50 Tons de Uma Cor Vibrante

29 Capítulo 29 - Um tardio perdão


Notas iniciais
Human - Christina Perri

Apoio meu corpo na cama, minhas mãos fazem este trabalho. O meu corpo fraco requer a mínima força para manter-se equilibrado. Mesmo nutrido parcialmente pelo soro, não é como uma refeição. Meus olhos estão fundos, olheiras espalham-se pelos mesmos. Cabelos sem cuidado, o corpo a definhar. A julgar pela forma com a qual está olhando para mim, deve sentir pena, repulsa, quem sabe felicidade pela missão cumprida?

Passo cuidadosamente as costas da mão direita pela boca e erguendo o rosto, mais uma vez o fixo meu olhar. Christian Grey não diz nada, apenas avalia tudo. Eu sei que está avaliando, ele sempre está.

– Veio conferir o resultado do trabalho? Veio ver como me tornei um ser miserável? – Sou eu quem quebra o silêncio. O modo como falo era para ser firme, ressentido, porém, pela fraqueza e pela tristeza que me assola a alma, é tudo que consigo.

O meu pai não diz nada e coloco as mãos nos bolsos, mantém a postura inicial e silêncio ainda é sua única resposta. Nossas respirações podem ser até ouvidas por conta da ausência da fala.

– O senhor conseguiu. Era tudo que queria, não era? Sempre foi. Meu filho é o viadinho da família, ele merece sofrer para aprender a ser um homem, correto?

Continuo dizendo, abaixando a cabeça e lembrando-me de tudo que aconteceu. A sala de cinema, meu aniversário de dezoito anos, toda a verdade que precisava ser dita. No fundo, eu nunca esperei que meu pai me aceitasse, não queria suas palmas, talvez, pelas cosias boas que conseguisse na vida. Eu só queria que continuasse me tratando como o mesmo ser humano, isso nunca aconteceu.

– Eu achei que eu morreria nos primeiros meses – Passo minha mão direita pelo rosto e o apoio na face. Expiro profundamente – Quando entrei naquele quarto e fechei a porta, chorei pelos próximos três dias. Parte do meu Eu sonhador ainda esperava que você mudasse de ideia e dissesse que iria me levar para casa. Está esperando que eu chore? Eu não vou. Se é o que espera, pode ir embora. Agora.

Olho para o soro pendurado no pequeno suporte ao lado da cama, o contador marca uma pouca quantidade do líquido.

– Vamos para casa, vim te buscar. – É tudo que ele diz.

Me surpreendo com o que meu pai dizer. Por tanto eu quis ouvir isso, que agora já sinto totalmente o oposto, como se toda a vontade de estar em casa tenha se tornado o meu amor pela minha própria. Ele dá um passo na minha direção.

– Não vai ser possível, Sr. Grey. – Polidamente o respondo.

Sua face contorce ao ouvir eu chama-lo assim. Não tenho a mínima noção do que meu pai sente ou pensa, antes era tão fácil.

– Dá para facilitar isso, Teddy?

– Ainda lembra como é o meu apelido? Achei que tivesse esquecido tudo sobre mim. Eu queria ter feito o mesmo sobre você, mas eu nunca consegui. – Falo.

– Eu quem te dei este apelido.

Meus punhos se fecham na cama, como gostaria de continuar chorando. Desejaria fazer isso, caso ele não estivesse aqui. Ava lembrou-me sobre minha descoordenação para segurar sorvetes e picolés, isso me lembra sua disponibilidade em sempre me dar um daqueles lenços no terno e me deixar limpo de novo. Não era a única coisa que fez por mim, havia feito muitas. E em pensar como tudo acabou, só sinto aquela pontinha de mágoa que adorna a parte mais profunda do coração. Desta vez, sou eu quem não digo nada e fico calado com a cabeça baixa.

– Como soube que eu estava aqui? Aliás, o que sabe sobre mim agora?

