50 Tons de Uma Cor Vibrante

15 Capítulo 15 - Workshop


Notas iniciais
Here Comes The Sun - The Beatles Agora vocês podem adentrar o meu grupo e discutir tudo sobre a obra, pessoal: https://www.facebook.com/groups/1564862253793150/?fref=ts Me achem no Twitter: @MrFieldsLynn E um breve esclarecimento sobre o capítulo. Workshop se configura por ser uma versão reduzida do musical normalmente apresentando fragmentos cruciais em sua montagem. Este visa conquistar novos patrocinadores e pessoas interessadas na produção. Após o Workshop vem as Prévias, assunto de alguns capítulos mais à frente.

Eu o olho dormir por tanto tempo, que em seu momento mais profundo ele não percebe. A roupa já havia sido vestida e aproveitei para tomar um banho rápido antes. Acabei me enxugando com a sua toalha que ficava no banheiro da suíte. Não se precisa de muito para achar as coisas neste apartamento. Encostado na soleira da porta, contemplo seu corpo esparramado na cama e não posso evitar de puxar meus lábios no meigo sorriso de sempre, que normalmente contrapunha o seu sorriso debochado. Num rápido giro pela casa, pude notar o piano que estava próximo à sua grande vidraça do quarto. A tensão de antes fora tanta, que até mesmo o belo instrumento passou despercebido.

Algumas folhas estão em cima do piano e uma caneta está acima delas, eis que resolvo fazer algo. Puxo uma das partituras, recém-reconhecidas, escrevendo o seguinte:

“Obrigado pelo grande marco histórico na minha vida. Estou indo fazer a minha mudança, e depois, é a hora do Workshop. Chegarei às cinco. Um beijo.”

Deixei o pequeno bilhete com a caneta por cima e peguei a minha boina de cima de um pequeno banquinho. Ao sair do prédio de Robert, descobri que precisava pegar apenas uma condução até a minha escola, estava do outro lado da cidade. Durante o percurso de ônibus, parei para reparar nas velhas construções de Nova York, principalmente as que evidentemente ressaltavam a história profundamente marcada pelo jazz. De acordo com o endereço que Conroy me passara, o apartamento ficava no edifício New York Sunset, era um novo empreendimento.

Como as malas já estavam arrumadas, tudo que tive de fazer foi juntá-las e tirar do quarto. Ao trancar a porta, paro brevemente e olho para a mesma. As lembranças do dia em que cheguei aqui já não me assustam, outrora, trazem para mim a sensação nostálgica. O quarto agora seria de um outro estudante, que redecoraria ao seu modo, que teria certamente uma outra história de vida. Entreguei as chaves para a secretária do colégio, e esta me dera um forte abraço:

– Foi um prazer, Sr. Grey. Sentiremos sua falta. – Ela olhou em meu rosto ao soltar-me.

– Obrigado pela estadia magnífica, de verdade.

Quando terminei de puxar as malas para a rua, o senhor Frank veio até mim. Ele me ajudou a carregá-las:

– Já devo ter dito muito isso, mas vou sentir saudades, filho. – Sua cabeleira grisalha está um pouco mais cortada.

– Eu também, Sr. Frank. – Dou um risinho, mesmo que queira chorar. – Caso não saiba, eu vou ficar aqui pertinho. Se quiser me ver, é só ir no New York Sunset, fica em Manhattan, é um novo prédio. Deixarei o endereço certo, logo.

– Parece que a vida começou a dar certo para você, Teddy. – Ele bate em meu ombro.

– Eu creio que estou trabalhando nisso, Sr. Frank. Muito obrigado por tanto carinho. – O abraço carinhosamente.

Não demorou para que um táxi aparecesse, aliás, Nova York não tem muitos problemas sobre falta de táxis. As malas foram postas no automóvel e quando entrei no carro, percebi que o Sr. Frank não saíra do lugar. Ele ficou me assistindo, até que eu finalmente me cobrisse na avenida. Deu um último aceno, o qual eu captei pelo vidro traseiro. Ainda acenei com a mão, e senti que no fundo machucou um pouco.

