(500) Days of Rose
7 Capítulo VII - Como ele acabou em (outro) consultório médico
Notas iniciais
Capítulo VII
Como ele acabou em (outro) consultório médico
Dia 191
— Tem certeza que esse vestido não é meio demais? – Rose perguntou pela terceira vez para Scorpius que a esperava ficar pronta sentado na cama dela, mexendo no celular.
— Você tá perfeita, Rose.
— Eu posso colocar o último que eu experimentei, o preto. Talvez nude não seja uma cor muito festeirística— ela se encarava no espelho comprido do quarto, rodando sobre o próprio eixo para ver como ficava as costas do vestido.
— Rose – ele esperou que ela o olhasse antes de continuar – Você tá perfeita.
— Desculpa – ela se aproximou de onde o namorado estava e apoiou a mão na bochecha dele – Eu só estou meio nervosa.
— Deu pra perceber – ele brincou – Mas sério, Rose, você tá, você é, linda, você já conhece meus avós e honestamente, eles nem vão conversar comigo lá. A gente vai pra marcar presença. Vovó vai estar muito ocupada sendo anfitriã, e meu avô troca duas palavras comigo pra não levantar mais comentários sobre a nossa briga, e depois me ignora o resto do tempo. A gente só vai lá pra eu me vangloriar da minha namorada linda e incrível e pra gente comer o melhor cannelloni desse mundo inteiro e beber vinho de graça.
Ela riu e ele puxou de leve a mão dela para trazê-la mais para perto, mas ela desviou o rosto no último momento e ele acabou beijando sua mandíbula.
— Já tô de batom, tem de esperar ele secar, só depois que posso pensar nesse beijinho.
Ele revirou os olhos mas sorriu, voltando a atenção para o espelho enquanto colocava brincos nas orelhas. Após mais alguns minutos, ela estava pronta.
— Levanta Scorp, vamos lá, se não a gente vai chegar atrasado.
Eles não iriam chegar atrasados: Rose odiava estar atrasada e tinha começado a se arrumar bem mais cedo para justamente não correr esse risco. Ele escolheu ignorar e não pontuar o fato que estava pronto a esperando a muito tempo e só aceitou a mão que ela estendeu para ajuda-lo a se levantar.
— Tem certeza que não pode nem um beijinho? – com os saltos, ela estava quase da altura dele.
— Só um selinho tá.
Ele a agarrou pela cintura devagar e ao se aproximar mais embalou, mantendo os lábios sobre o dela por um tempo, até que ela começou a rir e chegar a cabeça para trás.
— Scorpius!
— Tá bom, tá bom – ele disse, finalmente se afastando e sorrindo para a mulher (absolutamente linda, se ele tivesse de descrever) à sua frente.
— Eu tava brincando, vem cá – ela disse, antes de puxar ele pela lapela do terno que ele usava para outro beijo.
— Só você mesmo, Rose – ele quem ria, ainda mais pela reação da mulher que apenas deu de ombros e sorriu – Eu te amo, sabia?
Ela se afastou um pouco para conseguir observá-lo, sorrindo ainda mais, mostrando todos os seus dentes tão brancos em contraste com o batom levemente avermelhado dos lábios.
— Eu também te amo, Scorpius.
Ele só percebeu que tinha realmente dito aquilo depois da resposta de Rose. Saíram da casa dela e foram para o carro dele, que estava estacionado na garagem, para se porem a caminho do jantar.
Rose estava apreensiva, apesar de tudo, ele percebeu. Sua mão estava gelada, do jeito que só ficava quando ela estava nervosa, e ele entrelaçou seus dedos nos dela e beijou-a, sem desviar os olhos da estrada, tentando de alguma forma acalmá-la.
Quando chegaram, a mansão Malfoy já estava iluminada e com vários dos convidados espalhados pela sala de visitas. Scorpius apoiou a mão na lombar da namorada e instintivamente olhou ao redor procurando por Lorcan – não que mudasse alguma coisa se ele realmente estivesse ali, mas...
— Scorpius, querido, que surpresa você já estar aqui – ele escutou a voz de sua avó um pouco atrás de si e pode sentir que ela gostaria de completar a frase com um “tão cedo, sem eu ter de te ligar dessa vez”, o que não seria tão educado ou polido.
