68º Edição: Jogos Vorazes
4 Quatro
Passamos o resto da manhã camuflando o nervosismo entre xícaras de chá e o tic-tac do relógio. O tempo parecia passar em uma lentidão aflitiva, nos fazendo ter tempo o suficiente para pensarmos e repensarmos em todas as coisas terríveis que poderia nos acontecer.
O céu e o tempo lá fora continuavam em um esplendor de quem ignorava completamente a tarde triste de uma Colheita. Ventos calmos e quentes sopravam pela casa, o verde que nos cercava parecia ter envivecido, e podia-se ouvir passarinhos que piavam em uma sintonia assustadoramente harmônica, as nuvens pareciam correr pelo céu, indo e vindo rapidamente, talvez dançando pelo infinito circular.
Era uma dia lindo para uma data tão feia. O Sete, Capitol, Panem, julgaria o mundo se o conhecesse, não eram merecedores de uma beleza como aquela. Nos acostumamos a escoria, e nos transformamos em uma. A beleza inocente não compactua mais com as transformações ocorridas. Era a simples generosidade e bondade da Natureza em nos presentear com sua figura doce de quem enxerga luz onde há escuridão.
O tempo inteiro, não saímos de outro cômodo, ficamos e quase enraizamos em nossa cozinha. Eu permaneci quase que o tempo inteiro sentada em uma cadeira, enquanto meu pai entretinha-se em procurar algum serviço pela cozinha. Quase não havia, mas não se importava, vez e outra repetia os serviços. Mudou a posição da nossa louça no mínimo umas cinco vezes.
Quando desistiu, já era quase hora do almoço, e invertemos os papéis. Pus-me a levantar e a pegar as panelas e as pôr no fogão. Não houve um almoço cerimonioso, claro, mas modéstia à parte, o que me veio péssimo em força física, me veio em dobro em inteligência culinária. Um dom meio inútil quando visto e comparado no geral deste mundo, mas muito bom quando analisado em particular.
Depois que percebi meu fracasso como possível sucessora de meu pai, descobri meu dom na cozinha, como que uma tentativa bem sucedida de reparar algo. Sempre fui boa em combinação de tudo: cores, roupas, números, e não foi diferente com comida e temperos. Sabia exatamente o que misturar, e logo peguei gosto. Isso não parou nem quando passamos pelo nosso tempo difícil, improvisava com o que tinha, e ficava na maioria das vezes muito bom. Era algo que tinha que me orgulhar. Bobo, talvez para muitos. Desagradável, para o resto. Compreensível, na verdade. Como alguém poderia se orgulhar de saber cozinhar em um mundo, onde ter comida já era algo a se agradecer? Simples, e eis que explicarei: é minha utilidade neste mundo.
O que quero dizer, é que talvez, nada mais sejamos que movidos pelas nossas vontades de descobrir algo novo e resolver um mistério. Alguns fazem isso encarando o mundo, saindo em expedições, outros fazem isso pulando cercas e indo fugir por conta e risco; alguns poucos — também me encaixava nessa categoria- faziam isso encarando um bom livro e o explorando com a mesma vivacidade que um pirata caça tesouro. Seja como for, uma forma, minha forma, que achei para lidar com o mundo e resolver seus mistérios, e tentar de alguma forma me sentir satisfeita por ter resolvido algo por si só, era ali: misturando, esquentando, cortando, se queimando, em meio ao aço das panelas, ao aroma dos temperos e ao gosto dos alimentos, que escassos, em minhas mãos, tornavam-se riquezas. Afinal de contas, eu não era totalmente inútil. Não posso acreditar que vim ao mundo simplesmente para povoar estas terras e nada mais.
E logo fui cortando, misturando, mexendo, refolgando. Trabalhava a mil, mas não percebia. Meu pai me observava, tranquilo.
– Antes de irmos direto para o Centro, vamos passar pela casa de Walsh. Perguntou se poderia ir conosco, e eu disse que sim. Tudo bem para você?
– Sem problemas.- Soltei. Estar próximo de coisas que me fazem bem pareceu recuperar um pouco do meu ânimo. Sem falar que Walsh não incomodava. Nem quando achava que estava incomodando.
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