500 Days of (Fa)Berry
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Notas iniciais
— Acho que nós deveríamos dar um tempo.
Levantei meus olhos do cardápio quase que imediatamente. E a encarei. Encarei aqueles olhos castanhos impassíveis bem à minha frente. O que ela estava falando? Como assim dar um tempo? Gostaria de ter visto minha expressão naquele instante. Ou pensando bem, não, não gostaria.
— Do que você está falando? — Questionei, tentando disfarçar minha surpresa em meio a uma risada fraca e sem sentido algum. Eu sabia sobre o que ela estava falando. Não era bem uma novidade, sendo tristemente sincera. Deus, como eu odiava ser sincera comigo mesma, algumas vezes. Quero dizer, Rachel andava meio estranha de uns dias, talvez um mês, para cá. E o mais engraçado era que eu havia notado aquilo. Não era óbvio demais que chegaríamos até aquele ponto? Porra, Fabray! Naquele instante, a última pessoa que gostaria de ser era eu mesma, porque, possivelmente, eu devia ter ferrado com tudo. Novamente.
— Dar um tempo — Repetiu ela com a mesma simplicidade da primeira vez, jogando calculadamente o cabelo castanho para trás da gola rolê do suéter. Eu gostava daquele suéter. Foi com ele que ela escondeu de todos no colégio as marcas que deixei em seu pescoço da primeira vez. Também gostava da forma em que ela jogava o cabelo, ou como falava rápido e eu tinha que me esforçar muitas vezes para entender e não contrariá-la pedindo que repetisse. Era tão sexy. Era tão ela. Céus, como eu detestava imaginar que memórias tão boas, detalhes tão importantes das coisas que eu gostava nela, seriam de agora em diante também detalhes do nosso rompimento. — Conhecer outras pessoas, talvez viajar, não sei... Parar de nos vermos com tanta frequência. Dar um tempo. Quero dizer, olhe onde chegamos, Quinn!? Olhe quem nos tornamos! Isso é normal? Céus, isso não é normal. Isso não é nem saudável. Para nenhuma de nós duas, e foi um ano tão importante para nossas...
— Saudável? Do que você está falando, Rachel? — Novamente cometi o erro de rir, e percebi que faço isso quando estou nervosa. Outro erro, porque Rachel virou imediatamente o rosto direto para um lado qualquer do restaurante com os lábios contraídos. Ela fazia isso quando estava perdendo a paciência. — Eu não ligo para isso, e-eu não ligo com essas coisas, Rach.
Ela voltou à olhar cuidadosamente para mim, porém, sua mão estava levantada, o que pedia silenciosamente que eu não voltasse a usar “Rach” no meio de uma discussão, e possivelmente, nunca mais em nossas vidas.
— Eu estou feliz. Você está feliz. Certo? Estamos felizes.
— Como você pode achar que eu estou feliz? Você está feliz? Como pode estar feliz diante tudo isso? Ótimo, acabo de estragar a palavra “feliz” por usá-la mais vezes do que necessário em uma única frase. — Ela disse recuperando o folego e colocando as mãos juntas sobre a mesa mais uma vez. Sim, ela iria continuar com aquilo. — Seja sensata, Quinn, nós não fizemos nada mais além de brigar de uns tempos para cá. Apenas isso. Discussões sobre discussões.
— Brigas são comuns. Todos discutem. Além do mais, isso não é inteiramente verdade.
Seus olhos se estreitaram em minha direção, e em uma situação comum, sabia que aquele era momento apropriado para sair do quarto e voltar após algum tempo. Talvez sem roupa alguma, quem sabe com uma toalha enrolada ao corpo porque iria atiça-la, e consequentemente, fazê-la rir diante da minha atitude. Gostaria de fazê-la rir ali também, mas sabia que não tinha jeito. Rachel era indomável.
— Eu não acredito que você disse isso. De qualquer forma, não é lá uma grande surpresa. Não é como assistir a premiação do Oscar e ficar surpreso se um alguém inesperado ganha. A não ser que esse alguém seja o DiCaprio, então seria surpreendente. — Rachel e suas referências. Eu poderia viver sem aquilo? Era tão gracioso como ela conseguia ligar qualquer coisa com qualquer coisa e fazer tanto sentido. Acho que esbocei um meio sorriso ali. — Você não percebe? Mais parecemos Shannon Beiste e aquele cara maluco da tevê.
