G.R.I.M.M. Project
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Capítulo 119 min de leitura

Capítulo 1 - O serviço

Prelúdio

Sejam bem vindos ao infortúnio ano de 2222.

Por que infortúnio? Porque se você não tiver a grande sorte de ter nascido em berço de ouro, sua vida será miserável para sempre.

Gerações atrás, uma guerra destruiu uma gigantesca parte da humanidade. Apenas algumas capitais mundiais sobreviveram à devastação. Paris é uma delas.

Não ensinam mais nas escolas o motivo da guerra ter acontecido. Já faz tanto tempo que agora eles apenas nos dizem que temos “sorte” de nascermos em alguma capital. É impossível viver fora delas.

Paris agora é chamada como Circulo de Paris. Todas as capitais agora são chamadas dessa maneira, por causa das grandes muralhas que as cercam, formando um gigantesco círculo.

Os círculos são divididos em vários anéis internos. Cada um deles é uma cidade. Paris é dividida em sete Anéis atualmente.

Décadas se passaram, e os Anéis mais externos da capital francesa foram corrompidos tomados por gangues, máfias e o mercado negro. O caos é tão grande nos Anéis 5, 6 e 7 que nem mesmo o poderoso governo de Adam Beastty IV pode mais controlar.

Ah, sim. Finalmente poderei falar de nosso querido ditador Adam Beastty IV. Presidente do Círculo de Paris.

Lembram-se quando eu disse que se você não nascesse em berço de ouro você não teria sorte na vida? Na verdade, esqueçam isso. Nem mesmo eles têm tanta sorte assim.

A história já nos ensinou sobre grandes ditadores, que com o passar do tempo perderam o poder e foram derrubados. Mas os Beastty são implacáveis. Quatro gerações deles já governaram Paris, e a de Adam passou a ser considerada a pior delas.

Nos Anéis 2, 3 e 4 que Adam ainda controla, seu poder é absoluto. Não é permitido opinar, nem pensar. Se mantenha na linha e talvez você tenha paz. Esse era o lema nos três primeiros Anéis. Se você nasceu no Círculo de Paris, ou você vive em meio do caos ou vive no meio da opressão. Não há outras opções.

Depois de tudo que contei, você acha que não pode ficar pior? Mas na verdade fica, e muito.

Onze anos atrás, Adam anunciou um novo projeto para finalmente conseguir novamente o controle dos Anéis Externos. E como devem imaginar, a população de Paris não teve como recusar tal ato.

Para o projeto funcionar, todas as famílias dos Anéis controlados por Adam deviam entregar um de seus filhos ou filhas entre 5 e 10 anos para o governo. Não havia objeções. Ou você entregava a criança, ou toda a família era eliminada. Simples assim.

O Projeto G.R.I.M.M. havia começado. O plano de criar um exército perfeito, soldados perfeitos, e dominar os Anéis fora do controle de Adam.

Para Adam Beastty, governar três Anéis não era suficiente. Ele precisa ter todos na palma de sua mão.

Eu avisei que havia sim como ficar pior.

***

Capítulo 1

A chuva estava terrível aquela noite em uma das áreas do Anel 6. Alguns sem tetos e drogados corriam a procura de abrigos naquela enorme avenida, repleta de prédios altos e apertados. Alguns deles eram modernos, apesar do estado precário, e outros ainda eram antigos, da época em que Paris ainda era apenas uma capital bela e uma das procuradas por turistas.

Hoje em dia as pessoas nem sabem mais o é turismo. É um hábito que já não existe mais. Pelo menos não aqui no Círculo de Paris.

Aquela era uma das áreas próximas do Anel 5. Conseguia-se ver nitidamente a gigantesca muralha que nos divida, apesar de não fazer muita diferença. Era muito fácil entrar e sair dos Anéis 5, 6 e 7, conhecidos como Anéis Externos. Difícil – na verdade, impossível – era entrar nos Anéis 2, 3 e 4, os Anéis Internos.

