Manhã cinza. Paredes cinza. Uniforme cinza. Vida cinza. Pois é, meu dia está começando bem...
Fazem uns cinco dias que tudo está cinza. Não gosto disso. Queria que tudo ficasse colorido de novo, mas não posso. Meu “país das maravilhas” foi o que me levou a ter que usar um uniforme cinza e ir a um internato ainda mais cinza. Na verdade, meus pais surtados que me obrigaram a fazer isso, mas não posso fazer nada. Muita gente daqui de onde eu vivo faria a mesma coisa se descobrisse que o filho disléxico é depressivo e viciado em drogas. Fizeram a mesma coisa com Penny. Bom, pelo menos vou reencontrá-la, minha querida amiga Penny-Coelho.
Lavo o meu rosto o melhor que posso, apenas para observá-lo sem cor no espelho, já sem os escritos que costumavam preenchê-lo. Pois é, acho que meus pais definitivamente não querem mais nenhum vestígio de que, algum dia, o pequeno Alex esteve aqui. Meus olhos, já dilatados, haviam mudado de cor (graças ao dia cinza e aos meus queridos pais, que me deram olhos verdes), e combinavam perfeitamente com meu uniforme. Depois vou colocar uns bottons nele pra ficar menos feio. Meu cabelo estava, como sempre, bagunçado. Perfeito, combina muito bem com meu estado atual. Eu já tinha começado a emagrecer um pouco. Me disseram que podia acontecer. Disseram que vai piorar se eu continuar sem doce, já que vou botar a comida toda pra fora.
Pego minhas malas e passo pelo corredor para tomar café, os quadros em família já haviam sido removidos das paredes. Meus pais são realmente surtados.
As coisas estão menos coloridas desde que me prenderam em casa. “Você quer que o seu cérebro vire mingau, é isso? Você quer que todo o nosso trabalho para te criar seja jogado fora?” Não, mamãe, quero que as coisas sejam menos feias, pode ser?
Café silencioso, a não ser pelo barulho da frigideira crepitando. Ovos. Torrada. Leite. Depois um chiclete por causa da minha fixação de ter alguma coisa na boca. O meu cérebro vira mingau ou meus dentes viram lixo, uma coisa ou outra.
–Bem... O Internato Happy Days para Garotos Especiais é o mais bem falado dessas regiões. – Escuto do banco de trás. Ele disse isso secamente, mas gaguejando. Petter Carroll, meu pai, e também mais um rico surtado de um condomínio muito pequeno cheio de outros ricos ainda mais surtados com filhos adolescentes problemáticos. Como dizia Penny, “Alegre-se, Alex, você ainda pode falar mal de todos eles comigo!” De fato ainda posso.
Viagem longa, a não ser pelas musicas que meu pai gosta de ouvir no rádio. A única coisa que sou incapaz de falar mal são as musicas que meu pai ouve no rádio. Não sei o nome, nem a letra, mas são boas. Sempre combinam com a situação em que tocam, é incrível.
Mas, enfim, chegamos.
“Internato Happy Days para Garotos Especiais”, era a placa, com múltiplos desenhos de flores sorridentes. Será que elas foram feitas pelos “alunos” daqui ou me drogaram e eu não sabia? Isso era pra encorajar alguém a prender seu filho nesse manicômio pra adolescentes? Agora consigo entender as piadas que faziam desse lugar. “Happy Days, internato com uma propaganda tão boa que você vai querer se convencer que seu filho é louco pra mandar ele pra lá”
Eu ri. Tenho um senso de humor tão afiado quanto uma bola de borracha.
Atravessei as portas abertas, e os dois garotos de vermelho que guardavam elas olharam para mim. Espera, foi isso mesmo que eu vi? Esses meninos não deviam ter mais de 20 anos! Isso me assusta.
