7 Dias

9 Sexto Dia - Novas recordações parte I


Notas iniciais
- Antes de tudo, Feliz Páscoa ~atrasada, talvez. - Desculpem dividir o cap, mas ficou muito grande. T-T

.: Milo :.

A noite havia passado lenta. Acordei dúzias de vezes e via meu amado dormir naquela posição incômoda por minha causa. Durante a madrugada, bem no início, sentei-me naquele sofá e o puxei para o colo, deixando que esticasse bem as pernas naquele estofado e seu corpo pudesse descansar sobre o meu.

É estranho como as coisas mudam. Senti-me aliviado naquela posição e quando o dia amanheceu, fiquei mais feliz ao vê-lo acordar. Acariciei seu braço e recebi um pequeno sorriso em resposta.

— Bon jour. – falou calmo. – Como vim parar no seu colo?

— Bom dia. – sorri. – Você estava muito desconfortável daquele jeito.

— Não tanto quanto você esteve à noite toda. – ajeitou-se em meu colo. – Mas agradeço.

— Não tem de que. Não foi ruim. – olhei para o fim do enorme corredor e vi uma até então, incômoda presença. – Hunm...

— O que houve?

— Acho que alguém não tem vergonha na cara... – ajeitei-me no sofá e apontei discretamente para a criatura no fim do corredor.

— O que ele faz aqui? – o aquariano perguntou em um tom mais que farto.

— Aposto que veio ver se ainda estamos juntos. Nossa sorte que Albafica veio com ele.

— Hunm... – ajeitou-se e levantou. – Que assim seja então. – suspirou. – Não é possível que ele tenha tamanha frieza.

— Acredite, tem. – levantei e arrumei a camisa. – Vamos ver se Kardia está melhor.

— Não podemos entrar ainda...

— Não podemos, o que não significa que não entraremos. – segurei sua mão e o puxei.

Não era bem a vontade dele, mas mesmo assim foi comigo até lá. Batemos na porta e com a devida permissão, entramos. Admito, nunca achei que pensaria isso, mas gostei de ver Kardia resmungando e retrucando.

Sorri ao ter a certeza de que está bem, também com a certeza de que ficaria ainda melhor se estivesse sob os cuidados daquele francês. Aproximei-me e o vi estreitar os olhos. Parecia um tanto desconfiado.

— Lamento, não haverá enterro por enquanto Milo. – não tive como não rir disso.

— Não esperava um enterro! – falei e segurei sua mão. – Como está?

— Bem. Já posso sair desse hospital. – falou teimosamente.

— Não mesmo, velhote. Tem de esperar a alta médica para poder sair. – mexi em sua franja e recebi um olhar de Dégel, um que eu não sabia identificar muito bem. – Seu coração está...

— Foi apenas um princípio de infarto, não tem que se preocupar, pirralho.

— Na verdade foi uma Angina. – o francês ajeitou os óculos e falou com calma. – Ele tem que tomar remédios controlados...

— Mas e ele toma?! – falei. – Já falei mais de um milhão de vezes, mas ele escuta?! É pior que criança.

— Nunca muda. – o toque daquele homem nos cabelos do meu tutor era semelhante aos do Camus nos meus. – Mas agora ele terá de tomar, ou eu farei com que preferisse ter morrido nesse ataque.

Ouvi um resmungar baixo e sabia que tudo ficaria bem a partir dali. Camus, um tanto tímido, aproximou-se e olhou bem para o meu mestre reclamão. Os dois ficaram em silêncio por um tempo, pareciam em avaliação.

Senti algo corroer-me o peito e também o estômago quando passaram de quase um minuto naquele ato. Segurei a mão do aquariano e encarei meu tutor, que ergueu uma sobrancelha na percepção de meus sentimentos.

Tentei não parecer um bobo por aquilo, mas era notável o meu desconforto. O médico, em seu ato típico de ronda matinal, abriu a porta e encarou a nós todos. Abriu um sorriso animador.

— Pelo visto alguém tem muitos amigos. – comentou. – Senhor Kardia, não há uma melhora muito significativa desde a última internação.

— Pode dizer quantos dias de vida eu tenho, doutor? – o azulado perguntou em um tom fatídico.

— Não sejamos pessimistas, ok?! – riu. – Não há como dizer, mas se tomar os remédios, posso assegurar que são muitos ainda por vir.

— Ele vai, doutor. – Dégel comentou sério. – Quando ele será liberado?

— Mais tardar amanhã. – o médico parecia calmo.