— Vovó – ele se aproximou e beijou-a na bochecha.
— Não vai me apresentar a moça bonita, querido? – ela apontou com o queixo e os olhos brilhando para Rose, que ainda estava do lado dele, nem ao menos o esperando acabar de beijá-la direito antes de perguntar.
— Vovó, essa é Rose, minha namorada. Rose, essa é vovó Narcisa.
— Um prazer, Sra. Malfoy – ela estendeu a mão, mas a mulher mais velha apenas a puxou delicadamente para beijar suas bochechas dos dois lados.
— Lucius – ela cutucou o esposo, que estava conversando com alguns convidados apenas um metro espaçado de onde ela estava agora, no braço chamando sua atenção – Scorpius tem alguém que ele quer te apresentar.
O avô virou-se para eles e lançou um olhar crítico da cabeça aos pés de Rose. Scorpius sentiu um vazio no estômago: independente do que a avó achasse, ela seria perfeitamente educada, ele sabia disso; mas dele... não tinha qualquer certeza de como ele poderia reagir diante do sobrenome de Rose.
— Vovô, essa é Rose, minha namorada. Rose, Lucius.
— Encantado – ele apertou a mão dela, enquanto encolhia levemente um dos olhos – Eu já não te conheço?
— Eu vim em um outro jantar que os senhores deram, Sr. Malfoy. Talvez seja da ocasião? – ele ainda não havia soltado a mão dela da sua.
— Talvez seja isso mesmo.
— Rose, querida, vem comigo, deixa eu te mostrar para umas amigas. Scorpius nunca trouxe uma namorada pra gente conhecer, sabia?
— Vovó!
— Verdades, querido. Verdades – ela enlaçou o braço no de Rose e a puxou para perto de um grupo de senhoras, fazendo com que a ruiva o olhasse com animação, levantando as sobrancelhas e mordendo os lábios.
Ela parecia estar feliz e um pouco mais calma, até onde Scorpius poderia avaliar. E ele sorriu em resposta. Passaram-se vários minutos antes que Lucius voltasse a conversar com o neto.
— Como você disse que ela se chamava mesmo, Scorpius? – ele perguntou, ainda parado apoiado em sua bengala ao lado do neto, com olhos azuis avaliadores.
— Rose.
— Sobrenome, Scorpius. Um nome sem sobrenome não tem valor algum.
— Rose Weasley, vovô – ele aprumou a postura e encarou o avô diretamente.
Não iria esconder que Rose era uma Weasley dele e caso ele não gostasse, decidiu, o problema seria dele. Já fazia um tempo que percebeu que o único motivo real para a implicância dele com os Weasley – ou com os Potter, ou com Hermione, verdade seja dita – era que eles não abaixavam a cabeça para a supremacia que ele pregava para as empresas Malfoy: eles denunciavam quando eles eram ilegais em seus negócios, e não se importavam com a tradição do nome ou sua força. Fora esse o motivo pelo qual sua mãe não gostava do legado da empresa Malfoy, e foi esse o motivo pelo qual – além de honrar a memória de Astoria – ele escolheu trabalhar na promotoria.
— Ela é a filha de Hermione Granger, vovô.
O olhar que Lucius lançou a ele naquele momento teria feito um Scorpius Malfoy mais jovem se encolher em sua própria estrutura. O azul dos olhos de Lucius pouco faltavam para tremeluzir e eletrizar.
— Uma Weasley, Scorpius? – ele sibilou para o neto.
— Uma Weasley, vovô. Algum problema?
— Não bastasse toda a situação que você nos colocou quando resolveu por puro capricho não trabalhar em nossas empresas – ele deu um passo para mais próximo do neto, continuando a praticamente sibilar –, agora você vai continuar manchando o nome Malfoy assim? Por uma vadiazinha que nem tem nada de muito especial?
— Eu vou dizer uma vez: Rose uma das mulheres mais especiais que já conheci nessa vida, assim como minha mãe foi, e espero que a trate com, no mínimo, respeito. E se eu resolvi não trabalhar nas suas empresas eu fiz isso por um motivo, e a cada dia percebo que não poderia estar mais certo nessa decisão.
