50 Tons de Uma Cor Vibrante

12 Capítulo 12 - O passado encontra o presente


Notas iniciais
Not like the movies - Katy Perry

A densidade da neve passa a incomodar a decolagem de vários voos, já não aguento mais a TV noticiar apenas isso. Era meu primeiro e último natal no St. Church, e não posso deixar de notar a decoração natalina que se alastra por todo o campus. É claro que já estava ali há séculos, eu é que não havia parado para reparar nas diversas guirlandas espalhadas pelos postes da propriedade. Há pontos em que várias luzes são espalhadas, como se representassem caminhos e demarcassem lugares especiais. Um pequeno efeito fora adicionado à fonte do anjinho, muitas luzes rodeavam as bordas circulares do monumento. Posso perceber a preocupação das autoridades para com a neve, quando noto que a mesma decora naturalmente muitas partes do pavimento principal do internato. E a camada de algumas áreas é espessa.

Ao encostar-me na pequena varando do corredor de cima dos quartos, observo algumas poucas pessoas que transitam pelo local. Vejo a família de Patrícia ajudá-la a carregar seus pertences em duas malas enormes, igualmente com Charlie, um outro colega. Todos estão indo embora. Temos duas semanas a mais de estadia no colégio, para que nos seja possível uma maior organização e saída tranquila do St. Church. Alguns foram embora após a formatura ontem, e tenho certeza de que a maior parte da turma já terá ido antes do prazo dado. Brinco com meus dedos e saco o telefone do bolso, resolvo checar meus e-mails. Vai que há algum aviso sobre o meu voo? – A minha ida para Seattle fora marcada num voo às onze da manhã, exatamente daqui à três horas.

Após Robert me permitir ir, sem que isso afetasse nenhum compromisso da agenda. Boa parte de mim acha que ele não concedeu isso de bom grado, pois a sensação que tenho quando estou perto de Conroy é que ele não quer sair da minha cola. Acredito que também estou começando a não querer sair da dele. Ainda não acredito no apartamento, que mesmo com o orgulho me impedindo de aceitar e ao fim ficado com ele, era a coisa mais maravilhosa de toda esta fase. Tudo que aconteceu na noite passada foi importante para diversas concepções novas que possuo. Desde a graduação, até meu momento com Robert no carro. Em se tratando dele, é difícil resistir, porém é mais forte a minha forma de ser, a linearidade de vida com a qual me firmo. Nunca achei que pudesse pensar desta forma, mas desejaria ser dele, por mais que na cabeça dele podia ser apenas aquele momento simples que passa, deixando apenas os segundos de um prazer fadado a terminar tão depressa.

De qualquer forma, agora sei que posso ir à Seattle e não perder o emprego. Tenho repetido a ideia mil vezes em minha cabeça, sobretudo quando os meus pensamentos me exibem minhas últimas memórias daquele lugar. Tendo decidido enfrentar todos os medos, a incerteza instala-se como uma boa condutora de tudo que poderia me fazer tomar a decisão contrária. Felizmente não há nada que possa me parar, estou decido. Voltarei à Seattle, nem que seja para pegar tudo que ainda me resta lá e nunca mais voltar.

Mexo em meu Iphone e vasculhando coisas aleatórias, percebo o ícone do email alertar na tela principal. Fecho as atividades anteriores e abro a aplicação a correr, poderia ser o cancelamento ou adiamento. O voo continuava em curso, seria realizado. Nada de cancelamento. Bem, havia deixado parte da mala arrumada durante a madrugada, logo após comprar as passagens. As únicas coisas que complementei na bagagem foram os textos de “Spotlight” e meu diploma de formando. Para um deles eu tinha um destino especial.

Pronto para partir, deixo parte das coisas arrumadas no quarto, outras arrumaria no dia da mudança para o apartamento. Algo que planejo para depois da minha volta da minha terra natal. Ponho um excesso de roupas de frio, até parece quando minha mão empacota a mim e Phoebe nos tempos frios. Me sinto uma mercadoria de mercado. Visto uma camisa longa preta, acima uma outra camisa em cor cinza, por cima de toda um grande sobretudo avelã. Fecho os botões do sobretudo e o detalhe final da roupa é uma boina, que me protege a cabeça. Ao me preparar totalmente, arrasto a mala carrinho para fora do quarto e posteriormente, pelo caminho da saída do St. Church.

