5° Desafio Sherlolly
1 I need you and we just need a little patience
Notas iniciais
Ainda se lembrava perfeitamente daquele dia no final do outono quando o universo oscilou e saiu fora dos eixos.
Faziam alguns meses que John havia se casado, estava sozinho no 221B jogado em sua poltrona, o roupão vinho por cima das roupas, na mão direita a arma que usou para abrir mais alguns buracos na parede, no braço esquerdo dois adesivos de nicotina, o tédio lentamente o consumia, então ela apareceu na porta no apartamento.
Analisou-a como sempre fazia com o resto do mundo, notou algo diferente, Molly escondendo algo? Mas o que? Passou a prestar atenção, esperaria até que ela dissesse algo que explicasse o que tinha de diferente.
— Boa tarde Sherlock – disse entrando e sentando-se na poltrona de John — Como está?
— Entediado como pode ver – apontou a arma para parede e disparou.
— Vou fazer chá – ela estava adiando o que quer que fosse dizer, agora estava curioso para saber o que era, deixaria que ela falasse quando estivesse preparada.
Voltou à sala cinco minutos depois, entregou-lhe uma xícara e sentou-se de frente para ele na poltrona que o médico usava.
— Como sabe, sou noiva de Tom...
— Boring! – continuou ignorando o comentário.
— O fato é que nos casaremos no começo da primavera, aqui – tirou um convite de dentro do bolso do casaco e entregou a ele, estava com a xícara a meio caminho da boca quando ouviu a palavra ‘casaremos’ — Eu gostaria que você fosse.
Ele apanhou o convite em silêncio, seu coração processou a informação antes que sua mente, por fora se manteve impassível como sempre, ou pelo menos pensou que assim estivesse, mas esqueceu-se do quanto ela via através dele. Ela levantou-se e agachou-se de frente para ele, chamou-o para que pudesse olhar nos olhos que pareciam ter uma imensidão infinita.
— Hey, ainda vou ser a Molly, apenas com a diferença do sobrenome – deu lhe um beijo na bochecha e levantou-se — Preciso ir.
Apenas acompanhou-a com o olhar em silêncio, viu-a atravessar a rua pela janela, colou mais um adesivo de nicotina junto aos outros, pegou seu violino e começou a tocar.
Talk to me softly
There's something in your eyes
Don't hang your head in sorrow
And, please, don't cry
Enquanto caminhava Molly pensava no que tinha visto através de Sherlock, tão brilhante era, mas ele próprio não percebia os próprios sentimentos. Dessa vez ela não lhe ajudaria, deixaria que ele deduzisse por si próprio e lidasse com isso. Conhecia o que sabia que ele tinha sentido, quantas vezes não tinha se sentido assim? Era como se aos poucos algo nele estivesse mudando, mas ela não podia se prender a ele até que mudasse por completo, afinal ele era Sherlock Holmes e podia sair algo que a machucasse no final dessa mudança.
I know how you feel inside
I've been there before
Something is changing inside you
And don't you know
Sempre esperou qualquer atitude da parte dele, mas ele definitivamente não era o rei das demonstrações de afeto, e mesmo depois de Tom ter aparecido em sua vida, sempre pensava nele, e nas possibilidades que podiam ter tido. Desde que tinha o ajudado a fingir sua morte, o tempo em que ficaram juntos, imaginou que um dia pudessem ter algo a mais.
Ela tinha tentado algumas vezes, e ás vezes afastada de maneira rude, e mesmo assim nunca escondeu o que sentia, demonstrava até com pequenas atitudes, ele sempre soube como se sentia, nunca fora um grande mistério, nem se dava ao trabalho de dissimular seus sentimentos, pra quê quando ele deduziria?
Não se recriminou por ter pensado nele desde que saíra de Baker Street até seu apartamento, sabia que ele superaria a ideia dela se casar, ou no mínimo esperava que assim fosse, era egoísta da parte dele querer que ela não se casasse apenas para poder sempre tê-la ao seu lado sempre que precisasse, ela ainda estaria, de maneira diferente, mas ainda estaria.
And, please, remember
That I never lied
And, please, remember
How I felt inside now, honey
You gotta make it your own way
But you'll be alright now
Depois que Molly saiu de seu apartamento, Sherlock tocou até anoitecer, quando John anunciou que se casaria ele foi indiferente, sentia falta da companhia do amigo claro, então porque com Molly era diferente?