— Algum problema? – era Narcisa que se aproximava deles, apoiando uma mão no braço de cada um deles, os afastando – Não queremos outra situação na frente dos nossos convidados, queremos?
Quando Scorpius olhou ao redor, pode ver que alguns dos convidados já haviam interrompido suas conversas e olhavam – ansiosos, quase ávidos, ele se permitiria dizer – para a conversa que se desenrolava entre ele e seu avô.
— Aquela menina que ele trouxe, Narcisa, uma Weasley— ele praticamente cuspiu a última palavra.
— Ela podia ser o próprio diabo, Lucius, o que não é o caso, que você iria apenas acenar e continuar a caminhar e conversar com essas pessoas. Eu não admito, simplesmente não admito, que vocês deem outra cena em uma de minhas festas. Você já me afastou do meu filho, Lucius, não queremos que a família toda se afaste também, queremos? Se querem resolver isso, resolvam amanhã. Hoje, vocês vão sorrir, dar uma risada, e ir cada um para um canto. Não quero mais ouvir falar disso, entenderam? Que bom. – ela sorriu, aliviando a expressão que por um momento tinha se tornado extremamente sombria. Passou a mão pelo cabelo totalmente branco – Scorpius, querido, sua namorada tinha ido ao banheiro, talvez se você a esperar no corredor seja melhor.
Narcisa saiu andando graciosamente distribuindo sorrisos, arrastando um Lucius inconformado ao seu lado, tendo entrelaçado seu braço no dele. Scorpius se dirigiu para o corredor indicado pela avó, a espera de Rose. Não tardou para que ela aparecesse, passando a mão pela saia do vestido, tentando arrumar um defeito não existente.
— Não foi tão ruim, afinal – ela sorriu, radiante, para Scorpius.
Então, ele pensou, ela havia saído antes de toda a conversa com seu avô se iniciar – porque ela nunca deixaria de perceber o que havia acontecido.
— Você é incrível, Rosie.
— Não me chama assim – ela riu, fazendo uma careta em seguida e abraçando o namorado passando seus braços pelo pescoço dele, deixando-o abraçar pela cintura – Me lembra demais meu pai.
— Pode deixar, nunca mais vou chamar você assim.
O restante do jantar ocorreu sem mais interrupções ou qualquer tipo de distúrbio: ninguém mais o questionava sobre a inexistência de uma namorada, ele não avistou nenhum dos irmãos Scamander ali dessa vez e seu avô fez questão de passar o restante do tempo bem longe deles dois – e, mesmo que ele não tivesse feito isso, Scorpius faria questão de o fazer ele mesmo.
Contudo, o clima ainda não havia sido reestabelecido como um todo, e certamente a cor dos cabelos de Rose foi uma pista para o motivo da discussão entre avô e neto – o que gerou alguns sussurros eventuais aqui e ali. Quando acabaram de jantar e depois de ficarem um tempo conversando com algumas pessoas na sala de estar, despediram-se de Narcisa (“Lucius sentiu um mal-estar, teve de ir se deitar mais cedo, infelizmente, mas vou passar suas despedidas a ele, fiquem certos”, foi a resposta dela sobre o esposo) e dirigiram-se para o carro.
Assim que fecharam as portas, o sorriso de Rose quebrou e ela suspirou. Ela havia percebido tudo, claro que sim. Scorpius culpou-se por ter sido tão otimista e ter pensado que ela não havia notado os burburinhos, ela era muito esperta para não perceber, ele devia ter sabido.
Rose queria que tudo tivesse dado certo, claro que queria, afinal, apesar de todos os pesares da família Malfoy, era a família de Scorpius. Mas, apesar de estar triste, ela não se culpava nem um pouco pelo que tinha acontecido, sabia que não havia feito nada de errado.
— Amo você, Rose. Eu te amo tanto – ele disse, alcançando as mãos dela.
— Eu também te amo, Scorpius – ela encostou sua testa na dele.
Ele ligou o carro e os afastou dali o mais rápido que ele pode.
Dia 206
— O que você acha, Scorpius? Esse ou esse?
