7 Dias

12 Sétimo Dia - Autossabotagem parte I


Notas iniciais
Olá amores ^^ Postando a primeira parte do último capítulo, espero que gostem.

.:Afrodite:.

Ainda é noite, véspera do dia em que meu destino será, definitivamente, selado. Albafica se recusa a falar comigo e tudo o que eu podia fazer é buscar um consolo nos braços de Mask. O italiano está, como sempre, ao celular, conversando com alguém que realmente não era de meu interesse.

Fui até ele, perto da sacada de meu quarto e toquei seus ombros, fazendo-o desligar o telefone e olhar diretamente pra mim. Parecia indiferente como na maioria das vezes que nos falamos.

— O que foi? Quer alguma coisa? – seu tom era o mesmo.

— Quero um namorado novo. – rosnei e ele apenas revirou os olhos. – Vai acabar me perdendo, sabia?

— Não é algo que eu me importe, querido. – sorriu e foi para dentro do quarto, deitando em minha cama.

— Eu esqueço que você é tão gentil quanto um leviatã. – coloquei as mãos na cintura.

— E eu com isso, hein? – olhou-me. – Afrodite, é sério mesmo que quer continuar comigo?

— Que pergunta idiota. Sempre a faz antes de voltar pra Itália. – ri. – Acha que não te aguento mais?

— Não... Eu não te aguento mais. – sentou-se. – Sério, você é um saco, Afrodite. Eu já teria mandado te matar, mas seria um desperdício de munição. – estava sério e parecia falar mesmo a verdade.

— Desperdício mesmo é meu tempo com você. – mexi nos cabelos. – Não tenho culpa se o Shura preferiu o Saga. – ri da expressão desgostosa que fez e voltei para dentro, fechando a porta. – Ah... Não fique assim, sou seu prêmio de consolação.

— Nem pra isso serve. Já disse que me canso facilmente de você, isso até na cama. – apaguei as luzes do quarto.

— Você também me cansa, não tem criatividade. – joguei-me no colchão macio. – Não estou te obrigando a ficar aqui, ok? Faça o que quiser.

— Pois bem. – levantou-se e começou a procurar as próprias roupas, se vestindo. Suspirei, mas pela primeira vez, não irei impedir que vá embora. – Depois mando alguém buscar minhas coisas, ok?

— Como queira. – ajeitei-me perto do travesseiro e esperei que fosse embora.

Eu já previa que isso aconteceria uma hora. Incrivelmente não me machucou estar sem ele, pois Mephisto é tão carinhoso quanto uma pedra, ao menos depois que começamos a namorar sério.

No início tudo era como um verdadeiro paraíso, viagens, encontros, jantares, café na cama... Depois apenas xingamentos e algumas saídas para não ficarmos na mesma rotina. Até pra Itália ele voltou e me deixou aqui sozinho.

Sozinho... Algo que nunca quis que o Milo ficasse e o que aconteceu? Ele acabou pegando meu primo de criação. Isso é que é vingança do destino. Acabei sozinho.

....

Depois de dormir por um tempo, acabei ouvindo muito barulho no andar de baixo. Respirei fundo e lembrei o almoço “grandioso” de Albafica. Ele não convidou muita gente, mas as poucas pessoas que convidou são importantes.

Mitsumasa Kido é uma dessas pessoas. O homem que bateu o recorde mundial no quesito “fazer filhos” e também um dos mais ricos que investiu na produção, tanto das rosas quanto da grife.

— Ah! Seis da manhã... O esse povo tem na cabeça? – sentei um tanto revoltado. Essa hora ninguém tem a capacidade de estar feliz... Mas os risos me chamaram atenção.

Suspirei e me arrumei para o café da manhã. Vesti roupas simples, apenas passei uma escova nos cabelos e desci. Pelo barulho nos quartos, havia no máximo mais seis pessoas aqui, mas o que importa?!

Fui na direção da cozinha e percebi que os criados estavam muito ocupados com o almoço que com as minhas necessidades momentâneas. Mais decepção pela manhã. Abri a geladeira e peguei uma maçã, mas logo a devolvi. Até isso me lembra do carma...

Não era o que queria pensar agora, talvez ainda seja muito cedo para qualquer atividade, o que me resta, apenas ir ao jardim para esvaziar minha mente. As rosas sempre foram minhas melhores amigas e nesse momento, acho que apenas elas podem me entender.

