50 Tons de Uma Cor Vibrante

31 Capítulo 31 - Tatuagem


Notas iniciais
St. Jude - Florence + The Machine

Deixei Robert dormindo em meu apartamento, depois da comemoração da noite passada era melhor ele descansar. Nunca me senti tão vazio na vida, antes era cercado por pessoas, agora por prêmios. Há uma grande diferença entre estes polos, principalmente quando olho para os troféus em minha prancha de livros. Rob fez questão de os colocar num lugar onde eu sempre pudesse ver e nunca esquecer do meu talento. O carro avança rápido pelo centro de NY, e eu dou sorte que o motorista não me para por um surto, pois o momento não é propenso.

Prometi a mim mesmo que só iria naquele lugar quando sentisse-me preparado o suficiente para tal. Todos haviam ido, pelo menos os que a conheceram por mim de algum jeito. Carrego algo dentro da bolsa e conforme o automóvel me guia pelas principais ruas de Nova York, sou tomado pelas sensações iniciais que tive nesta cidade. Posso me ver chegando no aeroporto, a diretora a receber-me no instituto. Será possível que há uma reabilitação para cada pessoa que você perde na vida? Porque a cada ponto que olho na grande maçã, tenho a impressão de que terei de me acostumar a tudo novamente.

O sol está cintilante, como só ele consegue ser quando deseja. Posiciono as mãos no colo e olho pela janela entreaberta, como aprendi a amar essa paisagem. É como se todo o medo que eu tinha, todo aquele receio, tivesse se convertido na mais pura admiração. Apesar da Seattle ser a minha cidade, Nova York era o lugar onde eu construiria minha vida.

O carro estaciona em frente ao meu destino. Sawyer sai de seu lugar e não me deixa abrir nem mesmo a porta, fazendo isso e me permitindo sair do automóvel. Com um pequeno vento que corta o lugar, posso ver o cemitério de Nova York. O segurança me olha estranho, certamente por não saber o motivo exato de eu estar visitando tal lugar. Coloco a bolsa de couro no ombro:

– Sawyer, pode me esperar aqui? É algo que preciso fazer sozinho. – Pergunto, esperando que ele não invente de me seguir.

– Tenho ordens expressas de não te deixar pisar um ladrilho sozinho, rapaz. – Ele me encara a expressão. – Mas vou quebrar o seu galho, isto significa por meu emprego à prova. Seja breve.

– Obrigado, Sawyer. – Digo a me dirigir logo para a entrada do cemitério.

5º Rua, memorial 10º, foi assim que ouvi Robert falar numa das conversas em que queria me convencer a ir no lugar e nas que eu veementemente recusava. Queria manter a imagem de Penny em minha mente, a mesma que sempre tive. Enterros, mortes, sempre trouxeram-me visões ruins, imagens dolorosas. Jamais quis que Penny se tornasse qualquer uma desta cosias. Mas aqui estou eu, quando cruzo os grandes portões, envolto às sensações eu sempre julguei incômodas.

Existem memoriais e tumbas de todas as formas, alguns mais cuidados que os outros. São de mármore, gesso, existem tantas de diferentes materiais construtores. Algumas ostentam rosas, flores recém postas, uns soam esquecidos. Com uma pontada angustiante no coração, aperto o meu passo e com o vento que dança pelos meus fios capilares, sou tomado pela atmosfera, ainda que, a face sorridente de Penny me impeça de afundar no oceano miserável mental. Espanto-me ao me deparar com uma área distinta.

A rua do memorial da Penny é totalmente florida, na verdade, o chão altera-se de simples concreto e se ergue num tapete verde de grama e flores diversas. É uma paisagem digna de um conto de fadas. Pongo as mãos nos bolsos, vou vendo alguns nomes em placas aleatórias. Gabrielle Houston, Frank Dalloway, Stephannie Earheart. E passados os quatro primeiros, me encontro de frente para um memorial que diverge dos demais. Ainda possui as mesmas dimensões dos demais, no entanto, discretas elevações de gesso exemplificam uma miniatura das torres de um castelo, nas quais relógios semelhantes aos do castelo do príncipe de Cinderela, marcam as horas.