— O que? Tenho que passar o dia inteiro aqui?! – Kardia começou a se alterar.

— Se tiver mais um ataque por esse nervosismo, acabará morto antes de ter alta. – ri ao terminar de falar.

Realmente era acolhedor ver nós quatro nos dando bem. Quando as enfermeiras levaram o café da manhã no quarto, soube que novamente era a hora de deixar o nostálgico casal a sós... Ao menos era o que eu achava, mas por um pedido de Kardia, acabei ficando e vendo Dégel e Camus saírem.

Ajudei meu teimoso tutor a se ajeitar na cama e recebi alguns olhares repreensivos. O silêncio incomum entre nós era mais que um som ecoante. Pelos deuses! Queria estar lá fora e creio que ele também.

— Eu sei o quanto você “ama” hospitais Milo. – comentou em um tom calmo.

— Amo... – suspirei. – E sei o quanto você “ama” estar preso em um. – peguei uma de suas maçãs, comendo vagarosamente.

— Eu não vou te impedir de ir embora, sabe disso.

— Enquanto você não estiver bem, não sairei daqui e tire qualquer ideia deturpada da cabeça. – meu tom é sério e realmente não sairia dali.

— Você vai sair, nem que eu precise tirá-lo aos chutes. – comentou, bebericando o chá de hortelã.

— Hunm? Por quê?

— Simples. Dégel e eu precisamos de privacidade. Temos muito o que conversar e não quero interrupções. – parecia convicto com o que falava e fiquei um tanto confuso.

— Hei! Estão em um hospital!

— Não é essa privacidade, pirralho. – jogou um pãozinho em mim e só pude rir. – Mas voltando ao assunto, estava pensando em te emprestar a chave da minha casa e passar essa noite lá com o Camus.

— Com o Camus?! Não acha que Dégel vai se enfurecer? – cocei o nariz.

— Ele está de acordo... Isso também vai ser um teste pra você. – encarou-me de um jeito que não entendi.

— Explique-se.

— Vai saber qual é o teste quando chegar a hora. Milo, seu estilo de vida era um tanto perturbador. Quero saber se isso vai deixar o seu namorado à vontade. – suspirou. – Melhor... Você tem a opção de desistir do relacionamento quando vir como Camus realmente é, e souber exatamente o que ele sente.

— Entendo em parte. – levantei-me. – Mas não quero a chave da sua casa... Na verdade, não quero nada. Posso muito bem leva-lo para meu apartamento.

— Bom, se assim quer... Está arrumado ao menos?

— O que acha que sou, Kardia? Claro que está. – era uma preocupação lógica. – Ninguém nunca foi lá comigo ou sem mim. Kardia... Não sou o tipo que leva farra pra casa, ao menos não pra minha, pra isso tem a do Aioria. – isso o fez rir, mas era a verdade.

Então, Camus será o primeiro a conhecer a toca do escorpião.

.: Camus:.

Era uma manhã realmente fatídica. Acordei de um sonho perfeito, abri os olhos e tive a visão mais bonita desde que conheci o Milo e agora estou nesse refeitório de hospital com meu tutor, Afrodite e Albafica.

Pelos deuses! Como queria estar em uma biblioteca, ou em qualquer outro lugar. Meu querido “primo” estava com um sorriso desgraçadamente estonteante, ao menos ainda estava, mas pelo que conheço do tutor dele, com toda a certeza, o fará perder o gosto por ter levantado hoje.

— Então se ajeitaram? – comentou Albafica e isso quase me fez sorrir. Sentir o gosto doce da derrota daquele pisciano.

— Sim. – o meu tutor, também aquariano, respondeu em um tom calmo e educado. – Kardia e eu colocamos os pingos nos is e decidimos reatar nossa antiga vida. – comentou, ajeitando os óculos.

— Ah! Sim. – o pisciano mais velho sorriu e não pude conter o mínimo sorriso no canto dos lábios ao olhar o mais novo. – Isso significa que posso parar de servir de “garoto de recados” de ambos.

— Exatamente. – continuei bebendo o café bem quente que havia pedido. Estava amargo, mas em minha boca o mel da vitória era eminente.

— Então Camus não vai mais para a Sibéria? – Afrodite dirigiu-se a mim.

— É claro que vou, mas não sozinho. – meu tom era calmo e com um pouco de provocação. – Que graça teria ir para um lugar como aquele sozinho? É frio e romântico, perfeito para passar um tempo com meu namorado.

— Hunm... Entendo. Mas creio que Milo prefira algo mais quente... América do Sul...

