50 Tons de Uma Cor Vibrante
32 Capítulo 32 - Tragédia - FINAL -
Notas iniciais
– Oi, mamãe. – Digo ao atender o telefone.
– Theodore Grey, por que essa voz morta? Hoje é o seu dia. – Ela me repreende e dou uma risadinha baixa. Ashley e Paul colocam os seus figurinos e terminam rindo também, já que o celular está no viva – voz.
– É uma apresentação como qualquer outra, mãe.
– Não, não é. Vai ser exibido até em outros países. Vão ver como o espetáculo é bom, seu público dobrará em breve.
Acredito já ser da minha personalidade, mas nunca estou preocupado com a quantidade das pessoas que irão assistir. Eu comecei neste show por causa das crianças, não por outras pessoas, então, eu faria o show como deveria, porém nunca estive alarmado pelo número de pessoas que assistiriam. É engraçado ver mamãe falar dessa forma, ainda mais porque ela foi a segunda, meu pai havia ligado primeiro. Tornaram-se meus agentes por livre e espontânea pressão.
– Vamos ver no que isso vai dar, mamãe. – Digo.
– Eu e seu pai já estamos chegando, o trânsito apenas está conturbado na ligação da 5º Avenida. Na verdade, veio mais gente do que você espera.
Me choco com o que ela diz, ficando totalmente desconsertado:
– O que está planejando, mãe? – Pergunto nervoso.
– Você vai ver, filho. Um beijo. – Ela desliga o telefone e passo vários minutos com o meu ainda no ouvido.
– Minha mãe ficou doida, sim, ela ficou.
– Como assim, mano? – Paul pergunta brincando com uma pequena bolinha de cima da penteadeira.
– Ela falou que está chegando aqui, normal isso, porém disse que mais pessoas vieram, pessoas que nem imagino. – Coloco o aparelho em cima da penteadeira.
Ashley faz um dos seus passos de dança e dá um giro de Paul até mim, emitindo uma nota aguada:
– Sua mãe é um amor, Teddy. Deixa disso, pode ser uma boa surpresa. – El segura em meu braço e joga seu corpo a enrolá-lo. Do nada ela está dançando comigo, e sou obrigado a continuar seus passos rotatórios. Paul assiste da sua cadeira e bate até palmas.
– Dona Anastasia é esperta demais, ela me assusta às vezes. – Digo segurando Ashley nos braços e a levantando no ar.
Devolvo Ashley ao chão depois de cansar e olho em meu relógio de pulso. Faltam vinte minutos para o início do espetáculo. Me ocorre que preciso fazer uma coisa, não sei exatamente o motivo, apenas a demanda.
– Ashley, Paul, aqui! – Os chamo com a mão.
– Para que, cara? Eu estou tão bem aqui. – Ele diz espreguiçando-se.
– Levanta logo daí, pastel. – Ash dá um cascudo em sua cabeça, obrigando Paul a levantar.
– Grossa! – Diz em protesto e desgosto.
– Diga-nos o que precisa, Teddy. – A menina apoia o braço em meu ombro esquerdo e fica provada sua estatura bem menor que a minha.
Enquanto Paul se achega à nossa frente, estico amão para a frente e digo:
– Ponha as mãos aqui.
– Feito. – Ash coloca a mão em cima da minha.
– Se não apanho de novo, né? – Paul coloca sua mão em cima de Ashley.
A energia que emana de nós três parece preenche rum ao outro de maneira indescritível. Olho no olhar de ambos:
– Nós temos feito um ótimo trabalho em grupo, galera. Temos que fazer hoje melhor do que em qualquer outro dia. – Falo – Não importa o amanhã, gente, fizemos o melhor show que essa avenida já viu, porque tínhamos um ingrediente especial. Não somos atores, somos amigos. Vocês são meus amigos, e não me importo com quantas diferenças temos. São elas que nos juntam. Até mesmo o Paul ser contraditório e querer casar comigo. – Ironizo e dou uma cotovelada no rapaz.