Se importar nunca foi uma vantagem, então porque desde que Molly disse que se casaria não parava de pensar nisso?
John apareceu em 221B três dias depois que tinha recebido a visita da legista, o apartamento do amigo como sempre cheio de coisas espalhadas por todos os lados, viu em cima de uma mesinha o convite de casamento de Molly, Sherlock tocava uma melodia triste em seu violino.
— Olá Sherlock – cumprimentou o amigo que estava de costas para ele, tocando e olhando pela janela.
— Olá John – parou de tocar e virou-se para o amigo, o olhar dele tinha um brilho diferente como se fosse lágrimas reprimidas, logo compreendeu o que se passava, sabia que um dia ia acabar acontecendo isso.
— Como está Mary? – ele perguntou sentando-se, o médico sentou-se em sua antiga poltrona.
— Bem, ela manda lembranças.
— Qualquer dia apareço para vê-la.
Conversaram sobre coisas triviais, John percebeu que Sherlock evitaria falar sobre seus sentimentos a todo custo como sempre, não gostava de vê-lo assim, por fim não aguentou:
— Sabe que se não fizer nada vai perde-la – o detetive sabia ao que e a quem ele se referia, pegou seu violino, fechou os olhos e continuou a tocar a mesma melodia de antes, John suspirou como podia ser tão teimoso? Esperava que dessa vez o amigo usasse sua brilhante mente e fizesse a coisa certa antes que fosse tarde demais. Viu que Sherlock não diria mais nada por um bom tempo, levantou-se e disse da porta — Não seja estúpido com os próprios sentimentos.
Deixou um Sherlock Holmes preso em seu palácio mental.
Ali em sua mente, onde tudo estava guardado, onde podia pensar sobre tudo a sua volta tentou entender o que se passava consigo. Nunca tinha estado assim antes, agora Molly sempre estava em sua mente, ela sempre estava a seu lado quando ele precisava, esteve quando precisou de ajuda para fingir a própria morte, sempre sendo uma ótima pessoa mesmo quando ele não merecia, mesmo quando era grosso com ela, no fundo sabia que o fazia para evitar que ela se envolvesse demais com ele, até quando não dizia nada ela conseguia ver através de si. Sentia falta do tempo que passou com ela no apartamento, começou a vê-la de uma maneira diferente, quando ficava perto dela sempre tinha paz, ela lhe acalmava de uma maneira única, jamais admitira para si seja em voz alta seja em seu palácio mental que agora ela não estava mais só em sua mente, estava em seu coração também.
Shed a tear 'cause I'm missin' you
I'm still alright to smile
Girl, I think about you every day now
Was a time when I wasn't sure
But you set my mind at easy
There is no doubt you're in my heart now
Depois dos dois anos que ficou fora não esperava encontrar as coisas como antes, retomou sua amizade com John, Molly, ele e a legista tinham uma estranha amizade, chegou a pensar na possibilidade de um dia eles acabarem juntos, mas para isso era preciso de paciência e tempo.
Surpreendeu-se quando descobriu que Molly tinha seguido em frente, finalmente ela tinha encontrado alguém para estar ao seu lado, ficou feliz por isso, afinal nunca teriam uma relação normal. Quando soube do noivado parabenizou-a, mas no fundo sabia que talvez eles não passassem disso, pois acreditava piamente no sentimento que sabia que ela sentia por si.
Então alguns dias atrás ela veio lhe entregar o convite de seu casamento, imaginou se ela não estaria traindo os próprios sentimentos, quebrando o próprio coração, mas estava errado. Não era sobre ela. Escondido atrás de uma porta que sempre permanecera fechada, nunca aberta, estava toda a verdade que ele evitaria a todo custo encarar.
We won't fake it
Oh, I'll never break it
Cause I can't take it
Fazia quase quinze dias que o universo estava fora dos eixos, depois da conversa com John não falara com mais ninguém, era noite e o inverno tinha chegado, estava andando sozinho pelas ruas de Londres, sua mente andava um caos, mas ainda sim preferia estar sozinho, especialmente quando tinha tantas coisas na cabeça.
I’ve been walkin' the streets at night
Just tryin' to get it right (need some patience)
It's hard to see with so many around
Depois de mais de uma hora andando pelas ruas de Londres, se deu conta que estava perto do apartamento de Molly, sentia falta dela, novamente precisava que ela lhe desse um pouco de paz, olhou no relógio, era pouco mais de nove da noite, realmente não se importava com a hora, andou mais três quarteirões e logo estava batendo na porta do apartamento da legista. Viu a surpresa em seus olhos quando o viu parado em sua porta.
