7 Dias
11 Sexto Dia Filler - Ainda te amo Kardia e Dégel
Notas iniciais
.:Dégel:.
Ter passado parte da minha manhã com Kardia não foi tão ruim quanto pensei. A verdade é que ele não me dirigia a palavra de início e o silêncio se estabeleceu entre nós. Peguei o livro em minha bolsa e simplesmente comecei a folheá-lo, coisa que desde o início dos tempos irrita esse escorpiano a ponto de fazê-lo gritar de raiva.
— Dégel, por favor... Pare com isso, não posso me irritar.
— Pensasse isso antes de deixar o Camus sair com Milo para Deus-sabe-onde. – respondi em um tom sério e passei a página.
— Quer dizer que pra minha mansão eles podem ir, mas pra casa do Milo não?
— Quero dizer que na casa do Milo não tem empregados, não têm quartos suficiente para manter ambos separados e o principal, Milo estará lá, emanando seus feromônios pro Camus. – fechei o livro e coloquei sobre a pequena mesa de cabeceira, perto de alguns remédios.
— Então o problema todo é esse? – riu. – Dégel, conversamos sobre isso, não é? Deixa acontecer o que tem que acontecer. Com a gente demorou tanto que até hoje tive de me contentar com quatro vezes em trinta anos.
— Ok, isso faz com que tenhamos cinquenta anos. – encarei. – Pelo que eu lembre, tenho quarenta e cinco, e você incrivelmente um ano a menos. – toquei minhas têmporas.
— Foi força de expressão. Não sou muito bom em contas rápidas. – suspirou. – A questão é que eu não vou privar o Milo de viver tudo aquilo que ele quer, ainda mais agora. Agora que ele está na idade de experimentar tudo.
— Aí é que está. Não quero que o Camus seja só uma experiência pra ele. Entenda Kardia, criei Camus como se fosse meu filho, não vou deixar que...
— Milo é meu filho também, Dégel. Pode não acreditar, mas eu o considero meu filho. Faria qualquer coisa por ele e acredite, sua superproteção não é maior que a minha. Se eu tiver de brigar com você pra que Milo seja feliz, eu vou brigar. – começou a tossir e respirou fundo.
— Não se esforce. – falei simplesmente.
É verdade. Por mais que eu seja cuidadoso, protetor e possessivo, Kardia consegue ser o dobro, sem contar que é pavio curto, conseguindo brigar até mesmo fazer um monge sair de sua pose de santidade para uma luta sangrenta.
Ouvi alguém bater na porta e em seguida vi Albafica adentrar o quarto. Sua expressão natural me deixa com uma sensação de que tudo vai dar errado. É isso o que a presença dele causa, mas mesmo assim, levantei-me para cumprimenta-lo.
— Ainda não se mataram, isso é bom. – sorriu. – Como está, Kardia? – aproximou-se da cama e simplesmente me subiu a súbita vontade de ataca-lo pelas costas.
— Irritado por estar deitado sem poder fazer absolutamente nada. – respondeu e simplesmente cruzei os braços, olhando para eles. – Ao menos tenho o Dégel para lembrar o quanto estou útil. – sorriu sarcástico.
— Seu sarcasmo realmente indica o quanto está melhor. – suspirou. – Bom, apenas passei para convidá-los para um almoço amanhã em comemoração as boas vendas das rosas e da minha grife. – segurou a mão de Kardia. – Sei que terá alta por volta das dez e vai ser uma honra ter o meu casal de amigos favoritos em minha casa.
— Pode esperar por minha presença, Albafica. – o escorpiano respondeu naquela típica animação. Sorri em resposta e tentei mesmo não retrucar com o pisciano.
Ajeitei os meus óculos e voltei a pegar o livro. Deixei que conversassem mais e isso não durou quinze minutos quando o holandês saíra do quarto. Novamente aquele silêncio.
Tenho um apreço muito grande por Albafica, mas ele e eu temos algumas divergências quando o assunto é romance. Nunca disputamos o amor de Kardia, pelo contrário, o pisciano sempre soube dos meus sentimentos e sempre me apoiou, até o momento em que quase entrei em depressão, mas...
Ele também é amigo do escorpiano. Os dois também se aproximaram muito, criaram Afrodite e Milo juntos e enquanto isso eu ficava isolado das notícias na França.
— Querido, tem uma veia saltando no seu pescoço. – ouvi a voz do azulado e toquei o pescoço, vendo que era verdade. – Querido...?
— Você realmente quer ir a esse almoço? Eu não quero ir.
— Não vá. Eu não estou obrigando, apenas disse que vou, não confirmei sua parte. – fiquei em silêncio enquanto ele falava. – Se está com ciúme do Alba...
— Não é ciúme, Kardia. Eu só... – suspirei. – Eu só acho que vocês dois têm mais intimidade que nós dois.
