68º Edição: Jogos Vorazes
14 Quatorze
Me separei do grupo e segui para a direita, enquanto Mair seguia para a esquerda e Blight e Etha entrevam na porta com o símbolo de Panem. Conheci os dois curiosos que me encaravam e que me fariam a transformação. Chamavam-se Nero e Fath, e eram casados. Vestiam roupas igualmente extravagantes e cabelos em formatos estranhos. Nero possuía o desenho de uma flor em sua barba enquanto Fath possuía o braço esquerdo coberto de jóias, como uma tatuagem em relevo feita de pedrarias preciosas. Pareciam seguir o mesmo protocolo de roupas que Etha, mas não o mesmo protocolo de educação. Abriram-me largos sorrisos e Nero entrelaçara seu braço no meu, como se fossemos velhos companheiros enquanto seguíamos pelo corredor. Pareciam perceber meu nervosismo a tudo aquilo e fizeram esforços em tentar me acalmar e me fazer sentir melhor. Disseram que estavam satisfeitos de terem pego alguém com uma beleza tão natural como a minha.
"Será mais fácil trabalhar com alguém assim, Amery" dissera Fath. "Ninguém nunca dá valor ao nosso trabalho, mas aparência é tão importante nesse caso quanto saber lutar." Falava inconformada como se tudo que eu fosse fazer não passava de um teatro e lutar fazia parte da encenação.
"Bem, só muda o fato de que saber lutar me manterá viva por mais tempo que sendo bonita." Deixei sair. Houve um silêncio antes de Nero me dar razão e repreender comentário de Fath. Fath me surpreendeu, pedindo-me desculpas. "É só que, a aparência é algo que Capitol aprecia muito. Te deixar linda, apreciável, te ajudará. Desculpe-me, sei que sua situação é difícil, quis dizer que podemos te ajudar."
Chegamos ao fim do percurso enquanto Nero desvencilhava-se de mim para abrir uma porta. Atrás dessa porta descobri um enorme estúdio extremamente iluminado e limpo. Havia espelhos por toda parte acompanhados por mesas, cadeiras e bancadas de pequenos objetos coloridos e diferentes.
Nero se colocou um passo a frente de mim. “Amery, por mais duro que seja, Fath disse a verdade e nosso trabalho aqui, é te deixar apreciável e te ajudar a conquistar a atenção de todos pela aparência. Estaremos com você até o ultimo momento antes de você seguir para a Arena. Então... é bom que nos entendamos.” Assenti a suas palavras enquanto Fath segurava minha mão e me guiava pelo lugar. Sentaram-me numa cadeira de frente a um enorme espelho enquanto discutiam o que fariam comigo.
O tempo passara entre lavagens, puxões de cabelo, de pelo, trocas de cadeiras e roupas. Logo estava de cabelos lavados e cortados, sobrancelhas feitas, unhas pintadas de dourado e pernas depiladas. No final, olhavam para mim, satisfeitos com o resultado de sua criação. Dissera-me que não havia muito a se fazer no primeiro dia e enquanto me admirava no espelho fiquei me perguntando o que seria o muito que haviam comentado.
Não quis admiti, mas descobri em mim uma beleza que sempre prezei em esconder, mas agora estava a valer dessa aparência. Nero e Fath fizeram-me dar adeus ao meu longo cabelo louro, cortando-os quase a altura dos ombros; arrancaram-me dolorosamente pelos das sobrancelhas a fim de realçar ainda mais meus olhos multicoloridos. Minhas pernas e braços tiveram seus poucos pelos arrancados com uma cera quente. Vestiram-me um roupão também e pintaram minhas unhas das mãos com algo de chamaram de esmalte. Tinha um cheiro forte e me deixara com as unhas como se houvesse as mergulhado no ouro e este tivesse grudado lá. Permiti a mim mesma alguns minutos de apreciação. Tentei esconder um sorriso, mas meus olhos me entregavam. Se considerasse pensar na aparência de minha mãe, nunca me senti tão parecida com ela, mesmo com toda aquela metamorfose que Afrodite passava.
Nero e Fath me deram para vestir o que parecia ser um pijama. Fiquei um pouco surpresa com a escolha, mas Fath me explicara que o treinamento começaria na manhã seguinte, pois estava tarde e reconheci em seu relógio de pulso que as horas marcavam nove da noite.
Depois seguimos de volta para o apartamento destinado ao Sete, onde me falaram que também se estabeleceriam lá até o inicio dos Jogos.
Todos nos encontramos no apartamento e todos tiveram a mesma surpresa sobre minha aparência mudada. Mas, talvez pela minha falta de jeito, da timidez repentina que me dera por ter todos aqueles olhos surpresos postos em mim, ninguém verbalizara nada da estupefação. Nero sussurrara para mim gentilmente que aos poucos eles iam se acostumando com a nova transformação. E aos poucos fui esquecendo de como estava e me focando no que precisava fazer.
Mair também havia mudado um pouco sua aparência. Estava mais limpo e de cabelos cortados, mas seu jeito amuado continuava o mesmo, não pude deixar de perceber que falava sozinho, sussurrava para si mesmo como se para manter o pensamento e não esquecê-lo, teria que falá-lo para si. Isso me assustara um pouco, mas afastei olhos quando percebeu meu olhar de assombro para ele. O garoto logo se levantou e se dirigiu ao seu quarto.
Fiquei me perguntando o que havia sido aquilo, mas as conversas paralelas que se seguiam na sala sobre os Jogos aumentavam ainda mais o meu nervosismo e achei que fosse melhor se dirigir para o quarto também, afastar meus pensamentos e mergulhar em sonhos para encontrar minha mãe. Nossa última conversa havia sido na noite anterior, mas tanta coisa havia acontecido que se me falassem que havia passado uma semana desde último encontro teria acreditado mais.
Então encontrei meu quarto, não muito diferente do quarto do vagão, branco, vazio, uma cama, o símbolo de Capitol e do Sete e uma enorme janela que se estendia de uma parede a outra e descia do teto até a altura dos meus joelhos, me dando uma ampla visão daquela cidade. Poderia ficar lá, vigiando a cidade antes de trocarmos o papel e a cidade me vigiar. Fechei as cortinas, deitei-me na cama e fiquei esperando o sono vir e me trazer Afrodite.
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