— Olá Molly, está ocupada? – entendeu o ocupada como Tom está ai? Agradeceu as forças universais por seu noivo ter avisado que não apareceria por lá, pela cara do detetive sabia que aquilo ia levar tempo.
— Não, entre – deixou que ele passasse, o viu tirar seu casaco e cachecol, deixando-os no braço do sofá — Fiz chocolate quente, você quer?
— Jamais negaria o melhor chocolate quente de Londres – respondeu com um meio sorriso.
Acompanhou com o olhar o trajeto dela até a cozinha, esperou sentado no sofá, não fazia nem quinze minutos que estava ali, mas foi tempo suficiente para se sentir melhor, ela veio com as bebidas e sentou-se perto de si com as pernas cruzadas em cima do sofá.
— O que te traz aqui Sherlock? – perguntou depois de uns minutos de silêncio, ambos não se incomodavam, se acostumaram a apreciar a companhia um do outro sem dizer nada.
— Sinceramente? – suspirou — Não sei.
Ela passou a prestar atenção em cada gesto dele, tentando ver através dele. O que viria dessa vez?
— Posso ficar um tempo aqui Molly? – encontrou seu olhar e tentou identificar o que via nos olhos deles.
— Claro.
O silêncio voltou a se instalar entre eles, aquele era um comportamento atípico dele, Molly tentava encontrar uma brecha que a ajudasse a entendê-lo, se tivesse algo a ver com algum caso que ele trabalhava já teria dito algo, também não era sobre John ou Mary, estava tão perdida nas próprias teorias e pensamentos que se surpreendeu quando percebeu que ele encostava a cabeça em seu ombro.
Ele não disse nada, apenas ficou ali, automaticamente ela começou a brincar com os cachos da cabeça dele, sentia o corpo dele relaxar, sentia o perfume que emanava dele lhe envolver. Porque ele não podia ser sempre assim? As coisas seriam tão mais fáceis.
Sherlock sentia-se tão bem ali do lado de Molly como há muito tempo não se sentia, pegou a mão livre dela e entrelaçou seus dedos nos dela.
— Molly... – chamou-a e afastou-se para poder olhar nos olhos castanhos, prendeu seu olhar no dela — Eu preciso de você.
Foi após essas palavras que Molly encontrou a brecha que queria, pode ver o que havia por trás de sua atitude, pode ver através das palavras que ele disse e o que aquilo significava. Realmente ele era um tremendo idiota, precisou de todo esse tempo, de ela quase estar em cima de um altar, para perceber que gostava dela? Guardou essa constatação para si, apenas puxou-o para seu ombro e continuou fazendo os carinhos nos cachos dele. Ele parecia mais relaxado depois de dizer da sua maneira que não queria que ela se casasse. Apesar de não admitisse para si próprio, Molly compreendeu seus sentimentos melhor que ele mesmo.
Depois que foi embora a legista desabou no sofá, sem ele por perto era mais fácil colocar sua mente em ordem, o que faria a partir de agora?
Sherlock quase não dormiu aquela noite, daria tudo para que até Jim Moriarty estivesse à solta, assim sua mente ficaria ocupada com qualquer jogo psicótico que ele o fizesse participar.
Tocava uma melodia calma no violino quando chegou na porta do seu apartamento, continuou observando-o até que ele notasse sua presença, não demorou e logo ele abriu os olhos, pareceu não esperar vê-la ali tão cedo.
— Molly?! – disse colocando o violino e o arco em cima da lareira, ela agora estava parada diante de si — O que... – mas não teve tempo de perguntar, ela encostou seus lábios nos dele de maneira rápida e leve — Mas...
Foi quando ele baixou o olhar e notou que ela não usava mais a aliança, uma rápida dedução passou por sua mente, o universo oscilou novamente, mas dessa vez foi para voltar ao seu eixo.
— Você é um idiota – Molly disse antes de saltar em seu pescoço para um abraço, ele a segurou, puxou-a para mais próximo de si, enterrou seu rosto no meio dos cabelos dela, sentindo o perfume, era tão bom estar ali, tão boa àquela sensação de paz que ela lhe trazia — E eu sou muito paciente Sherlock Holmes.
— Sim, eu sei.
Oh, I need you (tust a little patience)
Oh, I need you (Is all you need)
Oh, this time
Fale com o autor