– Feliz natal, Sr. Frank. Ainda volto para me preparar para a mudança. – Digo ao abraçar aquele velho que tanto se tornara significativo para mim durante estes seis meses.

– Oh, Teddy. Venha mesmo se despedir desse velho, ele vai sentir sua falta. – Ele dá tapinhas em minhas costas.

Depois de me despedir do Sr. Frank, sigo para as ruas de Nova York. Quase levo um tombo numa parte muito assolada pela neve. Termino rindo de mim mesmo. Não sei se é impressão, mas o natal termina mexendo definitivamente com nossos sentimentos. Vou arrastando a pequena maleta pela avenida, até que chamo um táxi. A aeroporto não é nenhum pouco longe do centro de Nova York, e meu percurso até lá não deve durar muito mais do que vinte minutos. Depois de feito o Check In, noto que falta uma hora para o voo sair. Muitas pessoas encontram-se no portão de embarque. Decido me dirigir logo para o mesmo. A mala havia ido embora e só fiquei a segurar o roteiro de spotlight nas mãos, estudaria durante a viagem. Uma musiquinha natalina percorre todo o espaço, o aeroporto faz suas honras ao festejo.

Até que eu embarque no avião, fico encostado numa parede qualquer. Leio as falas e faço algumas anotações nas bordas. Tenho a mania estranha de comentar ou fazer minhas considerações sobre algo. Robert, como diretor, certamente ficará chateados e ler o quanto critico suas imensas alusões sexuais. Fico a rir ao pensar em sua cara de desaprovação. Por trás daquela carranca, é sua expressão mais divertida.

A viagem ocorre de maneira tranquila, tanto que acabo dormindo depois de tanto reler o ato 3. Ao meu despertar, percebo que alguns avisos são dados pelos alto-falantes. Uns são agradecimentos por viajarmos com tal companhia, outros sobre o clima de Seattle. E por último, mas não menos importante, desejam feliz natal. Ao pousarmos no aeroporto, desataco o meu cinto e procuro a mala acima do compartimento em cima da minha poltrona.

Um remix de Jingle bell Rock ecoa pelo portão de desembarque. Sem surpresa e por ser uma surpresa, não há ninguém me esperando. Saio logo do lugar e ao correr para fora do aeroporto, respiro profundamente aquele ar. Ainda era meu ar. Segurando na haste da mala para puxar, olho para os lados. Há um ponto de Táxi à direita, me dirijo para lá a puxar a bagagem. Tomando um táxi, recito o endereço que achei ter esquecido. Não, não havia verdadeiramente esquecido.

Uma parte minha me deixa apreensivo, triste, temeroso por ter de voltar nestes lugares, outra, está tão ansiosa. Eu quero rever minha avó, meu avô. Até mesmo a tia Mia, que esqueceu-se da promessa de me visitar em Nova York, feita no dia em que fui embora.

– Parece nervoso, rapaz. – Me diz o taxista olhando pelo retrovisor e parecendo tentar reconhecer algo.

– É, to indo ver a minha família. – Passo as mãos umas nas outras em nervosismo. Sei que não vou achar o mesmo que deixei para trás. E são de todas as mudanças que tenho medo. Porque quem vai pode deixar alguém, mas quem volta, nem sempre encontra o que deixou.

– Há quanto tempo não os vê?

– Seis meses. – Aceno positivamente com a cabeça e respirando dificilmente.

– Poxa, vai ser algo especial. Ainda mais hoje sendo natal. Seus pais vão ficar felizes em ver você de voltar. – O taxista me diz pelo retrovisor e não consigo evitar minha cara de choro, mesmo que as lágrimas não venham. Apenas dou de ombros sabendo que não é verdade. É apenas mais um momento que precisa enganar aos outros tanto quanto a si mesmo.

Ao ver o carro estacionar onde indiquei, encosto e paro por um momento sem dizer nada. Mesmo tendo pagado ao homem, busco forças para finalmente sair.

– Obrigado, rapaz. Feliz natal.- Ele diz agradável.

– Eu não sei bem se vai ser, mas obrigado. E um feliz natal para você também. – Seguro a mala de rodinhas e a puxo delicadamente.