Lily estava na sua frente, com dois vestidos, um em cada cabide, alternando qual colocava na sua frente.
— Qualquer um, Lily, eu já te disse – foi a voz de Albus que a respondeu, vinda de fora, logo antes dele aparecer no cômodo.
— Eu sei que você já disse, e por isso que eu tô perguntando pro Scorpius, porque pelo menos ele não é um insuportável filho da puta.
— Ai se dona Ginny escuta você xingando ela assim, Lily Luna.
Scorpius não tinha ideia de como havia se metido nessa situação. Era sábado a noite, Rose estava de plantão cinderela e ele resolveu ficar na casa dela, já que ela sairia meia noite e viria direto para cá. Mas as sete e meia da noite, a porta abriu – fazendo-o pular de susto na cama e ir para a sala correndo, em uma posição meio que de combate – e de repente Lily estava na sala, com roupas em seus braços e o rosto maqueado.
— Cadê a Rose? – ela perguntou.
— De plantão.
— Ai, merda, eu esqueci. Ok, você vai ter de servir.
E então ele estava naquela situação: com uma mulher o pedindo opinião com roupas, no meio de uma briga de irmãos, enquanto ainda estava sem camisa, em pé no meio da sala.
— Pra onde que você vai? – ele perguntou, depois de continuar encarando os dois irmãos discutindo por mais um tempo.
— É um jantar da empresa – ela disse, ainda dando uma última encarada no irmão antes de voltar a atenção para Scorpius por fim – E eu acho que vão me nomear a chefe no design da campanha de outono-inverno que vamos começar. Então, não é “qualquer um” – ela imitou mal a voz de Albus.
— O da direita então.
Ele disse e deu de ombros.
— Tem certeza?
— Você me perguntou, eu respondi. Agora vai ser a hora que você coloca o outro e diz que ele é melhor? É uma coisa de família fazer isso? Porque é o que Rose faz todas as vezes que vamos sair.
— Cala a boca, Scorpius – ela riu de leve, antes de apoiar o vestido da esquerda no sofá e se encaminhar para o banheiro.
— Não devia estar no restaurante? – ele se virou para Albus enquanto ela deixava a sala.
— Deixei com o gerente lá hoje, vou dar uma carona pra Lily pra esse jantar, ela não tem carro, meu pai tá ocupado e a namorada dela também.
— Eu estava reassistindo Breaking Bad. Gosta?
— Claro, tá em qual temporada?
Ele ligou a televisão da sala e começaram a assistir – sabiam que Lily ainda demoraria um tempo considerável no banheiro antes de estar pronta. Assistiram um pouco mais da metade de um episódio quando Lily deu novamente o ar de sua graça.
— Tô pronta, Albus, me leva? E Scorpius, como pode ver, fiquei com o que você disse mesmo, então a mania da sua namorada só pode ter vindo da família Granger.
Ela o abraçou e agradeceu, antes de sair pela porta.
— Ei, o que vai fazer depois? – ele perguntou para Albus.
— Ir pra casa, por quê?
— Se quiser voltar, a gente pode continuar a assistir. A gente pede uma pizza, ou algo assim.
— Fechado.
Imagine então qual foi a surpresa de Rose ao chegar em casa, cansada após o plantão tumultuado, e encontrar seu namorado e primo rindo juntos em frente a televisão com uma caixa de pizza vazia e várias garrafas de cerveja em volta na mesa de centro da sua sala.
Dia 214
— Pelo menos dessa vez você não falou pro meu pai que a gente foi pra sua casa transar – Rose sorriu para ele, apertando a mão enquanto ambos sentavam-se no sofá – Bem, pelo menos não ainda.
Scorpius revirou os olhos, mas sorria, e quando ela apoiou a cabeça em seu ombro, sorriu ainda mais.
Estavam na casa dos pais de Rose, para um jantar de domingo. Eram apenas os dois e o casal, já que o irmão da namorada tinha ido viajar com amigos da faculdade, aproveitando as férias de verão.
— Rosie, deixa eu te mostrar a parte nova do jardim – o pai da moça a chamou, levantando-se do sofá que dividia com sua esposa.