Caminhei em direção à sala e de lá fui para fora. Vi uma limusine preta enorme com uma bandeira japonesa. Nosso convidado de honra chegou cedo, provavelmente deve estar descansando, tanto ele quanto seus filhos.

Segui o caminho de pedras até os fundos, sentindo o ar fresco e com ele... Um perfume que não era das rosas. Algo misto entre puro e doce, que sinceramente me deixou curioso. Andei mais um pouco, bem mais um pouco, até chegar ao meu santuário pessoal, meu jardim, apenas meu.

Vi uma silhueta esguia e um tanto pequena ali bem perto e aquele cheiro vinha daquela criatura. Suspirei e isso o fez encarar-me. De fato é um garoto, mas um bem diferente. Calça jeans com suspensórios e uma camisa verde escura, quase tanto quanto seus cabelos e olhos.

— Ok, quem te deu permissão de entrar aqui, no meu jardim? – comentei em um tom calmo, ainda olhando-o diretamente. Fui recebido com um sorriso tímido, porém amigável. Céus! Como isso é constrangedor.

— Hunm... Desculpa. Vi flores tão bonitas, fiquei curioso pra ver todas as outras.

— Não devia estar aqui. – cruzei os braços. – Quem é você? Um dos garotos do Kido? – fez que sim com a cabeça. – Hunm... Com certeza puxou a mãe. – riu e me fez sorrir também. – Qual seu nome?

— Shun.

— Shun... – sentei-me no gramado e fiz um gesto para que se sentasse também. – Eu sou Afrodite.

Era tão incrível eu estar conversando com uma criança, que nem mesmo pude acreditar. Nunca gostei delas, na verdade, nem tão crianças assim. Rapazes com menos de dezessete anos nunca me foram interessantes até por os olhos nesse garoto.

Seu jeito meigo e gentil fazia com que me sentisse acolhido e suas palavras tão simples e calmas, tão pacíficas, faziam-me pensar em tantas coisas, no presente, no futuro e... Lembrar que no passado eu era tão sonhador quanto ele, lembrar que eu também já fui puro o suficiente para acreditar que todos os seres humanos teriam um lado bom e também inocente a ponto de aceitar qualquer tipo de atenção... Inocente a ponto de acreditar que eu ainda tinha algum jeito.

Contei parte do meu “problema” e ele apenas fitou tristemente o chão, voltando a me encarar. Suspirei um tanto decepcionado, mas logo senti minhas mãos bem mais quentes, tendo as dele sobrepostas.

— Shun...

— Olha, Afrodite, eu não te conheço bem. Não sei se isso realmente é verdade, mas... Se você fez essa aposta, devia ter pensado nas consequências dela. Não pode brincar com os sentimentos das pessoas, porque... Você também acabou ferido.

— Eu sei, mas... Tem ideia de como posso desfazer isso?

— Não pode. Se esses tais... Milo e Camus... Se gostam, não há o que fazer a não ser esperar que dê tudo errado. Esse é um sentimento muito ruim, sabia? Não devemos torcer pelo mal alheio, volta tudo contra nós mesmos.

— Eu estou vendo isso. – tentei entender suas razões. – Infelizmente não consigo tirar o Milo do meu coração ele... Foi a primeira pessoa que me amou pelo meu jeito de ser, ele não queria me mudar em nada.

— Não tem que tira-lo do seu coração... – pareceu aflito ao falar aquilo, e provavelmente sofria com algo parecido. – Só... Tem que dar espaço pra outra pessoa. – prendia uma lágrima, que teimosamente escorreu por seu rosto.

— Shun... Está tudo bem?

— Sim, é que... Eu sei como se sente, mas no meu caso é impossível que algo dê certo, entende? Amo alguém que eu nunca deveria amar desse jeito. O que aconteceu foi só uma vez, mas não era pra ter acontecido daquela forma...

Ele só tem quatorze anos... Suas lágrimas são tão tristes quanto as de um amor rejeitado pelo simples fato de existir. Não... Essas são as lágrimas de um amor dessa forma. Queria poder chorar também, mas não consigo mais. Tudo o que pude fazer naquele momento foi abraça-lo e ouvi-lo.