A suntuosa mansão cobre meus olhos, tanto que só consigo olhar para uma janelinha lá no alto, a do sótão, local onde guardava todos os meus pertences, sobretudo vários livros. As cortinas estão fechadas, mas são as mesmas. Por um breve momento tenho vontade de pegar a mala e correr dali, voltar para Nova York, mas não é isso que faço quando me aproximo mais da porta e mesmo ouvindo a voz de tantos adeus passados, sou capaz de aguentar. Quando percebo, estou chorando. A melodia de um piano vem de lá de dentro. Coloco a mão fronte aos lábios e choro sozinho, sem que ninguém me veja. Passei seis meses prendendo todas elas, agora é talvez a hora delas irem embora. Toco a campainha e tento me recompor.

Uma nova empregada, creio, abre a porta:

– Pois não?

– Eu sou Theodore Grey, vim ver minha avó. – Digo com a voz embargada.

– Oh, Sr. Grey. Queria entrar. – Ela provavelmente me reconhece. Puxo a mala e sigo a melodia que ouvira antes. – Eu me acho aqui, Senhorita. Não precisa me levar. – Digo para a moça. Ela assente e vai para a cozinha.

Observo alguns vasos e obras de arte num canto do corredor e arrasto a mala, que faz um pequeno barulho das rodinhas. Chego na soleira da sala de estar e avisto as pessoas distribuídas em vários lugares. Tio Elliot com as mãos ao redor do pescoço de tia Kate, juntamente com Keira e Kathryn. Tia Mia e tio Ethan na poltrona oposta. Numa poltrona sozinha estava vovó, que contemplava vovô ao tocar o piano. Era a melodia que ouvi há poucos minutos na entrada. Desço lentamente a haste da mala e ela faz um barulho de travamento. A música cessa e todos os olhares se voltam para mim.

– Surpresa. – Coloquei os braços cruzados nas costas.

– Teddy? Querido. – Vovó levanta da poltrona e vem até mim rapidamente de braços abertos. Ela fecha os braços contra meu corpo e o mesmo faço para com ela. – Eu estava morrendo de saudades. Eu não acredito. – E ela começa a chorar.

– Eu também senti sua falta, vovó. – E acompanho seu choro, a partilhar das suas lágrimas. Fecho meus olhos ao sentir seu calor e respiro profundamente.

Ela me afasta e passa as mãos pelo meu rosto. Todos nos olham e são tantas expressões diferentes.

– Continua lindo, mas diferente. – Seu rosto exibe ternura e uma doçura descomunal. – Meu pequeno voltou para mim. – Ela me abraça novamente.

– É só por um dia, mas sim, voltei. – Digo sem secar as lágrimas. Vovô aparece atrás dela, logo justifica-se a música que parou.

– Maior do que da última vez, como se jamais parasse de crescer. – Eu o abraço e lembro de sua velha piada sobre “Abraços quentinhos”, a qual ele tirara de um desenho que eu não me cansava de ver.

– O frio não vai mesmo me incomodar. – Digo o fazendo lembrar do mesmo filme. – Está tudo tão bonito. – Meus olhos correm pela sala e toda sua decoração natalina.

Vovó ainda continua com a mesma mania de pendurar as meias de natal sob a lareira. Posso ver todas lá, bem em seu lugar, até que vejo uma com meu nome pendurada após todas. Ela não esquecera de mim. Ao soltar vovô, passo a cumprimentar todas as pessoas e a cada abraço ou palavra, eu me sinto como um quebra – cabeças espalhado, como se os pedaços se juntassem, em parte. A cada caloroso abraço, descubro o quanto a saudade fora obscurecida pelo medo.

Após falar com cada um, me pego mais próximo das meias penduradas na lareira. Me viro:

– Onde estão os convidados da festa?

–Devem estar chegando logo. Alguns já estavam pelo jardim, mas eu escolhi passar um momento só com vocês. – Vovó dissera chegando por trás de mim.

– Eu não posso me esquecer de falar, que você está um gatinho nessa roupa, Sobrinho. – Tia Mia passa com uma taça de champanhe na mão. – Algumas garotas vão se matar por você na festa hoje. – Ela me pisca um olho e eu a encaro estranho, corrijo-a. – E os garotos, quer dizer, todos vão querer ser você e outros, os enrrustidos, vão querer outra coisa. – Ela gargalha e vai até seu amor.

– Ela nunca muda. – Vovô diz.