Com todos estes fatores, ainda não é nenhum que prende a minha atenção, mas sim, a foto centrada numa plaquinha. Sorridente, com os cachos loiros e as maçãs do rosto rosadas, a garotinha exibe a mais simplória e genuína felicidade. Penny Summers está tão radiante quanto o sol da manhã. Como dói não mais tê-la, tendo que conviver com a saudade que nunca mais será matada. Meus dedos tocam a superfície da fotografia na plaquinha e com uma expressão meiga, nostálgica, me entrego às lembranças.

– Eu espero que esteja feliz, Penny. Espero mesmo. – Digo a falar sozinho, ou quem sabe, com ela mesmo?

Não obtenho uma resposta, nem poderia. Retiro a mão da ilustração e retiro algo da bolsa. O troféu de melhor ator do Tony brilha em minhas mãos. Com um impulso do dedo, faço a pequena placa girar e fico observando-a exemplificar o movimento mais certo da minha vida. Não é porque ela não o pode pegar com as mãos, que o prêmio não possa ser dela. Cuidadosamente, coloco o objeto ao lado da sua foto no memorial e posso sentir que vou chorar, logo me reprimindo. Prometi que não choraria, era para ser alegre, por mais que magoasse por dentro.

Uma princesa, uma guerreira, uma vencedora. A sequência adjetiva se descreve sobre ela em minha mente. Penny pode não ter vencido o câncer, mas com toda a certeza ela venceu na vida. Penny tinha algo que julguei ter perdido, fé. E hoje percebo que talvez ela não precise estar em exatamente num Deus, mas sim nas pessoas que você deposita o seu mais puro e sincero amor. Além de amá-la, sempre tive fé, tanto quanto o tenho em Robert. Pego-me encarando tudo, passo longos momentos o fazendo.

Sinto o celular vibrar no bolso da calça e imagino que seja Sawyer, eu estou demorando. Já havia feito o que devia fazer, era hora de partir. Virei de costas e comecei a caminhar para o meu caminho do carro. Paro na metade e volto correndo ao memorial. Puxo mais uma coisa da bolsa, a pequena caneta que ela usava para escrever nos polaroids. Imperceptivelmente e com a caligrafia fina, escrevo na quina do memorial: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração.” – J. K. Rowling. – P.S: Aqui encontra-se o coração de Theodore Raymond Grey. #Forever.

Saio antes que comece a chorar e encontro com o segurança na frente do cemitério. Sawyer me avalia com sua carranca expressiva, mesmo que não seja grosso.

– Obrigado mesmo, Sawyer. Eu tenho mais um lugar que gostaria de ser levado. – Falo.

– É só me falar, Senhor Grey. – Ele me abre a porta do carro. Adentro ao veículo e ele o fecha.

Quando Sawyer toma o volante, questiona-me:

– Para onde deseja ir?

– Village, Sawyer. Preciso ir num estúdio de tatuagem de lá. – Apesar de olhar para mim com apreensão pelo espelho, o profissional acata o que lhe requisito.

Olho uma vez mais para o cemitério, antes que ele faça a curva. Meu coração fica para trás.

(...)

Destravo a porta do apartamento e ao entrar em casa, noto Robert me encarando do sofá. Não tem a melhor cara do mundo, pelo contrário, está mais carrancudo que meu próprio segurança. Penduro a bolsa de couro no lugar devido atrás da porta e marcho par aonde ele está. Conroy não espera nem eu me aproximar o suficiente:

– Onde estava? Por que saiu sem me dizer?

– Em primeiro lugar, se acalme. Em segundo, nunca vou te dar um GPS do que faço. – Me aproximo dele.

