50 Tons de Uma Cor Vibrante
2 Capítulo 2 - De Seattle para Nova York
Notas iniciais
Eu nunca gostei de despedidas, muito pelo contrário, as odiava. Odiava da mesma forma que posso odiar pessoas mentirosas, falsas, e que não dão a mínima para o que os outros sentem. No entanto, aquela despedida era necessária, eu sabia que seria. Poucas horas antes, meu “benevolente” pai, resolveu me deixar dar adeus para meus ouros familiares. Principalmente minha avó Grace, e minha tia Mia. Observo um ramo de rosas vermelhas, que estava posto em cima da mesa do escritório do vovô. Elas eram tão lindas. Haviam muitas coisas na vida as quais eu não entendia, e estar ainda ali era uma delas. E ver que a vida pode mudar tanto em apenas algumas horas, é realmente assustador.
Eu sempre ouvi as pessoas dizendo: “Ah, esse garoto vai longe.”, “Ele é realmente o melhor.”. Tão engraçado, como alguém consegue te fazer sentir tão nada e tão vazio. Ainda mais quando esse alguém um dia se chamou seu pai. Sentado na poltrona de frente para a mesa e de costas para a porta, cruzo as pernas. Não mais chorava, nem tampouco tinha feições tristes. Apesar de saber que qualquer um que olhasse para mim, saberia o sentimento desolador que estava no meu peito. Juntei as mãos à frente do corpo e fechei os olhos por um momento. Imagino o tanto quanto vivi nesta casa. Imagino quando meu pai corria atrás de mim pela sala e pelos corredores, desejo que aquilo voltasse. Mas não, não iria. São outros tempos. Como na música de Nina, é um novo amanhecer, um novo dia. A diferença, é que eu não estou me sentindo bem.
– Você é irredutível, Christian. Aprenda a ser Humano. – A porta abriu e bateu.
– Estão brigando por minha causa? – Giro a cadeira e encaro a figura atrás de mim. – Não valo essa Terceira guerra mundial.
Tia senta-se num sofá na lateral da sala e me encara. Os olhos semicerrados e observadores, tão diferentes dos que eu costumo conhecer. Da mulher absolutamente escandalosa e enérgica:
– Você é corajoso, hein? – Ela disse.
– Eu não queria mais mentir.
– Por um lado, foi o melhor que você tinha a fazer. Apesar de que, agora o outro está uma fera. – Tia Mia, continua a encarar-me.
– Imagino que sim. Serei até deportado. – Ponho as mãos nos descansos da cadeira.
– Eu estive tentando fazer a cabeça dele voltar ao plano terrestre, mas ele não me ouve. Sua mãe está sem falar com ele. – Ela junta as mãos.
Pior do que se sentir jogado fora, é você sentir que você acabou afetando a vida de outras pessoas. Principalmente pessoas que você amava. Mexo em meu cabelo e o tiro dos olhos. Não digo nada, apenas olho vagamente para minha tia. Ela bate com a mão no assento ao seu lado, convidando-me a me juntar a ela. Sem hesitar, levanto, indo até o local e acomodando-me ao seu lado.
– Por que tudo tem de ser assim, tia? Sabe, eu apenas quis que eles me conhecessem. Como cada filho quer ser conhecido pelos pais. – Digo olhando para o chão.
– As pessoas veem as coisas de formas diferentes, Teddy. Acho que o mundo pode ter mudado, porém algumas coisas ainda são para alguns, uma coisa inaceitável. – Ela respira fundo – Não que seja o caso do seu pai, porquê acho que isso dele é mais um surto momentâneo. Mas do mundo em geral.
– Ele pode estar dizendo que vai me mandar para pensar, porém tudo que ele quer dizer é, vá embora. Eu não quero você aqui. – Movo minhas mãos umas nas outras, de maneira aflita.
Tia se aproxima de mim, e com um braço, envolve minha cintura e dá um beijo estalado em minha bochecha. Aquilo me faz sentir tão amado, coisa que eu duvidava ter sido algum dia. Ainda olho para o vazio, sinto minha mente dar alguns giros breves.
– Não, Teddy. Eu gritei com seu pai há meio minuto atrás, porque ele está sendo horrível. Mas ele ama você. E quando digo que Christian ama, é verdade. Ele não é alguém de amores. No entanto, sua mãe, a Phoebe e você, ele realmente o faz. Ele está transtornado com a mudança dos cursos que ele tinha planejado para você. – Tia Mia, mexe em meus cabelos.
– Planejava? Não planejamos amar alguém, tia. – Ela encosta sua cabeça na minha.
