7 Pecados Capitais
2 Caleidoscópio.
Notas iniciais
Se é que alguém lê.
Ino acordou quando ainda era dia. Estava perdida nas horas, mas sentia-se bem. Ergueu os braços a tempo de sentir também, atrás de si, um incomodo familiar. Sem virar-se, desejou:
- Bom dia, Gaara da Areia.
Estava de vestido leve. Tempos depois, numa modernidade próxima, aqueles panos curtos e confortáveis chamar-se-iam camisolas. Mas por enquanto eram apenas vestidos vulgares, que poderiam ser usados apenas enquanto a usuária estiver sozinha. Ino permanecia boa parte do tempo sozinha. Não era sua culpa se as pessoas invadiam seu espaço.
- Bom dia, Bruxa.
- Profetiza. — Pontuou; Ajeitou os cabelos. Aos olhos dele, graciosamente. — Saia das sombras e venha para a minha frente.
Gaara veio imediatamente. O pano de pele de animal que utilizava apenas o deixava fedido e com calor, mas ele não se importava mais. Com nada. Há tempos.
- Eu tenho algumas coisas para você. — Bateu as mãos no colchão de penas de gansos que ficava no meio do quarto, sem uma cama ou estrados, num gesto amistoso. Queria que ele se sentasse. Ele fez. — Você está muito tenso. Tire a parte de cima da vestimenta.
- Olha...
- Ino. — Ela o olhou. Ele notou que abaixo dos olhos dela, um fino traço preto com acabamento dourado a deixava com um aspecto de cigana. Não estava borrado. — Eu sei o quanto me repudia. Mas você precisa de ajuda, não é? Seus segredos não estão vindo a tona, mas estão te matando.
Ela o olhou diretamente nos olhos. Ele a olhou diretamente nos olhos. Silencioso, o ruivo começou a retirar a roupa sob o olhar dela. Devagar. Aos poucos, o peitoral definido e ferido foi revelado. Ela, como uma virgem profetiza trancada para as malícias do mundo — Embora as visse em suas previsões, foi brutalmente surpreendida. E ele percebeu que a desconcertou, mas de todas as formas o pedido fora dela.
- — -
Neji gostava de cavalgar todas as manhãs, mas aquela estava diferente das outras. Ensolarada, convidativa... Algo mais que ele não saberia definir. Vestido da forma correta, alertou seus serviçais do que faria, embora ciente de que eles já sabiam de seus costumes e suas programações. Avisou também Hinata, para que esta deixasse avisado Naruto no caso dele acordar. O que provavelmente não aconteceria tão cedo.
Andou durante alguns minutos até a báia¹, abrindo a portinhola frágil de Ron, seu cavalo branco. Não pensou em equipamentos de proteção para o cavalo ou ele. Estava ansioso para um passeio por sua propriedade, e quem sabe fora dela.
Montou o cavalo no primeiro pulo, batendo no pescoço do animal com carinho.
- Bom garoto. — Falou baixo, sabendo que, por incrível que pareça, o cavalo gostava dos elogios que o dono dava. — Agora nós vamos correr um pouco mais, Ron. — Falou tempo depois que andavam tranquilamente.
Outro tapa no pescoço, e Neji estava flutuando. Correr era o que fazia de melhor, como alguém que nasceu para viver essa experiência. Muito dele estava no balanço violento do vento em conjunto com seu corpo e seu cabelo. Liberdade... Uma maior do que a que ele já possuía.
De relance, em algum momento da corrida, viu uma mulher na mais alta janela da torre sul do castelo — Que era a janela do quarto de tortura. Sem querer, estranhando a visão, puxou a crina de Ron, que parou imediatamente, derrubando o corpo de Neji para frente com violência pela falta de rédeas.
- — -
Fugaku sumia por alguns dias. Tanto Sasuke quanto Sakura sabiam o que ele fazia fora, mas ninguém nunca mencionava as puladas de cerca e as fugas.
Aquela foi a semana do mês escolhida para sair. Sakura por sua vez, não saía do quarto.
Sasuke cavalgou, treinou espadas e golpes corporais. Entrava no banheiro sofisticado de seu castelo para tomar banho, mas tinha a leve impressão que o sistema de água ia falhar. Aconteceu. E ele felizmente arrumou, pois foi ele quem criou os chuveiros para facilitar o dia a dia no reino.
