Anna
Anna
Kapitel 111 min Lesezeit

Capítulo Unico

Sentado sob a cerejeira estava Arthur, os olhos negros estavam distantes, só conseguia pensar em sua namorada Daiana internada em um hospital, em coma.

Há um mês quando dirigia pelo Ibirapuera com sua namorada o carro foi atingido por outro que havia avançado o sinal, desde então já se passara um mês que a namorada estava internada em estado grave.

Daiana tinha uma beleza simples, cabelos longos e escuros que eram como cortinas que destacavam ainda mais sua pele clara e bochechas rosadas, que formavam um contraste angelical com seus grandes olhos castanho escuro.

No dia do acidente Daiana estava ansiosa para ver o Parque do Carmo, um dos poucos lugares naturalmente coloridos de São Paulo, no início do outono qualquer sopro mais forte fazia com que as flores das cerejeiras voassem pelo parque, formando um tapete de flores cor de rosa.

Mas agora estava ele ali, sozinho. No bolso a aliança que daria a namorada para pedi-la em casamento e na cabeça as memórias do momento do acidente, só conseguia se lembrar do grito dela e do sentimento de frustração por não poder ajuda-la, depois disso era tudo um borrão em sua mente, só se lembrava de acordar três dias depois no hospital, rodeado por amigos e familiares.

No meio de seus pensamentos Arthur foi interrompido por uma senhorinha de uns setenta ou oitenta anos, os cabelos brancos e o rosto já com as marcas do tempo, porém com um lindo sorriso no rosto.

– Meu rapaz você não quer comprar um guarda-chuva?- perguntou à senhora lhe esticando a mão com uma bolsa com alguns guarda-chuvas.

O homem surpreso levantou a cabeça atordoado. A senhora notou os olhos fundos e inchados dele, os cabelos negros estavam bagunçados, seu rosto transmitia uma sensação de alguém que precisava de ajuda, mas que não tinha mais forças para pedir.

–Você está bem? Precisa de ajuda? Quer que eu chame alguém?

–Oh. Não, não precisa, só estou distraído, mas estou bem. -disse ele mentindo. — Obrigado.

A senhora o olhou com um olhar preocupado, do jeito que as avós olham os netos quando eles começam a tossir no meio da noite, ou engasgam com comida e coisas do tipo.

–Sabe meu rapaz, com meus setenta e seis anos eu consigo ver quando alguém não está bem. É coração partido? — a senhora sorria de uma maneira simples, quase que debochada. — Porque se for eu tenho uma amiga que sabe ler cartas, jogar búzios e tem um chá que é tiro e queda.

Arthur ficou confuso com a senhora que acabara de conhecer, lhe deu um sorriso sem graça, talvez se lhe contasse a verdade à senhorinha iria embora.

–Não é coração partido, é que minha namorada está hospitalizada há um mês, e antes de sofrer o acidente estávamos vindo para cá, por isso vim aqui, para respirar um pouco e me lembrar dela, dos planos que tínhamos.

A senhora olhou emocionada para o homem que tinha vinte e nove anos, mas que pra ela ainda era um rapazinho. A senhora colocou a bolsa no chão e com certa dificuldade sentou-se ao lado do homem o que o deixou meio surpreso, ele pensou que ela ficaria constrangida e sairia envergonhada de estar tentando vender guarda-chuvas a uma pessoa que estava passando por uma situação tão delicada.

–Eu já passei por muitos momentos complicados nessa vida meu garoto. — a voz da senhora saiu trêmula, porém firme. — E com essas dificuldades eu aprendi muitas coisas, mas as três principais foram. Aproveitar cada momento e cada pessoa, como se tudo fosse acabar um instante depois.

Isso fez o homem se lembrar do primeiro beijo que roubou de Daiana e da sua surpresa quando ela o correspondeu.

– Rir de nossos próprios problemas, afinal se você rir de você mesmo nada mais pode te tirar do serio, nada mais pode te tirar o sorriso do rosto.

O que o deixou mais surpreso com as falas da senhora é que Daiana sempre lhe falara isso, ‘’Um sorriso no rosto espanta qualquer problema’’.

