiar talvez fosse uma palavra muito forte. Eu não o odiava mesmo... Mas odiava o que ele estava a fazer!
— Silver… — Ele tentou falar, mas não o deixei. Era a minha vez de falar. Falar tudo o que não tinha dito até agora.
— Não, Gold. Agora quem fala sou eu.
O rapaz de cabelos negros achou estranho que o tenha mandado calar. Eu sempre fui adepto de aceitar as suas opções e ir ao seu tempo… Mas eu estava insatisfeito como pessoa e não podia simplesmente ignorar isso. Tínhamos de ter uma conversa séria sobre o que eu precisava também.
— Eu odeio-te! Odeio-te tanto... – As lágrimas acompanhavam os meus berros reprimidos para fora do meu corpo.
— Silver… — Gold não conseguia dizer mais nada. Apenas o meu nome saia daquela expressão de espanto enigmática.
Naquele momento, eu só conseguia pensar nos defeitos. Defeitos que acumulei dentro de mim e que nunca ousei falar. Um erro... Devia ter dito logo que me apercebi que não os tolerava.
— Gold, você é fútil! Um idiota que se preocupa mais com a sua imagem do que com o próprio companheiro! Gold, você acha isso normal?! Acha normal uma pessoa ignorar o namorado? – Indaguei-lhe.
Gold permaneceu sem resposta.
— E esses seus “joguinhos”? Não me vá dizer que é “insegurança”, por favor! Gold, você diz que gostas de mim e da Crystal ao mesmo tempo! – Eu insistia em dizer o que odiava nele. — Como é que eu sei que você não está namorando é com a Crystal e eu é que sou a fachada?
— Silver… Eu não sei o que lhe dizer, eu não pensei que… — Gold estava agora a recuperar a fala.
— Você me faz sorrir… E logo depois desfaz-me em lágrimas… Eu realmente odeio-te… Odeio-te tanto… — Perdi um pouco de enfase na voz, pois as lágrimas aumentaram.
— Silver… Eu realmente quero contar para todo mundo que estou com você, mas você sabe que meus amigos… — Ele tentou se desculpar, mas pareceram apenas isso: "desculpas".
— Seus amigos são uns idiotas! E você também é um idiota quando age como eles… Magoa… — Encarei o chão.
— Mas sabe, o que eu mais odeio, é que mesmo com isto tudo, com tudo o que você faz, é que eu ainda amo você! – Afirmei com uma cara de desprezo ensopada em lágrimas.
Um silêncio constrangedor permaneceu na sala, eu encarando o chão envergonhado e ele me encarando. Eu simplesmente esperava que ele pedisse desculpas… Só queria que ele pedisse desculpas… Isso por agora ia chegar… Sim, por agora era suficiente que ele pelo menos ouvisse a minha parte.
— Silver… Eu peço imensas desculpas. Eu não sabia que você se sentia assim, eu pensei… Pensei que isto não o afetasse tanto! — Gold estava atrapalhado. Tentava aproximar-se de mim, para me abraçar, ou tocar apenas, mas não cedi... Não ia ceder agora.
— Mas afeta! Afeta muito! Gold, por favor, eu entendo que você não está pronto para se assumir, mas eu não aguento mais ser o namorado humilhado. Desculpe, mas eu não consigo estar numa relação assim, é mau para mim, entende? — Respondi-lhe com a maior firmeza que tive até hoje nesta relação.
Gold olhou para mim pensativo, depois baixou os olhos para o chão e acenou que sim com a cabeça, concordando.
— Então, Gold, é assim... Se quiser, volte para a Crystal e continue sua vida perfeita de fachada. Eu fico aqui chorando o facto de meu namorado não me conseguir aceitar... Mas nesse caso, não se dê ao trabalho de voltar aqui. – Fui o mais honesto possível, lhe dando as costas. Não o queria pressionar na sua decisão, mas a cima de tudo, não o queria encarar enquanto se ia embora...
Eu não ia ceder mais. Se ele quisesse ficar comigo, ele ficaria. Se quisesse ir embora e ficar com Crystal, então ele iria.
