50 Tons de Uma Cor Vibrante
6 Capítulo 6 - A outra face do Prisma
Notas iniciais
Não posso me esquecer de começar a me preparar para a formatura, foi tanta coisa que terminei por coloca-la no fundo da mente. Não me pergunte como, mas me escolheram como orador da turma. Isso deve ser visto como uma honra, e eu talvez visse dessa forma se estivesse em Seattle no meio de todos aqueles que conhecia. No entanto, aqui se trata apenas de mais uma coisa que eu farei por ser um robô que precisa ser bom e provar o meu valor para as pessoas. Agora com toda a produção do musical, o voluntariado no hospital, sinto minha cabeça breve a explodir. Isso pode ser algo bom, porém tudo está mais do que diferente, está evoluído.
Dividido entre as últimas aulas, os ensaios e Penny, noto que mal tenho tempo para respirar. Em contraposta isso me faz lembrar cada vez menos da minha família. Sabe aquelas pessoas que vemos todos os dias nas ruas e olhamos em seus rostos e não as conhecemos? Essa é a minha sensação com relação à eles. Tudo resume-se a uma palavra simples: Readaptação. Comparando meus conceitos de seis meses atrás, estes que agor apossuo seriam bem diferentes. Seriam libertadores.
Acredito que passamos a vida toda buscando a independência e, ainda que, isso não fosse algo que busquei naturalmente as coisas estão andando. Claro, de uma forma estranha, porém tudo parece tão mais rápido. Nada que ligue a Christian Grey, o grande empresário, ou Anastasia Steele, uma das melhores editoras do país. Eu provavelmente teria cansado de toda a referência familiar, por mais que saiba que isso vai acontecer aqui de alguma forma.
Nunca tirei fotos além das que costumeiramente a minha família fazia para o jornal, e estava deveras apreensivo com a sessão de fotos de hoje. O tempo passava rápido e com os ensaios intensivos as coisas pareciam fluir de uma forma melhor. Nem todos estariam presentes na sessão de fotos. Seriam inicialmente eu, Ashley, Paul... – Enfim, parte da banda protagonista. O interessante sobre o meu personagem é que ele não é um molde fixo, mas sim, dois. Julian Maddox era o retrato de um garoto com bipolaridade e transtorno de dupla personalidade. Ficou acordado que para Julian eu poderia usar um pouco do Theodore, já para o outro eu precisaria mudar totalmente a atuação. Achei que fosse difícil, no entanto foi até bem fácil. E havia o trabalho com Robert, que na certa baseava-se no quanto ele olhava para mim.
Haviam horas em que eu queria manda-lo se lascar, todavia devemos amar o nosso trabalho como a nós mesmos, principalmente quando outras pessoas dependem desse trabalho. Concluo a última questão da prova de história americana e dou uma última lida crítica, é, estava a contento e seria uma boa nota. Direciono-me até o Sr. Randall e deposito a folha emborcada em sua mesa. Com um sorrisinho, ele pergunta:
– Pronto para a última noite?
– Um pouco, claro que em parte me sinto nervoso. Mas as coisas vão ficar bem. Obrigado por se importar, professor. – Ensaio um sorriso contido.
– Seus pais vem para a formatura? – Ele pergunta sutilmente.
A pergunta me pega de surpresa e eu teria gaguejado, caso eu não pensasse muito antes de falar.
– Não sei, Sr. Randall. Eles são pessoas muito ocupadas, e em breve eu serei também. É compreensível.
– Entendo, mas seria bom que vissem o bom filho que eles têm. Você é um aluno que vai fazer falta apesar do pouco tempo de convívio. – Ele começa a juntar algumas provas. – Soube que agora envolveu-se com algo da Broadway. É verdade?
– Sim, é. Estou num projeto para um musical e isso é bem louco, nunca estudei teatro. – Seguro a alça da mochila firmemente.
– Sendo assim, mais sorte ainda para você. – Ele ajeita os óculos na face.
– Obrigado, Senhor. – Me dirijo para fora da sala.
Resolvo não comer com todos durante o intervalo do almoço, prefiro adiantar-me e ir ao estúdio fotográfico que faria as fotos promocionais de Spotlight. Não me arrumei muito, apesar de ter ajeitado um pouco a barba e algumas coisas. Não acho que seja bom com me produzir. Ao chegar no estúdio encontro Ashley de frente para um espelho e alguns maquiadores que a produzem:
– Olá, Astro. – Diz ela.
– Olá, Srtª Estrela. – Respondo me encostando na parede.
Astro e Estrela foram nomes aos quais utilizamos para atribuir algo especial um ao outro. Paul teve a sorte de ser meteorito, mas ele não ligava tanto para essas coisas, estava mais preocupado em pegar mais garotas. Ficaram em choque ao descobrir que eu era gay, pois segundo os mesmos, não aparentava. Ashley parecia entretida na maquiagem e Paul não estava presente, estranho.