Na grande muralha estava um enorme banner digital do Presidente Adam Beastty IV, numa tentativa inútil de lembrar a população dos Anéis Externos que ele ainda era nosso presidente, apesar de não ter controle algum sobre aquelas áreas da capital.

Alguém muito corajoso, ou somente muito idiota, conseguiu escalar aquela enorme muralha e pichar o sobrenome de Adam, escrevendo “Fera” por cima, a tradução mais próxima e também mais apropriada. Era como as pessoas dos Anéis Externos o chamavam vulgarmente. Pessoas dos Anéis Internos não se atreveriam a chama-lo daquela maneira, seria certamente uma sentença de morte imediata.

Os Externos não temiam a Fera. Sabiam que ele não tinha poder ali. E também, todos dos Anéis Externos tinham preocupações maiores para temer. Como por exemplo, levar uma bala perdida no caminho de volta para casa.

Apesar da chuva pesada, e já ter passado da meia noite, a vida continuava bem ativa no Anel 6. Traficantes trabalhavam escondidos em seus becos a espera de algum cliente viciado, gangues aproveitavam a escuridão da noite para tentar invadir e tomar algum território inimigo, e duas garotas jovens esperavam tranquilamente e despreocupadas de baixo uma tenda de um comércio fechado, se protegendo da chuva que caía.

Uma delas, de cabelo castanho escuro ondulado, quase negro, e um belo par de olhos verdes, olhavam para cima, vendo o metrô velho passar sobre os trilhos flutuantes enferrujados acima delas, espalhando faíscas por quase toda avenida. Aquele provavelmente era o último metrô daquela noite.

Sua colega ao seu lado, uma linda garota de cabelo loiro, preso em um rabo de cavalo, e olhos azuis magníficos, não estava tão distraída como a amiga. A loira olhava atentamente a boate do outro lado da avenida, com luzes tão claras do lado fora que os postes distribuídos pela rua pareciam inúteis comparado com a luminosidade que aquele lugar estava emanando.

A loira suspirava pensativa e receosa toda vez que lembrava que teria que entrar naquele lugar.

– Por que aceitamos esse trabalho, Belle? – ela perguntou. Apesar do rosto indiferente, a jovem de olhos azuis tinha suas preocupações sobre o que fariam daqui a pouco.

– Porque vão nos pagar bem. – a morena balançou os ombros.

– Mas aquela é uma boate neutra. – a loira apontou para o lugar. – Sabe quantos criminosos se reúnem naquele lugar?

Ela estava certa. Aquela boate era uma das mais populares nos Anéis Externos, dezenas de lideres de gangues, mafiosos e cafetões se reuniam naquele lugar. Era um lugar onde a rivalidade deixava de existir por algumas horas, e elas estavam prestes a quebrar aquela pequena paz.

– Já enfrentamos coisas piores, Cinder. – disse Belle, e então algo começou a vibrar no bolso dela. – Ah, o pagamento chegou.

Belle aproximou o celular transparente perto da cara de Cinder, mostrando os resultados. Apesar de ver toda aquela quantia que acabara de ser depositada na conta delas, a loira ainda não estava tão confiante sobre o que fariam a seguir.

– Se eu morrer naquele lugar, saiba que vou te procurar pessoalmente no inferno. – Cinder abriu um guarda chuva azul e andou em direção à boate.

Belle acelerou os passos para acompanhar Cinder e se abrigar junto com ela de baixo do guarda chuva.

– Eu sei que vai. – ela riu do comentário anterior.

Chegando do outro lado da avenida, as duas ficaram de baixo da tenda do lado de fora da boate, enquanto a loira fechava o guarda chuva e a morena tentava tirar os respingos de água em sua jaqueta vermelha e dos óculos em cima da sua cabeça.

As duas estavam prontas para entrar, e o dois seguranças prontos para barra-las, mas antes que pudessem agir contra as garotas, a bela de olhos verdes rapidamente entregou a um deles dois maços bem grossos de dinheiro, mais que o suficiente para comprar a entrada das duas.

Não importava se Cinder portava duas espadas em sua cintura, ou se Belle tinha dois revolveres em suas pernas. Tudo que importava para entrar naquela boate era ter o dinheiro. Muito dinheiro.

