50 tons de submissão
6 Capítulo Seis - Dueto
Notas iniciais
Sarah não dormiu na casa dele, enquanto Henri a desamarrava, ainda nu, ela pensou se devia perguntar ou não quem é Kaya. Sentia-se humilhada por estar naquela situação. Por ele estar transado com ela, pensando em outra. Quem raios é Kaya?!
‘’Boa noite, senhorita’’ – Henri disse antes de Sarah se aproximar e beijar-lhe. Ele retribuiu o beijo e depois a afastou com o braço esquerdo. Seu rosto transparecia calma. – ‘’Durma bem’’ – e fechou a porta.
Sozinho enfim, foi até o banheiro. Primeiro lavou as mãos, esfregou bem a palma, os dedos, as unhas bem cortadas. Em seguida lavou o rosto desesperadamente, lavava o cabelo, os cotovelos, o pescoço. A água fria em contraste com a pele branca e quente. Quando entrou no box deixou que o chuveiro fizesse seu trabalho. E estranhamente ele chorou, chorou como bebê. Gritou. Fez birra. Ele não chorava há anos desde a última semana. Eram tantas lágrimas. Tantos segredos escondidos. Sentou no chão sentindo a fria água sob o liso cabelo negro.
De manhã cedo, Kaya já estava de pé. Arrumava o pequeno e colorido apartamento. A sala tinha uma cor laranja, as paredes eram repletas de imagens dela com Julietta. Elas pequenas, algumas recentes, ainda na Inglaterra. Outras na Alemanha, quando foram em Berlim. A casa grande e escura em uma delas ainda estava ali. Tinha também fotos com parentes, os pais de Julietta quando ainda estavam vivos. Os pais de Kaya, seu irmão mais velho que há pouco se formou em medicina tornando-se assim o orgulho da família. Mais parentes, amigos e amigos. A música (Daughter — "Candles") preencheu o silêncio que estava a casa, era seu celular. Pensou em deixar tocar, mas era Oliver. Seu melhor amigo desde que havia chegado há França. Conhecera Oliver na faculdade, ele falava fluente inglês e quase sempre se comunicavam em inglês. Ele dava-lhe caronas já que eles moravam no mesmo bairro.
‘’Bonjour’’ – falou Oliver.
‘’Bom dia, Oliver. Não passam das oito, por que já está acordado?’’
‘’Consegui ingressos para nós’’ – dizia ele com tamanha animação – ‘’É um bar só com pessoas influentes, Kaya. Música boa, comida boa, bebida excelente. Tudo de graça’’ – ela podia ver Oliver dando pulinhos do outro lado da linha.
Era cedo e já estava cansada, não queria sair mais tarde. Respirou fundo pensando que era por Oliver, o amigo que sempre a ajudara. Sempre.
‘’Que legal! Vamos direto da faculdade?’’ – perguntou ela, fingindo animação.
‘’Sim, portanto, capriche!’’ – ele disse, desligando. Kaya caiu no sofá pensando em qual roupa usaria. Gostaria que essa festa fosse mais influente, quem sabe Henri não poderia estar lá? A ideia lhe causou verdadeira animação, se fosse ele que estivesse a convidado... Não saberia como reagir. Julietta chegou à casa instantes depois, trazia consigo mais roupas de crianças. Kaya a ajudou com algumas sacolas.
‘’Então você tem um encontro hoje’’ – a amiga sentou no sofá, fatigada. Kaya franziu a testa.
‘’Encontro?’’
‘’O Oliver’’ – respondeu Julietta
‘’Ah, não. Não é um encontro. Vamos apenas sair.’’ – Kaya começou a tirar algumas roupinhas das sacolas. Ficou maravilhada, cada roupinha mais bonita que a outra. Tinha rosa, azul, vermelho, verde.
‘’Quando vai notar que ele não quer ser apenas seu amigo, Kaya?’’
‘’Quando você notar que essa estória é ridícula, o Oliver é meu amigo e sempre será assim’’ – Kaya falou sem dá muita atenção para aquela ideia esdruxulamente ridícula de Julietta. Julietta por sua vez abriu uma das sacolas, Kaya ficou espantada com o vestido que a amiga desdobrava.
‘’Que lindo!’’ – ela falou admirando o vestido rosado. Era perfeito, discreto e lindo.
‘’Eu comprei pra você’’ – a reação de Kaya foi um pouco exagerada, abraçou a amiga com tamanha agitação que Julietta quase grunhiu de dor. Suas costas viviam doendo.
‘’Desculpa, desculpa’’ – sorria Kaya, levantando com o vestido e já tirando a roupa – ‘’Obrigada, obrigada, obrigada’’
Julietta ria.
No escritório, Henri termina de ler mais papeladas. Ao seu lado havia um forte café que ele sempre tomava, seu verdadeiro companheiro. Como ele preferia chamar. Teria uma reunião às onze da manhã e logo depois iria para casa, tentaria descansar para mais tarde. Iria para inauguração de um bar. O dono era um antigo amigo seu, da faculdade. Assinava mais papeladas e algumas simplesmente guardava para ler em casa, milhares de protocolos. Seu telefone tocou.
‘’Sim’’ – ele falava com sua secretária – ‘’Reuniões hoje não. Ah, tudo bem. Marque essa entrevista daqui a alguns meses. Não tenho tempo para fofoca, Shane’’ – disse ele com um tom humorado. Desligou em seguida. Era a mesma jornalista que havia entrevistado Kaya. E, a propósito, Henri assistiu a entrevista de Kaya pelo celular. Estava em quase todos os sites. Era bom saber que eles eram apenas amigos. Balançou a cabeça, afastando o rosto da garota da cabeça. Ele não conseguia esquecer-se dos olhos mel.