– Uma louca incurável. – Vovó deposita um selinho nos lábios dele. – Porém, nossa.

– Vocês são meu casal favorito. – Falo, posteriormente cruzando os braços e os olhando com doçura.

– Achei que fossem seus pais, o casal favorito. – Tento disfarçar o desgosto da afirmação, embora ela proceda e eu não admita.

– Era, verbo passado, vó. Posso ir me arrumar para a noite? Já vi que meu sótão me espera.

– Claro, querido. Pedirei que Charles suba sua bagagem. – Prontamente ela parece se dirigir para a saída.

– Não precisa, avó. Tenho braços fortes o suficiente para fazer o trabalho. – Digo e puxo a grande mala de rodinhas. – Sou um homem forte.

Ela para por um momento e começa a me encarar na subida dos degraus. Sua mão direita encontra minha face e a acaricia, ternura encontrava-se em seus olhos, carinho em seu gesto:

– E de repente, não vai mais correr pela minha propriedade como um garotinho, e eis que virou homem. Meu novo grande homem. – Ela diz. – Agora vá se arrumar, estamos loucos para nossa dupla festa.

– Estou indo, Vovó. – Subo as escadas com a mala em mãos e estou pronto para o que virá à noite.

Eu não demoro a me arruma, por mais que tenha escolhido uma roupa mais luxuosa. Uso uma das combinações cedidas pela produção de Robert, é como se mesmo não querendo ser um Ken, eu tenha me tornado o protótipo de um. Passei alguns momentos a reviver algumas coisas no sótão, para mim estava a mesma coisa, era o meu esconderijo ainda. Depois do meu próprio coração, esse é o meu refúgio mais protegido e secreto, no qual minha fortaleza sou eu mesmo e o meu exército são os poucos sentimentos bons que posso ter, ou que pelo menos acho.

O relógio está quase a marcar as oito badaladas da noite quando saio do meu quarto e me direciono para as escadas. Mantenho a camisa de botões branca em contraste com a calça Gucci preta, deixando em meus braços o grande sobretudo que se ornara minha peça favorita nos últimos dias na produção e em prol dela. Estava totalmente natural, no entanto, mudado, algo que jamais imaginaram acontecer.

Quando desço não encontro nenhum dos meus parentes na sala do piano, nem mesmo vovó. Já devem ter saído para o jardim, e eu quem penso não ter demorado, posso ter demorado mais do que a vinda de Jesus. Negativamente aceno com a cabeça e vou me encaminhando para o corredor que me leva para a saída, porém, resolvo visitar um lugar antes de me juntar com minha família. A biblioteca dos Grey ainda é a mesma, diferenciando-se pelas paredes pintadas de dourado agora, certamente coisa da vovó. Ao adentrar o espaço, fecho a porta atrás de mim e me deparo com as diversas prateleiras de livros que se estendem por toda a sala. Na sessão quatro estava meu livro favorito, que era até então, As vantagens de ser invisível. “A gente aceita o amor que acha que merece.” – Foi a primeira coisa que achei ao abrir o exemplar, estava anotado num pequeno pedaço de papel, atrás da aba final do livro. “E eu mereço você. – Conrad.” – Eu sei que iria achar isso, mas precisava começar a colocar as coisas em perspectiva, tal qual Charlie. Olho para o papel sem pressa de guarda-lo, até que ouço a porta da biblioteca bater. Me viro de costas e me vejo encarando a figura que escrevera a mensagem, Conrad.

– Você voltou. – Ele diz de lá.

– É. – Digo sem saber como agir, estou desconsertado, martelando todas as lembranças. – E você, o que faz aqui?

– Papai e mamãe foram convidados para a celebração da sua avó. – Ele diz com as mãos nos bolsos. – Eu te beijei naquela última sessão, lembra? – Ele aponta para o fim do corredor da biblioteca.

Sim, eu me lembro.

– Há coisas que você gostaria de esquecer, mas não pode. – Digo seco.

Conrad começa a andar na minha direção e seus olhos de cor âmbar me fitam. Eu costumava conhecer esses olhos, eles agora se tornaram tão inexpressivos para mim, quanto um estranho na rua. Ele para de frente para mim, bem próximo.

