Ah, o amor! Tão belo, tão puro e convidativo. Por ele Romeu e Julieta foram contra as próprias famílias e depois da negação tiraram as próprias vidas para se unirem em morte e espírito. Por amor a mulher mais bela do mundo, Tróia entrou em uma guerra que perdurou por anos e fez milhares de vítimas e, por um amor puro e real, um grande rei construiu o Taj Mahal, na Índia, para homenagear a sua esposa favorita. O amor nos deixa insanos, nos faz querer algo que não podemos ter e amolece o coração nos tragando para uma imensidão escura e desoladora. O amor é o sentimento mais destruidor que existe.
Eu odeio o amor e suas nuances enganadoras.
Foi por isso então que a matei.
Contemplo sua face, antes rubra, agora pálida como a lua sombria. Os dedos frios e sem força jazem sobre a cama e seus olhos cerrados indicam que dorme. Dorme eternamente. Em seus lábios, um sorriso denuncia que provavelmente estava sonhando com o seu amante, um amante que não era eu e que não a amava como eu.
Ninguém jamais seria capaz de amar Valquíria com tanto ardor.
Recolho algumas gotas de seu sangue em um relicário e o coloco junto ao meu peito, um lugar que pertence somente a ela. Retiro uma mecha de seu cabelo e após sentir o perfume de erva-doce que dela emanava a guardo em meu bolso com adoração. A contemplo mais uma vez e me lembro da primeira em vez que a vi.
Valquíria vendia flores e no momento em que nossos olhos se cruzaram eu senti como se o meu coração estivesse pegando fogo, seu sorriso era lindo e encantador. Ela se tornou minha e eu precisava tocá-la.
Quase todos os dias eu comprava uma flor e imaginava se Valquíria era tão delicada e perfumada quanto. Ela era sempre tão cortês comigo, mas recusava gentilmente meus convites para um café. Percebi que trazia sempre consigo um terço pendurado ao pescoço e deduzi que sua recusa era fruto do recato e da religiosidade. Isso só fez com que eu a amasse ainda mais.
Eu queria Valquíria, eu sonhava com ela e imaginava nossos corpos entrelaçados em um leito de dossel. Sua pureza deveria ser desfeita por mim, somente por mim, em meio a gemidos e pulsações de um só coração. Eu queria suas unhas em minhas costas, seus cabelos grudados ao meu suor e seu prazer delirante se misturando ao meu enquanto gritava o meu nome. Possuí-la se tornou uma obsessão.
Quando ela adoeceu e, sem poder vender suas encantadoras flores, passei uma semana sem poder vê-la, também caí sôfrego em minha cama vazia, ardendo em febre e doente de amor. Sem saber onde encontrar minha deusa esperei ansiosamente o seu retorno e quando a vi novamente, pálida e abatida, tive vontade de levá-la comigo, cobri-la de rosas e amá-la para sempre.
Decidi segui-la no fim do dia. Precisava saber onde minha ninfa adormecia.
Porém, Valquíria percebeu minha presença constante na barraca de flores, na porta da igreja e em frente a sua casa e interpretou errado as minhas intenções. Ela mandou que eu me afastasse e a partir daquele dia passei a sofrer com o seu desprezo. Suas palavras ásperas me partiram ao meio.
Por alguns meses a garrafa de vodca foi minha única amiga e confidente e juro, juro que tentei lutar contra a loucura que nublava meus pensamentos. Decidi ir embora de vez e procurar minha lucidez perdida, mas antes eu precisava vê-la mais uma vez, tocá-la e ter para mim algum objeto que pertencesse ao meu anjo, assim eu poderia carregar uma lembrança sua comigo.
Valquíria era para mim como uma santa a ser venerada.
A espreita, vi quando seus pais saíram deixando a minha Valquíria só para mim. Eu queria contemplá-la adormecida e depois de beber de sua beleza pegaria algo de seu e partiria. Foi então que de súbito algo me pegou de surpresa.
Alguém entrou em sua casa pela porta da frente e amaldiçoei o parente inoportuno que escolhera hora tão imprópria para uma visita. Aguardei ansioso, entretanto as luzes não se acendiam e o medo começou a tomar conta de mim.
Valquíria estava sozinha com um invasor e temi pela sua doce integridade. Entrei sorrateiramente em sua casa, pronto para protegê-la e ao chegar ao seu quarto fui desfeito em um milhão de pedaços.
Ela estava nua e, sob o corpo forte de um homem, delirava palavras e sussurros eróticos. Seus cabelos se espalhavam pelo colchão e o homem em cima dela arremetia com força, ao passo que ela gemia e implorava por mais. As mãos delicadas, que deveriam arranhar as minhas costas, deixavam no maldito um rastro de desejo e fúria incontrolável que deveria pertencer a mim, somente a mim. Eu mal podia distinguir onde o corpo dela começava e onde o dele terminava, pois estavam unidos por seus sexos pulsantes e se movimentavam ritmados e com sofreguidão.
O bastardo sem nome então beijava seu pescoço e mordiscava seus seios alvos, um de cada vez, enquanto ela se contorcia toda de prazer e pecado. Ele então a virou de quatro e puxando seus longos cabelos como uma meretriz a penetrou usando seu membro imundo e rígido.
Aquela não era a minha Valquíria, a minha Valquíria era pura e jamais faria coisas como as que aquela mulher fazia naquele leito de luxúria. Ela usava as mãos e a boca para dar prazer ao homem e em troca ele a usava de todas as formas possíveis. Eu havia sido enganado esse tempo todo, Valquíria não era religiosa e muito menos pura.
Ela era o próprio demônio.
Fiquei ali estático, assistindo a tudo e preso a cada curva de seu corpo embebido de devassidão. Quando os dois terminaram e escutei ambos gemerem, saboreando o ápice do sexo carnal, sai sorrateiramente e esperei o maldito ir embora do lugar que deveria ser meu. Eu poderia fazer melhor do que ele e dar a Valquíria o mundo, mas ela se entregava como uma cortesã barata a um homem que nem se quer a embalava em seus braços depois do amor.
Ela precisava ser pura novamente para ser minha. E para que isso o acontecesse, só havia uma única saída.
Valquíria precisava se tornar um anjo.
Retornei ao seu leito e minha ninfa agora dormia nua, embalada pelo cansaço do corpo maculado. Devorei seu corpo com os olhos, as pernas definidas, os seios vermelhos e com marcas de lábios vorazes de alguém que não a amava. O ponto do meio de suas pernas estava cheio de fluidos amaldiçoados e o cheiro de sexo selvagem inundava todo o ar do quarto, um santuário agora profanado. Em seu rosto, um sorriso denunciava que ainda tremia ao lembrar do pecado cometido e chorei amargamente pelo destino vil que se aproximava. Eu precisava purificá-la e não havia uma outra maneira de fazer esse ritual. Segurando com as mãos trêmulas uma faca que havia pegado na cozinha, me aproximei e me declarei como jamais tinha feito em toda minha vida.
Valquíria... eu amo você.