Terminou o banho e, com uma toalha feita por Sakura, enrolada na sua cintura, saiu pingando água pela casa. Descalço, passou na frente do quarto do pai e ouviu o choro da mulher dele, mas era corriqueiro. E era normal que ele não se metesse na vida dos dois também. Deixou-a sofrer sozinha e entrou em seu aposento, trocando-se rapidamente e acendendo duas velas. Gostaria de ler um pouco.
Não podia se considerar o melhor, mas sabia ler muito bem. No reino de seu pai, pouquíssimos sabiam ler. O povo sequer tinha acesso aos livros, e aquilo era algo que incomodava Sasuke. Mas ele não era seu pai, e seu pai era o rei.
A leitura estava boa. Penas era um ótimo livro, mas o silêncio o estava incomodando. Na verdade, o choro baixo da mulher de seu pai era frequente, e ele estava acostumado. A falta disso o estava incomodando. Largou o livro na cama e, mais uma vez descalço, foi direto para a porta do pai. Silêncio. Abriu-a devagar. Silêncio.
Nenhuma vela acesa. O cômodo na verdade não cheirava muito bem, e o preocupou. Não sabia onde estava pisando, até sentir algo de consistência mole e não grudenta. Água? Um pouco mais cremoso. Procurou a janela imediatamente. Quando abriu as cortinas e depois a madeira, arrependeu-se de ter saído de seu quarto.
- Feche tudo.
Sakura não tinha voz o suficiente para fazer da frase algo maior que um sussurro. Sasuke sentiu por um instante, mas a agonia se sobrepôs ao sentimento de antes que ele preferiu não procurar definição.
- O que houve com você?
- Uma maldição.
Ele soube do que ela falava de imediato. As noites em que ouvia o pai metendo nela, o barulho das peles se chocando, o gemido furioso de satisfação que Fugaku dava junto aos gritos doloridos dela, os tapas que a faziam gritar realmente, os xingos que ele proferia... Sasuke sabia de tudo. Sabia também que ela não conseguia gerar um filho dele, e isso o deixava muito bravo. O que rendia muita briga para os ouvidos do príncipe no quarto ao lado.
Olhando melhor, a cena era mesmo deplorável. Sangue pelas pernas dela, sangue pelo colchão e um caminho até a suíte. Ela por cima da cama, encolhida. Ele desnorteado.
- Por que você deixa?
- Não tenho saída.
- Não seja submissa.
- Como você não é?
E não foi a coisa certa a se fazer, porque Sasuke quis ajudá-la. Ele quis realmente interceder, limpá-la, fazê-la melhorar um pouco... Mas a vontade se foi quando ela o enfrentou.
- Conviva com a sua maldição. E não me incomode mais com seus lamúrios.
- — -
Gaara estava com os olhos fechados e deitado no colchão dela de bruços. Ele não podia negar... O cheiro daquela bruxa era bom demais. A pele dela na sua era bom demais. Aquela massagem... Por Deus, o pênis dele doía excitado e preso na roupa! Bufou. Ela, percebendo o incomodo dele apenas pelo gesto irritado, parou de apertar as costas nuas e grandes.
- Algum problema?
Virando o rosto de lado, acima do travesseiro com o cheiro dos cabelos dela, de olhos fechados, ele respondeu:
- Pra quê toda esta coisa?
- Para que você relaxe.
- Eu tenho sexo. Já me relaxa.
- Não é o suficiente. — As mãos dela foram certeiras na nuca dele, o que o deixou alarmado. De repente, as pernas dela circundaram as costas enormes do ruivo, enquanto a massagem se tornava forte e pesada. E ele não era mais capaz de pensar.
Seus olhos chegaram a revirar, tamanha a precisão com que o corpo dele reagia a simples afagos. Quando as mãos dela desceram inocentes, ele soube que o mundo estava inteirinho nas mãos dela.
Por enquanto, apenas o mundo dele.
Enxergou embaçado, em duplicidades esquisitas. Por pouco tempo, até sentir beijos gostosos em seu pescoço. Inúmeras mãos invadindo suas roupas de baixo. Gemidos na voz dela.
E distinguiu tristemente, por algum instante de lucidez, que era apenas sua imaginação manipulada por uma bruxa. Continuou ali.
Notas finais
Até.
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