– Eu e sua mãe viemos buscar você, e descobrimos pela companhia que estava aqui. Nos contaram da garota.

A mão vai ao rosto novamente e expiro profundamente, desta vez as lágrimas chegam tão perto que soluço um pouco. Ao ouvir sobre Penny, é tudo que consigo fazer. Noto ele aproximar-se mais de mim e ponho a mão para a frente, o advirto a não tentar estar mais próximo de mim.

– Não – Soo fraco.

– Eu nunca achei que ia ver você assim, filho. – Parece haver certa dor no que diz.

– Filho? Quem é esse? Achei que não o tinha mais.

Papai puxa um banco próximo da minha cama e senta-se nele, ficando um nível abaixo de mim. Minha cabeça curvada agora é visível para ele. Mesmo com os olhos baixos, ele agora os vê. Uma mão sua vai à perna a outra ele apoia por cima da boca e dirige a visão à minha face perturbada e modificada.

– Eu errei com você duas vezes na vida – Ele começa – Eu nunca quis ser pai, na verdade, eu achava que não podia ser um pai. Eu tinha a certeza de que eu era uma porcaria de ser humano tão terrível, que ser pai me faria destruir ainda mais um outro ser humano. Quando sua mãe engravidou eu enlouqueci, a praguejei, não aceitava isso. Francamente eu queria terminar todo o relacionamento com ela, eu a amava, mas não podia abandonar a convicção de que não era um ser humano bom. Eu não sou um bom ser humano, apesar da sua mãe me proporcionar momentos nos quais eu me sinta um – Apesar de confessar a si mesmo, as emoções estão obscurecidas da sua voz – Eu não superei a convicção, mas a amei o suficiente para levar a coisa em frente. E você nasceu. E, garoto, eu me senti tão feliz. Descobri que foi só uma questão de tempo para eu gostar daquela coisa pequena que ia crescendo com o tempo e cada vez mais sendo esperto, parecendo comigo, como também, com a própria mãe.

A cada ponto da sua confissão, posso sentir o meu corpo fraquejar para além do físico. Apoio as mãos no colo, por cima da bata do hospital. Tive coragem o suficiente par alevantar meu olhar até o dele. Ele ainda me olha:

– Houve um momento, acima de todos, que eu lembrei muito nesses últimos meses de separação. A maneira com a qual sentava ao meu lado no piano, balança as pernas e cantava como se fosse uma estrela da música. Um pirralho de cinco anos que queria saber a música ao ouvi-la pela primeira vez. Quando você tinha 14, eu passei a sentir você se afastar mais de todos. Continuava o mesmo menino, porém estava indo para longe. Não só eu percebi, sua mãe, seu avô. Tinha algo que não sabíamos, algo que estava quebrando o laço duradouro.

Aos 14 foi quando eu e Conrad estreitamos mais a amizade, momento no qual eu passei a olhá-lo com aquela forma que meninos olham num primeiro amor. Ele não sabia, naquele tempo eu desejaria que nem soubesse. Durante as aulas de matemática, normalmente eu me perdia nos cálculos e encara de lado sem que ele percebesse. Foi o período em que mesmo bem com minha família, aquilo começou a me afastar deles. Imaginava que fosse ser castigado, como também, me auto castigava. Ele percebera.