Certo, eu poderia viver muito bem sem aquela última referência. Fiquei surpresa, e dessa vez, eu quem levantei a mão pedindo que ela parasse com aquilo. Por Deus, que coisa mais absurda! Nós não éramos como aqueles dois. Eu sabia que não. E ela também, afinal, eu conseguia lembrar perfeitamente de quando vimos ocasionalmente no jornal local aquela matéria sensacionalista sobre o “escândalo Menkins”. Era assim que todos chamavam. Falando de uma forma enxuta, o escândalo Menkins tratava do casal Shannon Beiste e Cooter Menkins, que era o âncora de uma emissora influente, e que havia sido acusado publicamente de espanca-la vergonhosamente. Rachel, na noite que vimos isso, ficou revoltadíssima. Ela odiava qualquer tipo de violência, e aquele caso era especial porque conhecíamos Shannon da época em que ela ainda lecionava no nosso colégio. Ela passou dias à fio falando sobre o quanto aquilo era revoltante, e que deveríamos visitar Beiste qualquer dia. Na noite mesmo, ela deixou de assistir o episódio que ela tanto esperava daquela série médica que todos transam no hospital, para digitar umas poucas e boas em sua página do facebook. Por isso, não, nós não éramos como os dois, tão pouco eu era como o nojento do Cooter, e foi exatamente isso que eu a disse.
— Não... Eu sou o Cooter.
Que merda era aquela? Então eu era a mulher louca e espancada que mesmo depois de tudo, defendia seu agressor e dizia que a culpa era dela? Que loucura. Eu deveria ter dito essas palavras em bom som, mas fique atônica e como não podia deixar de fazer, ri baixinho. Porra, Fabray. Onde estava a Rachel? Minha Rachel? Pensar aquilo fez minha garganta se comprimir, meus olhos já ardiam e estavam prontos para colocar para fora a qualquer momento toda a frustração daquela tarde. Eu sabia que ia acabar chorando. Por um milagre, a garçonete chegou com nossos pedidos e não precisei dizer mais nada, simplesmente desviei meu olhar por uns instantes, tempo suficiente para passar o dorso da minha mão no canto de um dos olhos e encarar aquela fatia generosa de torta de bacon e queijo. Era por volta das 17h00, e eu sabia que ainda ia me matar nos exercícios físicos para eliminar aquelas calorias, mas quando fiz o pedido pouco antes de chegar ao Breadstix; não pensei que iria me sentir tão culpada. Não pensei que aquela fatia pareceria tão indigesta. Pensei que seria apenas mais uma tarde com minha namorada, e eu amava bacon, ainda que Rachel fosse vegetariana, ela nunca havia reclamado. No fim, acho que estava me sentindo culpada por toda a situação, o que acabou contribuindo com a falta de fome. Que grande droga. Agora até o bacon iria me lembrar do nosso rompimento.
Era o cúmulo. Ela havia estragado e diluído minhas melhores memórias. E ainda veio com aquele papinho de “Vamos falar após comer, tudo bem?”, como se já não estivesse óbvio na minha cara que minha fome havia passado longe desde o momento em que ela começou com aquele discurso. Panquecas com morango e calda. Ela praticamente idolatrava as panquecas do Breadstix. Como eu senti nojo daquelas panquecas. Eu estava em tempo de armar uma guerra contra as panquecas. Eu sei, é ridículo, mas eu já me sentia ridícula demais para pensamentos plausíveis. Precisava sair dali. Não aguentava mais ficar sentada naqueles sofás vermelhos repugnantes. Não conseguia olhar para as pessoas no restaurante e não sentir uma vontade louca de perguntar aos berros se alguém estava tendo um dia tão ruim como o meu. Não aguentava olhar para Rachel ou ouvir o tilintar dos seu talheres enquanto cortava a massa. Olhei para ela mais vez. Então ela me olhou, e naquele instante, sabia que não veria aqueles olhos grandes e castanhos novamente. Não queria vê-los novamente. Arrastei meu traseiro para longe daquele estofamento incomodo, peguei minha mochila e os pompons que deixei encostado à mesa e saí pisando firme. Sem olhar para trás. Sem Rachel. Sem qualquer dignidade existente no meu ser. Acho que ela disse algo enquanto eu saia, mas honestamente, não tenho certeza. Pode ter sido coisa minha cabeça. Ela não estava mais ali, de qualquer forma. Só conseguia ouvir o chiado dos meus tênis molhados enquanto saia de lá. E isso me faz rir porque, estava chovendo faz tempo, e eu pensei que aquilo era um ótimo sinal já que fui liberada do treino das Cheerios e assim poderia me encontrar logo com ela. Acho que nunca estive tão errada. Pensei que estaria me protegendo da tempestade, quando na verdade, fui arrastada por ela.
— Daí você decidiu vir aqui? Logo hoje, quando eu disse que a Britt estaria aqui. — Santana estava de braços cruzados na minha frente. Quando saí do restaurante, fiquei meio desnorteada. Poderia ter dirigido de volta para casa, porém, não aguentei e acabei chorando por uma meia hora sem interrupções no carro. Ainda tinha aquele clima lá fora. E ótimo, mais uma coisa que eu gostava e que a Rachel me fez ver de uma forma destrutiva. A casa da Santana era a mais próxima do Breadstix, de qualquer maneira.