— É uma opção. – ri acidamente. – Perguntarei a ele e provavelmente responderá ao chegarmos da Sibéria.

— Sim. Ótima ideia. – falou em um tom engasgado. – Creio que eu irei para Itália com Mephisto assim que ele resolver os negócios a que veio.

— Ótimo. Assim você pode ver a beleza daquela terra. Itália é rica em conhecimentos, talvez aprenda algo por lá, isso se tiver capacidade para tanto. – meu tom saiu mais calmo que o anterior, porém com o mesmo nível de acidez.

Tentei mesmo não parecer mais ácido que deveria, mas estava difícil. Afrodite não colabora nunca com meu bom humor. Albafica não se intrometeu em nossas trocas de farpas, Dégel menos ainda.

Estava convicto de que seria assim pelo restante do café da manhã, até Milo aparecer e avisar que Kardia já estava “liberado para visitas”, assim dito pelo próprio escorpiano. Seu jeito ainda me deixa bobo e estar perto dele desperta-me sensações estranhas, indescritíveis, isso há dois dias.

Levantei-me para abraça-lo, mas logo fui puxado para outro lugar sem ter muitas explicações a serem dadas. Andávamos um tanto apressados para o estacionamento e pela expressão do mais novo, creio que havia alguma coisa por trás disso.

— Por que não para um pouco para me dizer o que diabos há com você Milo? – retruquei ao vê-lo pegar os capacetes.

— Só não quero mais te ver junto do Afrodite, só isso. – pegou o capacete no bagageiro da moto e entregou-me.

— Eu te conheço pouco, mas o suficiente para saber que não é só isso. – entreguei-lhe meu copo de café. Sorriu falsamente e bebeu tudo de uma só vez, não se importando com a temperatura da bebida. – Está quente!

— Não muito. – comentou com a boca saindo fumaça. Neguei com a cabeça e toquei seus lábios. – O que foi? Pensei que há alguns segundos estava bravo.

— Ainda estou, mas não significa que não irei me preocupar com você. – vi seus ombros relaxarem e seu olhar amolecer diante do que eu disse. Encostou-se a moto e encarou-me de maneira gentil. – Pronto... Agora pode falar o que te aflige?

— Não há nada me afligindo, ao menos não diretamente quanto a você. – comentou em um tom não me agradou.

— Explique-se. – aproximei-me um pouco mais, encaixando meu corpo entre suas pernas.

— Palavras de Kardia... Um teste que me passou até amanhã. Algo que não entendi muito bem o que era, mas de fato é algo que me atormenta.

— Resolveremos esse teste e cuidaremos de tudo como sempre. – toquei-lhe o rosto. – Não é só isso, certo?

— Estou preocupado com as atitudes de Afrodite. Ele estava um tanto transtornado... Ao menos foi o que vi.

— Os planos dele não deram certo, mas agora deixa isso para o passado, ok? Dégel me disse que você e eu teremos o dia inteiro juntos... E parte da noite também. – meu tom podia parecer calmo, mas a ideia de ficar a sós com Milo me animava.

— É. – sorriu por fim. – Temos o dia juntos para fazermos o que quisermos.

...

E de fato tivemos. Milo me levou a muitos lugares da cidade, que nunca sonhei em ir, mas principalmente, levou-me para um dia inteiro apenas com o que chamava de mundo, com aquilo que queria que eu visse.

Estive cansado da minha vida por muito tempo. Cercado de luxo entre quatro paredes repletas de desenhos foleados a ouro, livros, livros e mais livros. Aulas de idiomas, etiqueta e equitação. Aulas de tudo que era tipo e coisas mais diversas que nunca me importei em aprender...

Mas esse passeio me mostrou que aquilo não era vida. Desde que conheci o Milo, tenho aprendido mais coisas que realmente imaginei, coisas como a amizade. Sim, no meio de nosso passeio encontramos Mu e Shaka em um momento de diversão e relaxamento.

O tibetano e eu nos tornamos colegas na casa de Saga e Kanon, descobrimos que há mais coisas em comum entre nós do que poderíamos imaginar e aqueles olhos dele... Aqueles olhos sinceros e de quem realmente se interessa por aquilo que dizemos, é algo realmente encantador.

— Pensei que nunca mais o veria. – comentou enquanto escolhíamos uma mesa de um restaurante ao ar livre. Sentamos sob a sombra de uma árvore estranhamente frondosa para a época do ano.

