7 Dias com ela
2 Segunda-Feira
Notas iniciais
Às vezes na vida a gente tem que se propôr a correr riscos. Por exemplo: você morre de medo de altura, não pode nem se imaginar estar a mais de 10 metros do chão sem ter algo metálico o protegendo.
Algo como um elevador ou avião.
Mas e se alguém lhe convidasse para voar de asa delta, qual seria a sua resposta? Provavelmente muitos diriam um sonoro e claro "não". Mas e se valesse a pena arriscar? Será que a sensação de estar no ar seria suficientemente gratificante? Bom, não posso responder à ESSA pergunta, mas posso afirmar veementemente que a sensação de VENCER o medo seria magnifica.
Algo como libertar-se de fortes amarras que te mantiveram durante muitos anos amarrado no chão.
Ou se livrar de pesados grilhões que te impediam de locomover-se como realmente gostaria.
E é essa sensação que eu estava vivendo agora.
Digo, não tão dramatica quanto o exemplo, mas mesmo assim surpreendetemente agradável apesar dos pesares.
Calma! Já lhe explico sobre a que eu estou me referindo, mas antes deixa eu comentar que sou terrivelmente tímido, e tenho um medo rídiculo de me apresentar em público.
Triste, eu sei.
Quando eu tinha cerca de doze anos de idade minha mãe levou-me até a psicologa da escola. Me recordo perfeitamente do primeiro e único dia em que fora lá. A pequena e aconchegante sala continha apenas um sofá e uma cadeira, uma mesa aparentemente recém adquirida e uma enorme estante cheia de livros, dos quais os temas seria pedir demais para que o meu cérebro lembrasse. Conversamos sobre o meu problema com platéias e sobre como isso seria prejudicial para a minha vida social e profissional futuramente.
Confesso que aquela conversa não me ajudou em nada, apenas serviu para confirmar algo que eu já tinha consciência.
Minto! Teve algo que ela dissera que acabou tornando-se um dos meus melhores talentos.
A escrita.
A Sr. Gonzáles- nome da tal psicologa- dissera: "Já que você não consegue comunicar-se com eficiência oralmente, que tal começar a escrever? Então você poderia começar a ler em voz alta para seus amigos e familiares até se sentir melhor com a comunicação falada".
Gostaria de deixar claro que eu não sou nenhum lezado, tenho muitos amigos e sou um bom profissional. Evoluí pacas desde os dozes anos.- A questão é que a escrita se tornou o meu refúgio, onde eu expresso os meus sentimentos sem precisar gaguejar ou algo humilhante do gênero.
Porém, o lance de apresentações em público ainda era um problema para mim, e é por este motivo que eu estava em um locar incrivelmente abafado, com apenas uma janela pequena e que se encontrava a cerca de cincos metros de mim...o ar que por ela entrava parecia tão quente quando o ar de um forno que acabara de assar um peru de Natal.
As velhas cadeiras não eram das mais confortáveis, tão pouco novas. O local estava enchendo rápido, e em pouco tempo quase todas as cadeiras já estavam comportando o peso de alguém.
Uma mulher rechonchuda e com bochechas vermelhas sentou-se ao meu lado, e assim que seu grande...ér...traseiro (?) acomodou-se na cadeira ela rangeu ferozmente, como um pequeno e frágil ratinho que acabara de ser esmagado por um trator.
Não demorara muito para os sinais de nervosismo começarem a aparecer. As mãos suadas, a pele fria, coração acelerado, tremedeira no corpo todo...
Enfim, uma merda.
Parecia que aquele minusculo palco- devia caber no máximo cinco pessoas ao mesmo tempo- era um monstro do qual o meu corpo estava impelindo-me a fugir, a correr para longe.
Deslizei a palma da mão pelo o meu rosto, numa tentativa nada higiência de secar as gotas de suor que insistiam em brotar a cada dois segundos.
_Porra, Pedro, vão achar que você é algum tipo de drogado e está tendo algum tipo de crise de abstinência_murmurou João com desdém, olhando ao nosso redor para certificar-se de que ninguém nos estava observando.
_Ah, vai se fuder, não tá vendo que eu tô NERVOSO?_Questionei-o.
Ele revirou seus esbugalhados olhos verdes.
_Relaxa a alma que logo, logo você perde esse medo tosco de platéias e tal..._falou indiferente. João sempre fora tímido como eu, mas no geral quando tinha alguma apresentação na escola ele era o primeiro a falar, pois segundo o próprio, o pior do que a apresentação em si, é o pavor que se dá antes dela.
