Resolvi seguir o conselho que havia dado a Mair. Era hora de me fazer de forte e acreditar que poderia ganhar.

No começo da noite chegamos a uma cidade diferente de tudo que imaginava sobre Capitol. A TV nunca nos mostrava Capitol além dos Jogos ou além do que precisavamos saber — que eles eram os comandantes de Panem. A estação de trem ficava em cima da cidade e nos dava uma visão panorâmica do lugar. A alguns metros de nós dezenas de pessoas nos seguiam. Dei meu melhor sorriso a todo instante, mas suspeitei que uma pequena parte fosse maravilhada com aquela aquela cidade. Mair e Blight vinham atrás de Etha e de mim, seguidos pelo resto dos pacificadores que fizeram nossa viagem.

Aquela cidade, aquelas luzes e prédios gigantescos, junto deles voavam pequenos objetos perdidos, pareciam escanear os locais. As avenidas lá em baixo, pude olhar de relance, haviam pequenos carros e pequenas pessoas que faziam suas costumeiras viagens pelo local, indiferentes ao que acontecia na estação de trem. Havia lá em baixo também uma multidão de pontinhos coloridos em frente a um enorme telão. Estavam transmitindo o que estava acontecendo naquele projetor. Notei que eu era o enfoque e pensei que fosse uma boa hora para mostrar o quão estava feliz por estar ali e a todo instante perguntava sorridente o que era aquilo ou o que era isso ao ponto que em toda resposta mostrava surpresa como se tudo me fosse desconhecido. Eles pareciam acreditar, no meio da multidão um pai falava ao filho sobre meu Distrito e como lá era pobre e não havia nada daquilo. O pai me viu olhando para ele e me lançou um olha de pena. Aquilo me incomodou. Não era totalmente verdade, desconhecia muitas das coisas que me foram apresentadas, mas reconhecia muitas outras. Mas quando está a morrer, é melhor que tenham pena e me ajudem a acharem que entendendo das coisas e posso me virar sozinha.

A cidade era verdadeiramente linda e me doía o pensamento de que apenas uma parcela da população podia viver naquela beleza estrelada, tanto no céu como na terra, quando, com a vontade de mudar todos poderiam também viver em cidades assim. Certa vez uma professora pró-revolucionária — que sumira uma semana depois da aula e nunca mais apareceu- nos contara que as pessoas com benefícios tendem a não se importar com quem vem atrás. Pensam em si e pensam que para manter-se assim, pessoas precisam sofrer, “a riqueza de uns para a miséria de outros, e vice-e-versa” e por isso não pensavam no sofrimento dos outros, pois não querem abdicar a vida perfeita que tinham, afinal, se haviam chegado ali, outros poderiam também chegar.

E poderiam até, se as dificuldades, os problemas sociais, a situação de subordinação dos Distrito para Capitol não fossem tão agravantes. Se parassem de fingir que eles não tem força para enfrentar o presidente e seus pacificadores; se parassem de cegar os próprios olhos para não ver que o tabuleiro do jogo é diferente para os Distritos, talvez realmente, todos pudessem usufruir de uma vida e de uma cidade rica e conhecedoras daquelas coisas que o pai daquela criança dissera que não conhecíamos.

Não foi muito fácil fingir que era a pessoa mais sortuda por viver para conhecer aquela cidade. A todo instante sorria e me mostrava interessada na pequena multidão que nos seguia até o fim do corredor que dava a um elevador. Notei que que a câmera estava quase sempre em mim e pensei que aquilo fosse um sinal estava dando dado certo. Entrei no elevador cegada de luzes e surda de vozes que falavam comigo. Algumas pessoas tentavam quebrar a barreira de pacificadores, mas estes não deixavam, e, diferentemente do meu Distrito, não colocaram as mãos em suas armas em nenhum instante, segurando as pessoas com as mãos ou as barrando com o corpo. Fingi ignorar isso, se quisesse ter chances, teria que desfocar em todas as diferenças entre Capitol e o Sete. Tinha as câmeras em mim, e poderia usá-las ao meu favor.

No elevador tudo se acalmou conforme descíamos nele. O ocorrido não durara mais que três minutos, mas tremia tentando conter o nervosismo enquanto pensava em como havia agido, sorrindo e fazendo perguntas a todos, só desfiz o meu sorriso quando senti que o elevador descia. Não olhei para trás pois desconfiava que todos olhavam para mim. Descobri que a estação era uma estação especial e dava direto a área de treinamento e aos quartos que ficaríamos nesse pequeno período.

Etha nos parou num amplo corredor vazio. Atrás dela, haviam quatro pessoas de Capitol perto de uma enorme porta com um enorme símbolo de Panem.

"Antes do treinamento, todos os tributos passam por uma pequena transformação, para ficarem mais… apresentáveis." Disse, correndo os olhos por Mair e por mim. Percebi que me fulminava com os olhos, novamente tomei suas atenções e virei as câmeras para mim. "Estes são os responsáveis por isso. Garoto, acompanhe aqueles dois e você aqueles outros dois. "Não pude deixar de notar o você, arrastado sibilante com que falara, me olhava de um jeito estranho e pensei que se estivéssemos na Arena juntas, não hesitaria em tentar me matar. Depois segui caminhando para um casal que me olhava, curiosos.