(...)

– Não acredito. – É tudo que consigo dizer ao perceber o tamanho do apartamento diante de mim.

O lugar é pintado com cores que vão de vermelho ao branco. Como ele dissera, amava cores vibrantes. Mas como Robert poderia saber minha cor favorita? Eu realmente não sei. Puxo todas as malas para dentro. O detalhe que mais me chama atenção no espaço, tirando os móveis que parecem ser muito caros, é uma aquarela acima do sofá da sala, retratando Marilyn Monroe e Audrey Hepburn. É como se o apartamento tivesse sido decorado por mim, sem que eu jamais tivesse vindo no lugar. Na sala havia uma parede totalmente em branco, esta ficava justamente na entrada do apartamento. Sua visão fez meus pensamentos entrarem em alerta e lembrarem de algo que Penny me disse sobre de onde viera. E por algum motivo, eu decidi que teria um destino para parede inteiramente branca.

Depois de largar tudo no meu quarto, corri até a cozinha e tive outra surpresa ao abrir a dispensa. Estava completamente lotada de comida. Certamente eu iria ponderar sobre isso, porém ao olhar no relógio, a certeza que tive era de que o tempo não estava favorável para mim. Tinha gastado mais do que gostaria, estava na hora de começar a me arrumar e correr para a New York Academy of Dramatical Arts (Academia de Artes Dramáticas de Nova York).

Quando perguntei sobre o lugar não ser o teatro St. James, Robert me explicou que por se tratar de um evento menor e com um público mais seleto e reduzido, ficaria mais interessante a montagem num lugar ao estilo do auditório da Academia, que ao mesmo tempo que era mais simples, era deveras chamativo. A universidade tem um dos maiores renomes em questões artísticas nos Estados Unidos.

Depois de comer rapidamente uma lasanha feita às pressas, meu preparo foi bem pouco. Como teria de me arrumar para tudo lá, usei algo básico e tradicional. Calça jeans e uma camisa preta com a frase em neon “Waiting for my Hogwarts letter.” (Esperando pela minha carta de Hogwarts). Harry Potter era minha série literária favorita, então devia ter umas mil camisas dessa no guarda – roupa, que só esperavam a hora de serem vestidas.

As ruas estão um caos, e tenho a noção disso, quando quase sou atropelado ao cruzar a avenida principal da Time’s. O sol está fazendo seu ensaio para se por atrás dos prédios, quando eu finalmente chego ao lugar do evento. A NYADA possui uma estrutura incrível e com traços bem peculiares, ressaltam em si toda a arte que pregam. Alguns alunos transitam pelo local, no entanto, estão num pequeno número e o auditório e as dependências ao seu redor estão totalmente fechados. Um ensaio geral seria feito antes das performances, o que quer dizer que fiz bem em vir básico. A mensagem de Ashley havia me quebrado um grande galho.

– Mais sincronia, vamos. Isso está muito lento. – Ela batia palmas e alterava a voz ao mandar as diretrizes para os dançarinos.

Marianne traja um collant preto e uma saia de tecido leve por cima, os cabelos estão presos num coque. Ao adentrar no teatro, logo vejo Paul e Ash próximos do palco, e segurando a bolsa em meus ombros, vou na sua direção:

– Olá. Meu bem. – Deposito um beijo em sua bochecha e ela olha para cima, a tempo de me ver cruzar a fileira e ir na direção do assento ao seu lado.

– Não faz isso, Teddy. Não tem graça essas mortas esperanças que você me dá. – Ela cruza os braços emburrada e depois se redime. – Vem cá, meu namorado onírico. – E ela devolve o beijo em minha bochecha.

– E aí, man. – Paul responde uma mensagem em seu celular e estende a mão para um cumprimento, este que correspondo.

– Coitados dos dançarinos. Não estão comendo o pão que o diabo amassou, pois tenho certeza de que só a presença dele já é suficiente. – Comenta Ashley ao fazer referência à Marianne.