– Eu sei, Theodore. Eu amo você, do jeito que você é. No fundo, acho que eu sempre desconfiei de algo. Por alguns motivos soltos. E acho que sua mãe, por mais que surpresa, também sabia. Fez a coisa certa, dizer o seu EU para as pessoas.
As lágrimas simplesmente estavam presas naquele momento, talvez porque chorei a noite toda. Paro de mexer as mãos e afago os cabelos da tia. Faço um pequeno movimento e levanto do sofá. Fico de frente para tia Mia, e esboço um sorriso doce. Ela me encarar, ficamos assim, nesse visualizar lento. Não posso mais ouvir as vozes para além da porta, apesar de saber que eu preciso encarar elas logo.
– Tia, acho que preciso ir. Meu trato era apenas para me despedir daqui. Da vovó, de você. – Esboço uma feição neutra.
– Pense no lado bom, Teddy. – Ela levanta-se e bate palmas. – Vai para Nova York. Existe tudo o que quiser em Nova York. E eu prometo ir visitar você lá, eu e o Ethan. – Ela pisca em conspiração.
Abraçando-a pela cintura, encosto meu queixo em seu ombro e dou um beijo em sua bochecha. Como eu a amava, talvez até como se fosse minha terceira mãe, porquê vovó era a segunda. Desvencilhando-me do gesto afetuoso, dou uma última olhada para ela e saio pela porta do escritório. A expressão triste automaticamente muda, e força aparece entre as coisas que eu demonstrava. Havia ali um Q de superioridade. Todos estão sentados na sala, e noto minha mãe sentada numa cadeira longe do meu pai. Chego e abraço minha avó pelas costas, em seu pescoço. Deposito um beijo em sua bochecha:
– E acho que o Teddy está pronto para ir embora. Vai ficar bem sem ele, Senhora Grey? – Pergunto.
– Você sabe que não, Teddy. – Ela diz brevemente.
Minha mala estava no carro, na verdade, minhas malas. Havia muita coisa a ser levada. De fato, parecia estar me mudando de vez para Nova York. Após abraçar minha avó, fui me despedindo de cada um na sala. O clima era desconsolado, e eu sabia que por diversos motivos. Por último, abracei vovô:
– Xau, vovô.
– Até logo, pequeno. Ou diria grande? – Ele me olhou ao desfazer o abraço. – Vamos esperar sua volta, muito ansiosos. Entendeu?
Eu não havia chorado, em momento algum. Me despedi sem precisar fazer aquele clima ruim, apesar de todo saberem que ele estava ali. Quando vi meu pai e minha mãe preparando-se para sair, endireitei minhas vestes e limpei a garganta. Há momentos na vida nos quais você tem a sensação de que nada, será mais do mesmo jeito. Eu tenho esta sensação ao chegar perto da porta e dar uma última olhada para todas aquelas pessoas na sala. Nos olhos de cada um, eu via a forma diferente com a qual encaravam minha “nova” vida, porém era nos olhos que já não mais me encaravam, que eu via o pior dos reflexos. Meu pai.
Eu queria estar de novo naquele banco, aos cinco anos. Com minhas perninhas balançando. Eu queria que ele tocasse as mesmas músicas, mas acima de tudo, eu ainda queria que ele pudesse me amar da mesma forma. Após meu último aceno, entro no carro. Taylor espera ao volante. Sento-me no banco traseiro, mamãe senta ao meu lado e parece me olhar com dó. Eu odeio ser encarado por pena. Encosto no vidro da janela e ouço o ronco dos motores. A mão de minha mãe em meus cabelos, faz com que eu me vire uma última vez. Viro a tempo de ver Phoebe correndo atrás do carro e batendo. Ela chama tanta atenção, que Papai ordena que Taylor pare o carro. Desço o vidro da janela até sua metade:
– Fala, P. – Digo.
– Você é meu Black, Teddy. As coisas não têm mais graça a partir de hoje. Nada tem graça sem Black and White. Me diga que vai voltar logo. – Ela disse com lágrimas nos olhos.
E eis que pela primeira vez, não a prometo o que ela queria. Do contrário, digo:
– Quem sabe? Eu te amo, ok? – Dou um beijo em sua mão e fecho a janela.
Mesmo sem chorar, mantenho-me encostado na vidraça, com um nó na garganta. A viagem até o aeroporto de Seattle não era demorada, comparado ao modelo de carro ao qual fazíamos utilização. Durante todo o percurso, nem mamãe e nem papai conversaram. Não foi trocada nenhuma expressão naquele meio tempo. Ao chegar no aeroporto, sabíamos bem o procedimento. Nunca viajamos num avião de linha, sempre se tratou do jatinho particular. Taylor me ajuda a tirar as malas do porta – malas:
– Deixe que eu levo, Senhor. – Diz ele.
