50 Tons de Uma Cor Vibrante
25 Capítulo 25 - Percorrendo calçadas
Notas iniciais
Ajeito a bolsa nas costas de Penny e observo ao redor, para ver se não esqueci de nada. Cada coisa está em seu devido lugar, e é hora de partir. Seguro na mão de Penny e digo:
– Pronta?
– Não, espera, deixa eu pegar a Katy – Penny corre até seu quarto e volta com a boneca em mãos – Agora pode.
– Bom dia, Katy. – Falo olhando para a boneca.
– Ela desejou bom dia também. – Penny é a porta voz.
Seguro em sua mão e conduzo-a para a saída do apartamento. Ao chegarmos na saída, Penny fica olhando para o apartamento, parece procurar ou avaliar algo ali. Em seus olhinhos brilhantes, a menina contempla principalmente a paisagem.
– O que está olhando, Rainha? – Pergunto.
– É só par ater certeza de que vamos saber como tudo ficou quando voltarmos. Tem de ser vigilante, Fado. – Ela articular utilizando aquele seu discurso maduro.
– Pois quando voltarmos, deixo você fazer a vistoria completa, Senhorita policial. – Bato continência para ela.
Penny repete o gesto e segura em minha mão. Ao fechar a porta do apartamento, saímos dali.
Caminhamos pelas ruas, e dessa vez tomo mais cuidado do que quando saio sozinho. Penny não é como aquelas crianças apressadas e nem faz menção a correr, anda sempre igual comigo. Resolvo comprar um sorvete para ela, mas não porquê me pede, faço isso apenas para vê-la sorrir. Sei o quanto os dias de avaliação são ruins para ela, exames são ruins, incomodam. Ainda mais hoje que ficará até amanhã, por conta das minhas apresentações à noite. Pegarei ela por volta das sete da manhã.
Apanhamos um ônibus e ele nos guia pela maior parte do percurso, deixando-nos de frente par ao hospital. Ao descer, ajudo Penny a limpar-se do sorvete e finalmente adentramos o espaço.
E é tão diferente da primeira vez que adentrei há quase um ano atrás, porque isso tornou-se familiar e ao mesmo tempo se afastou um pouco após levar Penny. Muitas melhorias são notáveis na estrutura do lugar, as reformas principalmente. Meu ego fica contente por saber que ajudou aquilo. Vou andando com Penny em meu encalço e ao passarmos pelo corredor no qual o quarto que ela dormia fica localizado, a encaro de lado:
– Sente saudades? – Pergunto.
– Só das pessoas. – Ela diz.
– Então vamos matá-la. – Ergo Penny nos braços e vamos caminhando até sua antiga ala.
Dou uma batidinha na porta e quem a abre é George, usando roupas novas. O sorriso do menino se escancara ao olhar para nós:
– Penny e Teddy! – Em êxtase, alarma a todos.
Rapidamente as crianças correm até nós e sou obrigado a por a menina no chão. Uma série de abraços começam e pouco a pouco aquilo vira uma senhora bagunça. Abraço a George e Meg, enquanto Penny também o faz para com todos. Com um prontuário em mãos, a doutora Rose encosta-se na soleira da porta e fica observando a cena.
– Fui mesmo trocada, não é, mocinha?
– Tia Rose. Ela corre até ela e joga-se contra ela.
– Como você está, pequenina? – Ela acaricia as costas de Penny.
– Eu estou bem, sabia que minha casa é bem grande? – Ela exemplifica com as mãos e a doutora pisca para mim, como se dissesse “Olha só para ela”.
– Então me convide, quero ver sua casa.
– Claro. – Ela volta-se para mim – Teddy, ela pode ir lá em casa?
– A doutora é uma boa garota, pode sim – Falo, desta vez, piscando para Rose de volta.
– E todas as crianças podem ir também? – Ela pergunta olhando o George e os demais.
– Todos poderão se a doutora deixar. Faremos uma festa. – Digo fazendo uma dancinha com o tronco. Todos riem.
– Crianças, o que acham de brincar com a Penny, enquanto a tia conversa com o Teddy? – A doutora propõe e já segura o meu braço.
Penny automaticamente corre para todos e Rose termina me levando para fora dali. Caminhamos pelo corredor. Ela puxa algo de dentro do jaleco e é um programa de Spotlight, um playbill.
– Poderia me dar um autógrafo, estrela?
– Não me diga que você...
– Sim, na abertura. Pena não ter conseguido falar com você depois, precisava voltar para o hospital.