– Olá, Sr. Grey.
É impossível não reconhecer sua voz. Sinto Robert surgir de trás de mim e parar diante dos meus olhos. Está vestindo seu costumeiro terno escuro e os olhos azuis parecem brilhar por algum motivo desconhecido, ou talvez seja espontâneo mesmo. Cruzo os braços e mantenho minha expressão natural:
– Olá, Sr. Conroy. Boa tarde.
– Não parece tão animado quanto deveria. Sempre vejo os aspirantes animados pelo momento de brilhar nas capas de cartazes. – Ele puxa o celular do bolso da calça e mexe nele rapidamente, olhando diretamente para mim posteriormente.
– Eu nem sei o que estou fazendo aqui. – Ri um pouco. – É tudo por conta do trabalho, mas não sei se sou uma estrela como as pessoas que você costumava conhecer. – Encosto na pilastra e olho de esguelha para Ashley.
– É bom se acostumar com todos esses processos, pois passará por eles muitas vezes. – Ele cruza seus braços da mesma forma que eu.
Eu tenho o sério problema de encarar as pessoas e focalizar em seus olhos, não gosto de não poder ter noção do que querem passar. Olhares dizem mais do que as palavras proferidas diariamente. Só que há um problema quando o olho, ele possui algo que faz com que eu não queira olhá-lo, quer dizer, eu quero olhá-lo, mas tenho medo do que isso causa em mim. É uma sensação estranha, e boa parte disso pode ser por ele exercer certa influência no meu trabalho. Afinal, Robert é um diretor.
– É uma questão de tempo, mas não ache que eu pertenço muito a isso. Há uma causa maior por trás de tudo. – Digo brevemente.
– Hum, causa maior. Posso saber o que sobrepõe sua beleza e essa forma sexy e indireta de agir? – Ele põe a mão no queixo de forma atraente.
Beleza e forma sexy, estão aí duas coisas que não cabem na mesma frase do meu nome, no entanto fico lisonjeado com a forma com a qual aquele homem se refere a mim. Tento não ser tão desagradável como acho que sou:
– Vai descobrir com o tempo, Sr. Conroy. Mas não mato pessoa, é uma causa realmente especial. E obrigado pelo elogio, é de grande lisonja.
Vejo Ashley levantar da cadeira maravilhada com sua aparência e retoques. Ela está absolutamente mais linda do que de costume, uma pessoa renovada.
– Dá para acreditar nisso? É maravilhoso. – Ela abre os braços e vem em nossa direção.
– Está uma ótima Connie, e ainda puxarei mais ela em você, Srtª Smith. Está muito bela. – Diz Robert olhando-a, porém logo trazendo seu olhar para mim.
– Está incrível, Ash. – Seguro em sua mão e a faço dar um giro.
– Valeu, Diretor. E meu namorado imaginário. – Ela beija-me a bochecha. – Por que você tinha de ser gay?
Os olhos de Robert se alargam o ouvir isso, mas ele tenta disfarçar.
– Porquê a natureza quis assim, e estou pensando como Alberto Caeiro, instintivamente. Sim, eu leio em português e adoro Fernando Pessoa.
– Um garoto culto, além de tudo. Bravo. – Conroy bate palmas mansas.
Ashley termina se encaminhando para a sala da fotografia e vejo a maquiadora me olhar da cadeira. Ela é uma negra de olhos âmbar e cabelos cacheados e belos.
– Shannia, esta é minha estrela. Espero que cuide bem dele. O Senhor Theodore Grey.
Aperto a mão da mulher.
– Grey? Esse nome me lembra Christian Grey, conhece-o?
A pergunta me surge de supetão e fico paralisado e sem voz. Olho pra Robert e posteriormente para a maquiadora. Pela feição de Robert ele já havia descoberto isso, então exibia seu sorrisinho debochado e atraente.
– Ele é meu pai. – Digo pesarosamente.
– Trabalhei para Elena, num salão de cabelereiro em Seattle. Ele era sócio de lá. – Me sento na cadeira de frente para uma iluminada penteadeira.
– Já ouvi falar dessa Elena, muito brevemente. – Digo olhando nossos reflexos, incluindo o de Robert.
– É, depois parece que brigaram. – Uhum. – Consinto e respiro fundo ao lembrar do meu pai. Odeio isso.
– Ele já muito bonito, não vai ter trabalho nenhum, Shannia. – Diz Robert pegando o celular novamente.
– Estou vendo isso. Cabelos perfeitos, e essa barbinha. Um segredo, adoro homens com barba. Vou te convidar para sair. – Diz Shannia rindo.