As luzes coloridas lá dentro piscavam sucessivamente, incomodando os olhos de quem acabava de entrar, fazendo que fosse ainda mais difícil enxergar naquele lugar. Mas mesmo naquela escuridão conseguia-se ver toda aquela multidão de criminosos reunidos em um só lugar, ignorando completamente a passagem das belas jovens que para eles eram apenas outras criminosas como eles.

Belle e Cinder passavam pela multidão distraída, com destino ao bar localizado no final do saguão.

– Sabe o que me incomoda sobre esse lugar? – Belle perguntou gritando, para que o Cinder conseguisse escutar.

– Não, o que é? – Cinder teve que usar o mesmo tom de voz.

– O nome. – Belle disse. – “Bad Poison”? Que tipo de nome é esse? Existe algum veneno que não seja ruim?

Cinder sorriu irônica.

– Talvez você deva dizer isso ao dono do lugar. – ela sugeriu.

Chegando ao bar, o atendente nem ao menos deu atenção às duas garotas. Apenas continuou a limpar os vários copos de vidro em sua frente, que aparentemente já pareciam limpos.

– Com licença. – Belle o chamou.

O rapaz apenas levantou os olhos, sem dar muito importância à bela jovem em sua frente.

– Eu e minha amiga estamos procurando uma pessoa. – ela apontou para Cinder, que estava de costas para o bar, e depois continuou. – Seu nome é... Deixe-me lembrar... Ah, sim, Scar Leonidas.

Mencionando aquele nome, o rapaz imediatamente arregalou os olhos e deixou o copo que segurava escorregar de suas mãos e cair no chão, espalhando cacos de vidro para todos os lados. De repente, o local foi iluminado por luzes mais claras, o DJ parou a música bruscamente, causando um ruído irritante, então Belle escutou o barulho de uma arma sendo engatilhada e depois sentiu um cano de metal encostar em sua nuca.

Apesar da situação nada acolhedora que as duas se encontravam agora, as jovens permaneceram calmas. Nem mesmo um pingo de medo transbordou sobre elas. Belle apenas soltou um longo suspiro aborrecido.

– Cinder, por que você não impediu o certo cavalheiro de apontar um revolver em minha cabeça? – perguntou.

– Tinha outras coisas para me preocupar. – ela permaneceu com olhar indiferente, enquanto via toda aquela multidão de criminosos que se reuniu ao redor delas de repente.

– Você cometeu um erro muito idiota, garota. – o homem armado disse para Belle.

Belle se virou bem devagar, com as mãos erguidas parcialmente, para que aquele homem não pensasse que ela faria algo suspeito.

– O que eu fiz de errado? – ela perguntou soando inocente.

– Quando esse lugar foi declarado neutro, uma simples regra foi estabelecida. – ele explicava. -Nunca se deve mencionar o nome do dono nesse lugar.

– E... O que acontece quando quebram essa regra? – Belle fingiu não saber de nada.

– Execução. – ele disse, esboçando um sádico sorriso naquele rosto. – Como eu disse antes: Você cometeu um erro muito idiota.

O dedo do brutamonte deslizava sobre o gatilho, pronto para disparar sem piedade e sem remorso. De repente, ele percebeu um vulto muito rápido e brilhante passar por entre ele e a garota. Ele piscou algumas vezes, pensando que foi apenas sua impressão, e então viu o cano de sua arma cortado fora e despencar no chão.

Perplexo, ele olhou de canto e viu que agora a garota loira segurava uma longa espada prateada. Cinder girou rapidamente a espada japonesa em seus dedos e a guardou bem devagar de volta a bainha onde pertencia.

Aquele que antes estava com uma postura ameaçadora sobre as duas mulheres, que para todos pareciam apenas algumas criminosas ingênuas, agora estava amedrontado. Elas não eram garotas comuns, muito menos ingênuas.

Imediatamente ele deu alguns passos para trás, sabendo muito bem quem elas eram.

– V-Vocês são Grimms! – gaguejou de olhos arregalados.