– Está mais bonito, maduro. Eu vejo pela expressão, cara. Eu sonhava com vocês assim todas as noites, longe de toda super proteção dos seus pais. – Ele toca meu ombro e eu esquivo o mesmo. – Tem motivos para me chatear, mas peço que entenda que como um homem eu precisa daquilo, entende?

– Peço que não me toque. – Digo com sensações indefinidas dentro de mim.

– Por que? Sente medo de sentir o mesmo? Ainda tem meu que eu toque você como eu queria? – E ele encosta no meu abdome. O afasto bruscamente a mão.

– Pare!

– Qual é, Teddy? Eu fui seu primeiro beijo, sou seu marco de uma vida. Eu sou o seu amor verdadeiro, não é assim que você falava dos filmes que via?

O que pensa estar fazendo? Qual direito pensa ter? Sinto meu interior querer lacrimejar com aquilo, com a forma banal com a qual ele ressalta todas as minhas coisas de infante, principalmente os filmes. Ele parece não saber o que fez, porém eu me lembro. Aliás, eu me lembro bem mais do que queria, que caso eu não tivesse pensado em mim e nele, eu não seria “mais um veadinho no mundo” Por Conrad ser o meu mundo, foi por ele que eu fiz a promessa que destruiu minha vida:

– Conrad, preste bem atenção no que vou dizer. E achei que nunca diria isso. – Falo limpando a garganta e sentindo-o próximo. – Sabe o que é mudar toda sua vida por causa de um alguém? Eu fiz isso por você. Sabe a minha promessa? Hoje faz um ano que eu a fiz, foi no último natal enquanto dos ceavam na mesa e eu via tantos casais, que pude imaginar que seria natural para eles se você estivesse comigo. Eu queria que você fosse meu, eu queria que as pessoas soubessem e o fiz, e eu fui mandado embora, e eu perdi a minha família. E o que você fez no final? Você fez o que preferiu, você quebrou mais um coração que já nem mais existia depois de tudo, você era a única coisa que me prenderia nesse lugar. Eu te amava, eu te amava como nos contos, mas infelizmente a vida não é como nos filmes. – Engulo cada lágrima, falando pesarosamente e olhando no fundo escuro de seus olhos.

– Olha, eu posso explicar cada coisa e... – O corto com um gesto da mão.

– Não, você não pode explicar aquilo que eu ouvi, foi como se eu visse. Você foi o meu primeiro amor, mas o primeiro que não deveria existir, Conrad.

– Então eu te perdi? – Ele pergunta com a expressão triste.

– Você me perdeu para sempre. – Digo secamente.

Ao dizer essas palavras, achei que ele iria embora, no entanto, o gesto dele diz o contrário e suas mãos envolvem meu corpo e me pressionam para um beijo. Força minha perna para cima e chuto o meio de suas pernas, o acertando a virilha. Depois o dou um soco.

– Nunca mais tente me tocar, nunca mais me procure. Esqueça-se de mim como os meus pais fizeram, não existe Theodore. – E saio da biblioteca o deixando a urrar de dor.

Achei que choraria, mas tudo que senti era que tinha matado uma boa parte de Seattle em mim. Estou ficando seco? Estou virando um animal? Não sei, mas não me arrependo. Ainda sinto as lágrimas que querem sair, mas faz parte da dualidade existente em mim. O velho e o novo. Ao passar da porta e indo para os jardins, sinto o telefone vibrar no bolso lateral da calça e o puxo, poderia ser Penny. Me engano, era o oposto do meu anjo dos sonhos, era Robert. Atendi:

– Olá, Sr. Conroy.

– Minha estrela, como está? Chegou bem? Fico preocupado. – Ele diz no mesmo tom agradável, irônico, sexy.

– Cheguei bem, estou devidamente instalado. E acho que não devo dizer mais do que isso. – Comento ao caminhar pela grama. Avisto a mesa da família no centro do lugar, que está enfeitado até o último ladrilho. Faço o gesto de estar ao telefone para vovó, que me chama de lá.

– Não faça assim, Sr. Grey. Eu gostaria que tivesse ficado para o natal. Meus pais pegaram um avião para ficar comigo. – Ele diz.

– Me perdoe por ser rude. – Digo ao perceber que estava descontando Conrad nele. – E acho ótimo os Conroy invadirem a América. – Até dou um risinho após.