– Não vai funcionar, Shan. Nosso amigo aqui curte outros amigos. – Diz o diretor um pouco sarcástico. Pude ouvir uma pontinha de ciúmes? Não, não seria isso.
– Deve ser o terceiro que me aparece e me decepciona. Ah não, Grey. Mais um Grey que não terei. – Ela mexe em meus cabelos. – Que sua mãe não me ouça, também a acho muito bonita.
Por um momento ela me faz imaginar o rosto da minha mãe. Sim, ela é muito bonita. Não gosto de admitir, porém sinto uma saudade passageira e da sua voz doce. Passado. Shannia faz seu trabalho e Robert afasta-se um pouco para conferir a sessão de Ashley no set. Deixo que a maquiadora faça tudo que deve fazer, mesmo que não esteja acostumado o bastante com tudo. Não é algo demorado, uma vez que, minutos depois ela me diz:
– Está tudo feito. Bem que o chefe falou que não precisaria de muito. – Ela gira minha cadeira e me permite contemplar meu reflexo.
Uau! É a minha primeira reação. Me sinto bonito pela primeira vez na vida, e não sei se é por estar trabalhado por uma profissional, mas me sinto diferente. Os olhos claros realçados e o cabelo levemente modificado.
– Sr. Grey. É a sua vez. – Grita uma voz máscula de outra sala.
– Está ótimo, Shannia. Bom trabalho. – Digo um pouco corado.
– Só ficou mais marcante, você é lindo, Theodore. Parece um pouco do seu pai. – Levanto e após apertar a mão de Shannia, me dirijo para a outra sala.
Adentrando o espaço posso notar Robert sentado mais ao canto, e percebo sua cara quando me olha ao passar pela porta. Mais uma vez em mil, ele me olha por inteiro. Puxo o lábio um pouco para a direita e exibo uma expressão amigável. O fotógrafo dirigi-se a mim e aperta minha mão:
– Sr. Grey, este é o Phillip Wills, meu fotógrafo de confiança. Wills, este é Theodore, meu futuro. – Meu futuro? Isso soa completamente ambíguo e prefiro não pensar muito. Cumprimento o fotógrafo.
– Prazer!
– O prazer é meu, Theodore. Vamos começar seu momento estrela? Vai gostar muito. – Diz ele com a câmera em mãos. – Como seu personagem é dono de duas personalidades, tente diversificar as caras e poses. Pode ser natural, apenas atue em momentos específicos, como certamente faz no palco.
– Ok, Senhor. Vamos ao trabalho. – Me encaminho para um grande fundo branco e ele começa.
São tantos flashes que em alguns momentos eu chego a acreditar que ficarei cego. Começo com feições mais fechadas e conforme evoluímos, vou alterando as mesmas. Tento ser o mais diversificado possível. São várias e várias fotos, que nem mesmo eu teria paciência para ver tudo a posteriori. Robert está atento e mexe no celular algumas vezes.
– Falta algo muito simples, eu não sei dizer apenas o que é. – Fala o fotógrafo.
Num instante e movimento brusco, noto Roberto aproximar-se de mim.
– Acho que sei o que pode ser. Precisa de um pouco de sedução, mas mistério ao mesmo tempo.
Sem pedir permissão, ele encosta na parte de trás do meu corpo e pega minha mão direita elevando-a ao alto, até a altura da minha cabeça. Minha mão fica a bloquear um holofote preso ao telhado. A luz passa por frestas.
– Tema a luz, mas não fuja dela. Holofotes, pense nisso. – Ele não tira sua mão do meu corpo e começo a perceber que aquilo me causa um efeito. Sua mão é forte e de um toque sutil. Me mexo para dar sinal de que ele pode retirar a mão. Ele o faz e me encara.
– Okay, farei isso. – Digo rapidamente.
Permaneço com a mesma feição e no movimento que Robert propriamente traçou em meu corpo. Sinto a luz forte passar apenas por algumas frestas dos meus dedos e por fim, um flash.
– Isso, era isso. Olha isso, Rob. – Ele corre e mostra uma foto para Conroy.
– Está tão gostoso que as moças de Nova York vão achar que é um show de strippers. – Ele satiriza e eu coro. – Relaxa, Sr. Grey. – Fará arte, embora eu não fosse achar ruim um Strip seu.
Fico sem graça e pergunto:
– Já acabou? Posso sair?
– Pode sim. – Diz Wills.
Sem pestanejar, saio da sala e vou para onde estava anteriormente. Shannia já não está mais lá. Sento na penteadeira e penso na roubada em que me meti. Apesar de toda boa ação, prevejo que isto não vai dar certo. Contemplo meu rosto incerto no espelho e a mão de Robert toca meu ombro. A sensação estranha novamente:
– Eu realmente estava brincando. – Ele diz com um tom de voz arrependido.
