5º Desafio Sherlolly
1 Kiss Me Hard Before You Go
Notas iniciais
— Eu não podia deixar que se casasse. — Ele gritou. — Desça do altar!
O nó na minha garganta cresceu. As lágrimas já corriam livremente. Não sabia se corria para Sherlock ou se continuava imóvel no altar. O que está acontecendo comigo?
Era para ser o dia mais feliz da minha vida... Mas eu suspeitei do sucesso desse casamento no momento em que convidei Sherlock Holmes. Devia ter pensado melhor antes de fazer isso.
–
— Ei. — Disse tentando parecer despreocupada.
Era inútil. Sherlock lia. Deduzia. Notava. Sabia que Molly estava nervosa. Sabia que ela tinha algo importante para contar. Só não esperava que fosse...
— O casamento... — Ela sussurrou, tirando o grande envelope de dentro de uma das gavetas do necrotério. — Eu espero que esteja lá.
Ele não respondeu. Não de imediato. E Molly não conseguiu encará-lo. Sabia que continuava parado ao seu lado. Sentia os olhos do detetive grudados no envelope em suas mãos. Sentiu quando ele pegou-o e guardou o grande convite no sobre-tudo.
— Eu estarei lá. — Sussurrou. — Agora vamos ao caso, Molly...
Não demonstrou nenhuma mudança de atitude no primeiro dia. Exatamente como Molly esperava que seria, ele disse que iria ao casamento e não falou mais sobre isso. Onde ela estava com a cabeça quando pensou que ele poderia demonstrar sinais de... Ciúmes?
Ela estaria no altar em menos de um mês e Sherlock estava agindo como se nada fosse mudar... Talvez não fosse mesmo. Nunca havia dado espaço para Molly e não seria difícil conseguir levar adiante a amizade que tinham depois do casamento. Então por que ela se importava tanto com a indiferença do detetive?
Quase se sentiu incomodada com a presença de Sherlock no dia em que entregou-o o convite. Mas só sentiu-se assustada quando percebeu que em todos os outros dias da semana ele repetiu a visita. Passou tardes inteiras no necrotério e no laboratório. Sempre ali, sentado ao lado de Molly ou examinando alguma substância enquanto vigiava-a discretamente — ela percebia seus olhares de cinco em cinco minutos.
Quando Molly percebeu, já era a segunda semana em que Sherlock passava as tardes inteiras ao seu lado enquanto trabalhava. Se aquilo era estranho? Era. Se ela gostava? Talvez mais do que deveria.
A presença de Sherlock deixava-a estranhamente feliz. Não sabia o motivo do detetive passar tanto tempo ali, mas tê-lo por perto era muito bom. Anuviava a mente da médica como nenhuma outra coisa no mundo — não conseguia pensar no casamento, não conseguia pensar em Tom, não conseguia pensar em nada — e isso era muito bom.
Em pouco tempo já estavam tendo conversas longas e inúteis. Sherlock era ouvinte. Perguntava sobre a vida da médica legista e ficava por horas escutando as respostas. Às vezes não tinha muitas expressões enquanto ouvia — o que fazia-a duvidar de que estava prestando atenção —, mas às vezes ria e às vezes balançava a cabeça. Então ela sabia que ele estava ouvindo.
— Por que quer saber sobre meus sonhos? — Ergueu a cabeça para encará-lo enquanto questionava pela primeira vez os atos do detetive.
— Gosto de ouvir você falar, Molly. — Ele não parecia estar sendo maldoso. Não parecia estar sendo maldoso há três semanas. — Tem esse caso e... E ele está realmente complicado. Poucas pistas, a digital de um morto e... Ainda não faço ideia do que fazer. Então vou ficar aqui, ouvindo sobre seus sonhos até que algo se encaixe dentro da minha mente. Poderia só... Falar? Seria realmente bom.
— Você gosta de me ouvir? — Riu de forma exagerada. Sherlock nunca admitiria, mas achava aquelas risadas exageradas de Molly maravilhosas. — Como se te ajudasse à...
— Sim, Molly. — Revirou os olhos tentando parecer desinteressado. — Me ajuda à pensar. Agora vamos... Quais são os seus sonhos?
E assim a legista começava mais um monólogo... Horas falando sozinha, recebendo algumas respostas mínimas do detetive. Falou sobre todos os seus sonhos — mesmo desconfiando de que ele apagaria aquilo do HD antes mesmo de pensar sobre o que ela havia dito —, tudo o que queria fazer na vida um dia. Cada. Pequena. Coisa. E Sherlock apenas permaneceu ali, olhando-a enquanto ela falava.