– Seu pai me ligou, eu já sei dos mínimos detalhes. Aquele desgraçado, ele podia ter te feito mal, e você sai por aí sem me falar nada. Porra, Teddy, isso não se faz. – Ele altera a voz, não grita, porém a a deixa alta.

– Sawyer foi comigo, nada a temer. – Digo.

Robert se levanta e me olha:

– Isso não melhora nada, piora, na verdade.

– Não me diga que está com ciúmes do meu segurança? – Cruzo os braços. O movimento faz minhas costas doerem um pouco, ainda está com os efeitos do que eu acabara de fazer. Exibo desconforto, contorço o rosto.

– Sim, estou. Eu sempre vou ser inseguro quando se tratar de você, Teddy. Se eu perder você, não há mais ninguém. – Ele toca meu braço – O que foi agora? Sente alguma dor por algo que eu não sei?

– Sinto. Minhas costas doem. – Conroy pressiona os olhos em mim desconfiado. Ele não fala nada, tenta balbuciar algo, porém se retém. – Sabe, Robert, eu posso não ser tão fácil assim, mas só há você para mim. No fundo Conrad Ward me deu uma boa lição. Não se brinca com ninguém, pois este é o pior jogo que pode existir.

Rob me fita momentaneamente e ergue as mãos ao meu rosto:

– Para com as palavras atraentes, estrela. Pare de me ganhar a cada segundo. – Ele diz.

– Preciso te mostrar algo. – Falo ao segurar a camisa e removê-la pela cabeça. Sinto dor ao mexer os braços e consequentemente os músculos das omoplatas.

Ele estica seu sorrisinho safado, não sabe o que o vou mostrar. Viro de costas e o mostro o que fiz.

– Certa vez eu ouvi numa música da Madonna, que era apenas um pássaro com asas quebradas e que aprendeu novamente a voar. Eu tenho essa sensação hoje. Por isso fiz um ‘R’ do lado direito e um ‘P’ do lado esquerdo. Essas duas letras são como asas que eu encontrei para conseguir içar voo novamente. Estas letras são como asas que ninguém precisa ver, mas que podem me fazer voar. – Meu tom é suave. Viro-me para encarar o rosto de Robert.

Está paralisado e com uma reação absorta, diferente de como sempre costuma estar.

– Gostou, diretor?

– Eu estou tentando achar palavras para anexar à sua ficha de ser humano destaque. – Ele acaricia meu rosto. – É a coisa mais bonita que já fizeram por mim em toda minha existência. Eu não te mereço, Teddy, mas eu te quero do mesmo jeito.

– Você merece tudo aquilo que tem, Conroy. Inclusive um filhinho de papai de Seattle.

– E que filhinho de papai gostoso. – Ele me beija ternamente, pondo um pouco da malícia pessoal no gesto. – Agora este filhinho de papai vai ficar mais famoso nas televisões da América. Já imaginou?

– Não exatamente, todavia, queria pedir algo à você. – Apreensivo, coloco então minha segunda meta em prática.

–Diga-me o que deseja. – Ele é firme.

– Gostaria que incluísse um número especial ao final da apresentação de Spotlight para a TV.

– Como assim? – Ele franze o cenho.

– É um número sobre a Penny, sobre mim, sobre a vida. Nunca escolhi nenhuma música, porém tenho a sensação de que esta me escolheu. – Toco em seu braço – Por favor?

– Como eu negaria o final mais ideal da minha estrela? Ele passa os braços por minha cintura e dá um beijinho em meu pescoço.

– Muito obrigado. – Digo ao puxar seu rosto e beijá-lo posteriormente.

– E que número é esse? – Pergunta-me num intervalo do beijo.

– Você verá. Vamos com calma. – Pisco para ele e ele responde a ação.

Notas finais
Pois bem, gente, os deixo com o penúltimo capítulo da história. Coisas grandes vem para o próximo. Espero que gostem, e já agradeço por estes meses maravilhosos. Deixem seus reviews, me deixarão bem alegre.