— Fico feliz que não tenha sido assim. – comentei. – Gostei de tê-lo conhecido, Mu.

— Você é agradável. – continuou com seu sorriso tímido. – Está mesmo em um romance sério com o Mi, não é?

— Sim. – “Mi” – Por quê?

— Porque eu odiaria vê-lo triste de novo. – não precisou dizer muito para que eu entendesse a razão de suas palavras. – Acho que sou meio protetor com meus amigos, mas principalmente com Aioria e Milo, coisa de infância.

— Entendo por alto. – suspirei. – Naqueles dias que passamos juntos conversamos bastante, mas você nunca fala muita coisa sobre seu relacionamento com Shaka.

— É que... Nosso relacionamento é diferente. – simplesmente disse, mas decidiu complementar. – Ele mora na Índia boa parte do ano e eu raramente tenho contato com ele. Sabe... Ele é budista, geralmente vive recluso, daí, nas poucas vezes que podemos nos encontrar raramente nos separamos.

— Um namoro à distância. Como aguentam tanto tempo longe?

— É verdade. Sinto muita falta dele o ano todo, mas quando estamos perto fazemos muitas coisas juntos. Passeamos, tiramos algumas fotos... – corou com o que pensou e nem precisei ser um gênio para entender o que viria.

— Entendi, não precisa dizer detalhes.

— Obrigado. – olhou pra mim e tirou uma folha de meu cabelo. – Bom... E como será entre você e o Mi? Eu sei que você é francês e já disse que voltará em breve pra lá...

— Não sei como vai ser, mas sei que vou sentir muita falta dele. Provavelmente tentaremos conversar por webcam, por celular, não sei, mas tentaremos.

Vimos o loiro e o azulado voltarem com nossos lanches e o assunto de distância morreu ali. Ambos pareciam conversar sobre algo aleatório que não entendi muito bem, mas tentei me integrar.

Troquei contatos com o tibetano, que realmente é uma amizade mais que perfeita. Não passamos o restante do dia juntos por motivos óbvios, todos queriam um pouco mais de privacidade.

...

Antes das quatro da tarde eu já estava exausto de tanto andar pela cidade e Milo também. Seguíamos de moto por um caminho tortuoso, porém bem movimentado até perto das docas, onde há também alguns prédios residenciais.

Quando o escorpiano estacionou na garagem do prédio, soube que enfim conheceria sua “toca”. Seu sorriso era gentil e sua mão junto a minha iniciava um carinho inocente em meus dedos, carinho esse que me fez arrepiar por inteiro.

Observei bem a estrutura antiga daquele lugar. As paredes exteriores eram brancas e havia sacadas e janelas enormes. Sorri ao imaginar o cenário completo de “Romeu e Julieta” e como eu havia sonhado um dia viver isso.

Subimos quatro lances de escadas até chegar ao último andar. Não é tão alto, mas nem precisa. Estamos em um lugar perfeitamente lindo e a visão provavelmente é perfeita. Paramos em frente a uma porta de madeira escura com o número 4-01.

— Antes de entrar, quero que saiba que moro sozinho com um gato e que apenas uma pessoa esteve aqui comigo, que foi o Mu.

Mu...

— Tudo bem. – assenti.

— Então, seja bem-vindo ao meu refúgio. – abriu a porta e fiquei realmente surpreso.

À primeira vista fiquei realmente chocado. Depois assimilei tudo. Pelo jeito de “garoto rebelde”, romântico incorrigível e Don Juan, achei mesmo que seu recanto fosse o misto de bagunça com algo mais natural. Ledo engano, começando pela sala.

O ambiente é acolhedor, simples e que me fez tão tranquilo que cheguei a pensar que estava em um sonho. O chão de madeira envernizada seguia em um mesmo nível até a metade do cômodo, onde há um baixo relevo de considerável altura. Há também uma proteção ao redor, que também era do mesmo material do corrimão da escadinha.

Caminhei por alguns metros e desci para ver o estofado que me chamara atenção. O sofá, nada mais era que muitas almofadas enormes juntas, de quina para uma TV de quase quarenta polegadas e de frente para uma lareira pequena com ornamentos naquela prateleira.

Há um tapete felpudo e preto, fazendo-me simplesmente desejar estar descalço. Nas paredes, vários quadros e fotos. Fotos de tudo, todos, da festa em que nos conhecemos...

Olhei ainda para a meia parede que separa a cozinha do restante da casa. Pratos impecavelmente lavados, panelas penduradas em seus devidos lugares, tudo como novo, algo que realmente não esperava de Milo.