— Talvez porque foram quase vinte anos separados. – olhou bem pra mim. – Eu sei que podemos recuperar esse tempo, querido.
— Sei que podemos e vamos. Não pretendo descuidar de sua saúde. Milo já fez muito pra alguém tão novo.
— Ah! Eu sei. – esticou a mão e eu a segurei. – Então, querido... Estou mesmo perdoado pelo tempo perdido?
— Está quase perdoado. Só estará quando Camus voltar inteiro do encontro com Milo. – suspirei. – Sem coração partido e de preferência ainda com a mente no lugar.
— Não se preocupe tanto, meu querido. – acariciou meus dedos, mas me mantive irredutível. – Se você quiser eu ligo pro Milo e ele vem com o Camus pra cá antes das sete.
— Não. Eu mando uma mensagem e assim que puder, Camus me liga.
— Faça como quiser. Só acho que pela hora que saíram e pelo que conheço do Milo, Camus vai demorar pra te ligar, mas se eu ligar pro meu filho, creio que resolvo o problema.
— O que quer dizer com isso, Kardia?
— Ai Dégel! – riu como um bobo. – O que acha que eles estão fazendo no apartamento? Não estão lendo ou jogando xadrez, isso eu garanto.
— Camus não é desses, Kardia. Eu sei que ele não vai fazer isso tão cedo.
— Como é inocente. – ria. – Querido, eles são jovens... E admito, Milo tem um fogo que raramente alguém apaga. – sentou-se e pegou o celular. – Eu ligo e em meia hora ele aparece, mas você, melhor que ninguém sabe o quanto é divertido ser interrompido na hora H.
— Eles não estão... – respirei fundo. – Deixa pra lá. Amanhã iremos direto pra casa do Albafica, mas quero que os pombinhos venham juntos.
— Relaxe, Dégel. – sorriu. – Se eles não quiserem ir, não vamos forçar, ainda mais com o Afrodite por lá...
— O que tem o Afrodite? Ele e Camus são criados como primos, não haverá problema. – ajeitei os óculos e ele soltou um riso sarcástico. – O que foi?
— Você não percebeu, não é? Como ainda é inocente depois de tanto tempo, Dégel. Milo e Afrodite são ex-namorados e o clima entre eles não é dos melhores.
— Por isso ele nos chamou... Agora tudo faz sentido. Ele sabia que nós dois não nos damos muito bem...
— E sabia também que você faria de tudo pra tirar o Camus daqui se soubesse que Milo é meu pupilo. Simples questão de lógica, mas ele não sabe do nosso passado, não inteiramente. Albafica foi ardiloso ao me avisar sobre Dite.
— Ele já comentou algo sobre isso. – fui até a cama do azulado e segurei sua mão. – Kardia, estou com um péssimo pressentimento.
— Tsc! A situação toda não é muito boa. Nenhum de nós está em um mar de rosas, exceto Albafica, ele parece um oráculo, vê tudo, sabe de tudo e deixa acontecer naturalmente.
— Ele só não quer estar envolvido com isso. Não devíamos fazer o mesmo?
— Se o fizermos nada vai acabar tão bem. Dégel, amanhã conversaremos com os garotos e tudo vai ficar bem. O melhor agora é pensarmos em nós dois, o que acha?
Não era uma ideia ruim, mas estou evitando isso desde o momento em que entramos na mesma limusine. Não quero passar por tudo de novo, é certo que eu ainda o amo, muito, mas não tenho mais tanta confiança nele quanto antes.
Talvez as coisas tenham mudado talvez ele tenha se tornado mesmo responsável e não vá fugir diante dos problemas que estão por vir... Mas talvez tudo se repita e ele vá embora quando vir que o quanto estou diferente de antes.
Senti um toque quente em minha barriga e olhei bem para o escorpiano que me arranha levemente, causando arrepios em toda aminha pele. Não sei o que houve, não sei explicar o que é.
— Kardia...
— Ainda fica todo arrepiado quando faço isso. É um ótimo sinal pra mim. – riu. – Dégel, você não devia ser tão ranzinza, vai te dar rugas.
— Não sou ranzinza. Você que continua com essas manias. – segurei sua mão, evitando que tocasse outras partes. – Estamos em um hospital.
— Se trancar a porta ninguém vai saber. – abriu aquele sorriso safado e em resposta, belisquei seu pulso. – Ai! O que eu fiz?
— Pare de perversões, você não está em condição de fazer tais safadezas...
— Mas você quer?
— Não. – levantei-me e olhei o relógio do celular, sentindo-me um pouco ansioso.
Dezenove e dois. A enfermeira entrou no quarto levando a comida do nosso querido paciente resmungão e o tirou do soro. Não havia mais a necessidade daquilo e os remédios não mais seriam intravenosos. Menos mal.