Na verdade o culpado de eu estar ali era dele. Me convidou para esse lugar para que eu me "libertasse" do medo.
E eu aceitei. Minha mãe diz que é bom correr riscos -no meu caso o risco era de ser vaiado e ridicularizado- de vez em quando.
_Que gostosa._Murmurou João para a mulher que acabara de subir ao palco._Imagina só de biquíni, cara?
Voltei minha atenção para ela. Até que era bonita, magrinha, baixinha...com cabelos curtos e escuros como a noite. Ela moviasse tão levemente pelo o pequeno espaço quanto o seu peso sugeria, e recolheu do chão um punhado de papéis. Olhou pra gente e sorriu miúdo..., abanando-se com um dos papeís que acabara de pegar.
_Está puta de um calor aqui ou é impressão minha?_Indagou sorrindo.
Houve um burburinho de risadas atrás de mim.
_Bom, pessoal, pra quem ainda não me conhece eu me chamo Vicky, e sou a organizadora da Escreva-se Para o Mundo, a mais interessante casa de poesias do Rio de Janeiro!_O pessoal bateu palmas brevemente e animadamente, até mesmo eu (menos na parte do "animadamente") os acompanhei._ Então gente, quem vai fazer a introdução hoje?
Levantei a mão sem pensar, sentindo o nó na garganta. Iria seguir o conselho do João.
_Ótimo! Venha pra cá!
Me esgueirei por entre as pessoas até finalmente me encontrar no centro do palco- no centro das atenções. A tal de Vicky abraçou-me e sorriu de forma afável.
_Você se apresenta e depois pode começar com a leitura do que você escreveu, certo?
_S-sim.
Vicky desceu a escadinha de apenas dois degraus e acomodou-se em uma cadeira na primeira fileira.
Sabe o que eu havia mencionado sobre se sentir vitorioso de vencer o seu medo? Pois então, naquele momento eu não estava me sentindo muito glorioso não. Estava suado, trêmulo, e com vontade de sair correndo.
Respeirei lenta e profundamente, apavorado e tentei começar.
_M-me chamo Pedro e essa é a minha primeira vez aqui..._Peguei o papel dentro do bolso da minha calça jeans onde estava escrita minha poesia, e o segurei como se fosse a minha vida. Mas se fosse a minha vida, provavelmente já estaria morto, já que o papel caiu da minha mão.
Eu estava prestes a falar mais alguma merda e a catar a folha do chão quando
ELA apareceu.
Entrou discretamente no recinto olhando em volta, procurando alguma cadeira vazia para que pudesse se sentar.
E sentou-se ao lado de Vicky, sorrindo-lhe assim que a viu.
Cara, que sorriso era aquele?
Com a proximidade puder seus olhos azuis. Tão azuis que me lembravam o mar.
E naquele momento eu poderia me afogar neles sem problema algum.
Meu coração disparou, e dessa vez não fora por conta do nervoso, do medo.
Foi outra coisa.
Outra coisa...
Agora a garota me olhava também, e sorria tão bonito que cogitei a possibilidade de a estar imaginando. Foquei nela. E só nela, e pareceu que só estávamos nós dois ali. E quase sem me dar conta conta comecei a falar/recitar:
_"Aqui. Agora. Eu vejo. Eu sinto. Me movo, te sigo, me sinto, te sinto. Volta e me beija. Fica e me ama. Te juro segurar tua mão, se prometeres não me amar em vão. Sorri e me ilumina, meu sol particular.
Respire a vida, respie o ar..., mas falando nisso, como você me tira o ar!
...Te manterei viva, seguindo, sentindo, me amando. Te amo, não esqueça.
Te quero, não minto. Então...quer ficar comigo? Juro ser o que você quiser, a hora que quiser, até quando quiser. Quer?"
Quando acabei continuei parado ali, fitando-a de forma insistente. Ela corou brevemente, e o seu sorriso desmanchou-se de repente. Arqueou uma de suas delicadas sobrancelhas e balançou a cabeça minimamente, como quem diz: Ta, e aí, vai ficar me encarando muito?". Sorri sem graça e me pus no meu lugar. O pessoal batia palmas com vontade, e eu fiquei em duvida se era porque gostaram, ou se ficaram com pena de mim.
As apresentações se seguiram, o pessoal foi expondo seus poemas, poesias e textos. Alguns eram realmente bons, mas outros nem tanto. Cerca de uma hora e meio depois estavam todos se despedindo, pareciam que todas aquelas pessoas realmente se conheciam e eram amigas e eu, sem duvidas, me senti meio que um intruso.