– Mas eu quero, já te disse, meu lado gay é seu.
– Ele é meu, sai daí, Paul. Vai pegar suas piranhas.
Gargalho com Ashley.
– Ei, gente, sem estragar o momento. – Reclamo com ambos – Eu quero que façamos uma promessa sobre hoje, sobre a vida. A cada apresentação será o nosso melhor, nada mais, nada menos, só o melhor que pudermos ser. É assim que um ser humano evolui, quando encontra sempre uma reserva para ser melhor do que antes. Porque a vida não para.
– Eu prometo isso. – Ashley diz emitindo um sorriso para mim.
– Eu tenho certeza que sempre quero ser melhor. – Paul também promete.
– No três, Spotlight. – Início uma contagem com eles – Um, dois, três. – As mãos movimentam-se para o alto.
– SPOTLIGHT! – Dizemos em voz alta.
Rudolph, o antigo contra – regra, agora novo, aparece pela coxia. Ele nem precisa dizer nada para nós, só a cara de riso dele já anuncia o que ele queria dizer. Bato palmas par aos outros dois e começamos a nos aquecer para o show. Imitamos polichinelos e ambos começamos a rir.
– Está na hora pessoal. Vamos? – Pergunto.
– Não ainda, Theodore. – A voz de papai sobrepõe a de Ashley, que parecia tentar responder-me.
Viro para o lado e me deparo com algo pior do que eu realmente podia imaginar. Mamãe e papai estão ali. Não bastando apenas eles, estão vovó Grace e vovô Carrick, bem como, tia Kate, tio Elliot. Tia Mia e tio Ethan chegam depois.
– Achei que gostaria dessas pessoas te assistindo. – Mamãe diz.
– E não se esqueçam de mim. – Ava aparece impecável da entrada do lugar. – A BBC pode esperar. – Ela cochicha ao abraçar-se com tia Kate.
– Pretendem inundar o teatro de Grey’s, é isso? – Pergunto.
– Não, apenas ver como o mais famoso deles está se saindo. – Papai diz.
– Não gosto da ideia de ficar sem roupas, mas preciso ver todas aquelas boas críticas. – Vovó Grace vem até mim e estala um beijo em minha testa.
Ainda que nervoso, não posso esconder a minha alegria de ver todos eles, apenas ali para me ver. É muito mais do que eu quis, quando tudo se resumia apenas num abraço e no fato de que ainda me amavam independentemente de quem eu fosse.
– Bundinha mais bonita de Nova York. – Ava diz como um cochicho e fico sem graça. Dou um sorriso com a mão no rosto.
– Isto se chama genética. Aceitem! – Papai fala vindo até mim e se posicionando ao meu lado.
O contra — regra aparece novamente por entre as coxias, desta vez ele parece zangado e irritado por eu não ter ido me posicionar.
– Acho que tenho de ir. Obrigado, família. – Digo meigo.
– Melhor show do mundo. – Ava diz e vem até mim. – Sua irmã ficou irritada por não poder ver.
– Phoebe entenderá uma hora. – Diz mamãe – Mas vamos ao público, é hora de show dele.
– Obrigado, de coração.
Mexo na gravata do terno que uso, o da primeira cena, e decidi muda-la. Uso a gravata igual do papai e dou um último sorriso ao caminhar para a entrada.
– Boa sorte, filho. – Meu pai diz.
– Obrigado, papai. Até já. – De relance o olho e vou na direção da música que começa.
(...)
O show, de fato, parece ser o melhor que já fizemos desde a estreia. As músicas, as danças, a atuação, tudo se torna mais aperfeiçoado do que antes. Não sei se pela atmosfera das filmagens, ou do teatro cheio de pessoas importantes. A cada número desenvolvido, posso ver o meu corpo inteiro ficar mais solto, ele não conhece os limites para atuar ali. Passo toda a verdade dentro de mim, sou honesto com o que enceno. Risadas, choros, sobretudo o último, são algo que ficam evidentes nos rostos das pessoas na plateia.
