"Não foi nada corajoso de sua parte desmaiar daquele jeito", falou uma voz feminina. Era doce e gentil embora houvesse algo nela que indicasse tristeza. Certamente, não era Ethel. Abri meus olhos e dei de cara com a mulher mais bela que já conheci, ela me olhava com curiosidade, de frente para mim. Percebi que estávamos sentadas em cadeiras que ocupavam um espaço na sombra de uma enorme árvore. Parecia um jardim e parecia que estávamos sendo preparados para algum pequeno evento. Havia uma mesa entre eu e ela, cheia de doces e duas xícaras vazias, mas que perdiam seu encanto comparado a calmaria do lugar. Não se via nada além de um inifinito gramado verde e um céu azul. Alguns poucos pássaros cantavam alegremente pelo ambiente aumentando ainda mais a serenidade do local.

"Se você quiser vencer, terá que ser melhor que isso, querida." Sua voz me despertou para além daquela realidade de café da tarde. A lembrança do desmaio e dos jogos me veio de uma vez e me derrubou. "Onde... onde estou?" Muitas perguntas e acusações passaram pela minha minha cabeça, mas essa foi tudo que consegui balbuciar e verbalizar.

A mulher, que não sabia ao certo se era um espectro de minha mãe ou uma total estranha, demorou uns instantes a pensar na resposta enquanto admirava seu reflexo numa pequena colher. Seu aspecto comparado ao nosso encontro anterior estava muito melhor. Seus cabelos, olhos e pele continuavam em suas alternâncias, mas sua expressão era mais leve e serena. Não estava carregada de dor e sorria para mim. Um sorriso sincero. Vestia um vestido de verão que combinava perfeitamente com aquele lugar e nenhuma maquiagem, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo que se movia conforme a mulher movimentava a cabeça.

"Está num lugar seguro. Não há nada aqui para fazê-la temer." Isso era verdade, apesar das lembranças do dia, de tudo que estava acontecendo, não conseguia sentir nada além de uma profunda calma e o pensamento de aceitar o que estava por vir, como se ouvesse uma enorme mão afastando todos os meus medos de mim. Respirei fundo e tentei organizar meus pensamentos e colocá-los em uma ordem de prioridade. A figurava daquela mulher queimava minha curiosidade e por fim, perguntei quem era. Ela me fitou nos olhos por um tempo indefinível. Podia ter ficado presa naquele olhar arco-íris para sempre. "Algo me diz que você já sabe, ou pelo menos suspeita." Sua afirmação ficou suspensa no ar à procura de outra afirmação para fazê-la subir e sumir naquele céu azul.

Pensei muito, antes de conseguir falar o que pensava. "Você, você é minha mãe, certo?" Disse. Sua resposta foi um simples balançar de cabeça positivamente. Não havia nada em sua resposta silênciosa que indicasse qualquer coisa além da indiferença. Poderia ter tido aquela mesma reação se tivesse perguntado se o que havia naquela mesa eram doces. Essa menção, me fez pensar em outra pergunta crucial.

"Mas você não é real, tudo isso. É apenas um sonho, não é? Não é possível que isso seja real."

Sua resposta foi direta e dura. "Como pode ter tanta certeza disso, Amery?" Sorria como se se divertisse com minha situação. "Existem limites para o conhecimento dos mortais, e este lugar, esta magia está além deles."

A menção a mágia me fez ter certeza que tudo era apenas um sonho. Ela pareceu ler meus pensamentos e sua feição se tornou impaciente. "Escute, filha, não temos muito tempo antes que acorde. Então precisamos ser diretas. Isso aqui não é um sonho, o que está acontecendo é real. Você está me vendo e eu nunca a abandonei. Se me tocar, poderá me sentir, se comer algo dessa mesa, poderá saciar sua fome também." Olhei para ela confusa. Não era um sonho, mas iria acordar, foi tudo que conseguir entender após perceber que era primeira vez que me chamava de filha. Fiquei em silêncio por um tempo, tentando entender o lugar.

A mudança de sentimento de um encontro ao outro era visível. No primeiro, tudo não passava de sentimentos confusos e confusão. Nesse havia uma necessidade urgente de chegar ao ponto crucial. Não me contrariei essa situação.