Tapo a boca, tentando conter uma gargalhada chamativa. Ashley pode se ruma garota ao estilo hippie, mas certamente sabe como ser a palhaça do grupo. E pior, tenho de concordar com ela. O desconforto dos dançarinos é perceptível, aquela mulher incomoda todo mundo. Não precisa-se de muito para saber:

– Está aceitável, mas preciso trabalhar com a relevância maior. Componente de Shake it off, no palco agora. – Ela vira-se para as cadeiras e o primeiro olhar que cruza é com o meu. Há certo nojo em sua expressão quando me olhar, um tanto de desprezo também. Não entendo metade disso. – A menos que queiram ser estrelas que prefiram dar para o diretor e ficarem famosas facilmente, apesar de eu achar que ninguém aqui tem cacife para isso. Ou tem né? – E ela me olhar com um risinho debochadamente irônico como se soubesse de algo.

Era para mim que ela dissera aquilo, e sinto uma vontade tamanha de dar uma resposta, mas tudo que me ocorre em pensamento é uma demissão que não preciso. Tendo Robert do meu lado, ainda assim, não poso arriscar-me contra uma sócia e amiga de muitos anos. Fico calado e subo ao palco com Ashley e Paul. Frida se aquecia na lateral direita do palco, pela lista recebida dos números, faríamos I wanna dance with somebody, de Whitney Houston. É uma das coreografias mais estilizadas e bem feitas da produção, seria interessante.

– Eu quero linearidade neste número, principalmente na coreografia central das três partes. – Ela encara a mim ias do que aos outros. – Lembrem-se, pernas e mãos são uma relação tão íntima quanto o sexo, queridos. Um deve seguir o outros, apesar que em sintonia diferente.

Ela nos fez voltar a coreografia mais de vinte vezes, alegando sempre a minha descoordenação para o que eu fazia, sempre apontando um erro pior do que o outro. Tento ao máximo estar melhor que antes, mas há em meu pescoço uma bola de ferro que me arrasta ao fundo do rio, como se tudo que ela me diz, fosse capaz de colocar-me num limbo mental. Chegamos ao fim do ensaio de todas as performances com os corpos a suar igual porcos, e é só o começo.

– Estão liberados, só voltem para o show, e para não me envergonhar publicamente.

O tempo que levo entre a minha produção é ínfimo, claro, se não for contabilizado o tempo que passo entre a aparência facial e corporal. O camarim está cheio de pessoa, e mesmo que eu tenha uma parte mais afastada e privada, toda a atmosfera do nervosismo toma conta de mim. Apresentar trechos para os produtores é tão complicado quanto o próprio musical, daqui saem os patrocinadores oficiais. Dá para ouvir as vozes que aglomeram-se lá fora. Com o rosto baixo e as mãos no colo, sinto uma batida em meu ombro e levanto o rosto. Encontro Robert a me encarar num sorriso, mas no geral, ele acaba chamado a atenção de todos:

– Pois bem, pessoal. Nossos patrocinadores estão lá fora, e eu acho que não preciso dizer o quanto este show reduzido é importante, correto? – Seus olhos furtivamente percorrem o salão. – Como ensaiado anteriormente, devem usar a técnica duas vezes mais em cena. Isso é para profissionais, não amadores.

Enquanto Robert fala, olho para trás e vejo Marianne se aproximar pela porta dos fundos da coxia. Lateral a ela está uma figura masculina desconhecida. Os cabelos são castanhos e utiliza um par de óculos escuros. As roupas não são exatamente uma ode à moda, mas são arrumadas. Ela cochicha algumas cosias com ele, passando a olhar todo o sermão para nós.

– Espero excelência hoje. Quebrem a perna. – Ele diz e algumas pessoas começam a se alongar ou dispersar.

Discretamente, Conroy aproxima-se do meu ouvido:

– Não tenho dúvidas que vai me orgulhar hoje, assim como na noite passada. – Tendo feito meu corpo sentir calafrios, o homem se dirige para fora dali.