_Cara, não foi esse o poema que você ia recitar hoje...você ainda não tinha me mostrado esse_comentou causualmente João, me olhando de lado.
_Inventei na hora.
_Sério?
_Aham.
_Uau. Você pode ter a mina que quiser.
_É..., eu acho._ Achei desnecessário comentar que as palavras que vieram na minha cabeça não foram aleatórias, que eu havia me inspirado na menina de olhos azuis. Ele provavelmente riria de mim, e me chamaria de louco.
Digamos que ele é complexado com o amor e tal.
_Eu vou indo nessa, cara, tenho prova amanha. Cê vem comigo?_Ele questionou minutos depois.
_Não, vou ficar mais um pouco...
João hesitou um pouco, aparentemente curioso, mas como ele era o JOÃO, não se importou por tempo suficiente e partiu em retirada.
O lugar já estava quase vazio, a não ser por mim, Vicky e a menina loura. Elas conversavam de forma animada, acho que se conheciam há tempos. Decidi não tornar a fitá-la e sai para fora. Escorei-me numa enorme parede de granito, sentindo a brisa refrescante da noite, deixando pra trás todo aquele calor infernal. As pessoas passavam por mim, algumas garotas me encaravam e sorriam, mexiam em seus cabelos, mas não me interessei por nenhuma. Não que fossem feias, muito pelo contrário, mas é que...aquela menina mexeu comigo.
_Até a próxima sessão, Karina!_Escutei a voz da Vicky se despedindo. Imediantamente fui mais para as sombras da parede. A garota loura e magrinha -e baixinha-, caminhava apressadamente até uma ladeira que levava até o ponto de ônibus. Aquele definitivamente não era o melhor lugar para seguir, era escuro e haviam muitos moradores de rua ao redor. Perigoso.
Fiquei receoso de intercepta-la, porque acreditara que aquele comportamento de encara-la não lhe fora muito agradável. Segui de longe...meio que espionando enquanto ela caminhava a passos largos. O único som era o "chack chack" de nossos pés. As enormes paredes nas extremidades daquela estreita rua eram coloridas, velhas, e o cheiro de mijo dali era quase insuportável. Vi poucos minutos depois uma silhueta, no fim da ladeira, e pelo fisico era de homem. Me senti automaticamente incomodado, e todos os músculos do meu corpo se enrijeceram. O cara desceu a rua, caminhando devagar, no escuro eu lhe dava cerca de trinta e três anos, e ficou parado conversando com a Karina.
O homem é do tipo bombadão, mas eu nem pensei nisso na hora.
_Saí daí, Karina!_Gritei, ordenei. Ela me olhou assustada. Vi um objeto reluzindo no bolso do sujeito e senti meu sangue gelar, mas não podia mais parar._ Deixa ela em paz!_Tentei novamente. O homem parecia incrédulo, e me ignorou. Então colocou a mão dentro do bolso e eu atravessei os poucos metros entre nós e lhe dei um soco na cara.
Porra, ele nem se mexeu.
Ergueu seu braço ENORME e deu um soco EM MIM. Sim, apenas um soco já fora o suficiente para que eu caísse feito uma banana podre no chão.Logo desmaiei.
–-----------------------------------------------------------------------------------------
Senti alguém me chocoalhando e uma dor latejante na cabeça.
_Eiii, você está bem?_Questionou-me uma voz rouca, feminina e desconhecida, mas muito atraente.
_Não_falei de bate-pronto.
Houve uma risadinha divertida.
_Quero ir pra casa._Falei.
_Já liguei pro seu amigo, ele já está quase chegando.
_Tá.
_Tá_ retrucou ela.
_Quem é você?_Quis saber, sem ter coragem e nem forças pra abrir os olhos. Ainda estava meio zonzo e grogue, não duvidava de que logo desmaiaria novamente.
_Karina, vi a sua apresentação hoje.
Meu coração saltou dentro do peito. Abri os olhos muito rápido, e minha visão ficou/estava turva.
_Gostou?_Perguntei com a voz fraquinha.
_Bastante, garota de sorte quem inspirou você.
_Então você é uma garota de sorte.
Ela riu.
_Não entendi.
_Fiz aquele poema pra você._Falei arrastando a voz.
E deu, desmaiei de novo, mas sem antes ver seus lábios formarem um sorriso de canto.
Fale com o autor