Ela se levantou dando um beijo na bochecha do namorado, com um aviso silencioso de “se comporte” para ele.
Era estranho estar aqui com Hermione Granger (Weasley, ele se forçou a completar mentalmente), num ambiente que não o do tribunal e com ela calmamente sentada com uma taça de vinho e uma calça jeans – ele ainda não conseguia associar uma imagem dela que não estivesse vestida com um terninho.
Ele permaneceu em silêncio, olhando para a televisão – fingindo que estava assistindo qualquer que fosse o filme que estivesse passando ali, tudo para evitar transformar aquele silêncio em constrangedor.
— Sabe, Scorpius – a mulher começou a falar depois de um tempo.
Ele ainda não havia acostumado também com ela lhe chamando pelo primeiro nome, mas desviou seu olhar da televisão e a encarou.
— Você faz bem para a Rose, ela está feliz com você e eu também estou. Rony vai acabar acostumando, você sabe – ela deu de ombros, sorrindo para o genro.
— Obrigada, Hermione.
— Todos nós temos história com a sua família, e Rony é um pouco mais rancoroso que o recomendado, isso é tudo. Quando ele perceber que você é uma pessoa para além de uma família, tudo vai melhorar.
Scorpius acenou em concordância.
— E, se me perguntarem eu nunca disse isso, mas, você é um bom profissional, Scorpius, e a decisão de seguir seu próprio caminho te conquistou muita admiração por toda Londres. Inclusive comigo. – ela sorriu para ele.
— Ficaram lindas, papai, muito lindas mesmo – depois de um tempo ouviram a voz de Rose se aproximando pelo corredor.
— Achei que você fosse gostar – Ronald respondeu quando já haviam chegado na sala – Quer jogar comigo, Rosie? – ele apontou para o xadrez montado no canto da sala.
— Ah, papai, eu não estou muito animada para jogar agora não...
— Ah, qual é, Rosie, você sabe que sua mãe não sabe – ele deu uma olhada para a esposa que o encarava com uma sobrancelha erguida – não gosta de jogar.
— Eu posso jogar com o senhor – Scorpius criou coragem e se ofereceu, recebendo um olhar desacreditado em resposta.
Ele pode perceber o olhar trocado entre Rose e sua mãe enquanto ele e o sogro se dirigiam para a mesa onde o xadrez se montava.
Rose e Scorpius passaram do horário ali naquela noite, especialmente considerando que ele trabalhava no dia seguinte pela manhã. Mas, quer dizer, como não podiam? Depois que Scorpius venceu a primeira partida, Ronald ficou mais vermelho do que o homem jamais podia ter imaginado, e pediu uma revanche. E, quando Ronald venceu a segunda rodada, é claro que tinham de fazer o desempate.
A surpresa da noite foi quando Scorpius, que estava perdendo por pontuação nessa última partida, conseguiu afogar seu rei e alcançou um empate. Era o melhor resultado que as mulheres que assistiam as partidas um pouco receosas podiam pedir, e quando a noite acabou com Ronald despedindo de Scorpius com um aperto de mão e um sorriso no rosto, acharam que essas partidas de xadrez haviam sido o milagre que esperavam desde o dia em que Rose anunciou estar namorando um Malfoy.
Dia 260
— Obrigada por ter vindo me buscar, Pamela ficou presa em uma cirurgia de emergência agora e eu tinha vindo de carona com ela – Rose disse, se inclinando sobre o freio de mão para beijar Scorpius, sentado no assento do motorista.
Rose saia de mais um plantão cinderela naquela quinta e mesmo com o cabelo preso em um rabo de cavalo desarrumado e o rosto com olheiras do plantão agitado, quando ela sorriu para ele, a primeira coisa que ele pensou foi: puta merda, eu sou mesmo um sortudo do caramba.
— Eu vou trabalhar amanhã, mas você pode ficar lá em casa, se quiser.
— Seria ótimo, não quero ir pra casa mesmo agora.
— Como foi o plantão?
— Uma confusão – ela suspirou, remexendo o cabelo, arrumando-o um pouco – Teve um acidente na rodovia e a gente era o hospital mais próximo, acabou que mandaram os pacientes pra cá. Tinha uma criancinha, amor, foi horrível.