*TRILHA DO WORKSHOP*

Counting Stars – Julian Maddox

The Name Game – Connie, Alphonse e Coral

Something’s Got a Hold on Me – Julian Maddox

I Wanna Dance With Somebody – XX, Julian

Human – Julian Maddox

Shake It Off – Connie, Julian, Alphonse e Coral

Words as Weapons – Julian Maddox

Posicionados inicialmente no palco, os dançarinos que iniciavam a cena nas luzes, já estão prontos. Meu traje revela o glamour da primeira cena. Em cores pretas e com brilhos num chapéu m modelo peculiar, a cena um e o ato inicial marcam a primeira grande performance do show. O Ritmo do interlúdio se espalhava pelo lugar, que agora exibe todo o palco após as cortinas serem abertas.

Umas cinquenta pessoas estão espalhadas pelo espaço e suas atenções voltam-se para minha imagem, que de trás de um dançarino começo a cantar em simultaneidade com o interlúdio, que pouco a pouco vai me dando o domínio da música por completo. Julian é espalhado em meu rosto em cada parte da canção que vou a reproduzir, sempre regando-a com a sequência de movimentos ensaiados arduamente. “Não mais contando dólares, nós contaremos estrelas.” – Cantava em passos sinuosos entre os dancers e podia notar o entusiasmo das pessoas na plateia. Era como sangue fresco para os tubarões velhos.

O menino Teddy se vai, conforme Julian Maddox se torna o dono do seu corpo nas cenas e músicas seguintes. Na segunda música os participantes do coro são guiados por Ashley e Paul, aos quais fazem a liderança dos vocais principais do núemro. Como na cena do hospício, eu apenas danço com eles e faço as caras de risada, onde Julian rende-se à amizade de Connie Brightman. The name game acaba se tornado mais divertido que esperaríamos. A visão de Ashley e Paul erguidos no ar, como Rei e Rainha me faz ter orgulho deles. Estão impecáveis, mesmo que Rei e Rainha de um hospício. As palmas se tornam frequentes com o passar dos números.

Após trocar rapidamente as roupas, visto meu modelo que remete aos anos oitenta. A calça larga e a camisa de botões e listras. O cabelo é posto de lado seguro a vassoura que serve como o microfone de Julian em cena. Something’s got a hold on me, de Etta James, na história é encenada como sendo a música primordial que orienta o jovem Maddox a seguir a sua música. É também uma das músicas nas quais minha voz mais é requisitada em notas altas. Enquanto danço pelo cenário que representa uma sala de casa, minhas caras para a plateia os fazem rir, apesar da minha voz, por outro lado, manter olhos fixos nas notas bem entoadas.

I wanna dance with somebody, como presumido, acaba sendo a coreografia mais interessante. Frida Sparkle é dona de movimentos muito bem executados. A intérprete da Doutora não veio da Suécia em vão, ela é uma máquina talentosa. Tenho cuidado em cada vez que seguro em seus quadris nos momentos de levantá-la na coreografia. A sintonia entre nós se torna notável e até carinhosa, como sugere a própria cena na qual Julian convida a médica para dançar subitamente, sendo um dos atos mais fofos do musical. Ao final do número, corro rapidamente para as coxias e tiro toda a roupa, e mesmo ficando de cueca para alguns, apenas tenho tempo de por a roupa de interno. A velha capa de hospital é amarrada em minhas costas e as macas que simbolizavam o quarto de choque elétrico, certamente já haviam sido postas ao grande palco. Ao apresentar Human, procuro ter cuidado nos belts e na transferência de uma nota para a outra. A sublimidade e a doçura aterrorizante da cena de tortura de Julian, fazem com que eu busque em meu interior o que devo fazer. E cantando a música com emoção, minhas expressões demonstram toda a dor e a tristeza que o protagonista enfrenta ao ter o seu corpo inundado por correntes elétricas, após um deslize. A desolação se enterra em mim, quando ao final da cena os fictícios médicos me deitam na maca e olho para os espectadores, e do meu rosto cai uma lágrima misturada a palavra final da música, que com dor e tristeza se encerra. Palmas ecoam. Cortinas fecham-se.