O lugar era enorme. Um prédio grande e velho de quatro andares se erguia em frente ao pátio, formando uma meia lua que parecia que iria me engolir. A grande porta, que agora estava fechada, se encontrava a minha frente, com uma campainha ligeiramente assustadora á minha esquerda. Olhei as horas. 8:07. Maravilha, devia ter chegado aqui ás 7:50! Toquei a campainha e um menino de vermelho veio me atender. Ele era muito grande, isso me assustava. Ele guiou meu pai até a sala da diretora e eu fiquei na sala de espera. Me disseram que o monitor (alguns dos carinhas de vermelho) me guiaria pela escola para conhecer tudo.
2 minutos. 5 minutos. 9 minutos. 10 min...
– Senhor Alex Carroll! Você está atrasado! – Eu reconheceria aquele sotaque britânico esganiçado mesmo se estivesse no inferno.
– Bom te ver também, Penny. Virou monitora? Bem, não é a primeira vez que te vejo ser pau-mandado de alguém, baixinha! — Me levantei para cumprimentar a menina de cabelos descoloridos, que tinha um sobretudo e uma gravata vermelhos para cobrir o uniforme.
– Eu não sou baixinha! Olha só, você se atrasou 27 minutos e meio! Pelo amor de... Oh, Lexy, o que eu te disse sobre essa sobrancelha? – E assim, como todas as vezes em que nos encontrávamos, ela começou a arrumar minha sobrancelha. Penny tinha fortes transtornos obsessivo-compulsivos, e implicava, principalmente, com minha sobrancelha. Ela também ficava chapada as vezes, mas preferia uns lances mais... Naturais. Então, quando acontecia, seus olhos negros se avermelhavam nas córneas e ficavam parecidos com os de um coelhinho. No fim das contas, ela só tinha o mesmo problema que eu. Pais muito ricos e muito surtados.
– No dia que eu arrumar essa sobrancelha, é capaz de você ter orgasmos múltiplos, Penny. – Tão afiado quanto uma bola de borracha.
– Sem brincadeiras, Lessy – Ela me apelidou de Lexy, mas as vezes me compara com aquela maldita cachorra de sessão da tarde só para me irritar. – Você sabe que eu fico tensa. Aff, tampa essa sobrancelha e vem comigo preu te mostrar essa amostrazinha de prisão. – Penny-Coelho, tranqüila e delicada como sempre.
– Você é quem manda, baixinha!
–Não me chama de baixinha, protótipo de ameba!
Ela parou em frente á uma escada em espiral, parecida com a dos filmes de terror. Ao lado, havia um mapa do andar em que estávamos.
– Bem, como pode ver, aqui é onde fica a sala de espera, a sala de reuniões, confessionário, sala de artes, refeitório e as salas dos professores (pois é, só tem esses mesmo). Vamos subindo? – Subimos as escadas de filme de terror em direção ao segundo andar, onde ficavam as salas de aula, depois o terceiro, com os quartos dos alunos e os banheiros e, por fim, Penny me mostrou um mapa (no terceiro andar mesmo) que representava o último piso. Mesmo sendo uma escola enorme, a única coisa que era mostrada do último andar era a sala da diretora, logo ao lado da escada em espiral. Assim como o segundo, que faltava apenas uma pequena parte do mapa, estava incompleto.
– E o resto? – perguntei. Minha monitora chacoalhou os ombros, bagunçando levemente os cabelos no ato. – Ninguém sabe. Na verdade, nenhum aluno nunca subiu lá. É onde os monitores-chefes ficam, e eles não deixam ninguém passar. Mas existem várias histórias do que existe lá. Tarja-pretas, salões de sadomasoquismo, assombrassões... Essas coisas normais. Vem, vou te mostrar o seu quarto. – Ela começou a andar para a direita, a parte mais larga do corredor, enquanto eu ainda estava intrigado com o mapa do último andar. Não basta ser internado num manicômio pra adolescentes, você ainda tem que ser mandado pra um com jeito de filme de terror e cheio de mistérios para resolver?