Rob sentou-se na primeira fileira para me assistir. O show torna-se tão diferente que em muitas vezes eu dialogo com o próprio público, os peço para ficarem de pé. Para baterem palmas. A cada momento da evolução do enredo, olho para alguém da minha família. O Entusiasmo estampado em suas faces me faz dar tudo de mim, ser o melhor. Até meu pai dá umas risadas em algumas cenas cômicas.
Ao final de Don’t forget me, o ápice emocional e final do show, todos eles levantam-se para aplaudir o show. Alguns com lágrimas, como a minha avó, por exemplo. As palmas geralmente demoram após a última música, mas não hoje. As luzes se apagam, tudo se torna breu. As cortinas, por sua vez, ficam abertas e corro para o imenso fundo negro. Lá, respiro fundo, sei que logo começará.
Uma bela melodia começa, a orquestra domina o lugar com a suavidade melódica da canção especial. Meu pedido realizado. Preparo-me e olho para a frente, o longínquo público. Fico parado de frente até notar que o telão se ilumina e posso sentir a surpresa da plateia a olhar espantada para uma pequena chama que sobe pelo telão e o atingir a altura máxima explode. Fogo de artifício. A orquestração se dá magnífica e vou caminhando para a frente a iniciar a música:
– Do you ever feel like a plastic bag, drifting through thw Wind, waiting to start again? – Avanço na direção do centro e mais algumas fagulhas explodem naquele céu imaginário.
A excitação da plateia vai à mil ao conhecer a música e permito-me sentir o mesmo que eles. Durante a música e evolução orquestral vou a passos animados pelo palco, apesar de ter uma frase repetindo-se na minha mente. “Pessoas são como fogos de artifício, Teddy. Umas são mais coloridas, outras apenas em uma cor. A única diferença é que todas explodem ao céu o quanto devem fazer. E precisa aceitar, que mesmo por minutos, fogos de artifício são tão belos. Eu sou um fogo de artifício, você é um fogo de artifício.” – Ergo a mão e aponto para o alto, enquanto que a plateia toda levanta de seus assentos ao cantar:
– ‘Cause, baby, you’re a firework. Come on show ‘em what you’re Worth.
Há uma sintonia entre mim e o público, os sinto em interior, os tenho dentro de mim. Estamos a sentir as mesmas coisas, as mesmas sensações. Ao ouvir tantas vozes cantarem comigo, Penny é o rosto que mais aparece em minha mente, acima de tudo, quando os hologramas de Robert começam a aparecer. Durante a ponte da música as cores me circundam e pequenos fogos de artifícios ilusórios me rodeiam o corpo. Abro os braços cantando o verso final e elevando a maior nota, a mais difícil. As luzes me preenchem ao redor. É lindo de se ver. Mantenho a afinação na voz e permitindo que esta reverbere forte pelo teatro. O show acaba quando novamente ergo amão no ar e um último fogo de artifício explode no telão.
As palmas soam novamente, todos estão de pé. Fecho os olhos e entre lábios, digo à mim mesmo: “Você é fogo de artifício, Penny Summers. Eu sou fogo de artifício”. Faço uma reverência ao público de pé. As palmas não cessam, nem ninguém faz menção de sair ou sentar. E talvez seja por isso que não distingo logo a diferença lá atrás. A figura a encarar. Preto, ele veste preto. Poderia ser qualquer pessoa normal, mas não tenho esta certeza quando os segundos apenas são necessários para que eu possa enxergar o conteúdo que traz em suas mãos. Uma pequena luz me cobre o peito, é vermelha, é a última coisa que percebo antes do impacto. Ele atira.