Molly tinha uma semana para o casamento. E no último mês havia passado mais tempo ao lado de Sherlock do que de... Tom? Mais tempo do que passara com Mary — sua madrinha líder e organizadora de todo o casamento... Mais tempo do que passara até mesmo sozinha. E o pior é que não conseguia ver nada de ruim nisso. Mas também não entendia o motivo... Sherlock devia estar ficando louco.
— Gostei da sua tiara. — Era véspera do grande dia. Sherlock estava agitado. Molly estava mais tranquila do que nunca.
A presença dele deixava-a assim. Como se não existissem problemas. Já tinha o vestido. Já tinha tudo pronto. Por que se preocupar? Porque estava se casando com o cara errado... Porque estava completamente apaixonada por Sherlock e sabia disso... Não. Claro que não. Não tinha motivos para se preocupar.
— Ah... Sim. — Sorriu. — É um presente...
— Posso? — Ele tirou a tiara da cabeça da legista antes que ela pudesse responder.
Examinou-a de todas as formas possíveis. E Molly não conseguiu estranhar aquilo. Ele parecia de alguma forma entediado — por qual outro motivo no mundo Sherlock passaria um mês consecutivo ao seu lado? A equipe interna do St. Barts só sabia comentar sobre isso... Ele realmente não largava-a até deixá-la em casa no final da noite. Já nem via a cara do próprio noivo...
— É muito bonito. — Voltou e colocou o enfeite na cabeça de Molly novamente. — Ele comprou semana passada. Espero que ele tenha dito que foi só... Uma lembrança.
— Ele disse. — Molly riu. — Ele disse que foi comprado de última hora. Numa estação de metrô. Estava chegando da casa dos pais... Então viu e lembrou-se de mim.
— De onde? — Arqueou as sobrancelhas.
— Durham. — Molly respondeu simplesmente. — Podemos falar sobre qualquer outra coisa?
— Claro. — Ele riu. — Pode falar sobre o que quiser... A mesma situação de antes. Me ajuda à pensar...
Então começaram tudo de novo. Molly falava, ria, gargalhava, fazia um monólogo inteirinho enquanto Sherlock assistia. Podia se acostumar com aquilo... Se não fosse se casar no dia seguinte.
No final do dia o clima entre os dois ficou um pouco tenso. Sabiam que era definitivamente a última vez que aquilo aconteceria... Tudo mudaria no dia seguinte.
— Então... — Se virou enquanto guardava suas coisas. — Amanhã...
— Amanhã, Molly. — Ele sorriu. — Você sabe que eu não estarei lá, certo?
— Você... — Ela hesitou.
— Estivemos fugindo do assunto durante o último mês, mas... — Ela observou enquanto as duas mãos do detetive bagunçavam seus próprios cachos. — Você sabe que eu não posso.
— Não pode? — Ela gaguejou. — O que quer dizer com isso?
— Molly... — A mão dela tremeu quando Sherlock segurou-a. O que ele estava fazendo? — Você iria ao meu casamento?
— Nunca... Nunca se atreva à me convidar! — Ela puxou a mão de volta para si. Que tipo de pergunta era aquela? — Eu não ia querer saber se estivesse se casando... Acredite em mim, seria bem melhor assim.
— Eu não posso. — Ela podia ver um rastro de tristeza no olhar do detetive. — Você sabe que não posso... E minha intuição me diz que amanhã será meu grande dia.
— Seu grande dia? — Ela riu. — No dia do meu grande dia?
— O caso... Eu acho que amanhã eu consigo resolvê-lo completamente. — Sorriu. Um pedido de desculpas explícito em seu olhar. — Espero que seja o dia mais feliz da sua vida, Molly Hooper. Você merece.
E agora ali estava ele. Com o cabelo bagunçado e o rosto vermelho de correr na chuva. Parado na porta da igreja, encarando-a com sua maior expressão de "me perdoe por estragar seu casamento."
Quando Molly se olhou no espelho, horas mais cedo e pôde ver seu vestido, sentiu-se enjoada. Não queria se casar com Tom. Não queria se casar. Queria ir atrás de Sherlock e passar mais um mês trabalhando ao lado dele... Por que qualquer coisa ao lado dele parecia melhor do que um casamento e filhos com outro homem? Desse jeito ficava difícil ser feliz...
John levou-a ao altar na hora marcada do casamento, mas antes que o padre pudesse começar a falar, imagens começaram à ser refletidas na parede. Eram imagens de assassinatos. Os últimos crimes que Sherlock não tinha conseguido resolver. Quando o vídeo chegou ao fim, ela percebeu que Sherlock estava parado na porta da igreja.
— Eu sinto muito. — Molly pôde vê-lo mexer os lábios de longe. — Mas eu preciso te salvar antes que seja tarde demais, Molly.
