50 Tons de Vida
4 Capítulo 3
Notas iniciais
Lábios...
Os lábios mais macios que já senti executam uma leve pressão sobre minha pele arrepiada.
— Baby!? – Os lábios agora fazem um caminho desde minha nuca até o meio das minhas costas.
— Hm... – Um gemido de satisfação escapa pelos meus lábios o fazendo interpretar como uma deixa para refazer o caminho de fogo em direção a minha nuca, levando seus lábios ate meu ouvido e sussurrando.
— Esta na hora de acordar e me dar meu beijo de bom dia.
Viro-me preguiçosamente em sua direção fazendo com que o lençol de cetim branco deslize facilmente pelo meu corpo nu, mãos inquietas acariciam a pele que foi revelada de meus seios e barriga. Ainda de olhos fechados aprecio seu carinho que faz com que eu me sinta tão bem, parece que finalmente eu estou saindo da escuridão e indo em direção ao Sol.
A brisa de Seattle balança as cortinas levando um frescor revigorante para meu corpo junto a uma risada gostosa e sexy que enche meu ser de alegria e afeto. Ele esconde seu rosto no vão do meu pescoço me chamando novamente.
— Vamos Sra. Grey! Hum? Abra esses lindos olhinhos para mim.
Mesmo suave a sua voz faz com que eu acate seu pedido imediatamente. Abro meus olhos piscando várias vezes na tentativa de me acostumar com a luz do Sol que emana da enorme janela atrás do corpo másculo ao meu lado. Sinto seus dedos delicadamente guiarem meu rosto para cima e então vem à constatação. Olhos cinza nos azuis. Estou perdida. Perdida na imensidão de seus olhos frios e profundos. Um oceano cinza de informações. E então como um radinho velho perdido no meio do oceano revolto, as lembranças são transmitidas rapidamente em frequências balançando o barco de um lado para o outro me levando para perto de mais da borda.
Minha primeira químio, o café sendo derramados, olhos frios, solidão, a entrevista, a batida. Acordo ofegante como se me recuperasse de um afogamento, levo minha mão até a cabeça tentando entender o que aconteceu e afastar os sussurros gritados que invadem o quarto.
— Eu não acredito Christian! Não acredito que ela ainda está aqui.
— Eu não acredito que VOCÊ ainda esta aqui Leila. Eu já mandei você ir para casa. Pare de me estressar.
Faço uma leve varredura com os meus olhos pelo quarto escuro tentando achar as vozes “sussurradas”; olho em direção a porta entre aberta onde um feixe de luz projeta as duas sombras brigonas na parede.
— Eu não estaria o estressando se não fosse pelo fato de ter uma vadiazinha sem sal dormindo na sua cama. Nem a mim, você deixa dormir na sua cama. Ela nem é sua sub...
Vejo a sombra de Christian passar a mão exasperadamente pelos cabelos antes da mesma puxar Leila pelo braço rudemente e começar com seu tom firme e suas sentenças esmagadoras.
“Nós conhecemos bem esse tom.”
— BASTA LEILA! Porra, quem você pensa que é para me colocar contra a parede e exigir satisfações? Vá AGORA para casa e espere ate que eu te ligue. Deixe-me lidar com isso em paz.
Vejo então uma terceira sombra se aproximar, deixando Leila passar esbarrando em seu ombro. Ouço os saltos ecoarem cada vez mais distantes e Christian suspirar.
— Deseja alguma coisa senhor?
— Não Taylor. Apenas leve Leila para casa em segurança.
— Sim, senhor.
Fico imensa e estranhamente feliz de saber que Leila não dorme em sua cama. -A cama que nós dormimos, boba!— Minha deusa interior da uma pirueta no ar. Isso faz com que eu me aconchegue mais às cobertas. A porta começa a se abrir, fecho meus olhos rapidamente e finjo estar como há minutos atrás.
Ouço passos ecoarem pelo assoalho até que eles param de um súbito. O que será que houve? Será que se arrependeu de mandar a vaca embora? Instantaneamente esse pensamento se vai assim como uma brisa calmante no tempo, pois meu rosto começa a queimar e não sei se é por corar ou pela sensação estranha que cresce dentro de mim. Abro meus olhos e me arrependo no mesmo instante que me deparo com duas íris cinzentas borbulhando de irritação. Então era isso que está me causando a tal sensação? -Porque você está preocupada com isso? Temos dois olhos famintos nos encarando, dê um jeito nisso agora!- Minha deusa interior me alerta para o perigo.