– E o que achou de tudo?
– Maravilhoso, fiquei sem palavras ao final. Eu realmente chorei, Teddy. – Ela me olha ao passarmos por outra ala – E eu fiquei me perguntando se não tinha um pouco de você ali, sabe? É verdadeiro demais até para o melhor ator de todos.
– Seria hipocrisia dizer não, tem sim, doutora Rose. – Olho para as paredes reformadas – O hospital está uma graça.
– Está sendo reequipado, reformado na arquitetura, tudo graça à você, Teddy. Você definitivamente nos salvou do pior.
– E vocês me salvaram de mim mesmo. – Olho para o lado e pego o livreto de sua mão.
Passei a andar com uma caneta nos bolsos, e a razão é justamente a de eventualidades como essa. Encosto o playbill na parede e assino:
“É preciso coragem para salvar a vida dos outros, mais ainda para salvar alguém perdido. Beijo, abraço e uma mão de obra legal.” – Theodore Grey
Entrego o livreto à Rose, quem me fita a sorrir após ler a mensagem.
– Você é um ser humano incrível, Teddy. Obrigado. – Ela abraça-me espontaneamente e retribuo o gesto.
Quem nos visse, certamente pensaria que éramos namorados a se abraçar no corredor do hospital. Ela acabou me lembrando Dianna Polland, a médica de Julian em Spotlight. E mais uma vez eu me pergunto se tudo aquilo não foi escrito sobre mim, mesmo que Robert não me conhecesse. Pensar em como a arte pode reproduzir a realidade, certamente me soa formidável. Devolvo Rose ao chão:
– E se eu te disser que decidi fazer medicina? Eu precisava de uma faculdade. Acho que encontrei. – Falo.
– Sério? Não acredito, um ator médico. Eu quero muito ver isso, você é inédito. – Ela sorri de felicidade e guarda o livreto no bolso do jaleco. – Talvez venha me ajudar aqui ou assuma o hospital, quem sabe? Eu penso muito em ir fazer uma especialização na Suécia
– Quem sabe, não é? Eu passei a não tentar saber do que o futuro guarda para mim, Rose. Tudo pode acontecer.
– Para pessoas como você, tudo vai acontecer, meu caro. Guarde o que digo. – Ela tira os óculos – E ela? Está tudo bem em casa? – Refere-se à Penny.
– Muito bem, apenas com crises de ar uma vez ou outra. Ela toma os remédios certinhos e me aprece bem melhor. – Digo.
– Você fez muito bem à ela, Teddy. Se soubessem como gestos mudam a vida de crianças como Penny, existissem mais pessoas como você. Que entram em hospitais sem saber de nada, porém se tornam heróis com o passar do tempo.
Mão na cintura, músculos erguidos e voz grave. Digo:
–Super Spotlight. – Rose gargalha.
– Sim, Senhor!
– Agora preciso me despedir dela, pois vou passar o dia ensaiando e me preparando para a noite. Ok?
– À vontade, Senhor. – Ela faz uma reverência.
Retorno à ala das crianças e vejo a correria ali dentro. Quase sou derrubado por Meg, que corre atrás de Tracy. Termino sorrindo e olhando tudo aquilo. É como se fosse a primeira vez, sempre vai ser. Imagino-me sem rumo, andando por NY, com um café do Starbucks e pensando em como a vida pode ser miserável para com um ser humano. Eu estava errado, ela pode ser pior. Eu não sou o pior do mundo, porque tudo tem a ver com o quanto eu posso me amar, já que não preciso e nem dependo do amor de ninguém. Mas a vida deles, isso não depende deles, mas sim, de uma cura tão distante, as vezes. Sem muito tempo para conversar, chamo Penny num cantinho:
– Estou indo embora, tá? Só que você não liga, está brincando e correndo. – Dou uma risadinha.
– Eu ligo sim, Fado. Vou sentir saudades suas. Só que está ocupado demais sendo a maior estrela do mundo. E eu tenho algo para te dar, mas só quando vier me buscar. – Ela faz a sua carinha de travessa.
– E vai mesmo me deixar curioso até amanhã, Rainha?
– Vou sim. – Ela ri e George grita por ela.
– Precisa ir. Vem, vamos comigo até a porta, te deixarei em paz. Lembre-se, tem lanche e alguns brinquedos na mochila. – Caminho com ela até a porta da ala.