Os holofotes rodopiam pelo palco e ouço Ashley:

– Vamos logo, idiotas. Vamos dar o plano por falido logo? Querem isso mesmo? – Sua Connie interior é exibida e mesmo eu não vendo, sorrio. Coloco a camisa amarela com um relâmpago azul e a calça da mesma cor do objeto na camisa. Julian em cena de fuga.

Shake it off de Taylor Swift é tocada instrumentalmente e a voz de Ashley altera-se para a melodia. Ao ouvi-la cantar a primeira estrofe, vejo os dançarinos passarem correndo por mim e estarem vestidos como os loucos da cena, que seguem na fuga para deixar o hospital. Depois de bagunçar parte do cabelo, vou até o palco e vejo que a estrutura fora posta. Não sabia ao certo o material do muro simbólico, mas haveria de subir nele, visto que, as escadinhas já me convidavam. De baixo vejo as pernas de Ashley se mexerem no ritmo corrido e executarem de cima os movimentos agitados. Ela canta sua parte e depois um outro monólogo vem:

– Julian, vem! – E como no script, ergo apenas uma das mãos, que certamente torna- visível ao público, e fingindo que ela me puxa, vou subindo a escada. Ao ser posto um pouco no alto, então vejo os rostos maravilhados.

Paro com cara de atordoado, como pede a cena, e começo minha segunda parte. Enquanto a entoo, vou expressando através de movimentos com o corpo e virando para Ashley, não há nada mais divertido o que o que fazemos. Após a batidinha de mão cada passo que ousamos dar é idêntico ao do outro. A coreografia é simétrica, seguida, nossa. Não sei o motivo, porém meu corpo vibra. É tão gostoso. E nós dois puxamos Paul em sua parte:

– Burro, lerdo. – Ashley xinga como a Connie. Uma vez em cima, Paul tem seu destaque e mais uma vez a coreografia igual. Dessa vez aos poucos os loucos começam a subir ao muro. Parece mais a barricada de Os Miseráveis. E a coreografia que se forma é totalmente sincronizada e correta. Em algum lugar da plateia Marianne se irrita para com tudo. Aponto as mãos juntas para a frente, como se segurasse uma arma. Ashley e Paul seguram suas armas virando-se em perfil e finalizamos o número. Ofegante e respirando descompassadamente, os aplausos nos confortam. As cortinas escondem-nos.

– Logo, corre. É a sua hora, Teddy. – Ashley me bate nos ombros e a graxa é pega abaixo da escada. Com movimentos sutis, minha camisa e calça são sujas pela tonalidade preta. Meu cabelo fica livre ao suposto vento que vem de um ventilador escondido. Words as Weapons é a última música do Workshop.

Quando as cortinas abrem-se, a expressão de um Julian fugitivo é revelada. A culpa em seus olhos, a separação dos amigos que abandona na fuga, a decisão de voltar para o hospital. Essa foi a música que mais associei com a minha vida. “Você usa suas palavras como armas, querido(...) E como armas, não enviarei lágrimas.” – E como se eu perambulasse pela estrada deserta ao final da última cena, os meus braços iam ao lado do corpo, enquanto que caminhava para a frente do palco. O piano de Armand e os demais instrumentos em destaque, sobretudo as batidas da percussão, fazem o corpo começar a se envolver na melodia, que como o vento, parece guiar Julian para sua prisão, porém sua maior promessa e desejo: Ficar bom dos distúrbios mentais. Minha voz soa suave e contínua, alguns tilintares de instrumentos rudimentares se juntam a ela.

Cada rosto da plateia me encara fixamente, sou julgado por mais de um ao mesmo tempo. Não sei se o espanto é bom ou ruim. Prossigo a performance e meus olhos veem Robert sentado na primeira fileira, comentou algo com um loiro ao seu lado, que também estava acompanhado por mais três. Vou calmamente me dirigindo para o final do palco e o movimento é rápido e as luzes também. O clarão que finaliza a canção, é o mesmo que indica o carro que atinge ferozmente a Julian, jogando-o caindo no chão. Quando caio no chão uma pequena câmera desce numa estrutura e focaliza em meus olhos. Sei que eles aparecem automaticamente num telão ao centro do palco, que está obscuro, mas ainda exibe apenas o par de olhos azuis e profundos. O susto foi ouvido por mim, todos se surpreenderam. E ao final do instrumental de Words as Weapons, cada luz ali acende-se. E estava consumado. – Me levanto do chão com a ajuda de Paul:

– Bela apresentação, mano. – Meio abraça-me, depois me puxando e carregando para o palco. O elenco se reúne e parece agradecer.