— Ela tá bem agora?
— É a cirurgia que a Pamela tá. Ela estava estável, mas não sei o que vai acontecer... As primeiras 24 horas definem tudo – ela deu de ombros, caindo com a cabeça no encosto do banco do carro.
Ele passou a mão na perna dela.
— Ela vai ficar bem.
— Não tem como a gente saber na verdade, né.
Ela ficou em silêncio o resto do caminho até a casa dele.
— Crianças sempre me atingiram mais, desde a faculdade – ela disse, desabotoando o cinto e descendo para a garagem – Preciso tomar um banho agora. Quer vir?
Ela sorriu para ele sugestiva, e ele apenas encerrou a distância entre eles a beijando, enquanto ela soltava pequenos risinhos. Ela queria esquecer tudo aquilo que tinha visto no trabalho e sabia que podia contar com ele para ajudá-la nessa tarefa.
Dia 269
— Então, você se lembra, né?
— Albus o do restaurante, Lily a ruiva que sempre aparece na sua casa, James o irmão deles que você não gosta. Louis é o primo loiro, e Victoire a prima loira.
— Lembrar desses não vale – ela revirou os olhos, enquanto entravam juntos no barzinho que tinham combinado de se encontrar.
A primeira coisa que viram – e que qualquer um veria ao entrar no bar, certamente – foi a mesa enorme do canto que já reunia grande parte dos netos de Molly e Arthur, assim como alguns agregados.
Rose e Scorpius foram recebidos com gritos desordenados, combinado “ei”, “olha só quem se dignou a aparecer” e “quem é vivo sempre aparece”, provavelmente voltados mais para Rose do que para ele – o horário de trabalho conturbado sempre prejudicava ela a aparecer nas saídas que combinavam.
Se sentaram entre Lily e Albus, com quem Scorpius havia mantido contato desde aquele dia na casa de Rose. Eles descobriram que ambos gostavam bastante de basquete, e agora não era raro marcarem de assistirem juntos – nas palavras de Rose, pelo menos era o irmão menos chato da família.
Teddy e Victoire chegaram um tempo depois, justificando o atraso que a babá que contrataram para olhar Remus para poderem sair havia se atrasado um pouco. Remus era a sensação da família desde que Victoire havia anunciado a gravidez e, agora com quase um ano, era a perdição de todos os primos, que disputavam a chance de ficarem com ele por uma tarde – os pais que agradeciam.
Já era mais tarde e algumas garrafas de cerveja enchiam a mesa barulhenta quando o celular de Scorpius vibrou no bolso da calça. Franziu as sobrancelhas ao encarar a tela, levando Rose a preocupar-se ao vê-lo assim.
— O que foi?
— Meu pai tá me ligando – foi a única resposta que ele deu antes de sair para fora do barzinho, a procura de um lugar silencioso, sendo seguido por Rose e levantando questionamentos por entre os presentes.
— Alô?
— Não achei que você fosse atender, pra ser sincero – foi a resposta do pai.
— Tá tudo bem?
— Tá sim. Eu queria te perguntar... Eu queria te ver, Scorpius.
— Me ver?
— É. Mês que vem. Fazem cinco anos.
Ele não precisava o lembrar que em um mês faria cinco anos da morte da sua mãe – ele se lembrava todo santo dia.
— Eu sei que vão fazer cinco anos, acha que eu não sei?
— Eu sei que sabe. Eu só... – ele solta a respiração tão alto que é audível do outro lado da linha – Eu queria te ver. Não precisa me responder agora, eu sei que faz muito tempo. Só... Me liga depois, tá?
— Ok. – é a única coisa que o filho responde.
— Tchau.
O som ritmado no telefone indica que a ligação chegou ao fim, mas Scorpius ainda mantinha o celular rente à orelha. Passam-se alguns segundos antes que ele abaixe o aparelho e encare uma Rose confusa, aguardando em pé ao seu lado.
— Ele quer me ver.
Ele abraça rose e beija seu cabelo, apoiando o queixo ali por um momento enquanto pensava.
— A gente não conversava já tem anos, eu acho. E eu só o via nas festas da minha vó, também, depois que ela morreu. Agora nem isso.
