50 anos em 3 meses
8 Capítulo 8 - FINAL.
Notas iniciais
Obrigado a todos que leram até aqui.
Queria agradecer as minhas amigas e amigos de escola, principalmente você Maria que está lendo isso.
Até hoje me lembro de quando eu passei por minha primeira perda. Era meu cachorro que morreu atropelado quando eu tinha 14 anos. E o sentimento é igual. Primeiro, vem o tsunami de emoções. Depois, vem as lágrimas que não param de escorrer pelo rosto. Seu mundo começa a perder o chão, o sentido da sua vida não tem importância. Seu corpo se encolhe instintivamente. Você quer sair correndo gritando agoniado. Mas só consegue ficar parado e soluçando.
Minha mente estava se esforçando para trazer lembranças boas no intuito de fazer passar essa dor. Cassandra... Ela não podia... Esse nome, a cada vez que eu pensava nele, meu cérebro dava uma pontada de dor agonizante. Cassandra. Morta.Lembrei de quando eu tinha 8 anos, e minha mãe sempre brigava comigo quando eu ficava vendo televisão depois das 10 horas da noite. Lembrei de quando eu tomei banho de mangueira sem consultar meu pai, e eu me sentia a pessoa mais rebelde do mundo. Eu estava perdido em lembranças, algumas boas, outras ruins. Mas nenhuma fazia essa dor passar. Sinto as mãos do paramédico me tocando para tentar me confortar.– Não.. preciso. — tento falar com ele mas nada sai. Apenas uma voz rouca. – Não estou tentando te confortar. Essa dor que está passando vai doer, vai agonizar durante um bom tempo. Mas, assim como as coisas boas passam, as ruins também.Não falo nada. Estava mantendo minhas forças para se levantar. Minhas costelas possivelmente fraturadas estavam doendo, meu tórax estava ardendo. Minha boca estava seca por conta das lágrimas.A ambulância deu um tranco e parou. Ouço várias vozes e sirenes do lado de fora, provavelmente chegamos no hospital. As portas traseiras se abrem de repente, e mais três paramédicos se apressam para me carregar junto com a maca. Um deles pressionada sua mão no meu tórax firmimente. O pouco que consigo ver na minha visão periférica, vejo viaturas, várias pessoas em volta, e até um jornalista com um microfone na mão falando com a câmera enquanto aponta para mim. Mas nada disso me importava. Depois de passar pela recepção e pelo elevador do prédio, me dirigam para um quarto. Dessa vez duas enfermeiras chegaram e ajudaram os outros a me colocar na cama. Calmamente, cada um me pega em uma parte do corpo e fazendo esforço me coloca na cama.Antes de minha consciência mergulhar na escuridão novamente, ouço vozes de minha mãe chorando aos gritos e entrando no quarto. &&&&&&Lentamente abro as pálpebras dos meus olhos. Então percebo que estou no quarto de hospital ainda. Por incrível que pareca, toda a dor que eu sentia estava desaparecida. Tento esforçar e levantar, mas quase todo o meu corpo estava enfaixado e os braços engessados. Com a minha visão periférica consigo ver minha mãe do meu lado em um sono profundo. Tento fazer um barulho com a boca, e saiu bem baixo, mas foi o suficiente para ela dar um pulo de susto e me olhar.Ela estava acabada. Seus olhos vermelhos, seus cabelos desarrumados, suas blusas abarrotadas, olheiras profundas.– M-mãe.. — minha voz estava tão baixa que nem eu mesmo conseguia ouvir.Com lágrimas nos olhos minha mãe levanta em um pulo e vem em minha direção. Ela segura minha mão, que inclusive era a única parte do corpo que não estava enfaixada ou com gesso, fora a minha cabeça.O aperto era forte. Tão forte que chegava a incomodar. Mas então, redobro a consciência e lembro de tudo.Cassandra.Lágrimas começam a escorrer sem que eu deixasse, e de algum modo minha mãe sabia o porque das lágrimas.– Sim. Eu sei. Cassandra... — ela começa mas ao ver meu rosto a cada vez que aquele nome é pronunciado, ela se interrompe. – Filho, essa dor irá passar. Ela era uma pessoa muito boa, mas infelizmente não teve a mesma sorte de você. — ela me dá um abraço desajeitado, fazendo o possível para chegar perto de mim. Tento responder, mas não consigo. Eu sentia que aquela dor nunca iria passar, e eu iria ficar assim o resto de minha vida.– Você será liberado daqui a pouco, só faltam os médicos tirarem essas faixas e esses gessos. – Quanto tempo eu dormi? — perguntei.– Você não dormiu. Entrou em coma.Aquilo me deu um susto. Parecia que se passaram minutos desde que eu cheguei no hospital.– Quanto tempo?– 10 dias. &&&&&&Eu estava deitado em meu quarto olhando pela janela. Lembranças boas de Cassandra vieram a minha mente. Demorei para conseguir pensar no nome dela sem chorar. Já se haviam passado 6 meses do acidente, e meu corpo estava completamente regenerado, exceto os vários sinais e cicatrizes que ficaram.Essa janela.. tantas lembranças. Quando ela invadiu meu quarto. Quando, de repente, meu mundo virou de cabeça para baixo. Mas, infelizmente, nada é para sempre. Principalmente as coisas boas. Eu nunca fui religioso, nunca acreditei em vida depois da morte. Mas agora eu sei o propósito da religião. O seu propósito é confortar as pessoas que perderam parentes queridos. Eu por exemplo, não consigo aceitar a idéia de que Cassandra simplesmente deixou de existir, suas ideologias, sua mente.
Como eu já li em um livro, o ser humano não é feito apenas de carne e osso. Mesmo se você retirar isso tudo, ainda sobrará uma parte que não pode ser tocada. A alma. E isso, foi o principal motivo da minha superação.Ela ainda não morreu. Começou outra vida. A vida é igual um video-game. Você morre, respawna. Não teria propósito existir tudo isso, um universo, para nada. A vida não é apenas questão de sobreviver, e sim de viver.As conquistas, o dinheiro, o trabalho, o conhecimento, de nada valeria se não existisse nada após a morte.Passei a mão pela minha cabeça, que a esta altura já estava careca. Nesses 6 meses passei fazendo quimioterapia para aumentar meu tempo. Eu estava sendo castigado pelos efeitos colaterias, mas isso me garantiu mais tempo na terra. Mas, o inevitável irá acontecer em breve.Eu estava morrendo de medo de morrer de câncer, mas agora não estou mais. Estou o oposto disso. Estou curioso. – Cassandra, estou indo te encontrar. — pensei comigo mesmo.Se uma pessoa viesse me perguntar hoje se minha vida valeu a pena, eu iria ter uma resposta muito simples.– Em poucos meses, tenho mais histórias para contar que pessoas que irão viver 50 anos.
Notas finais
:)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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