"O que você tem, filha? Está pálida." O sr. Brehen olhou-me com seu olhar paternal característico. Pôs uma mão em minha testa, mas a afastei.

"Estou bem, só levantei de uma vez e me deu tontura." respondi.

"Senta um pouquinho, vou buscar um copo d’água pra você."

Assenti, e sentei-me no sofá. Não demorou muito para o meu pai chegar. Entregou-me o copo com água e sentou-se ao meu lado.

"É só isso mesmo? Está quieta. Teve algum pesadelo?" perguntou carinhosamente.

"Estou ótima". Respondi, após o último gole d’água. Levantei-me de um pulo para mostrar minha saúde em dia, e ajudei meu pai a levantar-se. Riu para mim e murmurou um: "está bem!"

"Vá se arrumar de uma vez, que te espero!" disse.

Apesar do evento horrorizante que se extenderia naquela tarde, todos, a começar por Capitol e terminar nos miseráveis dos distritos, gostavam de se vestir bem para aquela data. É algo que nunca serei capaz de entender, mas que não posso me opor, ou seria hipocrisia de minha parte.

Não que me arrumasse impecávelmente, pensando em todos os detalhes de meu vestuário. Não. Mas isso não significava querer me vestir mal. A Colheita, quase sempre fora indiferente a mim. Nunca tive outra preocupação com ela a não ser querer estar arrumada e entristecer-se com a pobre alma chamada ao palco. As coisas mudaram, mas esses hábitos não.

Subi ao meu quarto novamente, e tentei ignorar todos os pensamentos que rondavam em mim. Fiz de tudo para trancafiá-los em uma parte da minha mente e me preocupar depois, mas o sonho, infelizmente interligava-se com essa data. Estremeci e acreditei que tudo não passou de um pesadelo assustador causado por causa da data.

A pombinha branca de percelana encarava-me no seu habitual canto. O Sol batia em suas costas formando uma sombra à sua frente. Lembrei-me dos momentos antes do sonho quando jurei ver uma pomba real no teto, mas olhei para cima e nada havia. A janela permanecia fechada.

Foi então que afastei esses pensamentos e me vesti. Meu vestido nada mais era que de modesta beleza. Não havia muitos enfeites. Era de tom alaranjado e batia em meus joelhos. Não havia mangas deixando meus braços em exposição. Havia pequenos detalhes em sua borda e nada mais, não fazia cintura, mas era possível notar a fisionomia que sempre prezei cobrir.

Em meus cabelos também optei pela arte da simplicidade, escovei para um lado só e o prendi com uma pequena fivela em formato de borboleta. Calcei um par de sandalhas para lá de antiga e lancei um último olhar à pomba e um último pensamento atrevido: “se por alguma razão este sonho estúpido estiver correto, e espero que não, ao menos estarei bem vestida.”

Desci as escadas indo de encontro ao meu pai. Vestia uma camisa meio desbotada e bermuda escura, talvez nem todos se importassem com a aparência neste mundo, e meu pai estava lá para me dar o exemplo. Sorria nervoso para mim, mas não deixou de oferecer o braço.

Cruzamos o campo em silêncio e logo estávamos na caminhonete. Tentamos manter uma conversa que espantasse o nervosismo que ambos sentíamos, mas não passaram de tentativas falhas. A situação não melhorou quando Walsh chegou e sentou-se ao meu lado. E rumamos para o centro do Distrito, onde anualmente acontecia as apresentações dos tributos.

Walsh olhava nervosamente de mim para o meu pai, como se tentasse dizer algo para acabar com o silêncio, mas não era capaz de encontrar as palavras. Tentei lançar um olhar que dissesse isso a ele, mas ao que pareceu, também falhei nessa missão, pois só o que consegui foi fazer o rapaz desviar rapidamente os olhos para a paisagem fora da caminhonete.

Não era um caminho longo, mas também compartilhava da admiração a paisagem que Walsh fazia. Morávamos na parte mais afastada do centro do Distrito, onde a única coisa à vista era a floresta, montanhas e Pacificadores. Era um lugar muito lindo, e sempre gostei de imaginar como tinha sido no passado, e como é que havia conseguido sobreviver intacto e lindamente a todas as tragédias humanas.