John estava sorrindo para o amigo. Por que todos sabiam de tudo, menos Molly? Mal entendia o que estava acontecendo. Até que Sherlock abriu a boca.
— Há duas semanas atrás encontramos os corpos de duas garotas de programa no centro de Londres. — Ele começou. — E vocês podem se perguntar... O que eu tenho com isso? Vocês estão sentados assistindo ao casamento do assassino dessas garotas de programa.
Mais uma vez haviam imagens refletidas na parede da igreja, mas dessa vez não eram corpos mutilados. Era uma foto de Tom. Tom entrando num motel barato acompanhado das duas garotas. Com as mesmas roupas do dia em que... Molly sentiu o nó na garganta e as lágrimas fazendo seus olhos arderem. Não queria olhar para o lado. Não podia acreditar no que estava acontecendo... De novo.
— Encontramos as digitais de Frank Tuppelo. — Sherlock continuou. — Mas Frank Tuppelo estava registrado como morto... Eu devia ter desconfiado antes, mas só depois de pegar as digitais do nosso ilustre noivo eu tive certeza.
Molly agora olhava para o detetive com desespero no olhar. Então era esse o motivo de ter pegado sua tiara. Desconfiava de Tom e queria as digitais dele...
— Ele não esteve em Durham, Molly. — Sherlock sorriu de forma psicopata. — Não esteve com os pais! Esteve assassinando garotas de programa enquanto você organizava um casamento!
Tudo o que Molly conseguiu fazer foi... Acertá-lo com um soco de direita. Ouviu o barulho familiar do nariz de Tom se quebrando quando acertou-o. Virou-se de novo para Sherlock. Ele sorria. E ela chorava compulsivamente. Parecia prestes à ter um ataque nervoso. À beira de um colapso. Com Sherlock Holmes sorrindo para ela.
— Eu não podia deixar que se casasse. — Ele gritou. — Desça do altar!
Foi exatamente o que ela fez, depois de pensar em tudo o que havia acontecido no último mês. Largou o buquê de flores no meio do caminho e correu como se o mundo fosse acabar até chegar ao detetive. Quando chegou, se jogou nos braços dele e chorou de forma ainda mais desesperada.
I think I'll miss you forever
Like the stars miss the sun in the morning skies
Later's better than never
Even if you're gone, I'm gonna drive, drive
— Olhe para mim. — Ele disse, separando-se do abraço e levantando o rosto da legista. — Me desculpe por estragar seu dia.
Molly riu entre as lágrimas. Estava se casando com o noivo errado... Tinha que agradecê-lo por parar aquele casamento. Mas mesmo assim... Queria bater naquele idiota. Por que não contara antes? Tinha certeza de que Sherlock já desconfiava de Tom desde sempre.
— Por que não disse antes? — Ela perguntou. Os olhos ardendo. — Porra Sherlock! É pedir demais? Eu só queria... Filhos... Você sabe o quanto eu queria!
— Eu não podia deixar que fizesse isso. — Secou as lágrimas dela com facilidade. — Não podia deixá-la ter filhos com um assassino, Molly. Não seja boba.
— Eu podia me separar depois! — Colocou as mãos na cintura. — Ainda teria meus filhos...
— Não diga bobagens, caramba. — Sherlock revirou os olhos. — Eu te salvei de se casar com um idiota assassino.
— Você estragou meu casamento!
— E que belo casamento!
— Sherlock!
— John!
— Mary!
Cada um deles gritava o nome um do outro. John gritava o nome de Sherlock porque este estava sendo grosso com uma noiva desesperada que acabara de descobrir que seu ex-futuro marido é um assassino... Mary gritara com John porque não queria que interrompesse o momento do casal... Molly gritara com Mary porque... Porque estava nervosa e precisava gritar com alguém.
— Lestrade. Prenda esse idiota. — Sherlock jogou suas próprias algemas para o investigador. — Ele se manteve em silêncio. Sabe que não faz sentido fugir.
Kiss me hard before you go
Summertime sadness
I just wanted you to know
That, baby you're the best
— E você, Hooper. — Sherlock se virou para ela. — Não venha fingir que esse casamento ia te fazer feliz! Você sabe que não ia.
— Por que não ia? — Ela gritou desesperada.
— Porque eu não era o noivo! — Gritou de volta. — Eu não seria o seu marido e o pai dos seus filhos... Não seria exatamente como você sonhou, seria?
— Você... — Começou à sentir os olhos arderem novamente. — O que você sabe sobre mim?
— Tudo! — Ele respondeu com a mesma urgência com que Molly havia perguntado. — Como você esteve me contando cada detalhe sobre a sua vida no último mês... Acredito que eu saiba de tudo!