Levanto de um súbito e sinto uma vertigem devido ao movimento rápido. Com isso, levo a mão na testa e volto a repousar no leito.
— Você está bem? – Uma voz preocupada ao meu lado me desperta e olho na direção do belo homem ao meu lado.
— Sim, sim... É só uma tontura. – Respondo fracamente. – Quem sou eu? Onde estou?
Tá, eu não estou tão confusa assim, mas devido ao seu olhar intenso, resolvi usar essa tática. Mas pelo visto, não foi uma boa tática assim, pois seus olhos de preocupados passaram a ser ferozes.
— Eu não sei. Você que resolveu cair em meus braços depois de se jogar na frente do meu carro.
Encolho mentalmente com seu tom grosseiro. Meus olhos nunca desgrudando de minhas mãos entrelaçadas em meu colo.
— Desculpe, eu não queria aborrecê-lo. – Digo baixinho.
Ele solta um longo suspiro e pela sombra, vejo-o se mover em seus pés. Deduzo estar ajeitando seu terno que deve estar perfeitamente alinhado em seu corpo. Levanto um pouco meu olhar e confirmo minhas suspeitas. Nossa como ele é lindo, Deus!
— Mandei Taylor comprar roupas novas. Troque-se antes que pegue um resfriado. – Ele resmunga e começa a fazer seu caminho até a porta.
Resfriado? Eu não me sinto encharcada como antes, quer dizer eu me sinto ate seca de mais para quem ficou tentando manter um diálogo civilizado com um bastardo. Um bastardo lindo e gostoso que me viu de calcinha e sutiã. Calcinha e sutiã? Mas o que... Só então eu percebo que estou apenas de calcinha e sutiã na frente do homem que possivelmente seria meu chefe. Será que foi ele que... Sinto meu rosto esquentar com o pensamento e tento cobrir meu corpo abraçando-o. Ele para no meio do caminho, me lançando um olhar inquisidor interrompendo meus devaneios como de praxe.
— Aguardo a senhorita na sala.
E com essa última ordem, ele se vai pela porta, deixando comigo seu perfume delicioso, inebriando-me até a alma. Suspiro e me levanto, um pouco cambaleante. Merda, ainda estou fraca de minha sessão de químio. Abro as sacolas que ele deixou em cima da poltrona à frente da cama e bisbilhoto atentamente. Arregalo meus olhos instintivamente ao me deparar com as etiquetas escritas ‘‘Neiman Marcus’’. Essa loja é super, hiper, mega cara. Senhor, como eu irei pagar por isso? Nem emprego eu tenho. Bem, mas se ele pediu-me –mandou-me— para vesti-las é melhor não contestar. Dou de ombros e rapidamente me visto com as lindas e caras roupas de grife, jurando a mim mesma que irei pagá-lo por isso.
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Instantes depois saio do enorme quarto -seu quarto— e sigo pelo grande corredor, sem saber para onde ir. Um suspiro sai de meus lábios com as lembranças de ter estado a poucos minutos emaranhada nas cobertas do grande Christian Grey. Ah, eu devo esta em um sonho muito bom. Bem, não muito bom se analisarmos a grande carranca do suposto homem assim que chego ao que parece ser sua sala.
— Olá, senhor Grey.
Abaixo a cabeça assim que vejo seu olhar efusivo em mim. Urgh, porque ultimamente só consigo ter essa reação a ele?
— Já não era sem tempo. – Ele resmunga, como de costume. – Siga-me. – O sigo até o que parece ser a sala de jantar. – Sente-se. – Ele ordena, logo depois de se sentar.
— Desculpe pelos transtornos, senhor Grey.
— Ah, agora você se lembra? – Não pude deixar de notar o sarcasmo em seu tom, apesar de duro e seco.
Respiro fundo e engulo uma, duas, até três vezes.
— Sim, e eu queria dizer que pagarei pelo conserto. – A última palavra sai baixinha, devido seu olhar incrédulo, me observando fixamente. – E também pagarei por essas roupas, senhor.
Ele praticamente começa rir de mim, fazendo-me sentir mais estúpida do que o necessário.
— E vai pagar como? Se nem emprego você tem. Pelo que eu saiba, a pouco tempo atrás você estava me perseguindo por causa de emprego, certo?