– Não ligo para isso. Pode ficar tranquilo. – Mexo em meu cabelo.
Robert puxa uma cadeira e gira a minha à medida que eu fique de frente para ele.
– Qual o problema em se liberar, Grey? Você é livre para fazer o que quiser. Não é um robô. – Diz-me a fazer com que eu encare sua face perfeita.
– Apenas estou fazendo porque alguém depende de mim. Apesar de não me achar bom, fico feliz que tenha achado.
– Quem é essa pessoa? Ela parece um ser sobrenatural de tão perfeito, porque fazer alguém sentir-se tão desconfortável e aguentar algo diferente é muita coisa. – Ele põe o celular no bolso, mesmo que este chamasse claramente.
– É uma garota, sou voluntário do hospital de crianças com câncer na esquina da minha escola. Seu nome é Penny, ela não tem ninguém. Nem eu. Sei que sabe de quem sou filho. – Paro e o olho.
– Que causa forte, bonita. Não vemos isso por aí. E sim, é filho do maior magnata dos Estados Unidos. Eu sou o da Inglaterra. – Ele bate palmas e começa a rir como se aquilo fosse uma piada.
– Robert, você não entende. Sabe por que vim para Nova York?
– Por que? – Ele põe a mão no queixo daquele jeito intimidador.
– Porque contei para o meu pai que eu era gay, e sabe o que ele disse? Que não teria um “Veado” na família. – Faço o símbolo de aspas com os dedos. – Ele achava que eu passaria um tempo aqui e me curaria para voltar e ser quem ele queria que eu fosse. E já se passaram seis meses. Sabe a mudança que houve? Apenas sinto que meu coração ta bem frio e congelando, porque ainda gosto de homens, e me odeio mais. Me sinto um miserável diante de tudo. Dizem que sou jovem, bonito, inteligente, mas de que isso serviu para ele? Nada. Só me deixe acostumar. – Digo ficando de pé.
Ele segura minha mão:
– Meus pais aceitaram minha bissexualidade numa boa, mas eu acho que entendo como se sente, Theodore. Temos uma diferença boa de idade, acho que posso te passar algumas coisas. E sobre seu pai? Tem a chance de provar que ele estava bem errado. Vai por mim, ele ainda vai te procurar.
Rio, principalmente por saber que meu pai nunca faria aquilo. No entanto, ainda noto a mão de Robert que me prende:
– Obrigado pela compreensão.
– E sobre caras, a cama com eles é mais legal. Gosto de como temos o mesmo corpo forte e forma de fazer algumas coisas.
Sinto-me ruborizado diante dos ditos por ele. Provavelmente ele nota minha face de desconforto:
– Espera aí, nunca fez nada com ninguém, não é?
– Não, e nem vou. Não sou bom para nada.
– Me diga uma estrela. – Robert pergunta rapidamente.
– Marilyn Monroe. – Digo sem titubear, talvez por ela ser a estrela com mais representações em minha parede.
– Por que?
– Porque Marilyn não teve uma vida fácil, e como ela eu provavelmente estou tentando não pensar no fracasso que as coisas podem ser, e também estou tentando não pensar nas pessoas que não tenho ao meu lado. Sabe Robert, nem todos tem uma família linda e feliz. A minha é linda? Sim, ela é. Mas feliz? Acho que isso ficou para trás seis meses atrás. Afinal, isso aqui é apenas uma isolação. – Com certa decepção, abaixo a minha cabeça. – Eu não mascaro o fato de ser mal amado pel ode ser uma estrela, Robert. Foi isso que aprendi com Marilyn, que não podemos correr atrás de algo que fomos destinados a não ter. Desculpe. – Puxo minha mão dele.
Ele levanta e fica poucos centímetros mais alto que eu. Nunca pensei naquela reação dele, porém ele coloca sua mão na lateral do meu rosto e ela é bem quente. Olhando em meus olhos, até achei que o cara fosse me beijar, todavia apenas diz:
– Theodore Grey, você vai ser a próxima estrela mundial. Não tenha dúvidas disso, porque o seu Crazy in Love não me deixa ter. Prepare-se para o mundo aos seus pés. – sua boca desce ao meu ouvido. – Inclusive eu.
Minha pele arrepia e puxo meu corpo. Ele pisca descaradamente para mim e dou um sorriso sem graça, não sabia como reagir. Apenas dei um breve tchau e corri para fora daquele lugar. Ai meu Deus, Robert Conroy estava conseguindo despertar algo que só uma pessoa tinha conseguido. E alguém que eu jogara no lixo poucas horas atrás: Conrad.
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