O espanto de todos no teatro é ouvido por mim ao tombar para trás e colocar as mãos por sob o tronco. Alguns devem acreditar ser o show, por isso nada fazem. Meu corpo vai andando para trás e após dois passos eu ouço o grito da minha mãe. Cedo e vou ao chão. O tumulto começa, tantas vozes me perturbam. Retiro a mão a mão do tronco e ergo-a diante dos meus olhos. Sangue, estou sangrando. Um monte de pessoas me rodeia. Uma dor enorme me abate no peito, a respiração é feita dificilmente. Alguém sai empurrando as demais com violência. Robert. A cara de terror, ele está apavorado quando se joga no chão ao meu lado. Ele apoia minha cabeça em seu colo:
– O que foi isso? Ai meu deus, Teddy. – Sua voz está com medo – Chamem uma ambulância, rápido. – Rob vocifera.
Uma outra pessoa empurra espaço entre os atores e bailarinos. Papai aparece rapidamente e ajoelha ao meu lado tal qual Robert:
– Theodore, Teddy. Eu já chamei uma ambulância. – Soa voz é pior do que a de Robert, tão apavorada quanto.
– Teddy, não, ai meu Deus. – Mamãe se joga junto dos outros. Ela já está chorando.
Não digo nada, o sangue se espalha um pouco pela camisa branca de dentro. Robert me apara a cabeça e toma cuidado. E me dou conta de que nunca o vi chorar, quando seus olhos estão inundados e me olhando:
– Aguenta só um pouquinho, você vai ficar bem. Não foi nada, estrela.
Papai segura o celular diante dos olhos e parece ler algo. Sua face se contrai em algo desconhecido:
– Foi ele, Ana. – Ele diz para mamãe e respirou profundamente, com ela sendo cortada pela bala no peito. Ele abraça mamãe.
– Está difícil de respirar. – Digo com a voz fraca. Não choro.
– Aguenta, Teddy. Você é forte, a criatura mais forte do mundo. – Robert diz mexendo em meus cabelos.
– Eu não sou forte, Robert, eu sou fogo de artifício. Explodi no momento exato e com as cores que deveria. Cores vibrantes. – Falo olhando para a mancha na camisa. – Eu estou muito feliz hoje. Eu fiz isso pela Penny, espero que ela tenha gostado.
– E ela adorou, eu tenho certeza. – Seus olhos encaram os meus – É fácil adorar tudo em você.
A dor piora e a respiração se torna pior de obter. Me contorço um pouco nos braços dele.
– Meu final é igual o do Julian. Eu tinha te falado. – Dou uma risadinha em meio a dor.
Robert chora mais e coloca a testa de encontro com a minha.
– Não, não é, Teddy. Seu final é feliz. Seu final é comigo. Seu final é ser uma estrela. – Ele soluça.
– Sabe, as vezes uma estrela precisa morrer, para que outra posa brilhar mais forte. Você vai brilhar muito com esse show, com ou sem mim. Eu te amo. – Digo com uma lágrima a escorrer do olho direito. – Eu só queria dar orgulho para os meus pais, eles agora me amam de novo, está tudo certo.
Sinto as pálpebras pesarem num cansaço, não sei se físico ou emocional de mais. Ou quem sabe seja a dor que quer parar? Olho por um momento par a amultidão e vejo uma pequena criatura abrir passagem entre elas. Penny traja um vestido de renda branca e seus cabelos estão reluzentes em seu loiro. Está tão chocada quanto as pessoas, mas tudo que faz é emitir um gesto de negação que não entendo. Ela continua negando com a cabeça. Dou um sorriso para ela e ela acaba sorrindo de volta, sussurrando:
– Não, não, Teddy. Não desiste.
Toco o rosto de Robert ternamente e enxugo um filete de lágrimas:
– É tão fácil desistir, é tão fácil ser feliz sem precisar dos bens materiais. Vai ficar tudo bem, fica bem, tá? – Robert se inclina e beija meus lábios. E nesse momento, quando o sinto pela última vez em contato comigo e as lágrimas que perpassam o rosto, meus olhos se fecham.
Ainda posso ouvir uma voz ao longe, ela é como um sussurro longínquo que diz: “Não, não, Teddy. Volte para mim.” – Poderia ser o choro de Robert. Mas não, era outra vez, era meu pai que também chorava. O peito relaxa, abraço meu destino.
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