Rose esperou mais um tempo, antes de finalmente perguntar, afastando a cabeça para poder encará-lo.
— E você vai?
— Ainda não sei. Mas acho que é o que ela ia querer. Ele mudou, desde que conheceu ela, você sabe. E tá tentando mudar mais ainda desde então. Vem, vamos entrar, depois a gente conversa – ele passou o braço pelos ombros da mulher, conduzindo-a de volta para o barzinho.
Dia 279
— A gente nunca mais vai pedir comida naquele restaurante japonês de novo, combinado? – ela bufou, caindo na cama e se aconchegando no peito de Scorpius mais uma vez.
Eram cinco e meia de manhã e desde as cinco, quando ela acordou e correu para o banheiro, ela continuava indo e voltando de lá, cada vez mais pálida e mal-humorada que a anterior.
— Ainda tá vomitando?
— Terceira vez. Eu vou morrer – ela disse, escondendo o rosto na curva do pescoço dele e entrelaçando as pernas com as dele.
— Tenta dormir de novo, Rose.
Ele amava como o nome dela se enrolava em sua língua antes de sair. Ele já tinha perdido qualquer vestígio de sono, e continuou apenas passando a mão pelo cabelo dela enquanto sentia que a respiração da namorada voltava a acalmar e a regularizar, indicando que estava começando a cochilar novamente.
Ele tinha de ir trabalhar, não tinha como adiar a sessão do tribunal hoje. Mas também não queria deixa-la sozinha. Ronald estava de férias, ele sabia disso, mas ligar para o sogro, apesar de sua relação ter melhorado consideravelmente, não era algo que ele gostaria de fazer antes das seis da manhã.
Ele ficou encarando o teto e passando a mão nos cabelos dela por mais um tempo. Talvez ela melhorasse, talvez ela agora ficasse dormindo como um anjo até as sete e meia, quando deveria sair de casa. Talvez tudo desse certo e...
Ela acordou de supetão e correu para o banheiro mais uma vez. É, sem chances.
Pegou o celular e discou o número do sogro enquanto corria atrás dela rumo ao banheiro, para ajuda-la se precisasse de algo.
— A Rosie tá bem? – foi a primeira coisa que a voz ainda rouca pelo sono de Ronald disse ao atender a ligação.
— Bom dia, Sr. Weasley. Ela não tá passando muito bem, tá vomitando um pouco. Eu tenho de ir para o tribunal hoje de manhã e ela tinha comentado que o senhor estava de férias. O senhor pode vir ficar com ela? Não quero que ela fique sozinha...
— Já estou indo pra casa dela, me espera antes de sair, tá?
— Na verdade, Sr... A gente tá na minha casa.
Ele ouviu o homem murmurar algumas coisas antes de voltar a falar de forma entendível.
— Me manda seu endereço, já chego aí.
Rose tinha se levantado novamente e agora escovava os dentes. Não tinha prestado atenção na conversa que tinha se desenrolado, então a primeira coisa que perguntou foi:
— Quem era?
— Seu pai. Ele tá vindo pra ficar contigo.
— Você ligou pro meu pai e pediu pra ele vir ficar comigo na sua casa? – ela levantou a sobrancelha – Tá mesmo querendo adiantar a morte, uh.
Dia 297
— Alô?
— Não entra em pânico, tudo bem? – era a voz de Rose do outro lado da ligação.
Scorpius estranhou: para além da fala da namorada (que por si só incitava pânico), ela nunca ligava para ele em horário de trabalho.
— O que aconteceu, amor?
— Eu disse pra não entrar em pânico – ele podia sentir que do outro lado ela estaria revirando os olhos – Eu meio que desmaiei enquanto estava com a Lily e agora eu estou no hospital em observação.
— “Não entra em pânico”, Rose? É claro que eu vou entrar em pânico. Tá em qual hospital? Tá tudo bem?
— Eu tô bem agora. Tô no Frida, o que eu tenho costume de fazer plantão cinderela.
— Chego aí em dez minutos.
Desligou o telefone, pegou a sua pasta e saiu da sua sala, sem nem mesmo se importar com os olhares nervosos e confusos que recebeu dos estagiários. Parou no saguão para avisar a secretária que ia ficar fora o resto do dia, para ligar se fosse realmente uma urgência.
