7 Pecados Capitais
31 Coral - parte II
Notas iniciais
Como se tivessem combinado entre si, todos chegaram quase na mesma hora, com um atraso ou outro irrelevantes. Gaara sentiu pena da figura fúnebre do novo rei Uzumaki, e aquele sentimento quase chegou perto da compaixão. Fazia tempo que tinha se acostumado a perder — fossem coisas ou pessoas, e não sentia mais a comoção emocioná-lo.
Até ver Naruto soluçar.
O rapaz estava de luto dos pés à cabeça. O corpanzil desabou nos joelhos, as duas mãos do jovem nos olhos. Parecia que segurava o choro até ali, e agora, diante de toda aquela gente, não muito mais que vinte pessoas, tudo que foi reprimido explodiu.
Silenciosamente, Gaara se aproximou. Naruto ruía cada vez mais, sendo amparado pela mãe e pela prima de Neji. As duas, uma de cada lado, cediam um meio abraço.
O ar estava pesado.
Viu Sasuke enxugar uma lágrima. O moreno se esforçava para não fazer careta, mas estava emocionado. Assim como Neji, este apertando as mãos de Tenten em busca de alguma força. Mas a moça estava tão triste quanto ele, e imaginava que ninguém ali pudesse emprestar força alguma. Estavam drenados momentaneamente, todos juntos, e era o sentimento mais sufocante que o ruivo já experimentou.
Os soluços de Naruto preencheram o túmulo do pai de amor, tristeza e saudade, e não houve reza mais, nem qualquer tipo de adeus simbólico. O papa, no pé da cova, silenciou-se em respeito, e aquele ato lhe pareceu a escolha mais acertada. A terra cobriu Minato, e Naruto se levantou trôpego. Engoliu o choro, fechou os olhos e abaixou a cabeça, agradecendo às pessoas que vieram.
Mas as lágrimas incessantes estavam ali, inundando a cabeça vazia das pessoas.
Gaara comeu o suficiente para voltar pra casa. Culturalmente falando, após as mortes, ofereciam um banquete aos convidados, e foi o que Naru fez. Seu estado de espírito estava bem abalado, e sua expressão era vazia. O garoto nem fez questão de sorrir.
Tenten acabou vendo Naruto e Hinata abraçados num aperto tão forte e emocional, que ela não conseguia segurar as lágrimas. Sem saber se era o certo a se fazer, cutucou Neji e murmurou:
— Que bom que ele tem apoio.
O moreno apenas assentiu, sem conseguir desviar o olhar daquela cena inusitada.
Sasuke se aproximou de Neji e o cumprimentou com um aceno, seguido de Sakura.
— São tempos difíceis. — Soprou, estranhamente sentimental. Neji desviou os olhos da prima, soltou a mão de Tenten e assentiu, mas não chegou a dizer alguma coisa. A Arata logo percebeu a mudança no comportamento do Hyuuga, e uma estranha insegurança se apoderou dos seus pensamentos mórbidos. Ele estava com ciúme da Hinata?
— Você está bem? — Foi Sakura quem perguntou para a morena, e hesitante, a moça acenou positivamente. Andou para o lado de Sakura, sem o receio de ficar perto de uma rainha.
— E você?
— Estou também. — Sorriu para a moça. Embora tivessem quase o mesmo tamanho, sendo Tenten poucos centímetros mais alta, Sakura sentia que a garota era bem maior que ela.
— Como está sendo… Você sabe. Viver com o rei depois de toda aquela tragédia?
— Estou feliz. Nós estamos reerguendo a região aos pouquinhos. — O sorriso de Sá não a desmentia, por isso, a moça de pele amorenada fechou os olhos em entendimento, sorrindo também. As duas cochichavam, afinal, Sasuke continuava ali.
— Boa sorte, alteza.
Ino estranhou o silêncio no castelo. As velas não estavam acesas, os castiçais posicionados nas mesas e paredes estavam apagados, exceto um ou outro que iluminavam o caminho, e nenhum guarda estava às vistas.
Kitou lhe disse que ela deveria subir direto, sem paradas. Já tinha percebido que quando Gaara não estava, ninguém iluminava o castelo ou perambulava por ele.
Aquela súbita realização a deixou chateada, e ela não soube se era pela falta de Gaara, a falta de luz ou o sentimento de abandono. Não tinha mais tempo com o ruivo, e os carinhos que trocavam eram sempre intensos e devastadores, mas estavam acontecendo cada vez menos.
Subiu as escadas pé por pé quando chegou na ala, pensando nos lábios finos e pálidos do rei e nas mãos sardentas e grandes. Sentia falta do corpo dele. Alcançou seu andar com desânimo, mas ele sumiu assim que ela abriu a porta.
Em cima da cama, uma enorme quantidade de adornos quase a fizeram gritar. Ela podia ver sapatos, chinelas, vestidos, itens para dormir, colares, aneis… Mas o que mais chamou a atenção foi a enorme coleção de batons. Seis deles. Do vermelho ao coral, agora ela tinha seis novas cores e sete batons. Bateu palminhas, sabendo muito bem de quem eram aqueles presentes.