— Você mora mesmo aqui? – perguntei ainda bobo com tudo aquilo.

— Sim. Sei que não é muito diante do que está acostumado, mas...

— Não! É lindo, Milo. – toquei a parede que realmente tinha o relevo e textura de pedras como as casas dos chalés. – Quem decorou realmente teve muito bom gosto. Essa parte da sala parece um chalé. – comentei ainda incrédulo.

— Obrigado. Eu desenhei e planejei cada canto desse apartamento. – sorriu. – Fique à vontade.

Ao dizer isso, tirei os tênis e pisei naquele tapete delicioso. Ouvi a risada e perguntei-me se era algo incomum. Deitei-me em uma das almofadas, deixando apenas os pés naquele monte peludo e fofo.

Parei novamente para reparar naquele lugar tão aconchegante e vi apenas duas janelas cobertas por leves cortinas e olhei para outro canto, bem ao lado da meia parede, observando a cortina vermelha pesada.

— Milo, onde é o... – olhei para os lados, procurando o escorpiano. – Milo?

— Estou aqui. – vi sua mão aparecer entre as cortinas. – Vem cá! – chamou e preguiçosamente fui até perto de onde estava. – Vem, não tem nada demais aqui. – segurou-me a mão e puxou-me.

— Mas o que... Ok... Milo você definitivamente é um ótimo decorador.

— Que nada. Só aproveitei bem o espaço.

Aproveitou mesmo. A cama de casal é enorme e possui colchões tão grandes quanto. O quarto, todo em carpete branco, é a coisa mais bonita que já vi. Os móveis em madeira escura, assim como o restante, dava um tom rústico.

Há alguns vasinhos de orquídeas no chão perto de uma porta e sorri ao ver os quadros também com fotos, mas o sorriso logo se perdeu quando vi que a maioria era com Mu. Aioria e Kanon aparecem em muitas, mas a maioria é com o tibetano, inclusive, uma com os dois sentados no carpete e segurando duas garrafas de Sminorff.

— Hunm... – resmunguei e provavelmente foi alto.

— O que foi meu querido? – senti suas mãos em meus ombros e seu abraço logo se formou.

— Você e Mu são muito amigos, certo? – olhei bem para a foto.

— Sim. Ele é meu melhor amigo de infância. Ele, o Aioria... E mais ou menos o Kanon. – riu. – Mu sempre foi o que me fazia estar mais calmo, entende?! Foi com ele que também dei meu primeiro beijo.

— Seu primeiro beijo, é?! – senti um aperto no peito e fiquei em silêncio.

— É... – apoiou a cabeça em meu pescoço. – Camy, está com ciúme do Mu?

— Hunm? Não. – tentei manter o tom de voz, mas aquilo me corroía. – Vocês transaram também, não é?

— Isso foi há muito tempo, amor. – apertou-me contra si e soltei-me dele. – Camus...

— Quando é muito tempo pra você? – virei-me de frente e nos encaramos. – Dois meses? Você e ele têm um caso, é isso?

— Camus, não é nada disso, olha pra mim. – segurou-me o rosto. – Você está com ciúme.

— Não.

— Está sim. – puxou-me para si e tentei me libertar, mas esse homem é forte. – Entenda, Mu e eu somos amigos de infância, nós tínhamos dezesseis anos quando tudo aconteceu e foi apenas uma coisa para treinarmos para nossos futuros casos, entende? Ele estava muito triste por Shaka não lhe corresponder e me pediu esse favor.

— Você o fez mesmo assim...

— Camus estou com você agora, é o que importa. Estou apaixonado por você. Não há nada mais forte que isso. – acariciou-me os cabelos e tentei encara-lo, mas senti a necessidade de ouvir seu coração ao menos por esse momento, então retribuí o abraço. – Você sabe em como isso se transformou de uns dias pra cá, não é?

— Sei. – apertei-lhe forte. – Milo... Se eu voltar pra França, você vai sentir minha falta?

— Não quero pensar em uma coisa dessas agora. – soltou-me um pouco. – Eu sei que você vai voltar pra lá com Dégel, mas não tem que pensar nisso agora, entende? Estamos juntos... Vamos aproveitar.

— Sim. – suspirei. – Desculpa. Eu não sei o que me deu.

— Eu sei o que houve... Você ficou com ciúme do Mu. – comentou e tive de concordar. – Entendo, ele e eu temos história, mas como amigos. Eu quero outro tipo de história com você.

— Nós teremos. – sorri.