Belle estalou a língua, gostando nem um pouco daquele termo. Ela não negou, mas também não concordou com que ele disse.

– Tsc. Nós temos nomes, sabia? – resmungou abaixando os óculos de grau que estava em sua cabeça.

As lentes dos óculos transmitiram para Belle uma leitura de todos aqueles homens e mulheres a frente delas, preparados para atacar. Agora todos eles tinham contornos verdes digitais através de seus óculos. Ninguém mais poderia escapar dos olhos de Belle.

– Quantos você vê? – Cinder perguntou.

– Algumas dezenas. – respondeu.

Cinder suspirou mais uma vez.

– Eu disse que isso era uma péssima ideia.

Sem hesitar, todos os criminosos sacaram suas armas e apontaram para a dupla de garotas. Rapidamente, as duas pularam para dentro do bar, se protegendo da chuva de balas que começou graças a elas.

Cinder abria a boca para dizer alguma coisa, mas Belle a impediu.

– Nem uma palavra! – ela gritou, provendo o que Cinder iria dizer.

Tampando os ouvidos para se proteger do barulho das balas disparadas, Belle olhou para um lado e depois para o outro, mas viu nada que pudesse ser útil para poder ajuda-las. Apenas dezenas garrafas de vidros e copos sendo destruídos, e o rapaz que antes atendeu a jovem, agora encolhido em canto.

Ela olhou para cima e viu o teto de vidro da boate, refletindo o reflexo das duas que estavam abaixadas e de todos aqueles que queriam mata-las neste instante. Belle sabia exatamente o que fazer agora, só precisava aguardar a jorrada de tiros terminarem.

Não demorou muito para que o barulho de capsulas caindo e balas disparadas cessassem, e se tornassem estalos de gatilhos de armas com pentes vazios.

Antes que o grupo recarregasse o armamento novamente, Belle sacou sua arma e disparou contra o teto, espalhando pedaços de vidro espelhado por todo o salão.

Enquanto todos eles estavam distraídos, tentando proteger o rosto dos estilhaços, Belle saltou sobre o balcão, e seu primeiro alvo foi o brutamonte que teve a audácia de apontar uma arma em sua nuca. A bala de Belle atravessou sua cabeça, bem entre os olhos, perfeitamente onde a garota queria.

Cinder não demorou e saltou imediatamente depois de Belle, correndo atrás dos alvos com suas espadas, sem usar nenhuma arma de fogo. Ela era rápida, muito rápida. Tanto que para os outros, a loira não passava de simples borrão preto e azul entre eles. Os alvos de Cinder perdiam a vida e nem ao menos percebiam.

Belle não ficou para traz. Ela sacava seus dois revolveres e atirava em seus inimigos, acertando perfeitamente onde queria. Fazia movimentos que nenhuma outra pessoa conseguiria fazer, muito menos manuseando armas. Suas balas pareciam não acabar, porque Belle desperdiçava nenhuma delas. Ela sabia muito bem onde mirar e quando atirar, e também previa como o alvo agiria contra ela.

Cinder e Belle não eram garotas comuns, elas eram Grimms. Por mais que odiassem admitir, era o que elas eram. Duas sobreviventes e fugitivas do Projeto G.R.I.M.M. Humanas melhoradas geneticamente, fisicamente e intelectualmente.

Um dos felizardos sortudos, que ainda não sofreu algum ataque das garotas perigosas, tentava descobrir como a morena conseguia desviar das balas disparadas contra ela, ou acertar tantos alvos no meio daquela confusão sangrenta. Foi então quando viu mais uma parte do teto vidro ser estilhaçada pela garota, ele soube o que ela estava fazendo.

– Ela está usando o reflexo dos vidros! – berrou, numa tentativa de alertar a todos, e então apontou sua arma para Belle.

Instantes depois, Cinder surgiu na frente do rapaz e cortou a arma ao meio com a espada maior, e com a menor perfurou seu coração, protegendo a amiga mais uma vez.

Mesmo com o aviso, não havia o que fazer. Não havia como impedir as duas garotas Grimms. Todos aqueles que ousavam tentar tirar a vida delas, seria eliminados pelas mesmas.