E ao poucos a imagem ia mudando graciosamente. Começava com uma borda densa de pinheirais e um chão verde vivo. Então apareciam algumas casas, como a minha, a de Walsh e de alguns poucos privilegiados, então o campo cortado e arrumado, abria espaço para um mato não tão cuidado. Havia uma pequena sede onde os Pacificadores se organizavam para a patrulha da região, e a próxima visão começava a se entristecer e parecer com a realidade. Ali, qualquer coisa vinda da natureza, parecia perder a força e ficar murcha. A grama era seca como palha, e as pequenas vozes de insetos que se poderia ouvir a alguns quilômetros atrás foram trocadas por barulhos incessantes de maquinas e serras.

Paramos por um instante para o meu fazer sua última entrega. Walsh e eu aguardamos na caminhonete. Por um instante, tentamos trocar algumas palavras mas o máximo que saiu foram elogios engasgados de ambas as partes, e palavras de preocupação.

"Você parece nervosa." disse. Sorri, e afirmei que era por causa do dia.

"Você sabe... hoje, deixa qualquer um nervoso. Principalmente quando seu nome está lá e..." pensei em completar falando do meu pesadelo, mas desisti ao pensar que não deveria contar a ninguém. Walsh pareceu perceber minha hesitação, mas se calou quando percebeu que não iria completar minha frase, talvez achando que minha provável terminação seria algo do tipo: "você pode ser o sorteado."

Por sorte, meu pai não tardou a chegar. Veio acompanhado de dois Pacificadores impacientes. Sorria enquanto voltava a caminhonete e agradecia aos dois homens de branco. "Nunca me senti tão seguro. Obrigada por me patrulharem até meu carro. Estamos a caminho da Colheita já, não desviaremos de estrada." Os dois homens olharam impaciente ao meu pai, que já fechava a porta e ligava o motor da caminhonete.

"Puxa, tive sorte de encontrar alguém lá. A maioria dos lugares já estão fechados e os Pacificadores estão se assegurando que todos estarão presentes."

Seguimos a viagem em silêncio. As casas improvisadas começavam a surgir, o que indicava que já estávamos perto. O chão já não era mais verde ou nem mesmo de palha, tudo isso havia dado espaço ao barro marcado por pneus. As arvores e as montanhas haviam sido deixado para trás e só se conseguia admirar suas silhuetas.

Tudo isso eu, Walsh e meu pai vimos, com a adição de um batalhão de pacificadores que tanto andavam a pé como em carros. Hoje era o dia perfeito, imaginei. Nada pode dar errado para o senhor Presidente e seu mundo Capitol. Se espetáculo mais precioso estava por vir não poderia haver enganos.

Foi então que lembrei-me da história de Walsh. O rapaz possuía uma cicatriz em seu braço esquerdo, lembrança do dia de despedida de seus pais. Walsh nunca havia conversado com nós a respeito de seus verdadeiros pais ou a fuga deles, e ver aqueles tantos pacificadores, parecia mexer com ele.

Por mais que odiasse sentir pena das pessoas, não pude deixar de sentir do rapaz. Ele havia sido abandonado pelos pais, torturado por pacificadores aos cinco anos de idade, e depois acolhido por um casal idoso que não fazia muito tempo, havia morrido, deixando-o sozinho de tudo. Meu pai sempre tentou acolhe-lo mas o garoto era muito recluso. Tínhamos quase a mesma idade, eu dezessete e ele vinte e de certa forma, sempre fomos parecidos, porém nos defeitos e não na qualidades. Éramos calados, e preferíamos aproveitar o silêncio do que preenchê-lo com palavras. Meu pai por outro lado, o vinculo que nos unia, e talvez por isso nos unia, falava por todos nós, sempre com um otimismo admirável. Walsh parecia gostar disso, e se sentia muito confortável na presença dele e era quando eu mais podia ver o garoto relaxado e sorrindo. Sorrir não era muito com rapaz. Podia contar nos dedos as vezes em que o vi sorrir.

Meu pai parecia gostar de ser o único falante do pequeno grupo. Unia a todos sempre que podia, e dizia que era preciso que ao menos tentássemos balbuciar umas palavras para não esquecer como se falava. Então quando tentávamos e muitas vezes falhávamos, se aborrecia e dizia que tínhamos mais em comum do que gostaria.