— Não fale assim com ela, Sant. — Brittany ponderou ao mesmo tempo que entrava no quarto com mais um cobertor preso ao braço, e que me entregou junto à xícara de chocolate quente. — A Quinnie está com o coração partido. E ela já explicou o que aconteceu.
Santana e Brittany eram minhas únicas amigas desde... Sempre? Não sabia com exatidão. O que sabia era que, mesmo que a Lopez fosse uma vadia às vezes, ela era uma das únicas pessoas com quem eu podia contar. A postura que ela adotava com os demais — Só deixe e Brittany fora do conceito de “demais” — era uma forma de proteção. Todos sabiam disso. Assim, eu nem ligava mais. Sem falar que, de coração, eu não conseguia me imaginar sem ela. Ou sem a Britt. Elas gostavam de mim, assim como eu gostava delas. Verdadeiramente. Outra coisa que eu sabia era que as duas formavam um belo casal. E eram tão diferentes. Gostaria de entender onde foi que errei quando tentei procurar essa felicidade com a Rachel. Não conseguia entrar na minha cabeça que tudo havia acabado, que não iria telefoná-la mais tarde, não iria mandar um “Durma bem, Rach. Te amo.”, nem nada. Santana sentou ao meu lado, ela havia enfim adotado uma postura mais complacente, passando os braços ao redor do meu corpo coberto e tentando me convencer de que o que eu estava passando era natural. E realmente, era. Ela até comentou sobre os meus outros relacionamentos que acabaram, e sobre o quanto eu havia passado por cima de todos, superando-os sempre qualquer empecilho. O que ela não entendia, e que fiz questão de frisar nas palavras que tentava tirar da garganta, era que todos eles eram diferentes. Talvez eu até tenha exaltado um pouquinho a voz, mas quando percebi era tarde demais para voltar atrás. De qualquer forma, Santana não pareceu se zangar. Provavelmente porque sua namorada estava lá, ou porque ela estava verdadeiramente respeitando minha situação. Ou tentando.
— Por quê?
— Porque é a Rachel. Você não entende? Ela é diferente de todas as outras pessoas que já me envolvi.
— É, ela tem uma vagina. — Olhei para Brittany. Por um momento, havia esquecido que ela estava bem ali, sentadinha no carpete do quarto com as pernas juntas ao corpo como uma criança que espera a mãe. Ela me soltou um daqueles sorrisinhos gentis tão típicos, e me resumi em respondê-lo da melhor forma que achei ali. Mas, sim, Brittany estava certa. Minha primeira experiência havia sido com Rachel, e o mesmo com ela. Pode parecer romantismo barato, mas acho que sempre pensei na Rachel, desde o momento que a vi, como alguém que ficaria comigo para sempre. Sabe aquilo de verdadeiro amor, felizes para sempre, e tudo mais que você aprende com os contos de fada? Então.
— Bem, o caso é que — Santana tomou as rédeas novamente, levantando-se também e indo ao meu encontro — Mesmo que isso me faça ter vontade de vomitar apenas por dizer, você ainda é uma das melhores pessoas que conheço. E não vá sair se gabando, huh? Você vai encontrar alguém, Quinn. Alguém melhor que anã.
Ela me abraçou. E foi um abraço daqueles que eu jamais veria Santana Lopez dando, se não em Brittany. Ela, aliás, também se aproximou e decidiu se juntar ao momento fraterno. Não tive como segurar minhas lágrimas, e chorei como no carro, chorei sem parar. Chorei tanto, tanto, que não consegui aguentar meu peso e desabei no chão do quarto. Eu ainda estava triste, e sentir o carinho das minhas amigas me fez sentir como se alguém aproximasse uma chama de um cubo de gelo. Que no caso, seria eu. As duas passaram o resto da tarde comigo. Brittany foi embora um pouco antes de mim porque sua irmã mais nova tinha um recital de clarinete, e ela devia comparecer para poder aplaudi-la. Fiquei mais uns vinte minutos na casa de Santana e decidi ir também. Ela me acompanhou até o carro, acho que ela estava fazendo aquilo para assegurar que eu não fosse endoidar e me juntar aos mendigos no fim da rua. Quando entrei no carro, ela abaixou-se e pediu — no bom e velho jeito Lopez de ser — que eu ligasse quando chegasse em casa. Concordei. Antes de dar a partida, porém, coloquei minha cabeça para fora da janela e falei:
— Santana — Ela já estava indo para casa quando virou-se ao meu encontro — Acho que eu não quero superá-la.
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