Umbrella.
Umbrella.
Capitolo 110 min di lettura

A solidão do céu gelado

O despertador de seu celular tocava, tirando-a do sonho que parecia afagar-lhe os cabelos. Os olhos de Hitomi se abriram e encararam o quarto ainda escuro por causa das cortinas fechadas, mas por onde um fino facho de luz comprovava a verdade dita pelo despertador: a manhã chegara para tirá-la da cama. Afastou o sono junto com os cobertores macios que a abraçavam e sentou-se na beira da cama, vendo o mundo girar devagar. Esfregou os olhos e em seguida bocejou, esticando os braços para cima e sentindo a coluna se alongar. Desligou o despertador do celular que ainda tocava e o colocou na bolsa escolar ao lado da cama.

Por fim, levantou-se e despiu-se do pijama, sentindo o ar gelado da manha acariciar a pele nua. Vestiu o uniforme cinzento, falhando miseravelmente ao tentar deixar a saia um pouco mais longa com as mãos antes de cobrir as pernas claras com o tecido escuro de uma meia-calça grossa. Ainda era o início da primavera e o frio não tinha ido embora. Foi ao banheiro e viu a si mesma refletida no espelho. Carregava pesadas marcas escuras sob os olhos puxados e os curtos cabelos lisos recuperavam o brilho aos poucos. Passou uma substância cremosa para esconder as olheiras, que já ficavam mais claras do que outrora tinham sido. Escovou os dentes e saiu do banheiro.

Pegou a bolsa de escola e saiu de casa; não tinha fome o bastante para comer algo e o estômago rejeitaria o que quer que lhe descesse pela garganta, de qualquer forma. Ela se sentia incapaz de comer desde que seu coração começara a ficar daquele jeito, como que entalado na garganta, espremido por uma mão de gelo. Às vezes parecia estar rasgando como uma folha de papel molhada, frágil demais para se manter inteiro, mas ainda lutando e tornando o processo ainda mais lento, fazendo com que se arrebentasse fibra por fibra e não de uma vez só. Era como arrancar um curativo pouco a pouco ao invés de tirar de uma vez e fazer a dor passar de uma vez só.

O ar gelado a abraçou e sugou-lhe o calor das mãos. Hitomi fechou os braços ao redor de si mesma, lamentando a ausência dos braços quentes que costumavam envolvê-la nos dias frios e também nos quentes. Desejava acima de tudo poder senti-lo a lhe abraçar, aquecendo seu coração, que dançaria como que ao som de tambores invisíveis e o ar gelado lhe pareceria uma praia no verão. Entretanto, aquele frio do início da primavera congelava seu coração e o espatifava, levando os cacos a voar pelo céu cinzento junto das flores de cerejeira que se afastavam com o vento. Puxou um cachecol colorido de dentro da bolsa e o enrolou no pescoço gelado. Queria voltar para o calor de sua cama dentro de casa e fechar o olhos. Enrolar-se no cobertor e fingir que estes eram os braços daquele que possuía seu coração. Dormir para poder sonhar com ele, ainda que não o fosse encontrar a seu lado ao acordar.

Sempre que lembrava da sensação de seus braços, todas as memórias de Takeshi lhe vinham à mente. As palavras doces que ele lhe dizia no começo. Ouvir o quanto ele a amava e o quanto a amaria para sempre. Sentir seus braços envolvendo-a avidamente e compartilhar com ele o desejo de nunca mais separar seus corpos e de parar o tempo para que pudessem estar juntos para sempre. Era capaz de sentir o gosto de pasta de dente de sua boca e o gosto quente e suave de sua saliva mais ao fundo de sua boca. Conseguia sentir seus lábios macios tocando sua bochecha e sussurrando palavras delicadas e românticas ao seu ouvido.

Olhou para cima, sentindo o céu frio pesar sobre seus ombros. As nuvens carregadas pareciam prestes a despencar sobre a terra e derrubar todas as flores de cerejeira que ainda não tinham-se ido com o vento. A visão ficou embaçada e pequenas gotas translúcidas molharam as marcas ligeiramente escuras que ainda apareciam sob a maquiagem. Esfregou o rosto e censurou-se mentalmente, ordenando a seus olhos que parassem de deixar as lágrimas escorrerem.

Subiu a rua fria junto dos outros estudantes, porém sozinha dentro de si. Viu Takeshi passar por ela com um grupo de amigos e buscou por uma desculpa aceitável para ir ter com ele. Buscou dentro da mente algo que pudesse lhe perguntar, algo relacionado a uma prova, um trabalho, um programa de televisão que fosse. Qualquer coisa. Mas quando encontrou um motivo razoável para lhe falar, fez com que as palavras lhe descessem de volta pela garganta antes que pudesse falar, sentindo-as pesarem no coração saudoso, que queixava-se da proibição de livrar-se da necessidade de ouvir aquela voz, olhar aqueles olhos e, com sorte, tocar aqueles dedos quentes por um segundo, mesmo que fosse para fingir ter sido um acidente. Mas ela não podia, pois já era suficientemente doloroso ir dormir apenas para sonhar com ele apenas para acordar sozinha no meio de seus cobertores.Perguntava-se se não seria melhor se pudesse simplesmente esquecer suas próprias promessas e parar de amá-lo, se o caminho mais humilhante não seria o mais fácil e também aquele que ela se sentia preparada para percorrer, pois afinal de contas não podia continuar pelo caminho que seguia e certamente não podia voltar pela estrada que a levara até onde estava. Mas não podia. Não quebraria uma promessa daquele porte, ele não devia ser esquecido e nem seria, sempre teria um espaço especial dentro do coração de Hitomi.