– E por ultimo e mais importante. Por mais que os nossos problemas pareçam imensos e não ter solução nunca perca a esperança. — a senhora pegou as mão de Arthur. — Se você perde a esperança meu jovem, você perde tudo. A alegria. A coragem. A vontade de vive.

As ultimas palavras da senhora o deixaram mais emocionado, as lagrimas desciam pelo seu rosto, tudo que a senhora lhe disse o fez lembrar de Daiana, mas as ultimas palavras da dela foi o que lhe despertou as lagrimas, Daiana sempre viveu essa filosofia de vida, esperança era o que fazia a sua vida acontecer, para ela tudo poderia melhorar e as coisas ruins nunca seriam eternas, e ele estava perdendo a dele, em um momento que a esperança era tudo que lhe restava. Tudo que os unia.

–Há alguns anos meu marido teve que fazer uma operação complicada, e a gente que já é velho sabe como é complicado. – assumiu ela com uma simplicidade incrível.

–E como foi? Ele sobreviveu?- o homem estava realmente curioso, como se o que tivesse acontecido com o senhor aconteceria com a sua namorada.

–Sim. Claro, meu velho é um homem muito forte- um sorriso se formou fácil no rosto da senhora se lembrando de seu marido. – É preciso muito mais que uma operação pra tira o meu velho de dentro do meu coração.

Arthur deu um sorriso sincero à senhora, ele percebeu que ela também se emocionara ao lhe dizer as coisas da própria vida, e para lhe agradecer ele a abraçou, o que deixou à senhora comovida com a simplicidade do rapaz. O abraço foi interrompido pelo telefone do homem, ele olhou e viu que era seu cunhado que estava no hospital e rapidamente o atendeu.

–Oi Carlos, pode falar.

Os olhos do rapaz se perderam ouvindo a voz do outro lado da linha, ele desligou o celular e as lagrimas que já haviam parado voltaram e ainda mais intensas. A senhora ficou encarando o homem ali chorando sem saber se perguntava ou se esperava mais um pouco. O rapaz a abraçou novamente e dessa vez mais forte.

–Ela acordou. – a voz sai sonhadora e sussurrada.

Ele olhou à senhora nos olhos com a expressão de incredulidade, mas feliz.

–Ela acordou. – dessa vez ele não só disse, ele gritou. – Eu vou ir voando para o hospital. –disse isso já levantando e ajudando-a se levantar. –Qual é mesmo o nome da senhora?

A senhora de pé com o semblante contente pelo rapaz, respondeu com um sorriso no rosto igual ao momento que lhe oferecera os guarda-chuvas.

–É Anna meu querido.

–A muito obrigado. Eu não sei nem como lhe agradecer dona Anna.

–Não precisa disso meu rapaz, pra uma velha como eu é bom poder conversar com um rapaz tão bonito e novo como você, mesmo que esteja tão tristonho, mas se você quiser pode comprar um guarda-chuva.

O rapaz sorriu, foi ate a bolsa pegou um guarda-chuva e deu cinquenta reais para ela e a abraçou novamente.

–Muito obrigado, a senhora não sabe o quanto me ajudou.

–De nada meu rapaz, deixa só eu pegar o seu troco, pra você poder ir ver sua namorada logo.

–Não precisa, o troco fica pela ajuda de suas palavras. –o sorriso sincero em seu rosto não parecia pertencer ao mesmo rosto triste que dona Anna tinha visto quando abordou o homem.

Ele a agradeceu mais uma ultima vez e saiu em disparada pelo parque. E ali parada vendo a felicidade do rapaz correndo para encontrar o amor dele Dona Anna se lembrou de seu marido, do momento em que o medico foi até a sala de espera do hospital dizendo que ele não havia suportado a cirurgia. Só Deus sabe o quanto ela sofreu e o quanto ela demorou pra superar a dor, mas hoje estava ela ali ajudando um homem que realmente precisava. Ela não sabia ao certo porque mentiu para o homem sobre o marido, mas sabia que contar a verdade a ele poderia acabar de vez com o resto de esperança que ainda lhe restava, e não era isso que ela queria. E felizmente diferente dela o homem estava tendo a chance de um final feliz.

***

Dez dias depois o médico dera alta a Daiana e junto com a alta ele trouxe outra noticia.