Esperei que o escorpiano comesse e que o remédio fizesse efeito para poder sair um pouco e tirar algumas ideias da cabeça. Tomei um copo de café e fui para o corredor de baixo, perto da recepção.
Nesse tempinho de descanso, já eram quase nove horas e meu celular tocou.
— Pensei que tinha morrido Camus. – meu tom foi calmo, mas estou preocupado. Não gosto de esperar por ligações.
— Desculpe a demora. Estava ocupado. Algum problema com Kardia? Ele piorou ou melhorou?
— Kardia? Ele está insuportavelmente bem. Estive preocupado com você. Milo o levou pra onde?
— Ah! Isso. Ele me levou pra conhecer o apartamento dele, nada demais. – o tom dele estava um tanto calmo, mas parecia esconder algo.
— Isso não é desculpa para não ter ligado quando te telefonei mais de oito vezes. – não queria usar esse tom com ele, mas é quase instintivo. Estou sério, mais que o normal e ele sabe o que significa. – Hunf. Amanhã venha para o almoço. Kardia terá alta e pelo que conheço dele... Bom... Venha para o almoço. Você e o Milo também.
— Ok... Só isso?
— É... Só isso. – dei uma pausa rápida, não sei como começar esse assunto pelo telefone. – Camus... Er... Depois precisamos conversar.
— Ah... Ok... – deu uma pausa e soube que entendeu o que eu quis dizer. – Até mais. – desligou.
Suspirei um tanto irritado com aquilo. Camus não é de me ignorar dessa forma, talvez o tal Milo seja mesmo importante pra ele e por mais que eu não goste muito desse rapaz, não posso fazer nada.
— Ele está bem, Dégel, calma. – falei para mim mesmo e voltei calmamente para o andar onde Kardia supostamente estaria repousando. Supostamente. Encontrei o escorpiano vestido e com aquela típica expressão impaciente no meio do corredor, conversando com o médico, que por sinal parecia bem assustado. – Kardia! – rosnei.
— Ah! Minha babá... – comentou e soltou o médico, entregando-me uns papéis. – Esses são os protocolos de soltura... Digo... Alta médica. Já posso ir embora... Certo doutor? – olhou para o médico, que suava frio.
— C-certo. – sorriu amarelo. – L-Licença. – seguiu pelo corredor na direção oposta a minha.
— Kardia... O que você fez? – cruzei os braços.
— Nada amor... Só não aguentei ficar esperando naquela cama. – deu-me um beijo na bochecha e entregou-me a minha própria bolsa. – Vamos embora?
— Kardia, você não muda, não é mesmo? Está com um pé na cova, mas mesmo assim continua com essa teimosia.
— Pé na cova? Olha como fala! – irritou-se, mas contou de dez a um. Chega a ser engraçado, mas mantive a pose séria. – Vamos embora, já estou vestido e você com essa cara de velório não me anima a ficar aqui.
— Não tenho cara de velório. Pare com isso. – peguei meu livro e encarei o mais novo. – Você... Ainda não está perdoado, Kardia. Essa sua atitude só me mostra o quanto ainda é...
Não. Não muda nunca. Sua voz é a mesma. Seus toques são os mesmos e o jeito de me calar também é o mesmo. Em muitos anos... Em quase vinte anos, a textura de seus lábios só se tornou mais desejosa e seu beijo ainda mais lascivo, envolvente... Viciante.
Em um beijo intenso, de contato profundo, pude matar a sensação de vazio que há muito sentia, mas ainda há algo que me incomoda. Estamos em público, na verdade, no corredor não muito movimentado, mas ainda assim me deixa com um incômodo imenso. Cessei o beijo e o encarei.
— Vamos pra minha casa. – falou ainda em um tom calmo e abrindo aquele sorriso vitorioso.
Não tive uma resposta imediata, apenas o segui. Segui para a recepção em silêncio, segui para o exterior do hospital, quando enlaçou minha cintura e deixou que apoiasse minha cabeça em seu ombro.
— Isso significa alguma coisa, Kardia? – perguntei baixo.
— Hunm? O que?
— Estarmos assim... Agora. – sussurrei, não querendo me afastar.
— Significa que casais brigam, se separam, ficam tempos sem se falar, mas também se resolvem. – beijou-me a testa. – Não vou te deixar de novo, Dégel. Eu ainda te amo muito.
— Ainda me ama... – mordi internamente o lábio inferior.
— E você? – não deixei que me soltasse, apenas virei de frente pra ele e o abracei sem dizer nada. – Diga, Dégel... Ainda quero te ouvir. – sussurrou.
— Eu... Eu... – queria poder me expressar daquela forma, mas o ruim de ser alguém como eu, é não conseguir transmitir o que sinto. Não sou tão frio quanto pareço, mas não consigo ser expressivo.
— Você?
— Droga Kardia! – apertei mais contra mim. – Eu te amo. — disse por fim. Essas três palavras ainda mexem comigo.
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