Outra pergunta que frequentemente lhe assombrava o coração era se havia feito a coisa certa. Se devia mesmo ter-se deixado apaixonar por aquele garoto especificamente, deixado-se confiar em suas promessas e palavras. Certamente não sentiria aquele vazio atormentando-lhe a alma se pudesse ter-se impedido a tempo, mas seria ela capaz de aprender o verdadeiro significado de amor se permitisse sentir aquela dor? Não estaria encolhida em um pequeno quarto dentro de seu coração, sem jamais compreender o significado de amar, de verdadeiramente amar alguém? Sem conhecer a doçura do amor de outra pessoa?

Enquanto olhava Takeshi se afastar, uma mão macia envolveu a sua. Apertou-a de leve, reparando no quanto a forma que a palma era almofadada a fazia parecer uma pata de gato. Tentou apagar a cara de choro e sorrir para o amigo, mesmo sentindo a garganta se apertar. Aquilo que ela tanto engolia parecia cada dia mais forte e preparado para saltar para fora de sua garganta, fosse sob a forma de pranto ou de ódio. Não lhe era fácil compreender porquê queria tanto chorar àquela altura. Mas não podia e nem o faria, não com o amigo ao seu lado. Era quase impossível chorar em sua companhia. Era boa demais, acolhedora demais. Sua companhia era a única que a fazia minimamente feliz.

– Natsu... – Olhou para o lado. O garoto sorriu um sorriso contagiante, ainda que não fosse aberto. Não mais que um pequeno movimento dos lábios, mas suficiente para fazer Hitomi se sentir melhor. Aquela mão, que sempre segurava a sua, era a única coisa que a mantinha de pé.

Ele carregava consigo um guarda-chuva azul escuro e pequeno o bastante para ser carregado por uma tira de tecido enrolada no pulso do garoto. Certamente estava preparado para enfrentar alguma chuva no caminho para a escola ou na volta para casa, uma vez que o céu estava cinzento e que as ruas largas e ocupadas pelas belas pétalas rosas de flores de cerejeira estavam ligeiramente umedecidas pela chuva da noite anterior. Hitomi também pensara em levar um guarda-chuva para a escola, uma vez que o céu parecia tão próximo de chorar quanto ela própria.

Conversaram e riram por todo o caminho até a escola, os dedos sempre entrelaçados. Percorrer todo o caminho até a escola ao lado de Natsu todos os dias era a única coisa que permitia que tivesse algum ânimo para se levantar da cama diariamente, que quisesse ir à escola e esforçar-se para ficar lá dentro o dia inteiro. Segurar a mão dele era como ser puxada para fora de um abismo escuro e pedregoso dentro do qual escorregara e caíra à noite, sem ver, ficando pendurada na borda apenas pelas pontas dos dedos das mãos. Era como, ao ter medo do escuro, esconder a cabeça sob um cobertor grosso, macio e quente. Falar e rir perto dele, com ele, era como um despertador que tocava para tirá-la de um pesadelo. O sorriso que começava sempre como uma máscara para ocultar sua dor se tornava autêntico no decorrer do tempo que passavam juntos e o nó em sua garganta se desfazia como que por mágica. Mesmo que por tempo limitado, sua companhia sempre lhe trazia paz. Sabia o quanto seus falsos sorrisos iniciais e a máscara que lhe cobria o rosto permanentemente não enganavam aquele garoto especificamente, aquele ao qual as mentiras eram especificamente direcionadas, mas queria que entendesse que não queria enganá-lo quando estava com ele, apenas quando estavam distantes, pois era então que sentia o coração se apertar.

Às vezes temia que o aperto daquela mão fosse uma mentira, que fosse se desfazer entre seus dedos como uma camada de neve fina derretia no fim do inverno ou voar pelo céu com as flores de cerejeira, carregado pelo vento e subindo demais para que pudesse alcançá-la. Às vezes verbalizava seus medos e se tranquilizava ao escutar o repúdio do outro por suas teorias, mas estas a assombravam à noite com cenários de um mundo sem seus abraços ou no qual ele não mais quereria segurar sua mão.

Ficar dentro da escola naquele dia foi particularmente doloroso, o céu gelado parecia entrar em seu corpo e o vento parecia soprar através da janela e levar para longe toda a sua força de vontade. Ainda assim, pode sair na hora certa, quando uma chuva fina começava a cair.

Queria ficar sozinha, caminhar sozinha para casa e chorar a própria dor pelas ruas. Se as lágrimas escorressem por seu rosto junto com as gotas que caíam do céu, ninguém perceberia que estava chorando.

Os passos que dava pareciam curtos demais, desequilibrados demais, sentia-se cada vez mais próxima de cair de joelhos no chão, como se fosse tropeçar nos próprios calcanhares. Talvez o peso do céu fosse grande demais. Talvez a solidão daquele céu gelado pesasse demais para que ela a carregasse junto da sua própria.

A chuva lavava suas lágrimas, mas não o seu coração. Seu coração ainda sangrava e a dor se recusava a escorrer junto com a chuva que pingava de suas roupas e de seus cabelos. O vento gelado, antes tão disposto a carregar consigo toda a força que sobrara em Hitomi, parecia se recusar a levar embora aquela agonia e ocupava-se de esfriar a água já gelada que ensopava a garota e a fazia tremer cada vez mais conforme o vento roubava seu calor.

Passos apressados pisaram em pequenas poças de água cobertas por pétalas rosadas e em seguida a chuva parou de cair sobre a menina, que agora apenas soluçava baixo e tremia com os braços ao redor do próprio corpo. Com os olhos lacrimosos a se abrir, olhou para cima para ver uma lona azul escura cobri-la.

Virou-se para ver o dono do guarda-chuva e um pequeno sorriso lhe quebrou as lágrimas.

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