– Eu sempre admirei sua garra, a forma centrada de ir brigar pelo que queria. A vontade de vencer e nunca perdendo para ninguém. Eu me via em você. Eu via o Christian Grey de valor que eu poderia ter sido, sem as desventuras da vida. Você era o orgulho da minha vida. E então, aos 18, você fez aquela revelação. Eu jamais esperei, nunca percebi nada diferente. Eu surte, porque na minha cabeça você não seria mais como eu. Eu projetei a minha vida em você, você era minha peça a se consertar, que ali eu perdia o fio. – Sua voz treme um pouco – E eu fiz o que fiz, Teddy. Eu errei a segunda vez com você. Eu não fui capaz de te abandonar na primeira vez, mas o fiz na segunda. Eu não soube lidar com o fato do meu filho ser gay, e deixei instintos que tornaram tudo pior, tomarem conta de tudo. Era difícil para mim, muito. Não fui capaz de medir o orgulho de anos, o menino de ouro que foi, as suas vitórias. Acima de tudo, o julguei pela pessoa com a qual se relacionava. Sua mãe sempre me falou sobre filhos serem emprestados, uma hora temos de devolvê-los ao mundo. Eu deveria ter visto isso. Eu poderia ter você para um empréstimo de educar, no entanto, não para te fazer ser eu. E na verdade você era um ser humano melhor. Você é.

Um risco fino desenha-se por sob minha pele inchada dos olhos, é uma lágrima que cai do olho direito. Inspiro ao ouvir:

– Tenho certeza que deva me ver como um monstro agora, e eu não pensaria diferente de você. Olho para tudo o que fez, para seu rosto em cartazes, sites, matérias, e mais uma vez eu tenho a certeza de que você me venceu. Eu nunca venci nada. Isso não é uma batalha, mas você venceu quando mesmo quebrado, você se levantou e conseguiu ser maior do que foi em sua vida toda. Sei o que fez pela menina, agora eu sei. E sinto muito pela sua perda.

– Obrigado. – Digo, desta vez sem toda seriedade. Há mais dor. Aponto para a porta repentinamente – Já teve a sensação de esperar uma porta se abrir na vida e ver alguém passar por ela?

Ele não entende tão bem.

– Eu tenho a sensação de que vou olhar para uma porta e esperar ela passa por ela todos os dias. Hoje entendo o que dizem quando falam sobre haver uma razão para tudo acontecer na vida – Sinto um lacrimejar – Eu precisei perder tudo, sair da minha cidade, vir para um lugar que nunca imaginei. Eu precisei encontrar Penny Summers para achar quem era Theodore Grey, e quem ele realmente era. E agora que a perdi, não sei se continuarei novamente a ser ele. – Estou chorando e aperto os punhos no colo – Eu achava que era sua culpa, porque eu tentava odiar você, eu tentava jogar tudo em você, e no final eu só me odiava – E batendo em meus joelhos e tremendo ao choro, totalmente descontrolado, fico sem palavras e ofego sem parar. A sensação de estar perdido novamente. E então ele me abraça.

Papai coloca minha cabeça contra seu peito e com toda a força que consegue, circunda meu corpo. Ele repousa o queixo na minha cabeça e pelo tremer, ainda que lento do seu maxilar, sei que também está chorando.

– O lorax sempre busca soluções – Ele diz em meio as lágrimas. Remetendo ao livro que mais lia para mim quando pequeno. A figura amarelada e felpuda. O lorax. – Sei que nunca vamos ser os mesmos, provavelmente nunca na vida. Eu espero que possa me perdoar um dia na sua vida, quando não doer tanto quanto agora.

Minhas mãos apertam suas costas, enquanto eu choro desmedidamente e apoio meu rosto em seu terno. Choro por Penny, pelo tempo que não mais teremos. Choro por tantas coisas que outrora guardei, que a quantidade para chorar apenas aumentou. Choro por saber que algumas estrelas precisam morrer para que outras brilhem mais forte. Eu não queria brilhar mais forte, só queria que Penny Summers pudesse brilhar comigo.

– Não há um dia nos últimos meses, no qual eu não tenha te perdoado. Apesar de todas as coisas que me disse, eu aprendi algo maior aqui.

– O que? – Ele pergunta.

– Família é bom. Acima de qualquer coisa, família é bom. Eu te amo, papai. – Fecho meus olhos e permito que ele me proteja do mundo mais uma vez.

– Eu te amo, filho. – Ele beija o topo da minha cabeça.

Notas finais
Ficarei sempre sem palavras neste capítulo. Faltam três capítulos para o fim.