–Pois bem, no meio de tanta confusão tenho uma noticia que eu creio ser muito boa.

Daiana e Arthur se entreolharam preocupados com o que poderia ser.

– O que aconteceu doutor? – a mulher tinha a voz rouca de preocupação.

–Vocês serão pais, a senhora esta na sexta semana de gestação.

Arthur e Daiana se olharam novamente e dessa fez a felicidade era visível, era quase que palpável, eles já haviam falado sobre filhos, seria depois do casamento, mas vir antes também não tinha problema algum. Arthur levava Daiana até o carro, o tempo estava chuvoso e os dois estavam sob o guarda-chuva que Arthur comprara da simpaticíssima dona Anna ele era transparente cheio de flores de cerejas cor de rosa, a mulher olhava admirada pra beleza do guarda-chuva.

–Que lindo esse guarda chuva meu amor, tão delicado.

–Comprei pra você, de uma senhorinha muito simpática.

Os dois continuaram conversando e caminhando em direção ao carro.

–Sabe, eu quero um nome que além de bonito tenha um belo significado.

O homem a aconchegou debaixo de um de seus braços.

–Se for menina, bem que poderia ser Anna.

A mulher pensou por um instante.

–É um nome simples e bonito, mas você sabe o significado?

O rapaz sorriu, lembrando-se da senhorinha que passara aquele tempo no parque.

–Anna tem diversos significados, mas o principal deles é “aquela que não perde a esperança”.

A mulher o encarou, ela sabia que aquele sorriso tinha algo a mais, aquele nome e aquele significado não eram alheios, com certeza tinha uma história ali. Quando chegaram no carro ela o encarou novamente.

–Aconteceu algo durante o período que eu estava internada? Você com essa ideia de Anna, com um significado todo espirituoso.

Arthur sorriu para esposa com o carro ainda desligado, pegou a mão dela chegou mais perto e lhe deu um beijo que demonstrava toda saudade que sentia, depois olhou nos olhos dela e disse que a amava e que jamais conseguiria viver sem ela, depois explicou a conversa com a senhorinha do parque, a mulher sorriu e ficou emocionada com a ajuda de dona Anna. Arthur ligou o carro.

–Agora vamos continuar da onde paramos.

Depois de algum tempo a mulher percebeu que eles não estavam indo para casa.

–Arthur, pra onde estamos indo.

Ele sorriu para ela, aquele sorriso que ela amava um sorriso travesso que deixava evidente que ele estava armando algo.

–Estamos indo pra onde deveríamos ter ido há alguns dias atrás.

Ele estacionou e eles desceram do carro, o vento frio de São Paulo e a chuva não eram convidativas, mas isso não foi empecilho, eles andaram de mãos dadas ate metade do Parque do Carmo e ali ele a encarou.

–A quarenta dias atrás estávamos vindo para cá, e você mal sabia o quão nervoso eu estava , estava tentando controlar minha respiração e estava escolhendo as palavras certas, mas ai tudo desabou quando aconteceu o acidente. –a voz dele falhou e os olhos dela já escorriam lagrimas. – Mas felizmente tudo deu certo no final.

Ele entregou o guarda-chuva para ela e se ajoelhou e ela levou as mãos na boca já sabendo o que ele diria depois. Ele tirou do bolso uma pequena caixa de veludo preta e abriu na frente dela, um anel prata com uma pedra de esmeralda.

–Com esse anel. Com a sua pedra preciosa preferida eu lhe pergunto. Daiana você aceita se casar comigo, aceita ser a minha mulher?

Ele mal terminara de perguntar e ela já havia jogado o guarda-chuva para o alto e o agarrara lhe dando um beijo intenso , beijo esse melhor do que qualquer sim que ela poderia ter dito.

Ele a rodou sob a chuva e o céu naturalmente escuro de São Paulo e eles voltaram às pressas para o calor do carro.

***

Oito meses e meio após o pedido de casamento, no primeiro dia da primavera nascera Anna, uma bebezinha linda e muito saudável, com os olhos escuros como os do pai e bochechas rosadas como as da mãe, porém a menininha também tinha um sorriso singelo que lembrava muito uma senhorinha que vendia guarda-chuvas em parques e que tinha ótimas palavras a dizer.

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