Outro sortudo vivo correu para longe da confusão e ativou um elevador escondido na boate. Ele estava preste a alertar o dono do lugar, Scar Leonidas, o que estava acontecendo. Mesmo ocupada, os olhos de Belle perdiam nada naquele lugar, nem mesmo o ato daquele homem.

– Cinder! O elevador! – ela berrou.

Sem precisar de explicações, Cinder desdobrou uma faca guardada em sua perna e a arremessou na direção do elevador, acertando o meio das costas o fugitivo, fazendo que seu corpo caísse morto no meio do elevador e impedindo que a porta se fechasse.

– Vá! – ordenou a Belle. – Eu cuido do resto aqui!

Belle quis questionar a decisão.

– Mas...

– Vá logo! – Cinder berrou mais uma vez, deixando claro que não iria pedir de novo.

Com a decisão tomada, Belle correu para o elevador e deixou a amiga sozinha no meio daquele ambiente que se tornou sangrento e violento. “É melhor você estar viva quando eu voltar.” Ela pediu em sua cabeça.

O silêncio se tornou algo estranho depois de tudo que passou no saguão. Lá embaixo, no subsolo, não se escutava mais os tiros disparadas, nem mesmo o murmuro das pessoas feridas. Somente o silêncio.

Em um corredor curto e escuro, Belle se deparou com uma porta dupla e a abriu de supetão. Lá dentro tinha um homem sem camisa, rodeado por várias mulheres belas e seminuas. Elas se assustaram quando Belle entrou e apontou sua arma para todos.

– Saiam. Agora. – ela disse com firmeza, e todas as mulheres saíram daquela saleta imediatamente.

Agora Belle e Scar estavam sozinhos. Mesmo no escuro daquela sala aveludada, iluminada por apenas luzes negras, Belle conseguia enxergar o homem de pele escura, cabelos trançados e olhos verdes como o dela, mas com uma cicatriz sobre a pálpebra do direito.

Scar apertou os olhos tentando reconhecer a garota, e quando notou finalmente quem era ela, um sorrisinho cínico brotou em seu rosto.

– Eu sei quem você é. – disse Scar.

– É mesmo? – Belle não pareceu muito interessada.

– Sim. Você é uma Grimm. – ele disse. – A famosa Favorita da Fera.

Um grande estrondo ressoou pela sala, seguido de uma horrível dor no braço de Scar. Uma ferida causada por um tiro de raspão.

– Não gosto quando me chamam assim. – Belle avisou com olhos frios e sérios, deixando claro a Scar que ela não estava brincando. – Eu tenho um nome. É Belle Goodrose.

– O que você quer, Belle Goodrose? – ele tentava aguentar a dor em seu braço.

– Algo muito importante e raro que você guarda em seu cofre. – disse Belle.

– Nem pensar! – Scar protestou sem pensar duas vezes.

– Quer que eu deixe outro braço igual? – ela perguntou irônica, apontando a arma para o braço que ainda não estava ferido.

– Você já destruiu minha boate. Não é o suficiente? – disse frustrado.

– Nosso cliente quer o que há no cofre. Não sua boate. – Belle explicou. – Além disso, eu sei que a boate não é sua. Você roubou do seu irmão, depois matou ele o filho pra tomar o lugar pra você.

– Você parece ser uma garota bem informada. – ele sorriu de canto. – Não esperava menos de uma Grimm.

­Belle apenas expressou um olhar tedioso.

– Se você sabe o que sou eu, também deve saber que não vou cair nesse velho truque de me distrair com explicações enquanto você pega a arma escondida de baixo das almoçadas. – disse.

O sorriso debochado de Scar sumiu, e a frustração voltou ao seu rosto. Nem mesmo ele ganharia de uma Grimm.

– Agora se levante logo e abra o cofre. – Belle ordenou já impaciente.

Scar se levantou e foi até uma cortina que cobriu uma parte da parede. Nela estava um cofre. Ele digitou sua senha e usou um leitor de retina para abrir o cofre. Lá dentro ele tirou uma maleta de metal.