Gaara galopava com rapidez. A urgência de ver Ino o consumia, virava seu estômago ao contrário, engolia sua paciência pouco a pouco. Ele nem sequer parou para imaginar que estava sofrendo de vontade de ver a bruxa, e também não pensou que era um comportamento inabitual, uma obsessão aguda. Cavalgou o resto da noite incansavelmente, até ultrapassar os seus domínios já de manhã e poder suspirar aliviado. Ela o esperava nos jardins, no fundo do castelo, mais perto do estábulo do que da área de passeio. Era ela.
Sua silhueta brilhava, a beleza de seu corpo esguio nas roupas que ele deu parecia surreal.
Se aproximou guloso, vislumbrando os cabelos dela esvoaçarem adoravelmente. Ela pareceu percebê-lo, pois virava já com um sorriso no rosto, e o brilho coral de seus lábios o deixou ainda mais baqueado. Seus pés pisavam firme por ela, suas mãos formigavam, seus olhos devoravam-na. Enquanto ele parecia uma chama ambulante, ela permanecia tranquila e feliz em vê-lo, sem notar o quanto o rapaz estava agoniado.
Quando chegou perto finalmente, puxou sua nuca e a trouxe agressivamente para os seus braços, colando os lábios dos dois com violência. Ela gritou surpresa entre o beijo, depois riu divertida e o abraçou, recebendo a língua desesperada do homem de quem tanto sentiu falta. As mãos dele estavam bobas, inexperientes, mal sabiam onde parar. Gaara estava ofegante, levemente aéreo enquanto se acalmava na pele dela. Segurou a cabeça de Ino e apertou seus lábios, fazendo um bico gracioso e saudoso, totalmente fora do contexto em que iniciaram o beijo.
Ele não se importava se alguém os tinha visto. E alguém os tinha visto. Ele não se importava se fosse o cocheiro, os guardas, a cozinheira, o diabo! Só queria ter certeza de que ela estava novamente debaixo dos seus olhos.
Tenten e Neji se afastaram durante a volta. Naruto os abraçou e sumiu durante a noite mesmo, e eles resolveram pousar antes de voltar pra casa. Ele estava pensativo, mal prestava atenção nela. Quando chegaram, já era dia.
Agora pareciam dois estranhos.
— O que há com você? — Ela acabou rugindo. Estava morrendo de ciúmes, e se precisasse assumir, ela simplesmente assumiria.
Ele a olhou num aviso severo, desviando o rosto em seguida. Odiava a Tenten rude e agressiva. Por que ela tinha que ser tão exigente? Fez menção de sair, dando aquela "discussão" por encerrada.
— Neji! — Ela o segurou com as duas mãos no braço, puxando-o de volta para perto dela. O olhar suavizou, e ele foi capaz de perceber do que se tratava aquela irritação. Na verdade, já fazia ideia. Ficou pensando em Hinata porque simplesmente se sentiu enganado por ela, mas não tinha porque desaprovar sua relação com Naruto. Eles claramente tinham uma relação, e pelo que o rei Hyuuga viu, claramente fazia algum tempo.
Se aproximou da Arata sem cerimônias, atacando seu pescoço moreno e febril repentinamente. Aquele era o refúgio de seus pensamentos atribulados, o casulo de descanso. Amou o pescoço da moça, e agora não conseguia sair dali.
Ela não disse mais nada. O abraçou, sentindo a boca dele abocanhando-a gentilmente. Só quando ela deitou a cabeça no ombro dele para que beijasse-a ainda mais, que ele decidiu que podia ceder uma vez.
— Perdão.
Naruto não conseguiu transar com Hinata. A atitude partiu dele, mas não conseguia se excitar, e acabou por largá-la sozinha no quarto. No caminho até a cozinha, ouviu sua mãe chorando, e as lembranças de seu pai voltaram novamente.
Ele o amava como se fosse Deus. Amava mais do que Deus, mais do que a si.
Encontrou Sasuke e Sakura cabisbaixos, pendurados na janela da cozinha enquanto tomavam leite. A presença sombria do loiro pareceu alertá-los de que deviam sair, mas Naruto chamou Sasuke baixo, pedindo que ficasse com ele.
— Eu tô quebrado. — Confessou quando sentaram na mesa de madeira fora da casa. Agora a lua os iluminava, e o único amigo a quem conseguia ser honesto se empertigou. — Quis te matar.
Sasuke franziu o cenho, sem entender o que aquilo significava. Naruto riu sem humor, comendo as nozes que trouxeram todas de uma vez.
— Existe aquela lenda de criança. Aquela, que diz que quando você faz alguma coisa contra seus pais, alguém próximo de você sofre as consequências. — Sasuke não foi capaz de se manifestar, só olhava o loiro nos olhos. — Mas é coisa de criança, mesmo. Eu fui estúpido, queria encontrar alguém que pudesse culpar. Sabe o que eu tô sentindo? Nojo. Impotência. Saudade.
O relato do Uzumaki chicoteava o semblante de Sasuke, que cada vez mais parecia abatido.
— Seu pai fez algo horrível com um civil meu, e sabe o que eu fiz? Nada. — Os olhos marejados do loiro nunca encontravam algo para se fixar, e o Uchiha, cansado das atrocidades do pai, nem pensou em perguntar o que aquele monstro tinha feito dessa vez. — Escondi. Por medo. Como príncipe, esse é meu maior arrependimento. Meu pai não vai se sentir orgulhoso disso. Você tem arrependimentos, Sas?
O moreno lambeu os lábios, depois piscou algumas vezes. Suas orbes ônix brilhavam, refletiam a lua.
— Aham. Eu tenho, Naru.
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