Ao destravar, saio e a deixo do lado de dentro. Ficamos nos olhando por um tempo e George ainda chama por ela. Criança. Dou-lhe um abraço e um beijo na cabeça. Deixo-a na porta e começo a caminhar pelo corredor. Acho que já deve ter voltado para brincar, e a prova eu tiro ao olhar para trás. Estou errado mais uma vez, pois ela me olha da soleira da porta:
– Eu te vejo amanhã! – Aceno para ela, de modo que, um sorriso apareça em meu rosto.
– Eu te vejo amanhã! – Penny sorri para mim, fica a me olhar. Sei que ela me olha até que meu vulto desapareça dali. Mas a sua imagem não sai da minha visão, mesmo quando ela some às minhas costas.
(...)
À noite, já estou pronto com a minha bela roupa do número inicial, quando Robert entra no camarim e me abraça:
– Acho que devíamos ter o nosso momento a sós noturno. – Ele sussurra em meu ouvido.
– Não agora, Sr. Diretor. Estou pronto para o número de abertura. – Passo meus braços ao redor de sua cintura e dou um beijo rápido nele. Como estamos hoje?
– Lotados, e pelas próximas cinco noites também. – Ele me beija o pescoço carinhosamente e termino dando uma mordidinha
Passo um tempo abraçado com Robert, até que o contra regra, que agora é o Jackson, avisa sobre a entrada. Jackson caiu nas graças de Rob após ajuda-lo com o caso de Marianne, até eu compreendi isso. Ao menos ele parou de me perseguir constantemente. Olho para Rob por um segundo e escuto um trovão do lado de fora, está uma chuva daquelas. Incrível como o teatro encontra-se lotado, mesmo com uma chuva castigando Nova York. É a magia de Robert Conroy.
– Eu preciso ir, ok?
– Eu sei que precisa, afinal eu delimitei esta hora para entrar, estrela. – Ele me dá um último beijo e então olha para a mesinha de cabeceira. – Parece que seu celular está chamando.
Viro-me de costas e corro até a penteadeira. Um número desconhecido vibra no visor e por um momento fico com medo, poderia ser Marianne. Olhando para Robert, acabo atendendo:
– Alô?!
– Teddy? – Ouço a voz da doutora Rose.
– Sim, doutora. Algum problema? – Já me sinto nervoso.
– Eu não te pediria isso, mas pode vir no hospital agora? A Penny está te chamando.
– Como assim? – Meu coração palpita. Robert achega-se por trás de mim. As mãos me tocam a cintura.
– É a febre, ela está delirando e não fala coisa com coisa. Mas ela disse que quer te da ruma coisa. Eu não entendo nada. – E a postura da doutora se vai, ela está aflita, provavelmente chorando.
– Eu chego ai logo. – Desligo e Robert está chocado. – É a Penny.
– O que aconteceu com ela? – Robert está tão preocupado quanto eu.
– Ela não está bem, está chamado por mim. Me perdoe, me perdoe. – Digo caminhando para a porta de saída dos fundos.
Ouço o interlúdio começar, eu deveria entrar. Robert vem até mim mais uma vez e fica me olhando sem saber o que dizer.
– Me perdoe. – Começo a chorar e corro pela porta.
Logo sinto a chuva forte atingir minhas roupas do show. Não demoro a avançar o beco no qual Marianne me agrediu. Não me importo de estar vestido como Julian, Nova York é o cenário da minha maior fuga. Saio pelas calçadas e vou ouvindo os trovões acima. Poucas pessoas passam pelas ruas com sombrinhas ou capas de chuva. Noto que deixei meu celular no teatro, bem como, carteira e documentos. Não me interessa nada. A água escorre pelo meu corpo e quase escorrego numa poça d’água, num determinado cruzamento. E a cada vez que estou mais perto do hospital, faço uma prece silenciosa.
Depois de vinte minutos apenas correndo, vejo o hospital na esquina da rua. Tão perto de onde eu conheci Robert, está tudo atrelado. Aperto o passo e me sinto ofegante. Ao chegar de frente para o hospital, empurro a porta da entrada e encharcado invado o hospital.
– Teddy, ai meu Deus – A Doutora Rose vem saindo do corredor das alas de tratamento. – Precisa se secar.
– Não, cadê ela? Eu só preciso ver a Penny. – Digo exasperado.
– Ponha uma roupa dos médicos, vá no vestiário. Se não, não poderá entrar.
Sigo o seu conselho, vou até o vestiário, a fim de por uma roupa seca. Eu não paro de chorar por um minuto, porque não quero admitir que talvez eu a esteja perdendo.
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