A loja estava lotada e Kaya precisava ser ágil para atender os clientes. Alguns torciam a boca, a olhavam torto, outros, nem encaravam a moça. Depois de mais uma longa tarde, com reclamações e exaustão. Ela se maquiava em frente ao espelho da loja. Estava magnifica. O vestido era elegante e o salto dava-lhe um diferente ar. Ela andava bem de salto.
‘’Uau’’ – Oliver não deixou escapar, seus olhos brilhavam – ‘’Você está... Esplendida’’ – dizia ele quase sem ar. Kaya sorriu torto. – ‘’Que tal se filássemos a aula de hoje?’’
‘’Hum... Não sei’’ – confessou ela – ‘’E o que faríamos até a festa? Faltam três horas’’
‘’Primeiro, você poderia esperar eu me arrumar também’’ – começou ele – ‘’Depois podíamos fazer um esquenta em um barzinho perto. Topa?’’
Em casa, Henri terminava de ler alguns contratos. Alguns eram em outros idiomas, ele precisava de atenção. Sua roupa para festa já estava passada perfeitamente em cima da cama, ele mesmo arrumava, passava e lavava suas roupas. Enquanto duas vezes na semana a diarista ia limpar a casa. O velho piano estava no sótão. Aprendera a tocar piano aos doze anos, sempre fora fascinado por Beethoven e Mozart. Sempre que estava em apuros, socorria para o piano. É o que estava fazendo agora. Tocava moonlight sonata, uma das suas favoritas de Beethoven. Quando era menor, imaginava-se em pleno voo. Esquecia todos os traumas e problemas que carregava consigo. Sempre odiara essa mania de carregar os problemas nas costas e sair por aí. Agora, já grande, ao fechar os olhos, continuava-se imaginando em voo. É preciso saber voar quando se ama o abismo.
Oliver não demorou em se arrumar, apenas passou mais uma vez o gel no cabelo e perfume.
‘’Você continua o mesmo’’ – brincou Kaya. Ele retribuiu dando-lhe língua.
Foram então para um barzinho burguês. Estava um pouco cheio. Pediram duas vodcas de início. Oliver tomou tudo em apenas um gole. Sentiu a garganta queimar
‘’Vá com calma’’ – Kaya alertou-o. Oliver riu e pediu outro.
‘’Então, você e o senhor Henri...’’ – começou ele, olhando para a garota em sua frente. Ela estava linda, nunca a virá tão linda como hoje.
‘’Não volte com isso, Oliver’’ – ela começou a beber – ‘’Ou vai querer que eu te relembre sobre sua ex?’’ – provocou-lhe. Oliver fez cara de choro. Riram.
‘’Ela era uma puta’’
‘’Uma puta gorda’’ – acrescentou Kaya. – ‘’Uma puta gorda vaca’’
‘’Uma puta gorda vaca vadia’’
Beberam e ficaram brincando de xingar os outros.
Eram 22:00. Henri já estava no trânsito. Teria que tocar, a banda havia cancelado a participação em cima da hora. Seu amigo praguejava, ainda teria que arranjar algum cantor ou cantora. Algo difícil de achar àquela hora.
No carro vizinho, em um táxi, estavam Kaya e Oliver. Oliver estava alcoolizado, a quantidade de álcool que Kaya ingeriu não a deixou alcoolizada, a deixou mais desinibida. Ao seu lado, Oliver acabou apagando, estava completamente alcoolizado. Kaya pegou os ingressos no bolso da jaqueta dele e pagou para o taxista para deixá-lo em casa. Saltou do táxi relutante, algo dizia que era importante ela ir. Havia dois jovens na entrada e três seguranças. Um dos jovens pegou em sua mão e a puxava consigo, falava algumas coisas sem nexo, rápido demais. Kaya o olhava confusa.
‘’Pronto, queridinha. Você já está aqui. Você sabe cantar. Só precisa brilhar’’ – falava o jovem para Kaya, arrumando seu cabelo. Ela com certeza estava sendo confundida com outra garota. Mas continuou calada, ela sabia cantar. Não havia nenhuma mentira. Desequilibrou-se quando o jovem a empurrou para frente.
‘’Só’’ – ela disse – ‘’Qual a música?’’
‘’A letra estará bem ali’’ – ele apontou para uma caixinha no canto do palco. A cortina preta a afastava do público, mas era possível ouvir o alvoroço das pessoas. Algumas chegavam, outras bebiam e conversavam. Reencontrando velhos amigos.
Um segundo antes do abrir das cortinas e dos olhares do público, Henri chega correndo com o violão na mão. Olhava confuso para Kaya. Mas não teve tempo para pensar, as cortinas abriram-se e a música já começara a tocar. Por sorte, Kaya conhecia a música, adorava Joni Mitchell.
"I am as constant as a northern star"
Ela começou a cantar. Henri a olhava, maravilhado. Kaya mantinha os olhos fechados. Algumas pessoas cochichavam baixo, outras, estavam tão maravilhadas, como Henri, que apenas mantinham a boca entreaberta.
‘’Oh I could drink a case of you, darling’’ – ela cantava, elevava a voz tão perfeitamente. Seus agudos eram perfeitos. — ‘’ I remember that time you told me, you said’’
"Love is touching souls" – Henri fez a segunda voz, ainda tocando o violão. O público gritou nessa hora. Ele também cantava bem, sua voz era rouca.
‘’Surely you touched mine cause part of you pours out of me’’ – eles cantavam em um dueto lindo. – ‘’Oh, you're in my blood like holy wine’’
‘’You taste so bitter and so sweet’’
‘’Oh I could drink a case of you, darling’’ – ambos trocaram olhares nesse momento.
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