E enquanto esperava ouvir a porta de casa bater, senti um abraço apertado que me envolveu pelas costas e fechou sobre minha barriga. Ele apoiou a sua cabeça em meu ombro, me surpreendendo arrepiando todos os pelos do corpo.
— Silver… Eu gosto de você… Não te vou abandonar, ok? É você o meu namorado… O meu amor... — Gold sossegou-me, e mesmo sem o mostrar ainda, senti-me mais aliviado.
— Como eu sei que não diz isso para ela também? — Questionei, tentando ignorar o facto de ele me abraçar.
Gold virou-me então na sua direção, me forçando a encará-lo e olhá-lo nos seus olhos dourados.
— Silver... Eu sei que não sou merecedor disso, mas tem de confiar em mim. – Ele pediu, sua face pedia piedade e gritava arrependimento. Suava arrependimento e notava-se o quão estava perdido e assustado.
Eu o olhava sético. Não sabia se devia acreditar naquelas palavras de choro. Podiam tanto ser honestas como outra armadilha bem montada... Mas depois, vi uma lágrima cair de seu olho. E não parecia ser de crocodilo.
— Gold… Está chorando? – Interroguei-o espantado. Nunca tinha visto aquele playboy chorando antes.
— Eu não sabia… Eu não sabia que fazia você se sentir tão mal… Eu não queria! Agora você me odeia… Eu não mereço que você goste de mim… Você é simplesmente demasiado bom para este mundo. Me desculpe. — Ele se lamentou.
Percebi então que mesmo sendo um lado de Gold que eu não conhecia, talvez não fosse o mais atrativo dele. Vê-lo ali lamentar-se e rebaixar-se... Não combinava com ele.
— Pare de se rebaixar... Isso está me enojando e não combina com você. – Pedi, usando a minha mão para limpar as lágrimas que escorriam.
— Mas… Eu agi mal com você… — Gold tentou justificar-se.
Eu revirei os olhos, parece que não ia conseguir evitar aquele papo mais lamechas. Me cheguei mais perto dele para o abraçar forte. Ele sossegou o choro por um momento, provavelmente, para ouvir o que eu tinha a dizer.
— É verdade. Você agiu mal. Mas, você pode redimir-se. Apenas, daqui para a frente… Passe a tratar-me como seu namorado... Só lhe peço isso. – Pedi.
— Mas isso… O que as pessoas irão dizer? – Ele perguntou brincando com os meus longos cabelos ruivos. Notava-se a insegurança, a dúvida... Mas a minha raiva tinha-se transformado em consolo.
— Isso eu não posso prever… Mas sei que quem realmente se importa com você vai ficar do seu lado. — Sosseguei — Desculpe, mas... Eu não consigo mesmo estar mais numa relação em que eu me sinta assim.
Gold parecia refletivo. Tinha passado grande parte da sua vida escolar a como hétero e um “parte corações” e agora, de repente, tinha um namorado… Era muito para assimilar, uma vida inteira de questões às quais muitas nunca há de ter resposta... Mas depois de alguns segundos de ausência, parou de alisar meus cabelos e me abraçou o mais forte que pôde.
— Eu não posso mesmo escolher os dois? – Ele perguntou num tom infantil, fazendo beicinho.
— Não! – Gold tinha um péssimo tempo para fazer piadas. E parece que nunca ia aprender a hora de estar sério.
— Oh… Então, a minha escolha é óbvia. – Gold disse antes de me beijar doce e profundamente.
Podia não ser a primeira vez que isto acontecia, mas era sempre uma sensação única. Um beijo demorado compartilhado pelos dois… Um beijo longo, mas que sempre parece curto. Um beijo doce que tem o fim amargo da separação. Mas este beijo, foi bem diferente de qualquer outro dado antes. Foi honesto, foi cúmplice, foi de compromisso. Foi o início de uma nova etapa de nossa relação, ele iria contar para todo o mundo… E isso era fantástico…
Sim, este é Gold, meu namorado.
E ele faz com que eu o ame.
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