— Sim, e eu gostaria muito que o senhor me desse uma chance. – E assim eu começo a minha batalha em lhe implorar uma única vaga na melhor empresa do país, pra não dizer global. – Por favor? É só uma...
— Coma. – Ele me corta, friamente.
Olho confusa para seu súbito mal humor. Hum...? Ele não vai nem me dar uma chance de explicar meu atraso na entrevista? Ao perceber que ele já começa a degustar do belo prato que uma senhora loira baixinha vem servir, me calo e começo a desfrutar do banquete a minha frente. Bem, desfrutar não é a palavra certa para quem tem enjoos constantes depois de uma sessão de quimioterapia, né. Mas, eu segui o seu conselho e apesar dos malditos enjoos, desfruto de boa parte da refeição.
— Vai comer só isso? – Assusto-me um pouco com seu modo enervante de falar.
O que há com ele?
— É que não estou com muita fome, senhor Grey.
Sua testa franze conforme minhas palavras e ajeito-me na cadeira para aguentar a próxima patada.
— Deveria se alimentar bem. – Uma ríspida e ácida frase é o menos agressivos das respostas que ele tinha me dado até agora.
— Senhor Grey, desculpe incomodá-lo com isso novamente, mas eu... Eu... – Gaguejo um pouco diante de toda sua atenção voltada para mim. O que falar pra ele? Que perdi a entrevista por causa da minha paranoia com café? Respiro fundo e digo a única coisa que me vem à mente: – Eu gostaria muito do emprego, senhor. Eu preciso muito.
Olho para ele, um pouco esperançosa, mesmo com sua expressão de desgosto. -Fé, Anastásia. A fé move montanhas!- Minha subconsciente sibila pra mim e me acalmo com isso.
— O que te faz pensar que uma garotinha como você está apta para ocupar um de nossos cargos?
Minha esperança morre junto com a minha fé ao ouvi-lo tão altivo.
— Bem, já que tocou no assunto eu creio que...
— Não precisamos de seus serviços, senhorita. – Ele me olhos de cima a baixo com um misto de desprezo e arrogância. – Seja lá qual for ele. Não preciso de pessoas irresponsáveis com horários no meu staff. – Ele tira o lenço que nem tinha o visto colocar no colo. – Já acabou? – Assinto de cabeça, sem ter qualquer coragem de dizer algo. – Ótimo Taylor levará a senhorita para a casa.
A forma brusca com que ele fala comigo e praticamente me expulsa da mesa faz com que uma raiva incrivelmente revolucionaria e maior que todo meu pudor caia sobre mim .Sim eu causei muitos problemas, mas ninguém merece ser tratado assim. Quem ele pensa que é?
Minha Deusa interior me olha com os olhos semicerrados. Ela leva os indicadores ao rosto fazendo dois traços com tinta preta como se estivesse se preparando para guerra. Ao fundo o rádio de seu quarto de decoração dos anos 90 toca Whole Lotta Love do Led Zeppelin, fazendo-a se sentir mais confiante.
“Hora do show Aninha.”
Vejo seu motorista se aproximar, levanto da mesa e surpreendo a mim mesma com o meu tom de mulher segura.
—O Senhor tem toda razão. – começo a falar ele larga seus talheres no prato e ergue seu olhar em minha direção. — Afinal eu também não preciso dos seus “serviços” de caridade para comigo. – Taylor tenta me alertar da briga que estou comprando puxando meu braço e soltando um baixo “Vamos senhorita”, eu puxo meu braço de volta com brusquidão e continuo com meu discurso revolucionário.
— Não preciso de suas roupas caras, afinal eu mesma não tenho “o perfil” para vesti-las. – levo minhas mãos ate a blusa de seda retirando-a e jogando a mesma em cima da mesa fazendo os dois homens a presentes arregalarem os olhos diante a minha atitude ousada. Christian se levanta rapidamente de sua cadeira e vem em minha direção eu contorno a mesa tentando me livrar de sua aproximação.
— Não preciso de emprego em sua empresa, tenho absoluta certeza que tenho capacidade de arrumar algo muito melhor. — Retiro a saia e ficando apenas de lingerie na sua frente. Observo seus olhos escurecerem do outro lado da mesa.