– Só fazem me perguntar sobre namoro e relacionamentos. Acreditam que vou terminar para ti, assim que Amèlie tiver os filhos dela. – Ele diz incomodado.

– Marianne espera o anel de casamento dela tem muito tempo, ouço as conversas. – Ironizo, mesmo que me incomode a hipótese de Robert estar com Marianne.

– É você que eu quero, Theodore. Não a Marianne, pois já tive minha cota de insanidade juvenil pelo resto da vida. Agora só quero meu devido Teenage Dream (Sonho adolescente, ou quem sabe, meu Old Dream(Sonho de velho). – A sua voz me faz sentir melhor, principalmente depois do comentário.

– Então tem uma bela guerra pela frente, Sr. Conroy. – Digo um pouco sem graça, após o “É você que eu quero”.

– Não vamos falar de guerras hoje, ok? Liguei para desejar feliz natal. Eu sei que foi um ano difícil para você e que teve de ver a vida com tantas mudanças, muitas ruins. Não é fácil passar pelo que você passar e achar forças para cuidar de alguém tão mal quanto, Theodore. Eu fui ao hospital hoje, eu conheci a Penny. É, ela me ameaçou se eu fizer algo contra você, mas eu vejo o quanto você importante para ela. Você é a pessoa mais forte do mundo, e sabe o porquê? Porque aos olhos dos outros você é fraco, e os maiores guerreiros crescem assim. E mesmo lembrando de tanta coisa ruim, eu lembro que o ano fez você me conhecer, e bem, não há honra e prestígio maior. Eu só sei que te beijei, apenas beijei, e eu não quero que apenas aquilo fique para contar. – E mesmo com os olhos cheios de lágrimas durante o que ele dizia, não deixei de gargalhar com o ego enorme ao fim. – Eu estou achando horrível estar no natal sem o meu presente.

E estando sem palavras, busco as que ainda estão nu fundo da alma para responder aquilo.

– Em primeiro lugar, perdão. Perdão por eu parecer um idiota na sua audição, por nem saber o que era um programa. Eu peço perdão por todas as vezes em que fui grosso com você, ou que te tratei mal, quando na verdade, tudo que você queria era que eu ficasse bem. Eu só tenho a agradecer à você, Sr. Conroy, por me dar condições de cuidar da Penny, porque eu nunca quis esse mundo, ele não era meu, porém foi ele quem começou a me dar condição de mudar a realidade das pessoas. – Paro um pouco e respiro com a voz embargada. – Eu perdi muita coisa, esse lugar me lembra tudo, e você me deu outra casa. Feliz natal, e por favor, desligue o ego. – Digo com o tom irônico que provocava ele. – E para ser mais legal, quando eu voltar, estou te chamando para sair. Podemos fazer algo numa noite qualquer, ir dançar, ou jantar. – Meu sorriso de menino bobo aparece e ainda bem que ele não pode ver.

– Isso é um cartão verde? Porque eu não paro nunca mais. – Ele diz com a grave e parece incrédulo.

– É sim. Agora me deixe ir, meus avós me chamam. – Passo a mão pela barba recém – feita.

– Eu vou te imaginar sem roupa o resto do natal. Obrigado por esse presente delicioso.

– Você ta brincando, né? Que mesmo depois de eu ser legal, você... – Digo indignado e sou cortado:

– Relaxa, Teddy, eu estou rindo da sua cara, porque só queria provocar você e te irritar, é minha melhor qualidade. – Ele gargalha, talvez como jamais vi. É uma gargalhada natural e alta ao telefone. – Agora vai lá, antes que sua avó te puxa as orelhas, rapaz levado.

– Até mais. – E desligo a ligação, me metendo entre as diversas mesas e cadeiras, indo na direção da vovó.

– Me perdoem pela demora. – Digo ao chegar na grande mesa.

Todos sorriem e noto a música ambiente que se espalha pelo lugar, e observo a cena mais cômica da minha vida. As gêmeas de tia Kate dançam como se tocasse um rock. Era hilário.

– Meninas, não, não, assim. – Paro as duas e coloco meu corpo a se movimentar lentamente para um lado e para o outro, no ritmo do som suave. Ela em imitam e todos da mesa começam a olhar as expressões delas.

Tio Elliot levanta da mesa e fotografa a dança das duas garotas e me diz:

– Junta com elas, quero gravar esse momento, Teddy.