Aos poucos, fomos conversando mais apenas para nos distrair daqueles sentimentos ruins. Conversamos sobre as rosas, viagens, lugares que ainda gostaríamos de ir e conversamos sobre uma vida perfeita, que provavelmente só existiria em nossos sonhos.

Os assuntos eram tantos, que só paramos de falar quando um dos empregados foi até lá nos chamar. Era quase onze horas e nem ao menos percebemos isso. Não podíamos passar pela cozinha, pois havia muitas coisas por lá, o que nos fez diretamente ir pela sala.

Antes de entrar, vi uma belíssima Ferrari azul índigo e um Audi A5 estacionados e realmente fiquei muito intrigado com aquilo. Entrei em casa e vi que Kardia, Dégel, Milo e Camus estavam sentados no sofá, conversando com Albafica e o senhor Kido.

— Falando dele... – meu tutor comentou ao me ver chegar com o garoto do Kido. – Sabia que estavam andando por aí juntos.

— Suposição excelente, visto que eu sempre estou no jardim e Shun tem uma percepção peculiar sobre as flores. – respirei fundo. – Bom dia, cavalheiros. – falei apenas, seguindo em direção às escadas, sem mais provocações ou coisas do tipo, mas... Nem tudo é perfeito.

— Dite, já viu o que ganhei de presente? – Milo falou e não respondi. – Olha isso! – ergueu a chave da Ferrari e apenas fiz um “Humpf” sarcástico e quase inaudível.

— Que bom, Milo. Faça bom proveito... – subi um degrau, mas tive de ao menos provoca-lo. – Ah! Sim... Se for transar no estofado de couro, ao menos coloque um preservativo... Tanto em você quanto no Camus, não quer tirar marcas de sêmen depois. Fica horrível.

Segui meu caminho até o quarto e passei por um outro filho do Kido, um loiro de olhos claros, que sinceramente, parecia tão frio quanto o gelo e tão belo quanto a neve. Parei um pouco no corredor, vendo-o passar e lembrei vagamente de sua expressão... Em uma foto... No quarto do...

— Ah!... Nossa! – arfei surpreso e com uma dose extra de felicidade por aquilo estar acontecendo justo hoje. Pelos Deuses! Justo hoje!

...

Com uma dose extra de felicidade, comecei a me empolgar com a hora do almoço. Não havia muito o que fazer, mas ainda tinha de arrumar o cabelo e o rosto. Troquei completamente de roupa e me preparei para uma grande surpresa.

Shun me falou por algo que amava um garoto chamado Hyoga, um que é russo e há pouco tempo descobriu que é seu irmão por parte de pai. Também descobriu que esse garoto tivera um caso com um de seus professores na Sibéria, por isso foi mandado há alguns meses ao Japão.

Coincidentemente, Camus tinha um aluno chamado Hyoga na Sibéria, um que era extremamente bonito e que o envolvia demais. Tem várias fotos dos dois e um outro que nunca mencionou, só sei que meu primo voltou daquele lugar com uma personalidade completamente diferente de antes.

O francês nunca foi de falar muito, mas depois que voltou, nunca tocava em uma palavra sequer. Nunca foi de expor seus sentimentos, mas depois daquela viagem, nem mesmo seu olhar tornou a ser quente... Assim como seu coração, que se tornou tão frio quanto uma geleira.

— Er... Licença? – ouvi a voz de meu novo amigo e logo o chamei para entrar em meu quarto. Seus olhos verdes pareciam maravilhados com o lugar e... Droga! Aquele garoto loiro é o Hyoga. O Hyoga que o Shun gosta... – Afrodite, que quarto legal. – sentou-se na cama. – Nossa, como está lindo.

— Que bom que gostou, Shun e... Obrigado. – virei-me para encara-lo e o vi ainda sorrir. Não quero que esse sorriso vá embora, mas tenho que pensar no meu também.

— Hei! Será que algum dia eu chego a ser como você? – essa pergunta tão simples, fez com que eu ficasse momentaneamente sem resposta, mas tudo o que fiz foi estender a mão para que segurasse e viesse a mim. Ficou bem a frente, fazendo com que nossas alturas ficassem bem definidas. – Você é tão alto.