— Idiota! — Ela distribuiu tapas pelo peitoral do detetive. Sherlock puxou-a e abraçou-a.
— O casamento acabou! — Ele disse alto. — Vou levá-la embora e...
— Sherlock... — Mary se aproximou. — Acho melhor não levá-la. Ela precisa de...
— Precisa de mim. — Disse simplesmente. — Molly precisa de mim e eu vou estar com ela. Não vai se lembrar que um dia foi noiva...
— Do que está falando? — Ela se afastou do abraço e encarou-o. Os olhos castanhos ainda brilhando de lágrimas.
— Primeiro nós vamos sair daqui. — Segurou-a pela mão. — Vamos realizar cada um dos seus desejos... Primeiro vamos...
— Como assim? Cada um dos meus desejos? — Molly estava confusa. — Você se lembra? Estava... Ouvindo?
— É claro que estava ouvindo. — Revira os olhos. — O que quer dizer com isso?
— Eram informações inúteis. — Ela balançou a cabeça. — Nunca se importou em guardar informações inúteis...
— Os seus sonhos, desejos e lembranças não são inúteis para mim, Molly. — Ele reagiu como se as palavras da castanha fossem um insulto. — Como eu poderia fazê-la feliz pelo resto da vida se não guardasse essas informações?
Ela ficou sem palavras. Era óbvio que ficaria. Nunca imaginou essas palavras saindo da boca dele. Não na mesma frase. Não ditas diretamente para ela. Na frente de todos... Dentro de uma igreja lotada...
— Vamos. — Estendeu a mão para a legista. — Eu tenho uma lista com todas as coisas que ainda precisamos fazer no palácio mental. Como eu sou um homem que sente ciúmes do passado, do presente e do futuro, o primeiro item consiste em apagar a "melhor noite da sua vida".
— Faculdade... — Ela murmurou.
— Sim. Você estava na faculdade. — Revirou os olhos, fazendo-a sorrir. — Então foi para um bar com os amigos. Bebeu muito e dançou em cima do balcão com o garoto que gostava...
— Você se lembra... — Sussurrou. — Você se lembra de cada palavra.
— Molly... — Ele parecia assustado. — Palácio mental! Agora vamos. Você vai sair comigo. Beber muito e dançar em cima do balcão com o homem que você ama. Acho que assim você pode esquecer essa tal noite da faculdade...
Sem pensar duas vezes, enlaçou o pescoço do detetive e chapou-lhe um beijo na boca. A igreja inteira aplaudiu. Por que estavam aplaudindo? Ela ia se casar com Tom e... Quem se importa? Era Sherlock que ela amava. Era com ele que ela devia ficar.
— E se não for muito óbvio, preciso avisar... Vão para a festa. Bebam e comam às custas do nosso querido Frank. — Sorriu. — Eu preciso da noiva. Tenho uma lista enorme de sonhos e desejos para realizar... Eles incluem casamento e filhos... Pelas minhas contas, estou perdido.
John e Mary riram. Molly parecia paralisada. Ele estava mesmo falando de... Casamento e filhos?
— Ah sim, você ouviu direito. — Procurou a mão dela e entrelaçou suas mãos. — Só não me caso com você aqui e agora porque... Faz parte do seu sonho...
— Como? — Mary arqueou as sobrancelhas. Queria que se casassem ali e agora. Seria bem mais bonito. E econômico.
— Um dos sonhos dela é se casar como a mãe... Grávida. — Ele riu e revirou os olhos. Parecia se divertir e ao mesmo tempo achar tudo uma grande bobagem. Molly não se importava. — Então eu devo engravidá-la antes de trazê-la ao altar... E ah, nada de casar na igreja literalmente. O sonho dela é se casar na praia.
— Oh... — Foi só o que John conseguiu dizer.
— E agora eu preciso levá-la comigo. — Puxou-a pela cintura para perto de si. — Vamos beber. Dançar em cima do balcão. Ficar bastante bêbados e... Eu sei que estamos dentro da igreja, mas... Vamos treinar alguns métodos antigos de fecundação.
Ela gargalhou e pensou em acertá-lo com um soco, quando o aperto em sua cintura aumentou e sentiu os lábios de Sherlock nos dela. Agora ele estava beijando-a. E não era um sonho. Era realmente seu grande dia. O dia mais feliz de sua vida.
Não se importou nem um pouco enquanto recebia os mais diversos olhares enquanto corria pelas ruas frias de Londres vestida de noiva. Molly e Sherlock dançando e rodopiando pelas avenidas. Ele correndo atrás dela e agarrando-a quando chegava perto o suficiente... Todos paravam para olhar.
E à partir de agora seria assim. O resto do mundo seria só a platéia para a felicidade do casal.
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