– Venham cá, ladies. – Puxo as garotas pelo braço, e nem preciso de esforço, elas mesmo me abraçar. Indico ambas as bochechas e elas a beijam a olhar para a câmera. Quando o flash dispara, dou um beijo em cada uma.

– Isso foi muito e absolutamente fofo, Teddy. – Tia Kate comenta ao olhar a foto do celular do tio.

– O Teddy é um gatinho. – Diz Kathryn e sorri com a irmã.

– Katy! – Repreende a mãe. – Onde aprendeu este vocábulo que não é para sua idade?

As meninas correram pela grama e não responderam a mãe, deixando todos os Grey gargalhando à mesa. Talvez Penny tenha razão, talvez família seja bom, ainda. Não dei por falta de tia Mia na mesa, percebendo sua ausência quando ela subiu num pequeno púlpito ali à frente:

– Feliz natal e parabéns, mom. Eu queria agradecer a presença de todos vocês aqui hoje, cada um importa muito para minha querida mãe. E não quero enrolação alguma hoje, e eu acho que todos vocês tem de conhecer pessoalmente uma pessoa. – Ela olha para mim e pisca.

O quê? Não!

– Meu sobrinho, futuro astro da Broadway. Vem cá, Teddy. Cante uma música para nós.

Não sou capaz de me levantar do meu lugar, vejo ela fazer um estalo de dedos e mandar alguém fazer algo. Meu corpo é levantado por tio Ethan, que me carrega e termina me jogando no mesmo lugar que ela. O microfone é passado para minha mão e a expressão de pânico é vista por todos, que do contrário, retribuem com olhos brilhantes. Eles querem um show.

– Qual música? – Ela pergunta ao meu ouvido.

– Não sei, eu não sei. Love me like you do, da Ellie Goulding? – Nervoso, é tudo que falo.

– É uma das favoritas da Ana, pena que ela não verá. – Tia Mia vai até os rapazes da banda e cochicha algo.

Estou olhando para a frente e para tantos rostos que me deveriam ser familiares, mas já não os reconheço. E então a música começa. Mantenho os braços ao lado do corpo, relaxados. No tom suave original, ergo o microfone e começo a cantar:

– You’re the light, you’re the night. You’re the color of my blood...

E ao iniciar a música, algo estranho acontece, me pego pensando em Robert. “Me toque como você me toca. Me beije como você me beija.” – Decorrendo a canção e mantendo a afinação na voz, vejo as pessoas observarem com aprovação, principalmente os meus familiares. Segurando firme o objeto diante da minha boca, movo o corpo lentamente, deixando-me envolver pela doce e tocante canção, que passa a deixar meu corpo flutuando. Num determinado momento da música, fecho os olhos e toco o coração com a mão esquerda. Ao abrir os olhos, vovó está derramando lágrimas e me encarando. Aponto para ela e com os lábios digo “Para você”. – Durante toda a música o meu corpo se sente no céu e vou levando-a suave até as alternâncias de vocal, como as partes finais. Ao ir chegando nos ritmos do final, minha visão mira um pouco mais acima e a visão de uma garota correndo pela grama me faz observar atentamente, mesmo que cantando. A felicidade nos olhos, o espanto ao meu ver. Phoebe.

Tudo seria bom até ali, não fosse pela outra visão que meus olhos contemplam. O terno elegante e a gravata cinza, o vestido roxo. E percebo que estou chorando ao acabar a música e notar as duas pessoas ali. Seis meses nãos transformaram em fantasmas, eram reais. Eram meus pais. A expressão de mamãe era de tristeza, e ao mesmo tempo felicidade, algumas lágrimas estavam em seus olhos. Já o meu pai, eu não sabia o que sentia. Pulei do palco ao receber as palmas, nem mesmo agradeci.

– Teddy, você voltou. Meu Black voltou. – Os braços da minha irmã se enrolam em meu pescoço e a abraço de volta, embora desnorteado.

Notas finais
E então, pessoal? Tudo certo? Espero que saiam vivos desse capítulo, pois o próximo está tão forte quanto, e talvez até pior. Gostaria de agradecer pelas quase 4.000 leituras e por tantos reviews maravilhosos que tenho recebido. Agora podem achar o grupo das minhas fics, para debates, conversas. Cola lá: https://www.facebook.com/groups/1564862253793150/?fref=ts