– Não precisa, Taylor. Obrigado, mas posso fazer isso. – Puxo a mala de rodinhas vermelha. – Como está a So? Está feliz no casamento?
– Ela está sim, mudou-se para o Kansas, Senhor.- Taylor fala com um meio sorriso.
– Mande lembranças à ela. – Começo a puxar a bagagem.
O Sr. E Srª Grey me esperavam bem na entrada da porta lateral que nos ligava à pista de pouso. Puxando meu peso em vermelho, me igualo a eles na caminhada, por mais que não disséssemos nada um ao outro. O piloto do avião já estava a postos na pequena escada. Papai se adiante e vai até ele, ficando a um espaço de distância considerável entre mamãe e eu. Ele provavelmente daria mais ordens das quais costumava fazer sempre. Seguro a base da mala e espero. Sou surpreendido por minha mãe, que se põe em minha frente:
– Eu não queria que as coisas fossem assim. – Ela mexe em meus cabelos. – A vida está tão diferente do que era há alguns dias...
– Até eu me assumir homossexual, a Senhora quer dizer? – Sou rápido. – Pode dizer, já não há tabus para mim acerca disso.
– É, mas não quero que pense que isso muda a forma que eu vejo meu filho. Eu vejo sempre o menino brilhante que os professores diziam ser o melhor da sala. Eu vejo quem brincava e queria cuidar da Phoebe. Pode não parecer, mas eu te amo, Teddy. E acredite, seu pai também. – Ela repousa a mão na lateral do meu rosto.
– Amar, amor, amando. Quão bonito ela pode ser dita ao vento. Eu tenho medo dessa palavra, da mesma forma como tenho medo das pessoas agora. – Falo num tom pesaroso.
– Ana, ele precisa ir. – A voz firme do meu pai é ouvida.
Eu não queria ter de fazer aquilo, estava tão determinado a encarar tudo. Iria subir naquele avião sem derramar uma lágrima, todavia eu senti um pequeno filete escorrer dos meus olhos. Tento dar um passo à frente deles, e paro de frente para o meu pai:
– Eu ainda sou o mesmo. Por favor, não me faça subir nesse avião. Não me faça ir embora da minha vida e de tudo. Porque se eu subir nesse avião, será como se vocês nunca tivessem existido na minha vida. – Falo com as lágrimas a caírem. Minha mãe me olhava com a mesma expressão nos olhos.
– Então, que seja assim, Theodore. Seu Voo te espera. Chegará logo em Nova York. Lá, um responsável pelo Instituto St. Church lhe buscará e acolherá. – Ele diz aparentando sequidão.
– Ok, Sr. Grey.
Meu olhar vai até minha mãe, e sinto que meu braço se levanta involuntariamente para dar adeus, no entanto o abaixo. Não posso chorar desse jeito, quem eu sou? Paro ao me pegar a pensar nisso. Sou o Teddy, o garoto nerd no colégio, que tinha boas notas, ou esse ser asqueroso que meu pai agora pensa que sou? Por tantos e longos anos, quis eu me entender. Arrasto a mala no solo áspero, caminho na direção da pequena escada. O vento bate em meu rosto, a brisa me leva. Os olhos se fecham num lapso.
– Pode tocar mais uma música, Papai? – Balancei as perninhas no banco grande demais para mim.
– Só mais uma música, Teddy. – Ele tocou as belas notas do piano. E mamãe olhou encostada nele. Aquele piano sempre trouxe o melhor que minha cabeça poderia lembrar do que significava ser uma família.
A forma com a qual o vento bate no meu rosto uma última vez, faz meu corpo estremecer. Aperto o casaco contra o corpo e puxo a mala para cima. Estou de costas, me permito chorar. Jogo a mala dentro da cabine e me viro. Eles me olham. Cada um com sua expressão. Minha mãe com olhos em lágrimas desconsoladas, meu pai com as mãos nos bolsos da calça. Lentamente, estico minhas mãos e vou puxando a escada. Eles vão desaparecendo como um fade de filme, e ao sentir a trava dar um crack, me encosto e deslizo para o chão a chorar.
Uma vez li num livro sobe existir duas formas para se contar uma história, e eu sinto que a minha forma era a verdadeira. Por isso tudo doía. Recompondo-me daquele surto, vou até uma das poltronas e me sento. Mantenho a janela fechada, já não quero mais vê-los.
– Agora é só você, Teddy. Precisa de uma nova família. – Respiro fundo e fecho os olhos. – Mas aquele piano branco de segunda mão, ainda tinha algo bonito para dar. Eu ainda tenho algo de bonito... – E a melodia do piano branco me fez cair no choro outra vez. E já estávamos no ar. Adeus, Seattle. Adeus, Família Grey.
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