"Mãe," dei uma longa pausa aqui, a expressão em seu rosto foi de curiosidade, enquanto a minha era de horror. "Isto é uma loucura. Não é real. Eu estava dormindo no último encontro, foi um sonho e eu acordei. Isso aqui também é um sonho, eu sei. Sei que vou acordar disso tudo e voltar para a realidade de Capitol, e os Jogos e Ethe e meu pai e Walsh. Você não é real, abandonou a mim e a meu pai. Nos deixou só e sabe-se lá o quanto você nos fez sofrer. Está sumida em algum canto, se não já morreu." Soltei tudo aquilo de uma vez ignorando as tantas objeções que a mulher queria fazer. Havia planejado parar na parte da loucura, mas a bola de neve que se formava em mim, deu inicio a uma avalanche de sentimentos que precisavam se desprender. "Aliás, não sei nem seu nome." Soltei, tentando preencher o silêncio que se havia formado.

O olhar da mulher, não mostrava raiva ou confusão. Continuava calma e traquila. Talvez se não fosse a energia daquele lugar, provavelmente a inquietação que se movia em mim, teria se transformado numa irritação incontrolável. Boa parte de nosso contato era feito pelos olhos, mas ela olhava para além de mim, em reprovação.

"Acho que devemos começar com meu nome, acredito. Chamo-me Afrodite, e já que você acha que tudo isso não passa de loucura e da inconsciência humana, não vejo problema em afirmar que sou a deusa do Amor e represento seu parentesco imortal. Vivo em Olimpo, junto com outros deuses e criaturas que os mortais chamam de mitólogicas." Olhei para ela ainda mais confusa.

"Escute, sei que isso vai além da aceitação do verdadeiro, principalmente nos dias de hoje. Há muitos anos, escrevi uma carta ao seu pai, dizendo o necessário sobre mim, mas existem coisas que são dificeis de se contar, e acredito que uma delas é dizer sobre seu parentesco divino." Suspirou. "A carta, expliquei a ele que não poderia ficar e ele sabia, mas certamente ele não te contou. Mas tudo bem, ele a entregou ao tributo masculino de seu Distrito. Você precisa pegá-la e lê-la. Acredito que vai convencê-la de que sou real e que isso não é um sonho. Antes disso, não há nada que possa lhe contar sobre o que há por vir. É preciso compreender o passado primeiramente, antes de entender o fututo."

Levantou-se majestosamente. Segurou em meu braço e me levantou. Tinha algo nela que me fazia querer obedecer tudo o que pedia. Olhava para ela sem entender nada e acreditar em nada. O que dizia, parecia se esforçar para mostrar para mim que era real, mas eu estava confusa demais para aceitar qualquer coisa. Ela me dizia para acreditar na existência de deuses e criaturas mágicas, e que isso era importante, e que ela estava viva, mesmo que aparecesse em sonhos que não eram sonhos. Não. Isso beirava a loucura e insanidade que só os sonhos trazem.

"Nos encontraremos o quanto antes, mas você precisa ler a carta."

Aos poucos os pensamentos duros foram voltanto e se misturando cheiro doce daquela paz. Quando acordei, estava deitada em uma cama, num quarto estranho e ouvia o vagar de objetos tremendo.

Sei que quando um tributo é sorteado, ele tem alguns minutos para se despedir de seus familiares na torre da prefeitura. Mas lá não era a prefeitura. Não havia cheiro de moveis mofados ou fotografias de antigos prefeitos e simbolos do Distrito. O quarto estava mergulhado na escuridão, sendo salvo apenas pela luz que vinha da brecha de uma porta. Levantei-me descrente da minha falta de sorte. Ainda vestia minha roupa da Colheita e caminhei para uma janela. A cada passo, sentia a esperança desvanecer e a tristeza surgir. Afastei a cortina e a verdade veio borrada. A lua surgia forte, sendo acompanhada por vários pontinhos de luz no céu, mas o resto da paisagem era um borrão de montanhas e árvores em alta velocidade. Não estava na prefeitura, nem sequer no meu Distrito. Estava no vagão do trem Capitol, indo a toda velocidade para os Jogos.

Me afastei daquela visão para ir me sentar na cama. Me encontrava naquele estado de aflição que toda preocupação se acumula dentro de si até não poder mais e explodir, fazendo cair a ficha para toda aquela verdade. Depois disso não fui capaz de mais nada a não ser chorar e pensar em tudo que havia deixado para trás. Volta e meia ousava pensar no meu sonho anterior, mas voltava para a lembrança de que nem sequer pude me despedir de meu pai.

O resto da noite foi um mistério. Cai num sono intranquilo e cheio de pesadelos, ninado pelo meu incontrolável choro. Chorei tudo que sentia sem saber ao certo o que sentia. Um certo arrependimento misturado com culpa por não ter conseguido me despedir de ninguém. Chorei pelo medo da morte e dos Jogos, com o pensamento que só sairia de lá já sem vida para o meu pai me enterrar. E chorei pelo meu sonho com minha mãe, este último, não sabendo ao certo que sentimentos tinha por ele.