— Você ainda é novo, Shun, mas já é um rapaz muito bonito. – toquei seu queixo, levantando-o um pouco, dando uma postura melhor. – Só precisa ser lapidado. Sua pureza é refletida no olhar, assim como a bondade de seus gestos.

Suas bochechas ficaram vermelhas, mas havia um sorriso ali. Toquei sua cintura vi seu pequeno corpo se arrepiar.

— E-Eu...

— Está tudo bem. – sorri. – Só te disse o que penso. – tocou novamente a minha mão.

— O almoço, está pronto. – comentou.

— Ah! Isso... Quase esqueci. – rimos. – Não queria descer, mas já que seria uma desfeita aos convidados...

— Entendo. Também não queria estar lá embaixo. – fez uma carinha decepcionada.

— Olha, eu sei exatamente a razão pra você não querer estar lá, mas aqueles seres humanos lá da sala precisam da nossa beleza para viverem. Imagina? Nós dois aqui em cima, enfeitando apenas o quarto, enquanto podíamos estar com todo o glamour diante de todos? – sorri pra ele, que simplesmente me retribuiu com aquela expressão animada.

É a primeira vez que eu faço questão que alguém esteja mais feliz do que eu, mas talvez porque sejamos parecidos em alguns aspectos. A beleza daquele pequeno é rara e espera apenas por alguém pra lapida-la.

Pensei bem e quando nós dois estávamos em direção a porta, segurei seu braço, levando-o até a entrada do meu closet. Sei que isso não é do meu feitio, mas precisava acontecer. Precisava mesmo.

— O que está fazendo? – perguntou confuso ao me ver com uma escova de cabelo e uma tesoura nas mãos.

— Desculpa, fofinho, mas seu cabelo está me incomodando. – suspirei. – Você é realmente muito lindo com essa carinha de machinho delicado, mas está se escondendo atrás dessa juba verde.

— Ah! Não corta muito meu cabelo... – sentou-se em minha cama e tirou os sapatos para virar de costas. – Eu tive um trabalhão pra deixa-lo grande.

— Fique tranquilo, vou te deixar mais bonito ainda, vai ver. – comecei a cortar aqueles fios e a penteá-los também, tudo de maneira rápida e fácil. Ficou até quatro dedos abaixo do ombro e repicado. Ficaria bom do jeito que quisesse, arrumado ou bagunçado. – Pode olhar no espelho se quiser. – ri.

Virou-se devagar e de olhos fechados, mas quando abriu suas bochechas tomaram um tom avermelhado. Mexeu nas pontas dos cabelos e levantou-se, indo pra bem perto do espelho, surpreso com a pequena mudança.

— Nossa, ficou muito bom! Obrigado, Afrodite.

— Pode me chamar de Dite. – aproximei-me e fiquei atrás daquele corpo esguio. Levantei seu queixo. – Mantenha uma postura, Shun. Você anda olhando pra baixo. Isso o deixa com uma aparência muito frágil. Seja imponente, porque seu porte permite isso.

— E-eu... Não sei ser assim. – mordeu o lábio inferior. Sentei em minha cama e o chamei.

— Não tem que ser imponente no sentido de dar ordens, a bondade e a gentileza estão no seu sangue. Apenas não ande por aí com essa carinha de cão sem dono. Isso pode ser muito perigoso pra um garoto como você. – Apertei suas bochechas. – Nada de morder os lábios em público, querido, a não ser que queira seduzir alguém.

— Desculpa...

— Não se desculpe. Sua inocência é seu tesouro, mas também seu carma.

Ouvi um toque na porta, que logo se abriu. Olhei para o lado e vi meu “amado” primo de criação. Sua expressão indiferente ainda é algo irritante, mas não disse nada, apenas ajeitei a camisa de Shun, que ainda estava um pouco envergonhado.

— Vim avisar que Albafica está impaciente com sua demora, Afrodite. – comentou Camus, com aquela voz gélida.

— Não precisava se incomodar, priminho. Já estou indo. – levantei-me e fui em direção a porta com o pequeno, que ainda parecia tímido. – Shun, postura. – comentei e ele assim ajeitou-se, olhando pra frente. – Vamos, rapazes. O almoço nos espera.

Notas finais
Então... Estamos quase no fim, provavelmente dividirei esse último capítulo em mais duas partes. Só vou esperar a semana de provas passar e logo o fim estará aí. Kissus Kissus.