Vários homens seguram planilhas, como algumas mulheres também. Estes batem palmas e me curvo cordialmente em agradecimento. Meus lábios contornam um “Obrigado”.

Quando tudo foi se acalmando, minha roupa já havia sido trocada. Coloquei algo confortável e atendi ao chamado louco de Robert ao telefone. Saindo pelo palco e descendo pelas escadarias, eis que noto ele conversando com os quatro rapazes:

– Theodore, gostaria que conhecesse estas pessoas. Fifty Nine Black Roses, uma das mais promissoras bandas de rock. – Ele indica os rapazes. – Ethan, o loiro e vocalista. Denny é o baterista. – Olho primeiramente o loiro e o seguinte, que tem cabelos longos. – Nick, O guitarrista, e por fim, Scott, produtor da banda. Nos tornamos amigos nas minhas idas e vindas de Los Angeles.

– É um prazer, senhores. Já ouvi umas músicas de vocês, porém não me atrevo a cantar. – Aperto a mão de cada um.

– Ele é polidamente educado, nossa. – Fala Ethan, o homem loiro e bastante bonito. É, não sou cego. – Quantos anos tem?

– Dezoito. – Digo.

– O quê? Dezoito? E com essa desenvoltura toda? – O produtor se manifesta.

– Preciso do emprego. E devo sentir certa lisonja pelas belas palavras. – Acabo dando um risinho.

– Gente, de onde saiu esse cavalheiro moldado impecavelmente? –Scott diz, é como se eu fosse um investimento, a julgar por como ele diz isso. – Estava ótimo, garoto.

– Sai de Seattle, nada perto de Nova York. Obrigado pele elogio, novamente. – Coloco os braços para trás.

–Olhando para sua cara de lerdo, isso me lembra relacionamentos, Rob. – Ethan olha de Robert para mim. – Não sei o porquê, mas acho que temos um namoro aqui. Falou muito bem dele, Rob, e ele correspondeu todas as expectativas.

– Minha estrela é muito eficiente, Lancaster. – Ele me encara e fico constrangido e sem graça.

– Eu acho que vou começar a shippar meu primeiro casal gay. – Ironiza Denny. Ele ri na direção de Conroy, que o dá uma piscadela.

Meu celular começa a tocar e peço um momento para a tender:

– Alô?!

– Se salvou desta vez. Parece que conseguiu uns míseros aplausos, Grey. Aproveite eles, devem valer pelas ótimas noites que tem dado à Conroy. Gostou do vermelho?

Identifico logo a voz e Marianne se materializa atrás da coxia esquerda, ela me olha com um risinho de desdém. Não posso responder, seria arriscar minha ajuda à Penny. A pergunta sobre o vermelho me faz ficar desconfortável. Então ela tinha ido lá? Já deveria até ter usado de diferentes formas a cama dele. Me sinto para baixo e nem mesmo aqueles aplausos podem me elevar, ela teve o que ela queria, ela conseguiu estragar o dia. Olho uma última vez para ela ao desligar a chamada, um braço a puxa para trás da cortina. O mesmo homem que a acompanhava parecia repreende-la. Ela resmunga algo e o solta depois de sair dali, o rapaz me olha e parece dar um sorriso, só que não com deboche. E mesmo com o sorriso, tudo que sinto é uma sensação estranha vindo dele.

Notas finais
Finalizamos mais um capítulo, gente. Devo dizer que marcamos o meio do livro com o capítulo que vem. Agora tudo vai começar a tomar a forma da concretização. Há muito por vir. Deixem seus reviews. Até breve.