Belle pediu para ele não entregasse a maleta, somente que a colocasse no chão e chutasse para ela. A garota pegou a maleta do chão e saiu da sala de veludo, andando de costas, sem tirar Scar de sua visão.

– Não vai me matar? – ele teve que perguntar.

– Matar você não fazia parte do acordo. – ela sumiu das vistas de Scar.

Apesar da vida que levava, Belle não tirava vidas que não precisava. Somente por contratos ou por ameaçar tirarem a dela.

Não era uma vida dos sonhos, ou que alguém gostaria de ter. Mas era a única vida que uma garota fugitiva do Projeto G.R.I.M.M. poderia ter nos Anéis Externos.

***

Belle saiu do elevador e voltou para o saguão da boate mais uma vez. Ficou aliviada ao ver Cinder parada em pé sozinha no meio daquele cenário sanguinário, tirando o sangue de sua espada japonesa, com nenhum arranhão em sua pele ou corte em sua roupa. Também não entendeu porque havia ficado preocupada a toa. É claro que Cinder ficaria bem. Não teria como Cinder Crystal se ferir ou morrer por simples marginais que nem sabiam como segurar uma arma direito.

– Conseguiu? – perguntou a Belle que se aproximou.

– Sim. – Belle colocou a maleta de metal sobre o balcão e abriu.

Dentro dela, Belle pegou uma de várias pedras brilhantes e transparentes, muito menores que uma unha do dedo mindinho.

– Isto são diamantes? – Cinder ficou boquiaberta. – Pensei haviam ficado extintos depois da Guerra.

Belle usou seus óculos para que analisasse a joia. Pela leitura que seu equipamento fez rapidamente, mostrando cada material que o mineral era composto, aqueles realmente eram diamantes de verdade.

– Parece que Scar tinha os últimos deles. – ela fechou a maleta. – Não é a toa que nos contrataram para fazer o serviço.

As duas estavam preparadas para irem embora, e então ouviram um ruído vindo de trás do balcão do bar. Atrás dele surgiu o mesmo rapaz que atendeu o Belle antes, que agora tremia da cabeça aos pés. Uma reação normal depois de testemunhar toda aquela chacina.

– Melhor procurar outro emprego em outro lugar. – Belle sugeriu piscando e sorrindo para ele.

***

Horas depois, pouco antes do sol nascer sobre o Círculo de Paris, Scar Leonidas andava pelo saguão ensanguentado e repleto de corpos. Sua mente estava a mil, e não sabia o que fazer. Mesmo que ele mande limpar toda aquela bagunça, com certeza ninguém mais viria ao sua boate. E mesmo que ele quisesse recomeçar em outro lugar, talvez em outro Anel, não teria mais como, porque a maldita Grimm, Belle Goodrose, levou seus preciosos diamantes.

Ele estava na sarjeta agora.

Então escutou alguém entrar no lugar. Scar olhou para entrada e viu dois homens se aproximarem dele.

– O que vocês querem? – Scar perguntou irritado. – Não veem o que aconteceu aqui?

Eles praticamente ignoraram Scar, como se ele não tivesse o escutado. Um deles pegou uma arma equipada com um silenciador e disparou contra o dono da boate, que caiu morto como mais um dos corpos espalhados pelo lugar.

– Tem certeza que apenas duas garotas fizeram tudo isto sozinhas, Sneezy? – o que portava a arma perguntou.

– Lembre-se que não eram simples garotas, Bashful. Eram Grimms. – explicou Sneezy, e logo em seguida espirrou. – Droga, odeio esse cheiro de sangue. Ataca minha alergia. – resmungou passando o braço no nariz.

– Qualquer coisa ataca sua alergia. – insinuou Bashful.

Sneezy lançou um olhar zangado para Bashful, mas logo deixou isso de lado. Tinha coisas mais importantes para pensar.

– Vamos logo tirar as fotos que White pediu e cair fora daqui. – ele disse. – Ela quer ver com os próprios olhos o que as cobaias do Projeto G.R.I.M.M. são capazes de fazer.