— Eu só preciso... – Ando em direção a Taylor que arregala ainda mais os olhos para Christian pedindo ajuda, pego minha bolsa em cima do sofá e refaço meu caminho em direção à saída. -Eu só preciso das chaves do meu carro. E ah... Não se preocupe quanto a minha condição financeira eu irei pagar pelo conserto. – Ele me olha como se não acreditasse no que estava acontecendo.
Aperto o botão do elevador furiosamente querendo que o mesmo chegue logo antes que o acesso de raiva passe e me impeça de andar na rua sem roupas. Tento acalmar minha respiração ofegante devido às altas doses de adrenalina que correm por todo meu corpo. Aperto o botão que acredito ser do térreo e antes que as portas se fechem tenho a oportunidade de ver seu olhar incrédulo e de encerrar meu pequeno show.
—Mas pensando bem eu fico com os sapatos, é a única coisa boa que eu posso tirar disso tudo. Afinal eu ainda tenho meus pés no chão à única diferença é que agora eu estou usando sapatos melhores.
Encosto no fundo do elevador cruzando os braços e me sentindo sexy. Assim que as portas se fecham solto um suspiro de alivio e começo a rir de mim mesma.
Quando eu chego na recepção todos olham em minha direção chocados. Ignoro os olhares indiscretos e reprovativos e continuo caminhando em direção à saída. Ate que um gritinho de surpresa escapa quando sou erguida do chão jogada como um saco de batatas sobre os ombros do bastardo de cheiro inebriante. Ele caminha como se nada estivesse acontecendo em direção ao elevador. Assim que a porta do mesmo se fecha sou colocada no chão, nem tenho tempo de respirar e ele logo começa a gritar.
— MAS QUE PORRA VOCÊ ACHA QUE ESTA FAZENDO?
— Eu não acho nada. Eu estava indo para casa como você mesmo mandaria se tivesse sido mais rápido.
— E você acha que em algum momento estava em meus planos deixa-la ir para casa apenas de sutiã e calcinha? – solto uma risada debochada.
— Eu nem cheguei a cogitar a possibilidade de fazer parte de seus planos, Senhor Grey. Sinto-me honrada?No mais... Por favor, poupe o seu tempo e me entregue minhas chaves. – digo petulante ajeitando o nó de sua gravata.
Num piscar de olhos ele retira minhas mãos atrevidas de sua gravata as erguendo na altura da minha cabeça e me imprensando sobre a parede fria do elevador. Nós dois nos enfrentamos com o olhar cara a cara. Omg! Ele vai me matar. Ele esta espumando de raiva. Então como magica seu aperto em meus pulsos se afrouxa e seu humor muda completamente de furioso para algo que não consigo identificar, mas que emana tranquilidade.
— Jante comigo?
— O que? – Pego minha bolsa no chão a ajeitando em meu ombro e então só agora percebo que o elevador estava parado. Ele ficou louco?
— Jante comigo esta noite.
Meu olhar espantado faz com que ele complete a frase a tornando mais coerente para mim.
— Jante comigo esta noite para resolvermos toda essa... – seus olhos caem sobre meu corpo ao mesmo tempo em que procura pelas palavras certas. — Coisa sobre seu carro e tudo mais.
— Eu não acho que seja necessário um jantar para resolvermos essa questão e... – percebo que seus olhos permanecem em meus seios. – Pelo amor de Deus! Será que da para olhar para o meu rosto, a situação é que...
— Desculpa. – Vejo um sorriso contido brotar no canto de seus lábios.
— Bem, eu aceito suas desculpas. Em relação ao jantar...
— Não, não desculpa por isso. Aceite o jantar como uma forma minha de me desculpar pelo modo rude que a tratei hoje, que a levou a sair praticamente nua na rua. — Solto um suspiro pesado de derrota.
— Ok, eu aceito seu convite. Unicamente porque sei que não vamos chegar a nenhum entendimento. Agora por favor, eu gostaria de voltar ate seu apartamento e ter minhas roupas de volta.
“Isso Aninha! Mostra quem manda”.
Viro-me em direção a porta de metal e a encaro, ele rapidamente se aproxima do painel digitando um código que faz com que o elevador volte a se movimentar.
Depois de devidamente vestida (claro que com as minhas roupas) e de recusar veemente que seu motorista me levasse eu consegui chegar em casa, mas com a promessa silenciosa de que hoje exatamente as 20h muita coisa iria mudar.
notas finais
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