Tinha dito que chegava ao hospital em dez minutos, mas o trânsito resolveu lhe fazer de bobo e ficar o dobro do que tinha previsto naquele curto trecho. Estacionou o carro na primeira vaga do estacionamento do hospital e correu para a recepcionista.
— Oi, minha namorada estava sendo atendida pela emergência.
— Nome?
— Rose Weasley.
— Ah sim, a Dra. Weasley. Você é o namorado – ela conferiu em um papel que estava ali – Scorpius, certo? Ela está na observação 03, segue pelo corredor direito, primeira a esquerda, terceira porta a esquerda – ela respondeu entregando um crachá para ele.
Pendurou o crachá de qualquer jeito na lapela do terno que usava, sentindo o coração bater mais forte na caixa torácica a cada passo que dava. Quanto mais próxima Rose ficava dele, mais longe ele sentia que devia percorrer. Enfim chegou e a avistou deitada em uma das macas, bebendo um suco de uva de caixinha ao lado de Lily.
— Eu te disse que não precisava de pânico – ela sorriu ao vê-lo entrar afobado na sala.
— Porra Rose, você tá bem mesmo? – ele atravessou o resto do espaço e a abraçou.
— Claro que tô. Provavelmente foi o calor. A gente tava andando, tava quente e eu não tinha bebido muita água antes de sair de casa.
— Obrigada Lily – ele sorriu para a prima.
— Imagina. Vou aproveitar que você tá aqui agora e ir comer algo na lanchonete do hospital, tá?
— Você me passou um susto e tanto, Rose – ele sorriu para ela, a abraçando de pé ao lado da maca.
— Mas eu te disse, amor, não entra em pânico.
— O que só aumentou ainda mais todo o pânico – ele revirou os olhos.
— Rose, estou com os resultados dos seus exames aqui e... – um médico entrou no quarto, analisando uma papelada enquanto ainda andava e falava – Esse deve ser o tão falado Scorpius, estou certo?
— Sim, prazer.
— Esse é o Mike, Scorp, meu colega de trabalho. – Rose fez as apresentações.
— Fica falando de mim então no trabalho, Rose?
Ela revirou os olhos.
— Deixa ele falar logo que eu estou ótima e liberar a gente logo.
— Se você preferir saber seus resultados sozinha, Rose, Scorpius pode esperar a gente terminar aqui no corredor ou na sala de espera.
— Que nada – ela deu a mão para o namorado – Já tá mais que na hora de eu poder sair daqui.
— Ok então. Você pode sim sair daqui, mas só depois da gente fazer um ultrassom.
— Ultrassom? – Scorpius perguntou – É grave?
Ele estava imaginando todo e qualquer pior cenário possível na sua cabeça. Rose tinha um câncer em estado terminal, Rose tinha uma doença rara no sangue em estado terminal, Rose estava com uma doença nova e desconhecida mortal. Ele esperava escutar todo e qualquer diagnóstico da boca daquele médico, menos o que ele realmente disse em seguida:
— Rose, você tá grávida.
Nenhum dos dois respondeu nada, nenhum ao menos computou quando Mike disse que ia dar privacidade par eles naquele momento e saiu da sala. Eles permaneceram estáticos na mesma posição em que estavam antes, de mãos dadas, por um tempo que pareceu para sempre.
Até Scorpius se virar para ela rindo e a abraçar forte, com a cabeça dela enterrada no tecido de seu terno, molhando-o com algumas lágrimas que ela nem sequer se dava conta que chorava.
— Eu sei que a gente não esperava, Scorp, e eu sei que a gente só tá junto há pouco mais de quatro meses, mas eu estou feliz. Assustada, aterrorizada, completamente em choque, mas feliz.
— Eu te amo tanto, Rose – ele disse, afundando o rosto nos cabelos ruivos da mulher, inspirando seu cheiro, o cheiro da mãe de seu filho.
E foi assim que ele terminou o dia em um consultório médico, chorando e rindo ao mesmo tempo, abraçado a sua namorada, Rose Weasley.
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